quarta-feira, janeiro 13, 2010

Sesshin no Pico dos Raios

SESSHIN PRÁTICA INCESSANTE
12 a 16 de Fevereiro 2010
Templo Zen Pico de Raios. Ouro Preto - MG

Abertura: 12 de fevereiro (sexta-feira), 20horas.
Encerramento: 16 de fevereiro (terça-feira), 11h30min.
Vagas limitadas
O investimento é de R$ 250,00 (duzentos e cinquenta reais) pela participação integral.
Depósitos antecipados em conta no Banco Itaú, agência 0238, conta corrente: 84917-8.
(favor enviar mensagem confirmando o depósito de metade do valor para assegurar a vaga)
Monges responsáveis pelo sesshin:
Anibal Jipo (abade)
Elcio Shoun - (38)8822-3537.
http://br.mc334.mail.yahoo.com/mc/compose?to=elcio.shoun@gmail.com

Trazer:
Roupa de cama e toalha de banho.
Roupas folgadas para o zazen.
Serão servidas quatro refeições diárias.

Programa:

4h30 – SHINREI, SENMEN (acordar, arrumar cama, lavar rosto)4h50 – ZAZEN5h30 – KINHIN (meditação a andar)5h40 – ZAZEN6h20 – CHÔKA (cerimônia matinal)7h00 – NITEN SÔJI (arrumação da casa e jardim)7h30 – GYOHATSU (desjejum)9h00 – SAMU (trabalho)
10h30 - ENCERRAMENTO DO SAMU10h50 – ZAZEN11h30 - SAIZA (almoço)14h00 – ZAZEN15h10 – CHÁ16h10 – TEISHO17h10 – ZAZEN18h00 – YAKUSEKI (jantar)19h20 – ZAZEN20h00 – KINHIN (meditação a andar)20h10 – ZAZEN21h00 – KAITIN (meditação deitado)

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Todas as coisas

"Como todas as coisas são dharma-de-buda há delusão e percepção, prática, nascimento e morte, e há budas e seres sencientes.

Enquanto infindas coisas estão sem um eu permanente, não há nenhuma delusão, percepção, buda, ser senciente e nenhum nascimento e morte.

O caminho de buda basicamente irrompe dos muitos e do um; assim, há nascimento e morte, delusão e percepção, seres sencientes e budas.

Contudo, no apego as florescências caem e na aversão se espalham as ervas daninhas."

Eihei Dogen

quinta-feira, dezembro 24, 2009

0102...2010

ESBOÇO DA PRÁTICA

Muitas estradas levam ao caminho(1), mas basicamente há apenas duas: prática e razão. Entrar pela razão significa perceber a essência através de ensinamentos e acreditar que todos seres vivos compartilham a mesma natureza verdadeira, a qual é dissimulada pela sensação e ilusão. Aqueles que saem da ilusão para a realidade, os que meditam defronte à parede(2) a ausência de dualismo, a unidade de mortalidade e sabedoria, e que permanecem impassíveis mesmo perante às escrituras estão em concordância completa e óbvia com a razão. Sem se moverem, sem esforços, eles entram, dizemos, pela razão.

Entrar pela prática refere-se as quatro práticas(3) levadas em consideração: sofrer injustiça, adaptar-se às condições, nada buscar e praticar o Dharma.

Primeiramente, sofrer injustiça. Quando aqueles que buscam o caminho encontram adversidades deveriam pensar: "por incontáveis eras eu tenho dedicado-me ao trivial em detrimento do essencial e vagueado em todo tipo de existência, raivoso sem motivo e culpado de inúmeras transgressões. Agora, embora eu não cometa erros, sou punido pelo meu passado. Nem os deuses nem os homens podem antever quando uma má ação frutificará. Aceito isso de coração aberto e sem reclamação". Dizem os sutras: "Quando você encontra adversidade não se exaspere, ela é justa". Com tal entendimento você está em harmonia com a razão. E sofrendo injustiça você entra no caminho.

