terça-feira, outubro 24, 2006

Prática sem droga

Houve uma época em que os inconformados buscavam abrigo em alguns refúgios. Época de contestação dos Anos de Chumbo - décadas de 60 e 70. No auge da Guerra do Vietnã, um monge nativo chegou a incendiar as próprias vestes para que o conflito terminasse, com a retirada das troças americanos de toda Indochina. Tempos em que os soviéticos invadiam a Checoslováquia e em Paris os estudantes tomavam as ruas. Em meio aos protestos, o existencialismo francês antagonizava-se entre Jean Paul Sartre e Albert Camus. Se alguns lutavam nas ruas, em meio à desilusão dos tempos modernos, outros entregavam-se às drogas. Falava-se em Paz e Amor. Tinham por tríade ideológia - ou anti-ideológica - drogas, sexo e rock'n roll. Mas também os inconformados descobriam o Zen Budismo através de D.T. Suzuki, de Jack Kerouac, Allan Watts e Tomas Merton. No Brasil, o velho casarão da rua São Joaquim era onde aconteciam as sessões de zazen. Sem falar uma única palavra de português, o Superior Shingu atraía dezenas de praticantes.
Este tempo se foi, mas o Zen continuou a fazer parte da vida dos inconformados. Talvez antigos leitores de Sartre, Camus, Ponty; agora leitores de Derrida, Deleuze e Foucault.
Da tribo "drogas, sexo e rock'n roll", estes também acabaram se transformando. A partir da revolução sexual nada se tornou proibido e não desperta mais o interesse dos antigos moralistas. São outros os moralistas da atualidade. Quanto ao rock, somente ficaram as lembranças: Alice Cooper se foi, Led Zeppelin está velho, Joe Cocker não sei que fim levou. Mas me lembro que Jimmy Hendrix e Janis Joplin morreram por overdose. A droga também caiu no desprestígio.
De todas estes comportamentos, o que mais incompatibiliza-se com o Zen é justamente a ingestão de drogas. Nada justifica do ponto de vista budista a sua ingestão. Está claro num dos preceitos: "não ingerir tóxicos". Não que o budismo preze os valores morais, combatendo o uso de drogas, mas porque a sua utilização vai contra o Caminho da Iluminação. Dos estados de consciência, a Iluminação é a consciência no mais alto nível. Em se tratando das drogas, parece que acontece justamente o inverso: alimenta a Ilusão. Tal atitude que nega o estado de consciência por meios artificiais, é a fuga da "realidade". Ainda que a "realidade" seja o Samsara para os budistas - um sonho - não pode ser negado simplesmente. A respeito, quando Buda se encontrava abaixo da árvore de Bodhi e o demônio Mara o admoestou, ele apontou com a palma a terra. Com os pés firmes no chão, o praticante deve avançar. Me parece que a droga afasta o homem das condições reais de existência, que é no mundo do Samsara. Se o Samsara se apresentar como fogo, ao ingerir droga o praticante é igual a madeira. Assim, deve se tornar fogo em meio ao fogo. Se o Samsara for água, ao ingerir droga o praticante é igual a fogo. Assim, deve se tornar água em meio a água. Mas se o Samsara for terra, o praticante pode ser madeira e assim crescer e desenvolver-se até as estrelas. Quanto à droga, nenhum sucesso pode ser realmente alcançado. Aqueles que necessitam dela, não possuem caráter para caminhar a passos largos com as próprias pernas. Ao contrário disso, o homem se torna um dependente, necessitando sempre de bengalas e muletas. Da saudade dos Anos Dourados guardo na memória as partidas de xadrez, a música eletrônica de Emerson Lake and Palmer, o teatro de Sartre e as primeiras leituras de Zen. Mas da droga, não me restou nem cinzas. Intoleravelmente contra as drogas tidas leves ou pesadas, pois ambos são droga. E quem necessita delas são igualmente drogas e necessitam de cuidados especiais.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Os quatro paramitas

Qualquer praticante do dharma deve levar em consideração as quatro formas de manter-se em vigília:
1. dana - ou doação.
2. sila - conduta moral, os preceitos.
3. ksanti - paciência.
4. virya - vigor, devoção, energia.
5. dhyana - concentração.
6. prajna - sabedoria.

1. Sem doação, a prática deixa de ter validade. Podemos doar dinheiro, alimento, roupa, trabalho ou uma palavra de bondade. Quer dizer, de maneira desinteressada oferecemos aquilo que está ao nosso alcance. Tendo em vista a doação, juntamos as palmas e fazemos gashô. Certa vez o Superior Miyoshi chamou em sua direção a nova discípula e ensinou: "veja, se você abre as mãos tudo que tem dentro sai, mas também o que está fora entra". Doar, em sí, é igualmente receber. Entretanto, o praticante sério nunca tem os olhos voltados para recompensas. Não se doa para receber, apenas se doa.
2. Ao que se refere à conduta moral, trata-se dos preceitos assumidos quando da aceitação dos mesmos pelo praticante. Isso ocorre na ordenação como discípulo de Buda. O primeiro destes é "não matar nenhum ser vivo". Não apenas seres humanos mas qualquer forma de vida. Nenhuma vida é inferior e nem superior -sem discriminações. Outros preceitos estão presentes como "não roubar", "conduta sexual inapropriada", "ingestão de alucinógenos" e "não mentir". Ao invés de decorar uma lista de preceitos, seria mais inteligente que a partir de nossa prática possamos saber o que realmente deve ser evitado. Visto desta forma, a ingestão de drogas não é por ser um preceito mas um ato de sabedoria. Quer dizer, a droga afasta o praticante daquilo que ele mais procura: a Iluminação.
3. Nenhuma prática é mais dolorida do que a paciência. Sem ela, cansamo-nos rapidamente e a prática torna-se uma tortura. A paciência é justamente a nossa capacidade em insistir com o treinamento. O patriarca Bodhidharma é representado por um boneco redondo, com peso na parte inferior. Mesmo que seja derrubado, levanta-se. Um velho ditado do folclore japonês diz: derrube-o setes vezes, ele se levanta oito. Por sete vezes ele tentou penetrar na China sem sucesso, somente na oitava conseguiu.
4. Aquilo que se chama energia surge nos momentos de dificuldade ou simplesmente deixa de surgir. Alguns desistem, outros, ao contrário insistem. Os fracos não são isentos de energia, mas acreditam na incapacidade de usar a energia que têm. No processo de abandono e renúncia toda a energia se faz presente e o medo desaparece, também a insegurança e a dúvida.
5. Se não existe meditação, o budismo no sentido radical deixa de existir. Quer dizer, seguir os passos de Buda, que entregando-se à pratica do zazen logramos atingir a Iluminação. Seria falso falar em budismo sem Iluminação. Mas existem alguns que pensam desta forma e assumem a própria incapacidade. Ao invés da meditação exercitam-se em outros modelos como recitação de mantras, prostrações, oferecimento de incensos e outros. Nada disso leva à Iluminação.
6. Por fim, a sabedoria é o ponto mais alto da montanha que leva à Iluminação. Não se adquire lendo livros ou ouvindo palestras. A sabedoria é a descoberta através da própria experiência aquilo que fica além da linguagem comum: conceitual e dualística.

Obs. Todos os seis paramitas devem estar juntos, sem que um seja melhor do que o outro. Sem sabedoria não há iluminação; sem energia não há paciência; sem conduta moral não há sabedoria; sem paciência não há concentração; sem concentração não há iluminação, assim por diante. Praticantes, pratiquem os Seis Paramitas. Se agirem assim, estarão no Caminho Correto.

Prática mística ou Mística da prática

Fica por conta de cada interessado na prática do dharma, inclusive na tradição zen. Seria estranho chamar o Zen de prática mística, mas talvez alguns o encarem um pouco desta forma. Assim, acendem incenso, tocam o sino e têm uma imagem de Buda num altar. Penso que desta forma criam condições apropriadas que podem melhorar a concentração. Não que seja necessário. Fazer zazen, em qualquer lugar que seja. Certa vez fiz na Casa de Detenção de São Paulo - o famigerado Carandiru - ao lado de presos que cumpriam penas por delitos desconhecidos por mim. Mas o que se sentou ao meu lado confessou: "amanhã serei julgado por ter matado a minha esposa". Neste caso não se tratava de prática mística. Não importa, às vezes realizamos uma prática em que elementos místicos podem estar presentes, outras vezes em qualquer outro lugar. Alguns preferem as matas, na tranqüilidade das montanhas. Dizem estes últimos que querem receber a energia das plantas e respirar o ar puro.
Aprendi que quando Sidhartha vislumbrou adiante a estrela da manhã e tornou-se um com todo o universo, conclamou: "neste momento eu e todos os outros seres alcançamos a liberação". Quando nos sentamos, todos os Budas se sentam conosco. Acredito que "sentar-se" não tem por finalidade criar bem estar naquele que experimenta, mas despertar a compaixão e a sabedoria. Não se faz zazen para ficar bem. Nem para respirar ar puro, nem para receber energia. Me parece um pouco egoísta tal atitutude. Ainda que a nossa relação com o místico esteja presente, não podemos deixar que o misticismo seja tranformado em ponto principal. Se isso acontecer, agiremos como macacos tentando agarrar a lua refletida na água. É ver o dedo do mestre que aponta para a lua, sem ver a lua realmente.
Ao invés disto, a prática realizada com toda a atenção nos revela uma faceta mística do dharma. É a mística da prática que tenho procurado em toda a minha vida. A respeito, quando estive no Japão, em treinamento no Mosteiro Shogogi percebi que no processo de abandono, do esmagamento do ego, a interdependência não era apenas palavra mas condição concreta para a nossa existência. No caso, trata-se de uma maior interação com o universo, mais do que isso: não existia nem eu, nem o outro. O mestre Dogen Zenji disse apenas: corpo e mente abandonados, abandonados corpo e mente. Não é uma prática mística, mas a sua realização revela um universo místico.
Entre nós, somente os que participaram de um sesshin completo: sentando-se 8 horas por dia, mantendo o silêncio, realizando o dokusan experimentaram algo parecido. Temos que levar esta experiência para o nosso cotidiano: a atenção. No nosso dia-a-dia somos acometidos por uma quantidade enorme de informações, que não pertencem a nós. Submetemo-nos a condições impostas pelo meio em que vivemos. Usamos as roupas que os outros usam, pintamos os nossos rostos, os lábios, e falamos igualzinhos aos outros. Em suma transformamo-nos no outro, totalmente diferente do que realmente somos. Pensamos e falamos como fôssemos o outro. Freqüentamos os mesmos lugares, achando que somos originais. Acabamos nos esquecendo da nossa prática e assumimos a nossa condição de macacos. O que um faz todos os outros fazem. Ainda que seja assim, agindo como iludidos, temos que manter a chama da prática em nossas mentes. O pior é crer que a ilusão seja verdadeira e condição primordial em detrimento da própria verdade.
O que realmente importa é termos condições de ver a verdade, com olhos da iluminação através da bruma provocada pela ilusão. Ou seja, esta é a mística da prática. Com os pés firmes no chão ao invés de andar sobre as águas. Nada de sobrenatural, nada que seja mágico. No dharma nada disso tem lugar - apenas a verdade.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Sentar-se mais, um pouco mais

