terça-feira, junho 20, 2006

Entre errar e o redimir

Algumas categorias utilizadas no budismo são mal interpretadas, causando uma profunda confusão nas mentes dos iniciantes. Possivelmente a influência cultural vinda da tradição judica-cristã, como a noção de culpa, difícil de ser erradicada do corpo e mente, torna a prática menos eficiante. Dizemos de outra forma: errada. Não se trata de ignorância mas de um completo condicionamento da mente. Sei que os ocidentais cristãos sentem culpa. Por isso, devem se desculpar diretamente a um ente sobrenatural e abstrato, crença monoteísta de punição e salvação. Em linguagem japonesa, o perdão que se pede a deus chama-se zangue. É uma situação de extrema entrega, um ato de fé, para não ser castigado e de reconhecimento da condição submissa.
Quando estive no Japão, falei a respeito a um monge japonês. Disse que na infância, quando fazíamos a comunhão tínhamos que confessar os nossos pecados a um padre. Sem muita consciência do que estava acontecendo, ao refletir sobre os meus erros, o que me vinha era a minha relação, às vezes, pouco amigável com um gato. Ao brincar com ele, puxava o seu rabo. Assim me confessava "eu puxei o rabo do gato, pisei nas flores de minha avó, derramei água no sapato do meu irmão". Assim me arrependia dos meus pecados. Não sabia com propriedade, mas o padre com ênfase levava o meu ato de arrependimento a deus. Estava livre do pecado, pois tinha se arrependido. Na semana seguinte repetia o mesmo erro, e ia se arrepender novamente. Ao ouvir minha esquisita história, o monge não mediu palavras: "não acho que você devia pedir perdão ao padre e nem a deus; você deveria se redimir com o gato!"
Desta vez, não era mais o arrependimento submisso e temente, conhecido por zangue, mas sangue. Quer dizer, se cometi algum erro, caso houvesse reconhecimento, deveria se procurar pelo lado ofendido e não deus. Também, não houve culpa mas ação cometido intencionalmente ou não. Em budismo toda ação é karma. E todo karma repercute no universo inteiro, de maneira benéfica ou não. Não existe karma individual, senão coletivo. O fato de ser o filho de meu pai, de ter nascido no Brasil, morar em Santo Amaro se deve a karmas presentes, passados ou futuros. Estar treinando num templo zen também é um karma. Penso que devemos usar justamente o karma para viver melhor: condições propícias deste momento, ou seja o lugar, tempo e relacionamentos.
Enquanto, ao meu ver, o zangue diz respeito a um ser exterior, o sangue é exclusivamente de nossa responsabilidade. Um praticante do dharma não vive pensando em recompensas ou punições. Mas como um ser errante, admite isso, pode se inspirar a fim de desenvolver uma prática muito mais criativa e alegre. O então Superior Miyoshi dizia sempre que o budismo era para tornar o homem mais humano. O sangue, entendido como uma atitute de responsabilidade do praticante convicto, todos os erros cometidos no fluxo do karma, e se for de seu entendimento, pode ser anunciado com sinceridade. "Eu me arrependo por ter cometido tais erros e assumo a responsabilidade não cometê-los de novo", assim age.
Vamos a um exemplo concreto. Meu vizinho gosta de ouvir música sertaneja em alto volume e prejudica a minha tranqüilidade. Fui falar com ele, que me recebeu mal e sem se importar, continuou a música. Irritei-me e lancei uma pedra na vidraça dele. Refeito de minha raiva, percebi o mal cometido. Nesse caso, posso pedir perdão a deus (zangue) ou diretamente ao vizinho mas sem pagar o vidro (zangue). Posso alegar, cometi um erro mas você também estava errado. Mas um praticante do dharma, ao se arrepender, pede desculpas ao vizinho e paga o vidro quebrado (sangue). Existe uma diferença clara.
No Busshinji, certa vez estava acompanhado de um monge que viu sobre a estante um quadro com vidro quebrado. Foi quando perguntou irritado: "quem foi o responsável pelo prejuízo". Neste momento uma monja aproximou-se com as mãos em gasho e confessou submissa "fui eu". Ela pensava que uma simples confissão a redimia do erro. Mas o quadro continuava quebrado. No caso, houve zangue e não sangue. Simples palavras "fui eu" não era suficiente para livrá-la do karma, pois o quadro continuava quebrado. Nem mesmo a confissão era necessária, mas a disposição dela em consertar o quadro danificado. Em suma, não houve um arrependimento verdadeiro, apenas palavras vazias, distanciadas da prática.
Uma outra situação em que podemos praticar a verdade. Aos sábados os alunos leigos do Zen têm a oportunidade de realizar tarefas como nos mosteiros. São responsáveis pela harmonia produzida na cerimônia em que se canta o Sutra do Coração e da Grande Sabedoria. A palavra chave é responsabilidade. Por harmonia entendo a realização de tarefas coletivas, mantida a atenção, em que todos se esforçam ao esmagar o próprio egoísmo, estando em sintonia com a compaixão e sabedoria do Buda. Nesta ocasião não se deve errar nos toques do sinos do densho e nem dos sinos do sogei. Em hipótese alguma pode-se derrubar os sutras. De todos os erros, o maior é deixar cair os sutras. Cuidado entregadores de sutras, vocês são os responsáveis. Caindo um livro, o entregador deve se submeter ao Sanja. Fazer sangue. Dizer que o outro deixou cair, e não ele, não o isenta da ação negativa. Tarefa executada pelos que receberam a ordenação, pois ostentam o rakusu, o manto de buda, assumem a ação cometida. Um leigo não ordenado não entrega livros.
Antes de tudo, realizar Sanja, fazer sangue, não é condição de submissão, pelo contrário. Mas mesmo assim, se não puderam reconhecer o erro, eu próprio farei Sanja não no lugar dele, e nem por ele, mas por mim mesmo. Errei por não me fazer entender. Errei por ter falhado na tarefa confiada pelo Superior Saikawa. Errei por ter falhado com o meu mestre o então Superior Miyoshi em tornar a sanga um grupo melhor na prática do dharma.
Se a minha disposição não chegar a tanto, fingirei ser monge e fingirei que tudo está certo, quando na verdade tudo está errado. A prática do budismo não é um passatempo, um remédio paliativo para dirimir minhas febres. Os que assim pensarem, devem procurar outros caminhos e não o budismo.

Um comentário:

  1. O texto tem mais de 11 anos, mesmo assim gostaria de deixar uma observação sobre a confissão. A liturgia demanda conhecimento do Evangelho. No Evangelho consta a recomendação de Jesus: "Antes de pedir à Deus, reconcilie-se com seu irmão". O que não é nada diferente do que o monge observou.
    De fato, não existe qualquer despropósito no ato da confissão, desde que não esteja dissociado dos ensinamentos do Evangelho.

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