Em segundo, adaptando-se às condições. Como mortais, somos regidos por condições e não por nós mesmos. Todo sofrimento e toda alegria que experimentamos depende de condições. Se devêssemos ser agraciados por algum grande prêmio, tal como fama ou fortuna, é o fruto da semente plantada por nós no passado. Quando mudam as condições, isso cessa. Por que deliciar-me com esta existência? Mas, enquanto o sucesso e o insucesso dependem de condições, a mente não cresce nem diminui. Aqueles que permanecem impassíveis perante os ventos da alegria silenciosamente seguem o Caminho.

Em terceiro, nada buscar. As pessoas estão iludidas. Estão sempre ansiando por algo –sempre, por assim dizer, buscando. Mas os sábios despertam. Eles escolhem a razão em vez dos hábitos. Eles fixam suas mentes no sublime e deixam seus corpos mudarem com as estações. Todos os fenômenos são vazios. Eles nada contêm que valha desejar. A Calamidade alterna-se com a Prosperidade(4). Habitar nos três reinos(5) é habitar numa casa em chamas. Ter um corpo é sofrer. Alguém com um corpo conhece a paz? Aqueles que compreendem isso desapegam-se de todas as coisas existentes e param de imaginar ou buscar algo. Os sutras dizem: "Buscar é sofrer. Nada buscar é encontrar a satisfação". Quando você nada busca, você está no Caminho.

Em quarto, praticar o Dharma(6). O Dharma é a afirmação de que todas as naturezas são puras. Através dessa verdade, todas aparências são vazias. Decadência e apego, sujeito e objeto não existem. Os sutras dizem: "O Dharma não inclui seres, pois o Dharma está livre da impureza do eu. "Aqueles que são sábios o suficiente para acreditar e entender esta verdade estão ligados à prática de acordo com o Dharma. E uma vez que isso é real, incluindo que nada vale a pena invejar, eles dão seus corpos, vidas e propriedades em caridade, sem lamentar e sem a vaidade do doador, do presente ou do presenteado. E, para eliminar impurezas, eles ensinam, mas sem apegarem-se à forma. Assim, através de sua própria prática, eles são capazes de ajudar pessoas e glorificar o Caminho da Iluminação. E, assim como a caridade, eles também praticam as outras virtudes. Mas enquanto praticam as seis virtudes(7) para eliminar a ilusão, eles nada praticam. Isso é conhecido por "praticar o Dharma".

Glossário e notas

1. Caminho. Quando o budismo foi para a China, a palavra tao era usada para traduzir Dharma e Bodhi. A causa parcial era que o budismo era visto como uma versão estrangeira do taoismo. Em seu "Sermão do Ciclo da Vida", Bodhidharma diz: "O Caminho é zen".

2. Parede. Depois de chegar à China, Bodhidharma passou nove anos em meditação em frente à parede de uma caverna próxima ao Templo de Shaolin. A parede de vazio de Bodhidharma liga todos os opostos, incluindo eu e o outro, mortal e sábio.

3. Quatro práticas. São uma variação das quatro nobres verdades: toda existência é marcada por sofrimento; o sofrimento tem uma causa; a causa pode terminar; e o caminho para terminá-la é o óctuplo caminho da visão correta, pensamento correto, fala correta, ação correta, modo de vida correto, devoção correta, atenção correta e zen correto.

4. Calamidade e Prosperidade. Duas deusas, responsáveis por má e boa sorte, respectivamente. Elas aparecem no capítulo doze do Sutra do Nirvana.

5. Três reinos. O equivalente psicológico budista do mundo cosmológico triplo bramânico de bhur, bhuvah e svar, ou terra, atmosfera e céu. O mundo triplo budista inclui kamadhatu, ou o reino do desejo – os infernos, os quatro continentes do mundo humano e animal, e os seis paraísos do prazer; rupadhatu, ou o reino da forma – os quatro paraísos da meditação; e arupadhatu, imateriais. Juntos, os três reinos constituem os limites da existência. No capítulo três do Sutra do Lótus os três reinos são representados como uma casa em chamas.

6. Dharma. A palavra sânscrita Dharma vem de dhri, que significa pegar, e refere-se a qualquer coisa que precisa ser "pegue" para ser real, tanto num sentido provisório como derradeiro. Portanto, a palavra pode significar coisa, ensinamento ou realidade.