Ao final de uma sessão de zazen, à noite, o jikido após bater o uchi-dashi no mokuhan anuncia em alta voz: a vocês, praticantes me dirijo respeitosamente; o nascimento e a morte são assuntos importantes, portanto Iluminem-se nesta vida; assim peço, não percam tempo. De fato, quando se fala em nascimento e morte, trata-se da vida, o intervalo entre estes dois pontos "antípodas". Dogen Zenji em Shushogi diz que "a vida é como fosse um tiro de flecha", mais rápido do que pode parecer. Mas inversamente, perdemos tempo mergulhados numa mar de ilusões. Alguns ao invés de priorizar o tempo de vida que lhe resta, continuam cometendo os mesmos erros. Deixam de praticar o "caminho da iluminação" a fim de procurar medicina paliativa das ervas entorpecentes da ilusão: fórmulas mágicas e cantorias, espírito das matas, duendes e anjos. Realizam estes visitas em muitas casas, num ato de turismo religioso que nunca chega a lugar algum. Tal qual os alucinados de uma noite de verão, após a ressaca de uma madrugada em ebulição, tropeçam nas próprias pernas. Os olhos que deveriam divisar um só horizonte perdem em outros pontos, pois a nossa visão turva-se da areia quente da insolação. Perdemos tempos demais. Praticantes do Dharma, construam com os passos do caminhante a senda da iluminação: sentem-se. Buda sentou-se apenas. Se Buda é o mestre, nossa referência, podemos criticá-lo e a nós mesmos. Mas retornemos ao nosso "sentar-se". Somente os que se sentam podem "dialogar" com o Buda e ele nos ouvirá. Abandonando-nos no "sentar-se", esquecemos e de nós mesmos e a nossa mente se tornará mente de Buda. O erro maior, o maior de todos, é treinar a mente para se tornar a mente de Buda, retornando à mente da ilusão completa quando deixamos de sentar. Nesse caso, cria-se um abismo entre a prática de sentar-se e a prática no mundo das paixões. Quando existir esta separação, o que falta no praticante é dedicação em sentar-se. Sentar-se mais... E mais... Se isso não ocorrer, o zazen indisciplinado tor-se-á um adorno em nossa fantasia de carnaval. Não percam tempo, pois o tempo urge? A invés de sermos prisioneiros do tempo diacrônico em que o "agora" não existe, pois se tornou passado, possamos descobrir o agora real no tempo do Dharma. Neste o eu não existe e nem o outro!

sábado, outubro 07, 2006

sexta-feira, outubro 06, 2006

A mente atenta

Muito se fala a respeito da mente atenta, entretanto poucos conseguem mantê-la neste estado. Quando realizamos a prática do zazen, treinamos a mente alerta. Naquele momento não dormimos, não cochilamos, não pensamos, nada fazemos. Mas se isso vier a acontecer, ao deparmos nossa hesitação, voltamos novamente à antiga postura. Por algum momento, quem sabe, o sono nos rouba a atenção. O mesmo acontece com o fluxo de pensamento. Se ao contrário, alimentarmos o nosso sono, o nosso pensamento, o zazen deixa de existir. Quer dizer, a atenção foi substituída pelo devaneio. Então, a mente deixa de estar atenta. Enganam-se aqueles que procuram relaxar-se nos instantes de zazen, como fosse uma "fuga" de seus problemas corriqueiros.
Para que a mente esteja atenta é necessário treiná-la. Trocando em miúdos, fazer zazen. Claro, para todos existe um rítmo e uma necessidade. Para alguns, uma vez por semana é o suficiente. Ainda que seja uma vez apenas, deve-se respeitar a disciplina e aparecer no dojo para fazer zazen. Sem disciplina a nossa mente também acostuma-se à indisciplina e o zazen feito esparçamente não tem validade. Alguns fazem zazen de maneira esparça: quanto sentem vontade. Bem, não é uma maneira muito saudável de praticar o zazen. Nesse caso, parece-me que o zazen torna-se apenas um paliativo, algo parecido como um adereço para a nossa fantasia de carnaval. Ao contrário, para o praticante dedicado, o zazen é alimento e o ar que respira. Sem alimento morremos, assim sem zazen mergulhamos fundo em nossas ilusões. Um zazen esporádico torna-se uma brincadeira, tal qual ocupamos o nosso tempo livre para um relaxamento.
Quando digo, cada um é responsável pela quantidade de zazen a fazer, a intensidade com que é feito, a qualidade do zazen realizado, demonstra o perfil de praticante. Cada um se esforça conforme não apenas suas necessidades mas também limitações. Problemas de natureza orgânica talvez impeça uma presença mais dinâmica no dojo. Alguns dizem que enfrentam problemas de tempo: trabalham muito. Por ser livre, o zazen pode ser realizado de acordo com liberdade de escolha de cada um. Em nossa vida, fazemos opções. Nesse caso, o zazen também pode ser visto desta maneira. Depende logicamente de nossas prioridades. Ainda não chegamos no grau de desapego, o suficiente para o ingresso total no Caminho da Iluminação.! Não está errado, apenas não chegou o tempo!
Assim posto, o zazen realizado de maneira "light" também tem conseqüências "light". Por isso, a prática na vida diária é necessário muito mais atenção. Mas a mente se nega a ficar atenta. Ao invés disto, continua insistindo em apegar-se à idéias, conceitos, preconceitos, raiva e ignorância. Continua como sempre fazendo avaliações e comparações de ganho e perda, de premiação e prejuizo, de custo e benefício. Se este comportamento perdurar, o zazen se torna algo separado de nossa vida, criando um campo amplo de dualidades. Durante a prática no templo envergam o manto negro do treinamento, assim que terminam retomam novamente a roupa comum das atividades ilusórias. Quero dizer, não se trata tanto da roupa mas da troca da atitude mental.
Que não seja assim. Carreguemos em nossa mente o manto negro da prática do Dharma ao enfrentarmos as intempéries das oscilações do temperamento do demônio Mara. Aquele que mora em nossa mente e se chama Ego. E quando o Ego se inflama, a ilusão se reforça. Seria necessário que Buda empunhando o kyosaku nos golpeasse cada instante que o Ego aparecesse como nuvens intempestivas da ilusão. Mas tanto a ilusão como Buda moram em nossa mente.
Manter a mente alerta é reconhecer a fluidez do Ego, a sua insustentabilidade.
Basta alguém falar mal de mim para receber o troco. Cuidado, cuidado se isso acontecer.
A prática do Caminho da Iluminação é para poucos. Não dos escolhidos, mas dos que treinam arduamente. Dito de outra maneira: mente alerta. Não acreditem naqueles que treinam mas se irritam por pouco, xingam, são insolentes e egoístas, enchem-se de orgulho, ficam magoados e autocomiserando sua dor.
Enfim, pratiquemos com força e alegria.

Conflito

Alguém sabe dizer qual o significado do conflito? Alguém sabe dizer porquê, ou para que serve entrar em conflito consigo mesmo e logo com o mundo, ou, com o mundo e logo consigo mesmo? O que é que se ganha? O que é que se prova e a quem? Tão enraizado está o conflito que não nos fazemos mais esta pergunta. Alguém sabe? Para que serve?

quinta-feira, outubro 05, 2006

Fantasmas

A prática do dharma nos ensina a lidar com nossos fantasmas, isto é certo. E, olha bem, palavras, olhares, gestos e lembranças de outras pessoas, de amigos e até de parentes próximos, se estagnados em nosso coração, têm uma grande tendência a virarem fantasmas. Podemos então olhar para os nossos fantasmas como fantasmas apenas, coisas sem consistência por si só. Aprendemos a não cultivá-los, até porquê, segundo um amigo, eles crescem, crescem muito, ficam obesos e cheiram mal, muito mal. Seria uma ilusão achar que iríamos fazê-los irem embora apenas detectando-os e os expulsando a força, aos gritos. Não, é disso que eles gostam, quanto mais os expulsamos, mais eles voltam, quanto mais deles desdenhamos, mais eles crescem, e o mesmo serve para nossos inimigos. Sendo assim, apenas deixemos que vão, podemos nos desapegar destes nossos bichos de estimação, é possível, somos nós que, ativamente os liberaremos de nós mesmos, porquê o coração livre, este, já o possuímos de nascença, faz parte da "genética" do dharma.

terça-feira, outubro 03, 2006

Karaniya Metta Sutta – Amor Bondade

Quem é hábil no que é benéfico, desejando alcançar

aquele estado de paz, age assim:

capaz, correto, honrado,

com a linguagem nobre, gentil e sem arrogância,

Satisfeito e fácil de sustentar,

com poucos encargos, frugal no seu modo de vida,

os sentidos acalmados, sábio,

moderado, sem cobiçar ganhos.

Não faz nada, mesmo que trivial,

que seja condenado pelos sábios.

Pense: felizes, seguros,

que todos os seres tenham os corações plenos de bem-aventurança.

Todos os seres vivos que existem,

fracos ou fortes, sem exceção,

compridos, grandes,

médios, curtos,

sutis, grosseiros,

Visíveis e invisíveis,

próximos e distantes,

nascidos e por nascer:

que todos os seres tenham os corações plenos de bem-aventurança.

Que ninguém engane

ou despreze outrem, em nenhum lugar,

ou devido à raiva ou inimizade

deseje que alguém sofra.

Tal qual uma mãe, colocando em risco a própria vida,

ama e protege o seu filho, o seu único filho,

da mesma forma, abraçando todos os seres,

cultive um coração sem limites.

Com amor bondade para todo o universo,

cultive um coração sem limites:

Acima, abaixo e em toda a volta,

desobstruído, livre da raiva e da inimizade.

Quer seja parado, andando,

sentado, ou deitado,

sempre que estiver desperto,

cultive essa atenção plena:

a isto se denomina uma morada divina

no aqui e agora.

Sem estar aprisionado pelas idéias,

virtuoso e com a visão consumada,

tendo subjugado o desejo pelo prazer sensual,

ele não mais renascerá.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Ensinamento de Nagasena ao Rei Milinda

Nagasena, o sábio budista, tentou explicar ao Rei Milinda a visão de que os indivíduos são um agregado de atributos, tais como intelecto, emoções, corpo, todos temporais e em constante mudança. Para tanto, serviu-se do exemplo da carruagem e disse:

"Ouça, ó grande rei, por acaso o timão é a 'carruagem'?"
"De fato não é, reverendo senhor."
"O eixo é a 'carruagem'?" - "De fato não é, reverendo senhor."
"Será que as rodas são a 'carruagem'?" - "De fato não, reverendo senhor."
"O corpo da carruagem é a 'carruagem'?" - "De fato não, reverendo senhor."
"O mastro da carruagem é a 'carruagem'?" - "De fato não, reverendo senhor."
"A canga é a 'carruagem'?" - "De fato não, reverendo senhor."
"As rédeas são a 'carruagem'?" - "De fato não, reverendo senhor."
"O chicote é a 'carruagem'?" - "De fato não, reverendo senhor."
"Bem, grande rei, a soma total do timão, eixo, rodas, corpor da carruagem, mastro, canga, rédeas e chicote constitui a 'carruagem'?" - "De fato não, reverendo senhor."
"Bem, grande rei, a 'carruagem' é algo além da soma total do timão, eixo, rodas, corpo da carruagem, mastro, canga, rédeas e chicote?" - "De fato não é, reverendo senhor."
"Grande rei, fiz todas as perguntas de que posso pensar, mas não consigo descobrir a 'carruagem'! "Aparentemente, a 'carruagem' não passa de um som."
(O rei explicou) "Por causa do timão e por causa do eixo, por causa das rodas e por causa do corpo da carruagem, e por causa do mastro, o epíteto, a designação, o título, o estilo, o nome 'carruagem' é usado correntemente."
Nagasena replicou que o mesmo é válido para o indivíduo. "Por causa dos vários órgãos do corpo, por causa da sensação, da percepção e da consciência, por causa de tudo isso, entra em uso o epíteto, a designação, o título, o nome - mas apenas o nome - 'Nagasena'. No sentido mais elevado da palavra, entretanto, não se pressupõe, a partir daí, que qualquer 'indivíduo' exista."

