quarta-feira, julho 19, 2006

A realidade e o zazen

A realidade nos parece mais um estado - e portanto sempre em trânsito - do que um objeto. Me explico melhor. Em Filsosofia ou em Arte quando falamos em realidade parece que estamos sempre descrevendo um objeto exterior como se não fizéssemos parte dele, como se fossemos espectadores do mundo. Tinhamos uma professora de Filosofia da Ciência na faculdade que sempre nos questionava da seguinte forma: como voces podem ver o próprio olho ? Do mesmo modo, como podem pensar sobre o pensamento ? Não podemos nos expressar sobre a realidade se não compreendermos que estamos profundamente envolvidos nela, que somos ela, ao mesmo tempo que ela só existe enquanto um reconhecimento de nossa própria consciência. Assim, realidade e consciência são uma única coisa, um único estado que só pode ser separado através da cirurgia feita pela operação dualista da mente. Quando estamos em zazen, em certos momentos sentimos a separação completa, no momento que o barulho ainda é uma manifestação externa, que as palavras recitadas ainda são dos outros, e em outros a impotência de se distinguir do próprio ambiente quando sentimos em nós a pancada de kiosaku no outro, a respiração do companheiro mais próximo ou o toque do sino. Fazer zazen nos ensina a cada sgundo de respiração, a cada posição mal arrumada das mãos ou da coluna, não a pensar sobre a realidade e sermos seus observadores mas a ser a própria realidade a partir das experiências diárias de interdependência. Participar de uma sangha seria a experiência mais didática da realidade como um estado em que estamos todos dissolvidos. Participar do mundo e da vida cotidiana seria a experiência mais difícil da realidade pois a dualidade parece tomar vida própria, fazendo com que a desatenção e o nosso desleixo nos afastem do estado de zazen. Nesse momento, a consciência de que devemos levar a nossa prática cada vez mais a sério deve ser imperiosa. E praticar é estar consciente da própria contradição e esforçar-se no seu entedimento. Talvez só desse modo um dia possamos nos esquecer da própria realidade como o peixe que esquece da água.

2 comentários:

  1. Sabe amigo Nanun, hoje voltando do zazen me atentei para o fato de que estamos penetrando, ou ainda, estamos aceitando conscientemente uma cultura bastante diversa da nossa, que é a cultura zen sino-nipo-indiana. Adentramos esta nova cultura, nestas novas CONDIÇÕES de realidade, em estado de atenção constante e porquê assim decidimos, não nos foi imposto. Não nos condicionaremos a isso como somos condicionados sem escolhas quando já nascemos em uma cultura. Estamos livres, é só vivermos este instante intenso. É mágico. A realidade muda de acordo com a maneira como a encaramos. Somos livres.

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  2. Certa manhã após a realização do kyoten (zazen da manhã) dirigimo-nos para a sala de chá. Chovia neste momento. Algumas pessoas olhavam para a chuva, quando, de súbido o Superior Saikawa perguntou: "Onde está a chuva". Lá fora, disse um. Estou vendo a chuva por trás destas vidraças, disse o outro. Foi quando o mestre completou didaticamente: "a chuva neste momento encontra-se dentro de você".
    Assim, aquilo que existe dentro, existe fora. O que existe fora, existe dentro. O risco que corremos é a formação de idéias e imagens demais, que acabaremos vendo fora. Tal qual D. Quixote, que acreditava em seu delírio na existência dos dragões. Por isso, propomos uma mente alerta, que desconfia da própria sensibilidade de ver, ouvir, sentir, cheirar e degustar. Se assim colocamos, o que pode ser realmente a verdade? Talvez seja o grão de sal entre os dedos, que devido o calor do corpo em instantes dissolve-se.

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