7. Seis virtudes. Os paramitas, ou meios de transporte para a outra margem: generosidade (DANA), ética (SHILA), paciência (KSHANTI), esforço (VIRYA), concentração (DHYANA) e sabedoria (PRAJNA). Todos os seis devem ser praticados com desapego dos conceitos de atuante, ação e beneficiário.

Texto atribuído a Bodhidharma
Este texto foi traduzido para o português por Shinzen
Fonte: site Shunya

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Rohatsu Sesshin 2009

O Retiro da Iluminação 2009, que aconteceu entre os dias 13 e 20 de dezembro no Templo Busshinji, contou com mais de 30 participantes.




Clique na foto para ampliar.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Pontos a serem observados durante o Zazen

...

"Saindo da imobilidade, ocupe-se com suas atividades sem hesitação. Este momento é o koan. Quando a prática e a realização não guardam complexidade, então o koan é este momento presente. Este momento, que é antes que qualquer indício surja, a visão do outro lado da destruição do tempo, a atividade de todos os Budas e Patriarcas Iluminados, é apenas esta única coisa.

Você apenas deve parar e cessar. Tranqüilize-se, passe inumeráveis anos como este momento. Seja cinzas frias, uma árvore seca, um incensário num templo abandonado, um pedaço intocado de seda."

...

Keizan Zenji (1268-1325)

Veja o texto completo em Zazen Yojinki

terça-feira, dezembro 08, 2009



Altar

Nosso altar é um tamborete sob a pitangueira,
de três pernas tortas e um tampo de tronco de árvore.
Oferecemos mamão, banana e melão, entre outras frutas,
como nos templos. Seres alados vêm buscar, é certo.

De dia, com asas de plumas, à noite com asas de couro negro.
É certo, eles vêm. Uns com a luz clara do dia, outros na sombra.
Também é certo, vêm e nem pensam, não se fazem de rogados,
sua cerimônia é a atenção ao perigo, ao que não se poder ver.
Cuidam dos sons e das sombras diante do alimento.

Todos esperam o silêncio para se aproximar do altar,
os que vêm de dia deixam tudo ficar imóvel,
os da noite, abrem o profundo da escuridão aqui mesmo no quintal e se servem.
Uns cantam bem alto o mamão oferecido, outros cuidam para ficarem sós.

Todos, sem saber, agradecem, sempre, isto é certo,
agradecem ao que trouxe aquelas frutas alí para o tamborete
Agradecem sendo o que são, só isso, não se esforçam
(é verdade que um dia deixaram cair uma flor do céu)

Depois... depois vêm seres alados de seis patas, vêm outros rastejantes, vêm os que não se vê e tudo some, alí mesmo.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Zanmai Ozammai

O Rei de todos os Samadhis
(Dogen Zenji)

Sentar-se na postura de lótus é transcender o mundo inteiro; é o incomparavelmente precioso e sublime estado dos Budas e Patriarcas. Quando nos sentamos nessa postura, deixamos para trás os descrentes e os demônios e entramos nas profundezas do coração dos Budas e dos Patriarcas. É somente por meio deste Caminho que podemos atingir a transcendência absoluta e alcançar nosso destino final. É por isso que os Budas e Patriarcas se concentraram nesta prática, e em nada mais.

Saiba que o mundo do zazen é completamente diferente de qualquer outra dimensão. Quando esse princípio estiver esclarecido, você deve desenvolver o propósito de atingir a iluminação e buscar a prática verdadeira, a iluminação, e o nirvana.

Quando estiver em zazen, observe se o tempo permeia ou não o espaço vertical e horizontal e reflita sobre a natureza do zazen: ela é diferente da atividade normal? É um estado altamente vigoroso? É pensar ou não-pensar? Ação ou não-ação? O zazen é apenas a postura de lótus ou ele existe no corpo e na mente? Ou ele transcende o corpo e a mente? Devemos examinar esses diferentes pontos de vista. O objetivo é obter a postura de lótus em seu corpo e a postura de lótus em sua mente; e é preciso que você mantenha a postura de lótus quando o corpo e a mente forem abandonados.
Meu mestre Nyojo dizia: “Quando você pratica zazen o corpo e a mente são abandonados. Isso só pode ser alcançado por meio do shikantaza. Queimar incenso, prostrações, o nembutsu, penitências e leitura de sutras não são necessários”. Nos últimos 400 ou 500 anos, apenas Nyojo ensinou que podemos confrontar diretamente a mente dos Budas e Patriarcas por meio do shikantaza e nos tornarmos um com sua experiência. Pouquíssimos na China podem se comparar a ele. Não foram muitos os que identificaram o zazen com o Dharma de Buda, o Dharma de Buda com o zazen, e ninguém esclareceu a verdadeira forma do zazen como o Dharma de Buda.