(Burlingame, 1922, pp. 202-204).

quinta-feira, agosto 31, 2006

Religião

Aspiração ao caminho de Buda

Há religiões em que se espera por um milagre,
e outras em que se reza por poderes sobrenaturais,
há até religiões em que se implora por sucesso nos negócios.
Mas a religião de Buda é uma religião em que se busca
orientar a sociedade e servir às pessoas.
A aspiração ao caminho de Buda significa
amar todo o universo assim como os pais amam seus filhos.

***

A religião justa

Muita devoção à sua própria religião e difamação
à religião do outro resulta em ódio e discussão.
Há estupidez maior que isso?
A religião justa em todos os tempos é aquela que ilumina as pessoas
e conduz a uma maneira pacífica de viver.
Pessoas religiosas nunca devem sacar espadas umas contra as outras.

(Eihei Dogen)

segunda-feira, agosto 21, 2006

sexta-feira, agosto 18, 2006

O Portal do Ingresso

Reza a tradição que, quando o interessado a noviço desejava ingressar no Mosteiro de Shaolin, China, esperava no portal durante uma semana. Se durante o período de aceitação de candidatos a monges uns vinte chegavam, no segundo dia alguns tinham desistido, mais alguns dias se passavam e outros se avadiam, mais outros, até que depois de uma semana três ou dois, ou apenas um ainda queria ser aceito. Mas aqueles, que esperavam ficavam o tempo todo em pé, fizesse chuva ou nevasse durante o dia. À noite dormiam, para que no dia seguinte mais uma vez exercitarem a paciência.
Foi nas proximidades de Shaolin que o eremita Bodhidharma recolhido a uma caverna praticou por nove anos o zazen. Não queria receber ninguém. Sabendo o mal humor do anacoreta indiano, o jovem chinês Eka admoestou-o: "Quero ser seu discípulo". "Vá embora", retrucou o santo. "Não vou arredar pé daqui até me receber como o praticante do dharma", insistiu. Lá fora nevava. Por dias, Eka continuou à porta da caverna a fim de que Bodhidharma instruísse-o. Nada acontecia. Nenhuma palavra. Numa última tentativa, Eka sacou sua espada e decepou o braço esquerdo. Assim diz a lenda: "a neve branca tingiu-se de rubro". Reconhecendo a vontade de Eka em praticar, Bodhidharma tornou-o primeiro patriarca chinês do budismo Zen.
Ainda hoje nos templos do oriente este ritual segue, lembrando o gesto de Eka. Quando estive no Mosteiro Zuioji, antes de ingressar, após bater o kaishaku (duas madeiras) um monge dirigiu-se até mim, no frio da manhã de março, e perguntou-me.
- O que você veio fazer até aqui?
Por um momento, as palavras me fugiram.
- Vim praticar - disse convicto.
- Praticar o quê.
- Quero praticar o Caminho - arrisquei.
- De onde você vem? - confundiu-se ele.
- Chego do Brasil.
Pensou um pouco, nem imaginando onde ficasse o Brasil. Diante dele alguém tinha feições orientais e falava um pouco de japonês. Talvez isso o deixasse intrigado, mas sem relaxar as feições rudes, apontou a parede.
- Fique lá, olhando para a parede.
Assim fiquei uma hora, duas horas... Era frio e os pés me gelavam. Uma vez ou outra ouvia vozes atravessando o jardim de pedras.
Passado algum tempo, longo tempo, não sabia quanto, o mesmo monge com a voz baixa perguntou-me novamente.
- O que você veio fazer aqui.
- Bem, quero vivenciar na prática o budismo.
Assim fui aceito no mosteiro. Desta vez mostrando um pouco afabilidade, entregou-me um balde com água quente. Pude retirar minhas sandálias de palha, o par de tabis, rotos após a andança até o templo. O calor da água causou-me uma sensação de agradável bem estar. Mesmo assim, tinha que passar por outras provas. Por uma semana trancaram-me numa sala, o tangaryo, onde passava o tempo todo fazendo zazen e estudando os textos. Mais dois noviços estavam no recinto. E assim pude relaxar-me, pois poderia usufruir da companhia deles. Segundo eles, o noviço anterior, um americano, tinha ficado só, sem ninguém para conversar. E nevava lá fora. Pouca roupa para cobrir o corpo, mas mesmo assim a desistência não passava em nossas cabeças.
Nada disso do acima descrito se compara com a prática do dia a dia. Somente aquilo que colocamos reforça, de maneira enfática, a vontade de treinar. Ou a total desistência. Quando fui ordenado, em 89, um colega muito mais preparado do que eu também recebeu os votos. Um pouco mais de um ano depois, ele desistiu. Por teimosia, continuei. Esta teimosia acabou se tornando em minha fé na prática árdua e objetiva no budismo. Bem, aquilo que chamo aqui de budismo é a vida. Assumindo compromissos, assumimos uma postura de vida. Não tem nada a ver em acender incenso ou cantar os sutras, mais do que isso.
Se no início o budismo nos parece encantador, estamos ainda mergulhados em nossos sonhos, pois não enfrentamos ainda os nossos medos e orgulho. Muitos são os que ingressam no Portal da Sabedoria, mas poucos continuam. Trilhar na Senda da Sabedoria é muito mais difícil do que viver na ilusão. É a ilusão do Eu, da existência independente do Eu. Enquando se oferecer um incenso para Buda, estamos apegados a uma idéia de Buda. Mas se oferecemos um incenso para Buda e outro para o demônio, destruímos a dualidade. Fiquem tranqüilos, não faço apologia do demônio. Este trata-se aqui de uma alegoria. Quer dizer, acendo o incenso para os mestres, para os amigos, para os meus pais mas também para os que considero inimigo. A compaixão surge quando quero também ajudar os meus inimigos. Na verdade, não existe inimigos, mas apenas projeção de minha mente egoísta. Com a discriminação de minha mente chamo de inimigos aqueles que me desagradam.
Mas veja bem, os "inimigos" são geralmente os melhores mestres da prática. As dificuldades são os melhores momentos da prática. Nada melhor do que as contradições. Mas quem deseja realmente enfrentar os dilemas da vida, vivendo em pela harmonia com o diferente? Poucos, creio eu! Certa vez li uma declaração do Dalai Lama: "não quero que todos se tornem budistas, pois o budismo é muito difícil de ser praticado". Praticar o Caminho requer acima de tudo um gesto de humildade: "destruam o meu ego". Entretanto, o apego ao ego é mais do que a própria vontade de praticar. Posso dizer de outra forma: praticar o budismo é desapegar-se do ego. E quanto maior é o ego, menor é a força da prática. A estes, nada mais resta do que continuar acreditando em suas crenças fantasiosas de um mundo dualista e centrada na valorização do ego.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Daqui

Entre os olhos
e a mente, o mar
Entre a pele
e os ouvidos,
o vento

Armação de Búzios, RJ.

domingo, agosto 13, 2006

Por uma mística zen

Por muito tempo, a questão mística, de qualquer manifestação religiosa parecia-me algo restrito a determinados ascetas, afastados do convívio social, talvez isolados nas montanhas. Hoje penso que pode ser diferente. Entretanto, a percepção da entrega mística aconteceu comigo na "Garganta do Portal do Dragão". Assim era chamado o local em que ficava o Mosteiro Shogoji, na província de Kumamoto, Japão.
Quando estamos entregues nesta prática, de total desapego, num mosteiro em que não há luz elétrica, acorda-se para o zazen às 2h55, todas as manhãs, acabamos nos confundindo com a natureza. Por causa das montanhas, as nuvens ficam baixas e próximas dos nossos olhos. Não é incomum a ocorrência de tufões, que o chefe da aldeia avisa com três dias de antecedência. Antes, os monges limpam o terreno durante a maior parte do tempo, recolhendo o lixo, esvaziando as fossas dos esgotos. A respeito, todo o sistema de recolhimento de resíduos é constituído de um processo de transformação orgânica.
Sem dinheiro para gastar, sem rádio, sem televisão, sem ingerir carne e com muito trabalho, o monge vai se transformando também. Diante da natureza selvagem, o homem sente a sua fragilidade. Sente-se, no primeiro momento, imensamente pequeno. Uma imensa escadaria de pedra com cantos cortantes conduzia os visitantes até um pátio, de onde se avistava o Hondo - Sala de Buda. Ao deparar-me com o perigo, cheguei a pensar: "os japoneses, ao invés de facilitarem a vida dos homens, mantém a natureza intocável". Muitas vezes, tive que subir ou descer estas escadarias com guetas - tamancos altos, sustentados por duas bases. Certa ocasião, tive que descer as escadarias em noite de tempestade, com um guarda-chuva numa mão, na outra um farolete. Numa escada totalmente irregular, o mesmo poderia se dizer do caminho acidentando que conduzia até os nossos quartos. Cheguei a enfiar o pé um buraco e lá se foi o meu tamanco.
Com o tempo, a natureza indomável do Japão não nos parece tão hostil assim. Mais tempo se passa, e acabamos nos esquecendo da natureza. E esquecemos de nós próprios. Nada nos importa mais, totalmente abandonados. Estamos no templo de Daichi Zenji, o antigo patriarca que lá habitou. O poeta que admirava as montanhas, com quem conversava: "Vejo as montanhas/ As montanhas me vêem".
Toda esta integração com as montanhas, os tufões, as tempestades torrencias de três dias seguidos não quer dizer que estamos ilesos de nossas dificuldades. Um resto de ego ainda está presente em nossa mente. Mas ainda assim, o nosso esforço é imenso em realizar as nossas tarefas com grande esforço. Quando mais nos abandonamos, maior é a nossa força para vencer as dificuldades. Às vezes, surge algum indício de estafa, mesmo assim não nos deixamos entregar. Continuamos... Sem nos entregar, continuamos. É como uma queda no abismo, quando nos agarramos no capim para não cair, quando as mãos cansam, restam-nos os dentes; com os dentes nos agarramos. E os dentes ao não conseguir mais segurar, vem a queda. Mas sem medo da queda, abandonamo-nos mais uma vez. A mística zen é justamente o total abandono, aprofundando-nos na forma mais radical da prática. Parece que as condições do universo, novamente remanejadas, tomam um novo rumo e o praticante recupera a sua auto-confiança.
Retomemos a nossa prática na vida ordinária, dos acontecimentos temporais. Penso que podemos levar a nossa experiência no ponto mais crítico. Ao invés de tufões e tempestadades, temos pela frente um mal maior: o EGO. Assim, o Ego sofre, o Ego agride e é agredido, o Ego pensa e avalia, o Ego se acha maior, o Ego se inflama e quer elogios, enfim o Ego é uma grande droga. Mas sabedor disso, o praticante trabalha o seu Ego. Dentro do Ego do praticante existem dois eus: e Eu da prática e o Eu do iludido. Nas mais diversas situações, os dois eus devem dialogar:
- Tenho que controlar meu egoísmo - diz o eu da prática.
- Nada disso, você não tem sangue de barata - diz o eu da ilusão.
- Mas o egoísmo é um mal - continua o primeiro.
- Se você não lutar pelo seu amor próprio, você passará por bobo - contra-argumenta.
- Se cometi um erro, devo demonstar meu arrependimento - arremata este.
- Você não fez nada de mal, afinal errar é humano - justifica o da ilusão.
- Nisso você tem razão, mas posso remediar ao reconhecer o meu erro - tenta.
- Será tratado como um tolo se submeter a esta situação - aponta.
- Reconheço que fui vencido.
O vencido foi o da prática. Com todas as artimanhas, o Demônio da Ilusão, Maya, tal qual em Bodhigaya em que Siddharta venceu. Desta vez, a Ilusão derrotou completamente a prática.
A mística zen na vida cotidiana é levar às últimas conseqüências a prática. Destruir a cada minuto, a cada respiração o Ego da ilusão. O Ego, em si, a própria Ilusão. Destruir completamente todas as justificativas para a existência do orgulho, da vaidade, da ganância, da preguiça. Pior do que a existência da Ilusão é justificá-la. E isso acontece quando o Ego se acha mais importante do que qualquer prática ascética. Ao invés de ver em sí a semente do mal, o Ego vê no outro. Por isso, o Ego é dúbio, dual. O Ego é uma grande droga. Ele se disfarça de Racionalismo, de Amor próprio, de Individualidade, de Meu, de Tenho Direitos, de Eu Mereço, de Eu Quero. Alguém que acredita na existência do Ego, olha sempre para o próprio umbigo, desconhecendo que no céu uma lua brilha. Iludidos, agem como fantasmas. Loucos, crêem em suas próprias loucuras. Continuam sonhando, com medo de acordarem.