O zazen da mente não é o mesmo que o zazen do corpo, e vice-versa. Há um zazen do shikantaza que difere do zazen em que corpo e mente foram abandonados. Quando corpo e mente são abandonados, atingimos a compreensão e a experiência dos Budas e Patriarcas e devemos preservar essa mente, examinando completamente seus aspectos.

Certa vez Buda Shakyamuni instruiu uma grande assembléia de monges: “Se alguém se senta na postura de lótus, realiza o samadhi no corpo e na mente. Ele alcança grande virtude, é respeitado por todos e seu esplendor é como o do sol iluminando o mundo inteiro. Indolência e preguiça são lançadas fora e ele se torna luminoso e incansável; a mente da iluminação é radiante e brilhante. Sua forma é como a de um dragão serpenteante. Quando Mara vê a pintura de alguém na postura de lótus, enche-se de horror e medo. Quão maior será esse terror se ele vir a postura de lótus de um iluminado?”

Se apenas a pintura da postura de lótus já subjuga Mara, quão grande deve ser a ilimitada virtude da postura em si! Portanto, quando sentamos em zazen, realizamos uma alegria e uma virtude sem medidas.

Shakyamuni também disse a uma grande assembléia de monges: “É por isso que me sento na postura de lótus”. Ele então disse aos seus discípulos para se sentarem na postura de lótus. Aquele que não encontraram o Caminho buscam-no valendo-se de inumeráveis posturas – andando nas pontas dos pés, permanecendo sempre de pé, cruzando as pernas atrás do pescoço etc. –, mas eles estão submersos num oceano de enganos e sua mente nunca está em paz. Por esse motivo Shakyamuni instruiu seus discípulos para se sentarem aprumados na postura de lótus. Se nos sentamos aprumados, nossa mente se alinha, e sua dispersão e perambulação é trazida para a unidade. Se nossa mente se perde ou nosso corpo oscila, essa postura pode recolocá-los na ordem correta. Se você pretende entrar em samadhi, deve deixar que todos os seus pensamentos errantes e dispersos repousem. Pratique dessa forma e você atingirá o Rei de todos os Samadhis.
Portanto nós claramente entendemos que a postura de lótus é o Rei de todos os Samadhis. É a compreensão. Todos os outros samadhis lhe são subordinados. A postura de lótus é um corpo aprumado, uma mente resplandecente e o corpo e mente das coisas como elas são, que conduz diretamente aos Budas e Patriarcas, à prática correta e à iluminação, e à existência última de todas as coisas na natureza-de-Buda.

Podemos concretizar o Rei dos Samadhis por meio da postura de lótus neste mesmo corpo – em nossa pele, carne, ossos e tutano. Buda Shakyamuni sempre usou essa postura e a transmitiu a seus discípulos, ensinando-a tanto para homens como para deuses. Desde os sete Budas do passado, a essência do Caminho de Buda é a postura de lótus.

Enquanto Buda Shakyamuni se sentou na postura de lótus sob a árvore Bodhi, inúmeros kalpas se passaram. Porém, independentemente do tempo que se passou – 50 ou 60 kalpas, 21 dias ou apenas um breve instante –, ele fez girar a roda da Lei. O ensinamento de Shakyamuni é completo e não tem lacunas. A postura de lótus contém em si mesma todos os sutras. Um Buda encontra o outro nessa postura, e todos os seres sencientes tornam-se Budas nesse instante.