terça-feira, agosto 08, 2006

Voto

Pode-se facilmente notar que sempre transformamos aquilo com o que convivemos. Nossas casas, famílias e amizades são bons exemplos disso.
Da mesma forma, quando entoamos um sutra, por exemplo Maka Hannya Haramita Shingyo, não só ele entra em nós, mas nós também nele entramos: Buda entra no ego e o ego entra em Buda.
Igualmente ocorre com as palavras usadas no cotidiano, quando as pronunciamos. Para que nossas palavras possam ser puras e benevolentes, devemos zelar por manter a mente pura.

E, para o silêncio, também não poderia ser diferente. Quando permanecemos em silêncio, nele penetramos.
Que ele se mantenha purificado graças à nossa prática.

domingo, julho 30, 2006

A questão da inocência

Nunca acreditei tanto nesta questão, que volto a escrever a respeito. Nada melhor do que a expontaneidade da criança. A isto chamamos de inocência. No caso de um "caminheiro da dharma", agir envolto nesta aura da inocência o torna realmente um ser da prática verdadeira. Costuma-se dizer que somos "crianças de Buda" - Hotoke no kodomo. Assim dizia o então abade do Mosteiro Zuioji, que tive a oportunidade de freqüentar. Penso que assumir a inocência na prática é tirar a máscara das representações mais diversas do convívio social. Não é este caso, mais a inocência da criança, que ainda não passou pela experiência da vida. Do praticante do caminho, a inocência é aquela assumida de forma consciente com o corpo e a mente totalmente desarmados. Desta forma, agimos como fosse a primeira vez, sem os karmas de vida passadas, quer dizer aqueles construídos no contexto histórico. Explico: com a mente livre, totalmente desapegada. Esta mente sem amarras possibilita o praticante ver o mundo não mais pelos olhos do ego, de um self independente, mas pelos olhos de Buda. Não é mais eu que vejo, mas as coisas se fizeram aparecer até mim. Não vejo mais como os olhos egoístas, que somente olham para aquilo que convêm. Os poetas também possuem a inocência no olhar, no cheirar, no paladar. Sentem todo o mundo de maneira livre. Sem condicionamento!
Aqueles que agem com a mente armada, assumindo uma personalidade, nada sabem a respeito do mundo além da "forma" e da "não forma". Continuam prisioneiros das manifestações fenomênicas e acreditando na sua existência. Com o olhar armado nada vêm. Com os ouvidos armados nada escutam. Com a língua armada nada sentem. Com a epiderme armada nada percebem. Ao mesmo tempo que todo o corpo encontra-se coberto, nada o atinge, em contrapartida nada percebe. Mantém-se armado porque temem perder a identidade. Temem que o ego seja atingido. Estes pensam que o corpo lhe pertence, assim como os quatro sentidos. Cinco sentidos, adicionando também a mente. Mas nada lhe pertence, inclusive a mente. Encontram-se estes totalmente deludidos.
Por isso, o praticante que merece usar este nome deve resgatar de dentro de sí a inocência. Nada ele tem a temer. A inocência é um grande trunfo de qualquer praticante. Foi com a inocência que existiu o poeta-monge Saigyo,Ryokan, Ikkyu, Bashô e Santoka. Mais recentemente, Sawaki Kodo. A inocência é a própria verdade. Ao contrário, o não inocente é malicioso, interesseiro e esperto. Assim, ainda que vivamos no mundo temporal, das paixões, do pensamento racional, por algum momento devemos praticar o caminho do monge - o desapego. Somente um inocente consegue desapegar-se.
Os apegados sofrem. Sofrem sobremaneira por causa da existência fenomênica de um ego, que por não ter a inocência, ficam suscetíveis a todas as manifestações da miséria humana. Estão apegados ao próprio egoísmo: de suas opiniões, de seu sofrimento, de seus caprichos, de sua visão estreita de mundo, de seus sonhos e pesadelos, de suas vaidades, de suas neuroses.
Estar com a inocência não é negar o mundo temporal, mas também acreditar no mundo mítico. Penso que o mítico é mais real do que o mundo em que vivemos. A própria inocência pode ser um mito, bem como a existência de monges e praticantes da sabedoria e desapego. Alguns acham que fazer zazen é estar ligado ao mito.Ao invés disso, preferem outras atividades menos ascéticas. Talvez seja mito acreditar na iluminação. Podemos pensar no mito como sendo algo irreal para os não praticantes e mito como real para aqueles que praticam. Se a primeira assertiva é negativa, a segunda nos parece correta, levando-se em consideração o praticante como incorporando o espírito da inocência, que se processa na condição real de existência. A colocação anterior é pura abstração, enquando a outra é experimental. Nesse caso, a inocência é mais autêntica do que as máscaras assumidas pelos não praticantes. Uns necessitam de máscaras, outros não.

quinta-feira, julho 27, 2006

O filho é seu...

Não me lembro do nome do monge, com quem teria acontecido a seguinte história. De qualquer forma, era chinês, isso tenho quase certeza. Assim ouvi a respeito dele. O velho monge vivia numa aldeia e tinha relações cordiais com todos. Sempre ajudou, não medindo esforços para isso. Ninguém alimentava nenhum rancor contra ele, pelo contrário.
Um casal de namorados ficou em apuros quando recebeu a notícia da vinda de um filho. Não era desejável naquele momento. O rapaz desempregado, não sabia como assumir a paternidade. Claro, amava a moça, mas um filho naquelas condições somente iria prejudicar-lhe. Quanto à moça, também comungava de mesma opinião: nada de filhos! Mas o que fazer?
- Podemos dizer que o pai é o monge - disse a moça.
- Isso mesmo - concordou sem pestanejar.
Assim dirigiram-se ao templo e encontrando-se com o monge disseram:
- O filho é seu.
- Ah! é - sem demonstrar nenhuma aflição, o monge tomou a criança nos braços.
Todos da aldeia passaram a repudiar o monge. Não se importando com isso, este cuidou da criança, alimentando-o e educando-o nos primeiros ideogramas ao ensinar-lhe o Sutra do Diamante. A criança cresceu e tornou-se o orgulho de seu protetor. Respeitava todas as formas de vida, inclusive as formigas e lesmas. Quando encontrava um passarinho morto, recolhia o seu corpo e enterrando-o, cobria com pedras. Depois recitava com sua voz infantil as preces ao Bodhisattva Avalokstevara.
Passados alguns anos, o rapaz, o verdadeiro pai da criança reatou com a moça e, como a situação era estável, resolveram reclamar o filho. Explicaram ao monge dos motivos que tinham levado-os a entregarem a criança, mas agora, estavam bem e, por isso, pediam-na de volta.
- Ah é - disse o monge e entregou o filho querido.
Na aldeia todos tinham esquecido do acontecimento. Poucos lembravam que a criança tinha sido entregue pela mãe, acusando o monge de ser o pai. Mas sabedores da verdade, não se importaram com isso. Os que desconheciam a história, ao tomar conhecimento da devolução da criança, acharam normal o filho viver com os pais. Até a raiva que sentiram do monge foi esquecido. Não havia arrependimento para os pais da criança e nem da população. Quanto ao monge, nunca viveu amargurado pela acusação injusta e nem responsabilizava os outros pelo ato insensato.
O monge continuou vivendo como sempre vivera: esmolava, fazia zazen, cantava os sutras e compunha poesia.
Ah é!

terça-feira, julho 25, 2006

sexta-feira, julho 21, 2006

Hacker

Tivemos um ataque ao BLOG! Parece que um hacker, um engraçadinho, publicou comentários elogiosos em todas as mensagens já publicadas até agora. Vou tentar retirar, se não conseguir, desconsiderem tais comentários.

Gasshö,

O Administrador do Blog

quarta-feira, julho 19, 2006

2 tercetos

Noite de inverno.

As mãos ainda quentes

Após o zazen.


Jazem as abelhas

Vítimas de algum veneno.

Manhã de inverno.

terça-feira, julho 18, 2006

Os cabelos brancos

Ainda me lembro como fosse ontem. Uma das mesárias em sua avaliação da monografia apresentada exigiu que o pesquisador tivesse avançado em suas conclusões. Então era uma manhã amena de outono, numa das salas do prédio novo da PUCSP. Por pouco mais de dois anos o colega (tínhamos o mesmo orientador), jovem talento que com menos de trinta anos submetia-se ao programa de mestrado em História versava sua pesquisa na Revolução Mexicana. Tinha por fonte primária as manifestações artísticas, principalmente a pintura. Uma idéia bastante criativa.
De repente, a mesária experiente em sua profissão deu-se conta da idade do pesquisador. Se antes, ela criticava duramente a pesquisa, por sua deficiência, ao olhar para o pesquisador deu-se conta dos acontecimentos: "Você meu jovem, não pode realizar o que propus pois deverá ter cabelos brancos para isso".
Entender algo faz parte do desenvolvimento da vida, quando conseguimos desatar alguns nós das contradições apresentadas nas situações reais. Para isso, não depende unicamente de nossa disposição, mas o mundo oferece condições para tal. Ainda que possamos disfarçar os cabelos brancos com tintura, as rugas com cremes, a celulite com meia elástica, a mente não pode ser disfarçada. Chega-se um tempo que os mais de quarenta são dispensados, os de cinqüenta são descartados e os de sessenta aposentados. Este é o modelo econômico em que vivemos e continuamos a reproduzir no decurso da história. Somos máquina e engrenagem dele. Talvez os mais jovens não entendam estas palavras. Mas não falo a eles. Dirijo-me a vocês, que atravessam esta situação. Como agir? Não seria o momento de mudar a mente decaída na ilusão para a mente da iluminação?
Neste momento, ter cabelos brancos pode ser um grande prêmio. Para o historiador significa sabedoria. Ainda me lembro do semblante calmo e os cabelos brancos em forma de tufos do historiador inglês Eric Hobsbawm, que tive a oportundiade de conhecê-lo pessoalmente numa livraria no bairro do Pacaembu em São Paulo. Era final dos anos 90, beirando o século XXI. O autor marxista que tanto contribuiu na minha formação, em leitura apaixonada para entender o advento do capitalismo nos séculos XIX e XX, estava à minha frente, isento de vaidade, com a calma das grandes inteligências. Nada precisava ser velado para ele, inclusive os cabelos brancos.
Por falar em sabedoria, os mestres do zen são conhecidos por roshi. Quer dizer honorável ancião. No oriente os que ultrapassam os sessenta anos voltam a ser crianças e, por isso, podem se comportar da maneira que bem entenderem sem a crítica dos outros. Num processo cíclico, podemos dizer que a criança vai ser o velho de amanhã, o velho foi a criança de ontem. Mas o velho pode ser uma criança ao viver a esperança desta, em sua pureza ingênua, e a liberdade de desenvolver toda a sua potencialidade criativa pois tem a sabedoria. Dito de outra forma, todos deveriam se tornar monges antes que seja tarde. Abandonem toda a vaidade. Ao invés de tingir os cabelos, cortem-nos. Serão livres definitivamente ao ponto de comungar com a sabedoria tão próxima de nós, que ainda não temos capacidade de perceber.

segunda-feira, julho 17, 2006

O grau de entendimento

Seria grande pretenção dizer que eu tenha entendido alguma coisa a respeito da prática zen. Entretanto, algo mudou em minha vida nestes dezoito anos de ordenação como monge. Nos primeiros cinco anos apenas sentia o objeto da verdade ainda coberta por uma camada de verniz. Época em que a dúvida confundia-se com as minhas crenças, quer dizer falta de crença, que apontava para o total ceticismo. Mais tarde entendi, pela primeira vez, que para a existência do cético era necessário a sua contraparte: o ego cético. Com ênfase, quem duvidava era o ego criado pelas circunstâncias apresentadas em minha vida. Uma vez que este ego foi abandonado a duras penas, não apenas por opção, mas também pelas condições que me cercavam, a mente girou num ângulo inverso. Penso que antes, a prática zen tinha sido norteada através de uma dialética em oposição ao mundo que negava. Não precisamos negar nada. Ao invés disso, poderemos dar menos importância à mente que nega ou que afirma.
Ainda que a mente viaje numa velocidade bem acima dos movimentos do corpo, tornando incompatível uma sintonia entre a matéria e o espírito, causando desastres, é pela mente que o entendimento num primeiro instante se realiza. Por isso, gostamos tanto de literatura. Adoramos os livros de Shunryu Suzuki, de Thich Nat Hanh, de Deshimaru e outras porções informativas que acabam por nos inspirar. Através destes entendemos o fim último da prática, sem, no entanto, ter experimentado o processo. Por isso, na tentativa de treinar o corpo da maneira como a mente recebeu as informações surge a primeira frustração: o corpo não realiza aquilo que a mente sabe. Não demora muito para o praticante desistir. Desistência esta que se justifica por causa do ego, que não suporta a humilhação de ter que repetir constatemente exercícios que demora para ser assimilado. Quem sabe, se a mente tivesse sido abandonada o corpo aprenderia com mais rapidez. Talvez por insegurança, o ego não foi abandonado.
E quando o ego não é abandonado, ainda ele conserva como depositório de frustrações, medos, recalques, caprichos e todo uma parafernálida de lixo cármico. Poderíamos dizer que a eliminação do carma ocorre na mesma proporção que o abandono do ego. Mas isso não acontece pois a ilusão engana os nossos sentidos. E sentimos tudo emanados pela ilusão.
Também agi bem intencionadamente mas preso em minha ilusão. Crente na eficácia de um treinamento rigososo, esqueci que os graus de entendimento dos praticantes eram diferentes. Alguns aprendem rápido. Outros, totalmente condicionados a agirem de forma inadequada entendem de forma errada ou ainda lenta. Lembro-me como atuava o mestre Koichi Miyoshi, de maneira diferente conforme o praticante. Ele sempre foi muito rígido comigo, medindo a minha paciência e provocando incessantemente a minha auto-estima. Nunca reclamei disso, pelo contrário. Enquanto isso, ele se desfazia em delicadezas com outros praticantes, igualmente discípulos dele. Incapaz de dirigir-lhes uma palavra indelicada, para o mestre Miyoshi havia "duas moedas e duas medidas". Com ele aprendi que não temos que ser iguais para todos, pois entre estes há diferença. Se a compaixão para os fracos é a docilidade, para os fortes é a exigência extremada. Os mestres sabem como tratar cada um de seus discípulos, de acordo com o entendimento de cada um. Agradeço por ele ter sido intransigente comigo.
Para os excessivamente apegados a um eu próprio, fechar os olhos para isso pode ser uma falsidade, mas tornarmo-nos senhores da verdade, fazendo tudo para a destruição de sua ilusão pode ser leviano. Seria melhor que o fluxo da correnteza do dharma possa carregar as folhas da ilusão, quando estas desprenderem-se do galho. E folha verde não cai. Resiste.

Ipês espalhados

Ipês espalhados.
Saltitando na calçada
o velho e o menino.

sexta-feira, julho 14, 2006

A flauta

Antes mesmo do aparecimento dos grandes mestres do zen japonês, houve um em que os registros comentam laconicamente a respeito. Sabedor de que um novo entendimento de budismo tinha aparecido no Japão, o dirigente de um feudo chamou-o para uma explanação. Toda uma comitiva foi convidada para o evento. O monge surgiu cabisbaixo, sem nenhum ornamento e dirigiu-se diante de toda a platéia e retirou de sua bolsa uma pequena flauta. Apenas uma nota e se foi, sem nada mais dizer. Nunca mais se ouviu falar dele.

terça-feira, julho 04, 2006

Determinação

"Quando corvos encontram uma serpente moribunda, agem como águias. Quando me vejo como vítima, sou ferido por frívolos fracassos."

Shantideva

segunda-feira, julho 03, 2006

Cerimônia do Chá II

Fazendo o que Deve ser Feito Como Deveria ser Feito

Com 80 anos de idade, o mestre chinês Zhaozou era abade no templo Guanyinyuan de Zhaozou, onde por um período de 40 anos ensinou sua versão pessoal do Zen. A seguinte estória é sem dúvida ligada ao templo Guanyinyuan.

Certa vez um noviço veio até Zhaozou e perguntou, "Sou um noviço, você tem alguma instrução para mim?".

Zhaozou disse: "Já tomou o desjejum?".

O noviço respondeu, "Sim, já".

Zhaozou então disse, "Se você já terminou o desjejum, lave sua vasilha".
Em outras palavras, faça o que deve ser feito como deveria ser feito.

Este é o Budismo e é bem parecido com o que Keizan Zenji queria dizer quando disse, "Quando é hora para o chá, beba; quando é hora da refeição, coma".

A essência da cerimônia do chá é a mesma coisa. Uma vez que a lista de convidados é determinada, o anfitrião prepara tudo meticulosamente no mesmo dia em que os visitantes chegam. No dia da cerimônia do chá, checa mais uma vez para ter a certeza de que tudo está certo. Pendura o pergaminho e o arranjo floral na sala de cerimônia do chá. Varre o pavilhão de espera, rega as plantas na passagem do jardim e aguarda os convidados. Ele faz tudo o que deveria ser feito. De fato, diz-se que a cerimônia do chá consiste em fazer as coisas que deveriam ser feitas todos os dias na sua totalidade.

Reportagem publicada na revista "Caminho Zen", vol. 8, nº 1-2003, pgs. 4-8, publicada pela Sotoshu Shumucho. 2ª parte.

domingo, julho 02, 2006

Ipê rosa de minha (nossa) rua



Diante de mim

a flor de ipê flutuando.
Meus olhos despencam!

Apenas um sorriso no rosto

Toda vez que olho diretamente para a imagem de Buda, aquela que orna o altar do Templo Busshinji, sinto uma imensa alegria. Há naquele rosto um sorriso misterioso. Seus olhos finos, orelhas grandes e nos lábios um silêncio que fala profundamente em nossa sensibilidade. De onde quiser que estejamos, ele nos sorri. É um sorriso encorajador: jamais desistam! Mais do que isso, é um sorriso de compaixão. Quebra na hora qualquer resistência, o nosso egoísmo; as carrancas se desfazem e a ignorância desaparece. Inspirado naquele sorriso, não pude deixar de revelar em meu rosto um pouco de sua magia. E passei a procurar no rosto dos outros sorriso parecido. O rosto de Buda deve haver muitos no mundo mas um deles, para mim, foi o mais significativo.
Naquela manhã, durante o kyoten, alguém de corpo esguio, de passos leves, quase desapercebido aos ouvidos, sentou-se próximo a mim. Somente após as duas sessões matutinas do zazen, percebi de quem se tratava. Ela tinha freqüentado o templo em 2001, logo percebi. Uma maneira peculiar de segurar o zafu (abraçado). Assim tinha ensinado o Superior Miyoshi. Depois mudamos, adaptando a forma da maneira correta, utilizada atualmente nos mosteiros japoneses. Bem, não era este o assunto que interessa. Retornemos àquela moça. Convidamo-a a participar do choka - cerimônia matinal. Terminada esta, ela sempre mostrando um enorme sorriso, de maneira expontânea e escancarada, pediu para orar diante de Kanzeon Bosatsu. Nada anormal aquela atitude. Muitos fazem isso, de manhã. Sempre bastante discreto, dirigi-lhe a palavra demostrando a minha felicidade de vê-la novamente no templo. Ela disse que iria ao Hospital das Clínicas. Sabia que ela vivia em Foz do Iguaçu e vinha às vezes a São Paulo. Em minha ingenuidade, pensava que ela fosse alguma aluna de medicina em estágio. Ledo engano. Depois que ela se foi, através dos amigos mais diretos em suas especulações, soube que ela tinha uma doença muito grave. Estava explicado o motivo das viagens.
Aquela moça, que não me permito revelar o nome, tinha o mesmo sorriso de Buda. Com todos os problemas do mundo, uma doença, ainda assim não tinha perdido o inocência: sorria. Depois disso não a vi mais. Tenho o seu endereço, mas não me encorajo escrever-lhe. Foi esta uma das melhores lições em minha vida e aquele encontro não foi por acaso. Toda vez que me lembro disso, não tenho motivos para reclamar.

quinta-feira, junho 29, 2006

A miséria do eu

Algumas palavras produzidas culturalmente e, desta forma, criando raízes como ervas daninhas na mente, contribuem para o condicionamento de nossa atuação no mundo. Uma destas, diz respeito a nossa pessoa, ou seja eu. Primeiro pessoa do singular.