Quando o primeiro Patriarca, Bodhidharma, veio do oeste, ele passou nove anos sentado em frente a uma parede no monastério de Shositsu Hoshorinji, no Monte Su. Desde então, a essência e a semente do Dharma se espalharam por toda a China. A postura de lótus era o sangue vital do primeiro Patriarca. Antes de ele ir à China ninguém conhecia tal postura. Por toda a nossa vida devemos, portanto, nos empenhar, dia e noite, em praticar a postura de lótus e não abandonar o monastério – esse é o Rei de todos os Samadhis.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Zazengi

Regras para o zazen

Estudar o Zen é praticar o zazen. Para praticar o zazen, escolha um local calmo, nem seco, nem úmido, e use um pequeno tapete grosso. Como usamos a mesma postura sentada que Shakyamuni praticou quando se iluminou, pense no local em que você vai se sentar como o “Assento de Diamante”. Alguns monges praticam em grandes pedras, enquanto outros seguem a maneira dos sete Budas, praticando zazen sobre um pequeno tapete de folhas.

O local para a prática de zazen não deve ser muito escuro, mas moderadamente iluminado de dia e de noite. Deve estar quente no inverno e fresco no verão. Mantenha o corpo e mente em repouso – corte fora toda a atividade mental. Não pense sobre o tempo ou as circunstâncias, nem se agarre a bons ou maus pensamentos. Zazen não é auto-consciência ou auto-contemplação. Nunca tente tornar-se um Buda. Desvencilhe-se das noções de deitar ou sentar. Coma e beba moderadamente. Não perca tempo. Preste atenção à sua própria prática do zazen.

Aprenda com o exemplo do quinto Patriarca, Konin, do Monte Obai. Todas as suas ações, diariamente, eram a prática do zazen.

Quando praticar zazen, vista o kesa e use uma pequena almofada redonda. Não se sente no meio da almofada, mas sim posicione a metade dianteira sob suas nádegas. Cruze as pernas e posicione-as sobre o tapete. A almofada deve tocar a base da coluna. Essa é a postura básica que foi transmitida de Buda a Buda, de Patriarca a Patriarca.

Use a postura de lótus completo ou de meio lótus. Em lótus completo, o pé direito é colocado sobre a coxa esquerda e o pé esquerdo sobre a coxa direita. Mantenha as suas pernas horizontais a suas costas perfeitamente eretas. Na postura de meio lótus o pé esquerdo é colocado sobre a coxa direita e o pé direito é guardado sob a coxa esquerda.

Afrouxe sua roupa e aprume-se. Mão direita sobre o pé esquerdo, mão esquerda sobre o pé direito. Os polegares, alinhados, tocam-se levemente. Ambas as mãos são colocadas junto ao abdome. As pontas dos polegares devem estar alinhadas com o umbigo. Lembre-se de manter a coluna ereta o tempo todo. Não penda para a esquerda ou para a direita, para frente ou para trás. Mantenha as orelhas alinhadas com os ombros. Da mesma forma, o nariz e o umbigo devem estar no mesmo plano. Coloque a língua no céu da boca. Respire pelo nariz e mantenha os dentes e os lábios unidos. Os olhos mantêm-se abertos naturalmente. Quando iniciar, ajuste seu corpo e sua mente fazendo uma profunda respiração.

A forma de seu zazen deve ser estável como uma montanha. Pense no “não-pensar”. Como? Usando o “não-pensamento”.
Esse é o esplêndido caminho do zazen. Zazen não é um meio para a iluminação, zazen é, em si mesmo, a perfeita atitude do Buda. Zazen, em si mesmo, é a pura e natural iluminação.

Apresentado aos monges de Kippoji em novembro de 1243.

segunda-feira, novembro 30, 2009

Fukanzazengi

Regras gerais para a prática do zazen
de Dogen Zenji (1200-1253)


Quando se busca a fonte do caminho, percebe-se que ele é absoluto e tudo permeia. É desnecessário distinguir entre “prática” e “iluminação”.

O ensinamento supremo é livre, então por que estudar os meios para alcançá-lo?

O caminho é, desnecessário dizer, muito diferente da delusão.
Por quê, então, preocupar-se com os meios de eliminá-la?

O caminho está completamente presente onde você está, então para que servem a prática e a iluminação?