Eu faço
Eu sinto
Eu penso
Eu conquisto, e assim por diante.

Mas toda vez que faço, tenho que arcar com as conseqüências. Assim sendo, tudo que faço acaba repercutindo em todas as dez direções. Como uma onda vibratória, a tudo acaba afetando, de maneira positiva ou não.
Quando eu sinto, talvez raiva, talvez compaixão, da mesma maneira me coloco como ser do mundo. Existindo a raiva discrimino a minha relação com o todo. Mais do que nunca o eu sobressai-se, sendo a raiva um instrumento para esta projeção. Maior a raiva, maior é o ego. Posso dizer também, estou bravo. Estado patológico de desequilíbrio emocional, um ego ferido que necessita produzir a contraparte. Por isso, o eu bravo precisa descarregar sua sandice no outro que causou-lhe tal arrebatamento. Assim, o ego vai se inflando na medida em que as emoções apaixonadas dominam o sistema nervoso. Outrossim, a respeito da compaixão, penso que a colocação não seria do tipo "eu sinto compaixão..." Melhor posto, a compaixão deve estar isenta de um eu. Se pratica atos compassivos quando o eu não pensa, ou seja o eu é vazio.
Colocando desta forma, um eu vazio, não sente raiva e também não sofre.
O sofrimento, conhecido também por dukkha, é gerado pela existência do eu. Um eu que realmente não existe, mas apenas um fantasma nascido de nossas ilusões. Quando o eu pensa, cria projeções, que não realizadas geram sofrimento. Se o eu pretende conquistar, uma vez que vê seus planos irem água abaixo, então o eu sofre. Maior o sofrimento, maior é o eu. Por isso, para o ego aparecer em toda a plenitude precisa sofrer. Quer dizer: eu sofro, na mesma medida que eu conquisto. Sofro quando não levo vantagem alguma nas minhas relações com o mundo.
Ao se falar no eu, o instante seguinte é o pronome possessivo Meu e Minha.
Minha casa
Meu carro
Meus filhos
Minha esposa
Meu emprego
Meu dinheiro

Se minha casa pegar fogo, sofro.
Se meu carro bater, sofro.
Se meus filhos se forem, sofro.
Se meu emprego eu perder, sofro.
Se meu dinheiro faltar, sofro.

Tudo aquilo que torna o ego o centro do mundo, sendo o resto um apêndice daquele, então o sofrimento continuará existindo. O sofrimento não existe se não existir um eu fortalecido. Assim como os atos de autocomiseração tornam o eu uma enorme fonte de profundo egoísmo.
Mas destruir o eu gera controvérsia, porque ninguém quer se desfazer dele. Basta um eu ferido para todo exercício de sua anulação se frustar!

quarta-feira, junho 28, 2006

Cerimônia do Chá I

Como estamos reintroduzindo a Cerimônia do Chá no Busshinji, que deverá acontecer uma vez por mês aos sábados depois do zazen, acho que será interessante publicar aqui textos sobre a cerimônia, originais da Reportagem publicada na revista "Caminho Zen", vol. 8, nº 1-2003, pgs. 4-8, publicada pela Sotoshu Shumucho

Zen o chá

Na China durante o período Tang, o mestre Chan (Zen) Zhaozou (778-897) criou um koan ou enigma sobre os Três Drinques de Chá. E desde então, a relação entre o Budismo Zen e o chá tem sido profunda. Budistas - especialmente sacerdotes Zen - tiveram papéis importantes na introdução do costume de se beber chá no Japão: Saicho (767-822), Kukai (774-835), Eisai (1141-1215) e Bennen (1202-1280). O costume de beber chá foi organizado na cerimônia do chá pelo monge Zen Ikkyu (1394-1481) e por Murata Shuko (1422-1502), um discípulo de Ikkyu, que certificou-se que havia atingido a iluminação. Murata disse que, desde que a cerimônia do chá nasceu do Budismo Zen, os seus estudantes devem se basear na etiqueta Zen. Também disse que a cerimônia do chá incorpora o Budismo e que estudar a cerimônia do chá é uma maneira de assimilar o Budismo.[Incidentalmente uma cerimônia diferente do comum chamado sencha foi introduzida no Japão no início do século 17 por um monge Zen Chinês chamado Yinyuan.].


Por isso, muito do que hoje se pensa que é a cultura japonesa, tem suas raízes espirituais no Zen e se origina do grande florescer cultural dos séculos 15 e 16.

Vazio

Onde houver um problema, estará lá, ocupando o mesmo tempo e espaço, a solução. Portanto, não existe problema, não existe solução.

terça-feira, junho 27, 2006

Banheiro do templo x vestiário de futebol.

Há alguns anos durante um sesshin, num período de intervalo, um grupo de praticantes encontrava-se no banheiro, entre eles, eu. Automaticamente o clima tornou-se descontraído, todo mundo falando alto, fazendo brincadeiras e gerando altas gargalhadas. Era como se livres dos momentos de disciplinada interiorização precisácemos voltar ao nosso familiar estado de exacerbação. No meio daquele tumultuado ambiente, que mais parecia um vestiário de futebol, e em meio à minha própria exaltação interior, algo soou-me estranho. Algo estava fora de lugar. Senti um mal-estar e de repente passou pela minha mente uma suspeita. Imediatamente calei-me e sai do banheiro confirmando o que suspeitara: por todo o salão ecoava o alarido eufórico. Em meio ao barulho Sokan Koichi Mioshi tentava travar uma conversa com algumas pessoas. Meu olhar cruzou com o de uma monja que acompanhava a conversa do Mestre. Senti-me profundamente envergonhado. Sem que uma palavra fosse proferida, reconheci meu erro e fiz uma reverência desculpando-me à ela, que respondeu ao meu ato com outra reverência. Conscientizei-me que era preciso estar atento para que cada coisa estivesse em seu lugar, em benefício da harmonia. A atitude correta no lugar correto. Além dos momentos em que sentamos, o zazen continua nas demais dependências do templo e se estende para fora de seus muros.

Águas de minha mente

Num poema de Dogen Zenji, ele diz o seguinte:

Sem impurezas
As águas da mente
Mesmo que as ondas quebrem
Continuam a refletir.

Muitas vezes Miyoshi Roshi fazia a respeito uma alusão, dizendo que a mente contém impurezas que não podiam ser eliminadas em pouco tempo. Destas impurezas, três são as piores: apego, ignorância e raiva. Chamados também por "Três Venenos", estes eram o sedimento de toda a nossa ilusão. Para ser mais objetivo, temos que reconhecer a existência destas ervas daninhas da mente e, na medida do possível, conviver com eles. O reconhecimento se dá através do zazen. É através do zazen que conseguimos abaixar a sujidade da água de nossa mente. Não quer dizer que a mente se tornou limpa, só fazendo zazen. Não se dá desta forma. Acontece que quando fazemos zazen as nossas impurezas continuam a existir, entretanto temos a capacidade de acalmar os nossos sentidos. Se agirmos conforme os nossos ânimos, a nossa raiva, então nos tornaremos feras, atacando todos ensandecidos pela febre da paixão.
Dizia Miyoshi Roshi que a mente assemelhava-se a uma lagoa num noite tranqüila de outono. A lua imensa, redonda, refletia-se no espelho d'água. Eis que alguém atira uma pedra. A turbulência da água forma imagens distorcidas e a lua surge refletida em total irrealidade. Vista desta forma, esta lua é a mente apegada aos sentidos dos três venenos. Não se trata mais da lua verdadeira. É uma mente perturbada, que enxerga tudo conforme os caprichos da ilusão. Assim sendo, ao se sentar em zazen a mente perturbada, que se assemelha a lagoa da pedra atirada, vai retornando ao seu estado anterior, de tranqüilidade. Existindo a atenção do zazen, os três venenos também perdem força e tudo se torna mais claro.
Portanto, admitamos os três venenos e a nossa mente perturbada. Sabendo disso, podemos identificar imediatamente quando os venenos surgem em nossa mente. A raiva surge de repente, devido o meu apego e minha ignorância. Existe apego porque há raiva e ignorância. E a ignorância é conseqüência de minha raiva e apego. Não obstante, quando eles surgem não consigo eliminá-los de vez, pelo contrário, sei de sua existência e não me importo com isso. Talvez até mesmo alimento-os em minha perturbação. Se trata de um equívoco. Talvez o mais correto seja não me importar inclusive com o seu surgimento: não faça que cresça, nem que diminua. Deixe como está, como no zazen. Assim ele se desfaz em menor tempo.
Como ilustração vale citar uma experiência vivenciada, que me causou grande mal estar. Quando da defesa de dissertação em História, uma colega conseguiu obter em sua defesa a nota 10 com distinção. A minha avaliação não tinha sido tão boa assim. Durante os três anos, estive ao lado daquela colega, freqüentando os mesmos cursos, participando juntos de congressos e grupos de estudos. Na verdade, eu era um pouco mais disciplinado que ela. E, de minha parte, a criticava por isso. Mas no resultado final, ela recebia os louros da vitória. Fiquei mal. Sabia que em minha mente existia os sintomas patológicos de uma ciumeira incontrolável. Era isso mesmo. O cíume me corroía. Tinha consciência de sua existência e queria extirpá-lo de minha mente sem, no entanto, almejar sucesso. Passei quase um mês desta forma, quando aquele sintoma foi desaparecendo. Sem nenhuma culpa, assumi meu corpo da prática.