Contudo, se houver na origem uma minúscula distinção entre você e o caminho, o resultado será uma separação tão grande quanto a que há entre o céu e a terra. Caso um fugaz pensamento dualístico surja, você já perderá sua mente-de-Buda.

Por exemplo, algumas pessoas se orgulham do seu entendimento, e pensam que são fartamente dotadas da sabedoria de Buda. Elas pensam ter atingido o caminho, iluminado suas mentes e adquirido o poder de tocar os céus. Elas imaginam que viajam pelos campos da iluminação. Mas na verdade elas praticamente perderam o caminho perfeito, que está além da própria iluminação.

Você deve atentar para o fato de que mesmo Buda Shakyamuni teve de praticar zazen, durante seis anos. Também se narra que Bodhidharma teve de praticar zazen no templo de Shao-lin por nove anos para poder transmitir a mente-de-Buda. Se esses grandes homens sábios foram tão diligentes, como poderiam os praticantes de hoje em dia prescindir da prática do zazen? Você deve parar de perseguir palavras e erudição e aprender a se recolher e se refletir em si mesmo. Quando você faz isso, seu corpo e sua mente naturalmente são abandonados, e sua natureza-de-Buda original surge. Se você pretende compreender a sabedoria de Buda, deve começar a treinar imediatamente.

Para praticar o zazen é desejável ter um aposento silencioso. Você deve ser moderado no comer e beber e abandonar todas as atividades ilusórias. Pondo tudo de lado, não pense nem no bem nem no mal, nem no certo nem no errado. Desse modo, cessando as várias atividades mentais, abandone até mesmo a idéia de se tornar um Buddha. Isso é verdadeiro não só para o zazen, como para todas suas atividades diárias.

Coloque uma esteira grossa e quadrada sobre o chão onde você se sentará e sobre ela uma almofada redonda. Você pode se sentar igualmente nas posições de lótus completo ou de meio-lótus. Em lótus completo, coloque seu pé direito sobre sua coxa esquerda e então seu pé esquerdo sobre sua coxa direita. Em meio-lótus, apenas coloque seu pé esquerdo sobre a coxa direita. Suas roupas devem ser confortáveis, porém asseadas. Em seguida coloque as costas de sua mão direita sobre seu pé esquerdo a as costas da mão esquerda sobre a palma da mão direita, com as pontas dos polegares tocando-se levemente. Aprume o corpo, não se inclinando nem para a esquerda nem para a direita, nem para a frente e nem para trás. Suas orelhas devem estar no mesmo plano que seus ombros e seu nariz alinhado com seu umbigo. Sua língua deve ser colocada contra o céu da boca e seus lábios e dentes devem permanecer firmemente fechados. Mantendo seus olhos constantemente abertos, respire suavemente pelas narinas. Finalmente, tendo ajustado seu corpo e sua mente dessa forma, faça uma profunda respiração, balance seu corpo para a esquerda e para a direita e então permaneça solidamente, imóvel como uma rocha. Pense no não-pensar. Como se faz isso? Pensando além do pensamento e do não-pensamento. Este é o princípio fundamental do zazen.

Zazen não é “meditação passo a passo”, mas simplesmente a tranqüila e agradável prática de um Buddha, a realização da sabedoria de Buddha. A verdade aparece, não há delusão. Se você compreende isso, você é completamente livre, como um dragão que alcançou a água ou um tigre que descansa na montanha. A lei suprema então surgirá por si mesma, e você se libertará do cansaço e da confusão mental.

Ao término do zazen, movimente o corpo vagarosamente e levante-se com tranqüilidade. Não se mova abruptamente.

Pela virtude do zazen é possível transcender a diferenciação entre “mundano” e “sagrado” e conquistar a capacidade de morrer enquanto se pratica zazen ou enquanto se está de pé. Além disso, é impossível para nossa mente discriminativa entender como os Buddhas e ancestrais expressaram a essência do Zen para seus discípulos com o dedo, uma estaca, uma agulha ou um martelo de madeira, ou como eles transmitiram a iluminação com um hossu, um punho, um bastão ou um grito. Isso não pode ser compreendido por meio de poderes sobrenaturais e tampouco com uma visão dualística da prática e da iluminação. Zazen é uma prática além dos mundos subjetivo e objetivo, além do pensamento discriminativo. Portanto, nenhuma distinção deve ser feita entre o inteligente e o estúpido. Praticar o caminho com o coração uno é, por si mesmo, iluminação. Não há diferença entre prática e iluminação ou entre zazen e vida diária.