segunda-feira, junho 26, 2006

A transmissão e a dificuldade da transmissão

No Morro dos Abutres Buda tinha diante uma multidão, quando, de súbito, levantou um galho com uma flor. Apenas o sorriso de Mahakasyapa iluminou-se, sem que os outros nada entendessem. Nenhuma palavra. Um gesto apenas. Nesse momento, o Honorável Mahakasyapa recebeu a transmissão do Dharma.
Quando Eihei Dogen esteve treinando em Tenzo-zan, na China Song, o mestre Nyojo corrigia seus alunos com rispidez. Não tolerava que eles adormecessem durante o zazen. Se isso acontecesse, se toda a atenção se perdesse, Nyojo não media palavras e ameaçava com todas as formas de agressões verbais e físicas. Foi quando um grupo de monges resolveu pedir que o mestre fosse mais afetuoso e tolerante com eles. Em lágrimas, Nyojo explicou a sua postura: "quero que vocês entendam e por isso, ajo desta maneira". Havia no mestre chinês uma profunda compaixão.
A relação entre o mestre e o discípulo é enérgica, sem a qual a transmissão não se realiza. Meu mestre Miyoshi foi uma incógnita em minha vida. Exigia de mim mais do que dos outros. Em outras palavras, exigia de determinados discípulos mais do que de outros. E cheguei a seguinte conclusão: a dureza para uns era compaixão, a docilidade para os outros era compaixão. Para uns, a dureza formava o caráter e criava resistência para a prática. Para outros, a docilidade significava uma profunda compaixão devido sua debilidade.
Quando da transmissão do dharma, disse-me que teria que copiar toda a linhagem com pincel em tinta carvão. Tarefa difícil, mas a executei. Passei o Ano Novo copiando sem errar a linhagem toda. E da viagem a ser realizada ao Japão, tinha arrumado um companheiro que me levaria junto ao mosteiro. Ao saber disso, desencorajou o rapaz e disse: "quero que ele vá sozinho". Nunca tinha viajado só ao Japão, muito menos sabia como usar os transportes internos. Hoje entendo a sua preocupação. Ele queria que eu criasse resistência para andar com as próprias pernas, sem necessitar muletas. Queria que nem mais dependesse dele.
Li uma vez uma colocação oportuna do Dalai Lama. Dizia ele que as pessoas não necessitavam se tornar budistas para viver em paz. Aliás, "o budismo é uma prática difícil, para poucos". O entusiasmo pelo budismo acaba quando o amor próprio suplanta o amor pelo todo.
Destruir o ego é a principal prática do budismo. Não apenas o ego da exaltação, mas também o da comiseração. O sofrimento é gerado pelo karma, e também pela existência do ego. Este sofrimento é ilusão, podemos dizer apêgo. Apêgo a um eu que sofre. O eu existe porque sofre. Quanto maior é o sofrimento, maior é o ego. E quem sofre, envolto num círculo vicioso, necessita sofrer mais ainda para o ego aparecer com intensidade. Não teria sido por causa do sofrimento, que o jovem Sidharta resolveu abandonar o conforto para entregar-se à ascese? Mas também qual foi a resposta de Bodhidharma a Eka, que reclamava por estar com o espírito intranqüilo? "Traga o espírito aqui, que o tranqüilizarei". Pensou um pouco e Eka rebateu: "Procurei-o por toda a parte, mas não o encontrei". "Bem -disse Bodhidharma- se não a encontrou, então já está tranqüilo". Sem ninguém para o alimentar, o sofrimento diminuiu de intensidade.
A prática budista rege-se pela busca da Iluminação. Se enquanto a mente estiver amarrada numa trama de preconceitos, valores temporais e abstratos, em fantasmas de nossos medos, então a prática se torna muito mais difícil de lograr êxito. Ao contrário, a inocência de nossos atos, a simplicidade de nosso pensamento, estão muito mais próximas da Iluminação. Disse o poeta alemão Holdërlin: o homem quando sonha torna-se num deus; quando pensa torna-se num mendigo.

terça-feira, junho 20, 2006

Entre errar e o redimir

Algumas categorias utilizadas no budismo são mal interpretadas, causando uma profunda confusão nas mentes dos iniciantes. Possivelmente a influência cultural vinda da tradição judica-cristã, como a noção de culpa, difícil de ser erradicada do corpo e mente, torna a prática menos eficiante. Dizemos de outra forma: errada. Não se trata de ignorância mas de um completo condicionamento da mente. Sei que os ocidentais cristãos sentem culpa. Por isso, devem se desculpar diretamente a um ente sobrenatural e abstrato, crença monoteísta de punição e salvação. Em linguagem japonesa, o perdão que se pede a deus chama-se zangue. É uma situação de extrema entrega, um ato de fé, para não ser castigado e de reconhecimento da condição submissa.
Quando estive no Japão, falei a respeito a um monge japonês. Disse que na infância, quando fazíamos a comunhão tínhamos que confessar os nossos pecados a um padre. Sem muita consciência do que estava acontecendo, ao refletir sobre os meus erros, o que me vinha era a minha relação, às vezes, pouco amigável com um gato. Ao brincar com ele, puxava o seu rabo. Assim me confessava "eu puxei o rabo do gato, pisei nas flores de minha avó, derramei água no sapato do meu irmão". Assim me arrependia dos meus pecados. Não sabia com propriedade, mas o padre com ênfase levava o meu ato de arrependimento a deus. Estava livre do pecado, pois tinha se arrependido. Na semana seguinte repetia o mesmo erro, e ia se arrepender novamente. Ao ouvir minha esquisita história, o monge não mediu palavras: "não acho que você devia pedir perdão ao padre e nem a deus; você deveria se redimir com o gato!"
Desta vez, não era mais o arrependimento submisso e temente, conhecido por zangue, mas sangue. Quer dizer, se cometi algum erro, caso houvesse reconhecimento, deveria se procurar pelo lado ofendido e não deus. Também, não houve culpa mas ação cometido intencionalmente ou não. Em budismo toda ação é karma. E todo karma repercute no universo inteiro, de maneira benéfica ou não. Não existe karma individual, senão coletivo. O fato de ser o filho de meu pai, de ter nascido no Brasil, morar em Santo Amaro se deve a karmas presentes, passados ou futuros. Estar treinando num templo zen também é um karma. Penso que devemos usar justamente o karma para viver melhor: condições propícias deste momento, ou seja o lugar, tempo e relacionamentos.
Enquanto, ao meu ver, o zangue diz respeito a um ser exterior, o sangue é exclusivamente de nossa responsabilidade. Um praticante do dharma não vive pensando em recompensas ou punições. Mas como um ser errante, admite isso, pode se inspirar a fim de desenvolver uma prática muito mais criativa e alegre. O então Superior Miyoshi dizia sempre que o budismo era para tornar o homem mais humano. O sangue, entendido como uma atitute de responsabilidade do praticante convicto, todos os erros cometidos no fluxo do karma, e se for de seu entendimento, pode ser anunciado com sinceridade. "Eu me arrependo por ter cometido tais erros e assumo a responsabilidade não cometê-los de novo", assim age.
Vamos a um exemplo concreto. Meu vizinho gosta de ouvir música sertaneja em alto volume e prejudica a minha tranqüilidade. Fui falar com ele, que me recebeu mal e sem se importar, continuou a música. Irritei-me e lancei uma pedra na vidraça dele. Refeito de minha raiva, percebi o mal cometido. Nesse caso, posso pedir perdão a deus (zangue) ou diretamente ao vizinho mas sem pagar o vidro (zangue). Posso alegar, cometi um erro mas você também estava errado. Mas um praticante do dharma, ao se arrepender, pede desculpas ao vizinho e paga o vidro quebrado (sangue). Existe uma diferença clara.
No Busshinji, certa vez estava acompanhado de um monge que viu sobre a estante um quadro com vidro quebrado. Foi quando perguntou irritado: "quem foi o responsável pelo prejuízo". Neste momento uma monja aproximou-se com as mãos em gasho e confessou submissa "fui eu". Ela pensava que uma simples confissão a redimia do erro. Mas o quadro continuava quebrado. No caso, houve zangue e não sangue. Simples palavras "fui eu" não era suficiente para livrá-la do karma, pois o quadro continuava quebrado. Nem mesmo a confissão era necessária, mas a disposição dela em consertar o quadro danificado. Em suma, não houve um arrependimento verdadeiro, apenas palavras vazias, distanciadas da prática.
Uma outra situação em que podemos praticar a verdade. Aos sábados os alunos leigos do Zen têm a oportunidade de realizar tarefas como nos mosteiros. São responsáveis pela harmonia produzida na cerimônia em que se canta o Sutra do Coração e da Grande Sabedoria. A palavra chave é responsabilidade. Por harmonia entendo a realização de tarefas coletivas, mantida a atenção, em que todos se esforçam ao esmagar o próprio egoísmo, estando em sintonia com a compaixão e sabedoria do Buda. Nesta ocasião não se deve errar nos toques do sinos do densho e nem dos sinos do sogei. Em hipótese alguma pode-se derrubar os sutras. De todos os erros, o maior é deixar cair os sutras. Cuidado entregadores de sutras, vocês são os responsáveis. Caindo um livro, o entregador deve se submeter ao Sanja. Fazer sangue. Dizer que o outro deixou cair, e não ele, não o isenta da ação negativa. Tarefa executada pelos que receberam a ordenação, pois ostentam o rakusu, o manto de buda, assumem a ação cometida. Um leigo não ordenado não entrega livros.
Antes de tudo, realizar Sanja, fazer sangue, não é condição de submissão, pelo contrário. Mas mesmo assim, se não puderam reconhecer o erro, eu próprio farei Sanja não no lugar dele, e nem por ele, mas por mim mesmo. Errei por não me fazer entender. Errei por ter falhado na tarefa confiada pelo Superior Saikawa. Errei por ter falhado com o meu mestre o então Superior Miyoshi em tornar a sanga um grupo melhor na prática do dharma.
Se a minha disposição não chegar a tanto, fingirei ser monge e fingirei que tudo está certo, quando na verdade tudo está errado. A prática do budismo não é um passatempo, um remédio paliativo para dirimir minhas febres. Os que assim pensarem, devem procurar outros caminhos e não o budismo.

sexta-feira, junho 16, 2006

Esvaziando a mente

Quando comecei a praticar o zazen, aos sábados, na segunda metade da década de 80, após o término das sessões, todos se retiravam. Não se falava muito. Uma vez, fiquei conversando no portão de entrada com um colega a respeito de um assunto pendente. Foi quando o monge responsável pelo yaza (zazen da noite) nos viu e me advertiu em japonês: "Não se deve ficar aqui conversando, senão o zazen perde o seu valor". Encerrei a conversa mas tal chamada nunca mais esqueci.
A finalidade dos encontros no Busshinji é justamente o zazen. Não se vai por outro motivo. Se o zazen é um processo de eliminar as impurezas da mente, as ervas daninhas da ilusão, não temos que imediatamente após o mesmo criar condições para retornar à situação anterior. Após o zazen ainda a mente se mantém em alerta: harmonia entre todos os seres vivos. Conversar amenidades é o mesmo que pisar na poça de lama. Sujamos a calça e a nossa mente. Dito de outra forma, não prolongamos o ato de zazen mesmo após o seu encerramento. Penso que o zazen não se encerra quando nos levantamos, pois a mente não corta o efeito de súbito. O zazen se prolonga por mais alguns instantes, dependendo do grau de aproveitamento de cada praticante.
Há muitos deles, os que querem que o zazen se estenda um pouco mais, querendo usufruir dos momentos de tranqüilidade e abandono. Outros, quem sabe, querem que o zazen se encerre o quanto antes, pois ficam irritados com a demora de seu término. Alguns vão fazer zazen para relaxar, outros para dormir, outros ainda como acomodação terapêutica. Cada um tem um zazen de acordo com sua disposição e entendimento. É uma pena os que agem de maneira equivocada. Perdem tempo. Enganam-se a si, com esta atitude egoísta, enganam a todos que levam a sério o budismo e sua prática sistemática.
O zazen não deve ser uma atividade a mais nas tardes de sábado. Alguns, talvez, se predispõem a ir nos finais de semana para encontrar os amigos. Depois do zazen vão ao cinema, a um jantar nos restaurantes da Liberdade, ao baile ou cair na gandaia. Pode-se fazer tudo isso, mas o zazen não deve ser visto com uma das atividades. Se for, cai no senso comum. Não se entendeu por quê fazer zazen. A respeito disso, me perguntei muitas vezes. Muitas foram as respostas, das mais louváveis às mais comuns. Cheguei a pensar que fazia zazen porque havia miséria na cidade de São Paulo, guerra no Haiti, fome na África, violência nas favelas. No momento, nada podia ser feito por mim, senão o zazen. O zazen não era uma fuga de minhas responsabilidades. Havia naquela zazen compaixão e clareza do que era o mundo da cultura. Agora faço apenas zazen. Não importa se a sala está cheia ou sem ninguém. Recentemente houve pânico pela cidade, era 2a.feira: o PCC estava atacando os postos policiais. Nada poderia ser feito por mim, apenas zazen. Se tivesse me retirado mais cedo, esquecendo o zazen, equivaleria ao capitão que abandona o navio. Se nem o monge faz mais o zazen, o que dizer dos leigos? Daí, a importância de se fazer zazen. E não existe liberdade maior do que sentar-se em zazen. Desse privilégio não podemos nos abdicar.

quinta-feira, junho 15, 2006

Os cabelos brancos de um careca

São através de pequenas colocações que os nossos mestres do Dharma nos transmitem fagulhas da Iluminação. De maneira direta, o Superior Miyoshi não deixou escapar: "depois de muito tempo, encontro-me com um conhecido que ao se dirigir a mim anuncia 'mas como você está bem, parece mais jovem' ". Ele manifestou ter se irritado com tamanha hipocrisia. Afinal, como alguém pode dizer tamanha mentira. "Não se fica mais jovem com o passar do tempo", desabafou ele.

O peixe e o pássaro

Assim ouvi do então Superior Miyoshi, numa de suas intervenções: " um peixe não sabe que é um peixe, um pássaro não sabe que é um pássaro; nem o peixe sabe que nada e nem o pássaro que voa; o peixe apenas nada, o pássaro apenas voa.

O cão e o gato

Descendo a rua da Glória, a mulher segurava numa das mãos a corda que sustentava a coleira do seu cão. Lá ia saltitante, quando, de chofre, numa casa abandonada alguns filhotes de gato resolvem desgarrar-se da mãe e avançam em direção à calçada. O cão se assusta e se afasta, cruzando a frente de sua dona. Os gatos páram por instantes. É quando a dona do cachorro tenta espantar os felinos, calcando forte os pés no chão diversas vezes. Quem passava nas proximidades não entendeu a atitude inusitada: a dona do cachorro tentando defender o seu "pet" de uma ataque de gatos ainda não desmamados. Ao se ver notada, a mulher não disfarçou certa vergonha, pois corou na hora e revelou um sorriso desajeito no canto dos lábios.
O senso comum tem demonstrado que os cães correm atrás dos gatos e não o contrário. Lembro-me do gato Chuvisco (desenho animado) atacando os ratinhos, mas o mesmo gato sendo encurralado pelo feioso cão buldogue. Neste, o gato leva o pior. De olho roxo, por cima de sua cabeça circulam passarinhos cantarolando.
Talvez a cultura tenha nos ensinado que o gato deve temer os cachorros. Mas na realidade, esta situação não acontece. O cão descrito ao se assustar com os gatos, não sabia que era um cão e nem que deveria correr atrás dos gatos. Por sua vez, os gatos possivelmente não sabiam o que era um cão. Assim sendo, nem o cão sabe que é um cão e o gato que é um gato. Entretanto, quando crescem um cão acaba se tornando um cão, da maneira como um cão deve ser, o mesmo ocorrendo com o gato. Em se tratando do cão, tenho as minhas dúvidas: ele se parece mais naquilo que a sua dona desejaria dele. Um poodle, por exemplo, apesar de macho, tem um requebrado e um porte que lembra um membro da Parada Gay. Um rabo esculpido como um ponpon. De outro lado, um pitbull, mal encarado, puxado na coleira por um homem mal encarado, usando camiseta sem mangas, em cujos braços tatuagens azul e vermelho ressaltam-se. Não acho que o pitbull seja tão mal assim, ao contrário de muitos dos seus donos. Nem um poodle tão afrescalhado como deseja as suas donas.
Quando penso nisso, fico aparvalhado. Será que não sou como os "pets" que se transformaram naquilo que os outros desejam? Queria ser como os filhotes de gato, abandonados, ainda não foram contaminados pela cultura. Por quê temer o cachorro? Quem sabe, três gatos juntos sejam capazes de colocar um cachorro para correr? E como gatos que nada sabem ainda, não precisam temer os cães, principalmente aqueles que perderam a autênticidade. Não acredito em determinados cachorros, estes que despertam suspeitas: roupinha no corpo e sapatinhos de lã. Deixaram de ser cachorros a fim de satisfazer as carências de suas donas. Merecem ser trucidadas pela garras felinas de um gato.

Dois cães

Essa história foi contada na sala de espera do veterinário:

"Uma mulher foi viajar, de férias, e levou seu cãozinho, um adorável poodle preto.
Quando já se encontrava no exterior, o cão veio a falecer. A mulher, muito triste com a perda do pequeno companheiro, decidiu despachar o corpo do animalzinho de avião para o Brasil, de forma que ele pudesse ser enterrado no jardim de sua casa. Para isso, instruiu a filha a ir buscá-lo.
E assim foi feito.
Porém, quando a encomenda foi descarregada do avião, os funcionários da companhia aérea estranharam aquele volume e, conferindo-o, verificaram se tratar de um cão morto. Assustados, pensaram que o cão havia sido despachado vivo, mas por engano embarcado no compartimento não pressurizado, vindo, assim, a morrer.
Após um momento de pânico, alguém sugeriu: 'e se comprássemos um cão igual e o substituíssemos?'
Dessa forma fizeram: saíram em busca de um poodle preto, com as mesmas características, e logo voltaram com o substituto.
A filha, conforme o combinado, foi ao aeroporto retirar o corpo do bichinho de estimação da mãe.
Qual não foi sua surpresa, porém, quando os funcionários lhe entregam um saltitante e barulhento poodle vivo!
Após muita gritaria, telefonemas internacionais e panos quentes, a confusão foi esclarecida.

Hoje o cão original repousa enterrado sob a goiabeira do jardim, enquanto o novo bichinho corre e brinca travesso pela casa, alegrando a toda a família.
Menos à avó, que acredita em fantasmas."

No Shodoka, está escrito assim:

O que é o bem, o que é o mal?
Os homens não o podem saber.
O que vai no bom sentido
ou contra a corrente?
Mesmo o céu não o pode medir.

sexta-feira, maio 26, 2006

A prática da plataforma

Nos horários de pico, a entrada nos vagões do metrô é sempre bastante tumultuada. Ainda antes de as portas se abrirem, muitos invadem a área delimitada pela faixa amarela, se acotovelando à espera de que o vagão pare. Apesar de haver faixas indicativas para organizar filas, todos se aglomeram, comprimindo-se desordenadamente. Assim que as portas se abrem, aos empurrões as pessoas entram no trem. Nesse momento não se respeita a posição na fila ou a idade, é cada um por si, à procura dos melhores lugares. Podemos sentir raiva com essa falta de educação, afinal estamos ali parados certinhos na fila. Podemos também, aos trambolhões, defender nossa posição na entrada do vagão, não permitindo que outros tomem a nossa frente. É possível, ainda, ceder a passagem, à espera de que todos entrem, para só então procurar embarcar. Nesse caso, corre-se o risco de se ficar de fora, e isso levará a um atraso em nosso caminho. Outra possibilidade é acordar mais cedo e evitar o horário do rush. Também é possível abandonar essas considerações e entregar-se ao fluxo da multidão. Se alguém nos der passagem, agradecemos; se pisarmos no pé de algum, pediremos desculpas.

Meu ingresso no Caminho

Era inverno quando fiz os votos para monge no Templo Busshinji. Nem mais me lembro qual era o dia. Lembro-me do mês: julho. Ano: 1989. Antes, por uns dois ou três anos vinha freqüentando as sessões do sábado. Tempos difícies aqueles. O Templo era uma casa antiga, construído no final do século XIX. Na verdade, eram duas as casas. Numa delas funcionava como escritório e Sala de Buda, também tinha nesta a sala de chá, a cozinha e instalações para o repouso dos monges. Na outra casa, ao lado, aos fundos, após avançar por um corredor sinistro, penetrava-se num ambiente em que encontrava-se um tambor velho, o taiko, uma tábua para ser batido, o moppan, e um sino enferrujado. Numa sala os visitantes sentavam-se e ficavam a espera do início do zazen. Pouco se falava ou quase nada. Era então o monge responsável pelas sessões de zazen o velho e saudoso Tiba. De poucas palavras, Tiba-san quebrava às vezes sua carranca de sobrancelha de taturana para receber os alunos. Quando acabava a sessão de zazen, todos dirigiam-se novamente à sala de espera e Tiba-san perguntava em seu português sofrível se alguém tinha alguma pergunta. Não se costumava perguntar muito. Só de olhar para a cara do Tiba-san qualquer um desanimava. Ficavam receosos. Tinham medo! Uma vez um novato encorajou-se e fez uma pergunta qualquer. Abstrato demais para o Tiba-san. Por isso, a pergunta encontrou um imenso vazio. Depois, Tiba-san olhou para todos e ensaiando um sorriso finalizou: "Não mais pergunta, boa noite, podem embora". Com os olhos muitas vezes úmidos, os alunos punham as mãos em gashô e reverenciavam o velho monge. Assim, comecei a entrar no universo Zen. De poucas palavras.
Mesmo depois que Tiba-san adoentou-se, continuei a freqüentar as sessões do Busshinji. Naquele tempo, esperávamos na rua, quando o monge abria o portão e nos deixava entrar. Não havia na parte de fora uma placa anunciando que lá era o templo. Nem sei direito se foi por minha vontade própria que cheguei ao templo. Ou outros colegas também não poderiam responder direito a esta pergunta. Certo dia indaguei um monge: "Não sei o que vim fazer aqui?". Sorrindo sua cara de lua cheia, o velho Ohata explicou "Não foi por sua vontade apenas, o Buda quis que você estivesse aqui". Nunca mais fiz pergunta semelhante.

quinta-feira, maio 18, 2006

A tartaruga e a carpa

Nesta quarta-feira tive uma experiência ilustrativa durante o zazen realizado no Pavilhão Japonês, no Parque do Ibirapuera. Com ênfase, uma das situações foi contado por um amigo que sentou-se ao meu lado; nunca tinha feito zazen. Expliquei-lhe como cruzar as pernas, a mãos em mudra cósmico e principalmente a respiração pausada, concentrada na região abdominal. Não tinha parede para pousarmos o olhar semi-cerrado. Ao invés disso, um jardim em que se encontravam duas tartarugas. Em sua concentração, sem reparar nas tartarugas manteve-se atento por alguns minutos. Depois da sessão ele me confidenciou: "nunca pensei que a tartaruga andasse tão rápido".
Mas do outro lado, a visão não era menos atípica: uma lagoa com carpas. O som da água escorrendo pela fonte e o barulho das carpas, mais de uma dezena, nadando em cardume a procura de alimento, a monotonia foi quebrada por um peixe que salta de repente sem motivo aparente. Na concentração, os olhos semi-cerrado divisavam apenas a paisagem na movimentação monótona. Eis que a carpa colorida salta diretamente nas ondas da mente, espatifando num estalido abrupto.

quinta-feira, maio 04, 2006

A mente que conhece o que é suficiente

Não há virtude no que é escasso,
assim como não há vício no que é abundante.
Independentemente da prosperidade ou da pobreza,
quando a mente da voracidade surge,
as pessoas esquecem suas boas intenções.
A mente de Buda é aquela que sabe o que é suficiente.

(Eihei Dogen)