Os Buddhas e os patriarcas, tanto neste como noutro mundo, na Índia e na China, todos eles mantiveram a mente-de-Buddha e ressaltaram o treinamento Zen. Portanto, você deve dedicar-se exclusivamente à prática do zazen, completamente absorvido por ela. Apesar de ser dito que há inúmeras maneiras de entender o Buddhismo, você deve apenas praticar o zazen. Não há necessidade de abandonar seu próprio local de prática e empreender viagens inúteis para outros países. Se o seu primeiro passo for errado, você inevitavelmente fracassará. Você já teve a boa sorte de ter nascido com um precioso corpo humano, portanto não desperdice seu tempo em vão. Agora que você sabe qual é a coisa mais importante no Buddhismo, como pode se satisfazer com o mundo transitório? Nossos corpos são como o orvalho na relva, e nossas vidas como o brilho de um relâmpago, desaparecendo em um instante.

Praticantes determinados do Zen, não sejam pegos de surpresa por um dragão real ou dediquem muito tempo apalpando apenas uma parte de um elefante. Apliquem-se no caminho que leva diretamente à sua mente original de Buddha. Respeitem aqueles que alcançaram o conhecimento perfeito e nada mais têm a fazer. Tornem-se um com a sabedoria dos Buddhas e alcancem a iluminação dos patriarcas. Se praticarem zazen por algum tempo, compreenderão tudo isso. A casa do tesouro então se abrirá por si mesma e vocês poderão usufruí-la plenamente com seus corações.

quinta-feira, novembro 26, 2009

Deixa o escuro chegar


Quando o dia cair
e as cores ficarem azuis, até sumirem,
quando a silhueta da figueira se confundir com o céu
e os pássaros em bando se recolherem

Bem no fim.
Quando já tiver feito o seu trabalho,
e os ponteiros indicarem o caminho de casa.
Justo na hora do cansaço.

(Ao chegar em casa) ou mesmo antes.
Não se entregue, não pactue
Não se deixe vagar pelas coisas como um espectro
Não faça recesso de si, não se esqueça no espelho das sombras.

Na hora cansada, as luzes do trânsito ainda são diamantes e rubis
e o cheiro sem ar das máquinas paradas são apenas isso.
A distância entre a lua e o sol nunca é mesma, veja bem
não feche a cortina que te separa de si

Não aceite contratos de puro sonho e desvario
Nem tome distância de onde se encontra.
Andando pelas calçadas ou ruas,
leve flores e água mineral.

terça-feira, novembro 24, 2009

Aviso importante!

Neste próximo retiro, Rohatsu Sesshin, que acontece em dezembro, ao contrário do que esperávamos e foi divulgado neste blog, NÃO HAVERÁ POSSIBILIDADE DE ALOJAMENTO NO TEMPLO. Como o prédio novo, o pavilhão Daikankaku, ainda não está 100% pronto, embora já tenha sido inaugurado, os engenheiros da obra resolveram por cautela não disponibilizar o prédio para uso ainda, até que seja entregue finalizado.

Sendo assim, aqueles que vierem para o retiro terão que se alojar em casa de amigos ou hotel. Para informações sobre hotéis próximo ao templo, favor entrar em contato com Templo Busshinji pelos telefones: 11 3208-4515/4345

segunda-feira, novembro 23, 2009

Tokudo - as últimas ordenações no Busshinji

Neste último dia 7 de novembro, a sangha do Busshinji esteve em festa, receberam ordenação leiga:

André - Endei
Claudemir - Gengaku
José Carlos - Ippo
Lauro - Rotsu
Vanderlei - Banrei

Foto: Daniela Coen

O oficiante do Tokudo, Mestre Saikawa Roshi


Foto: Lauro Araujo
Foto: Lauro Araujo


Recebemos também ordenação de monge, eu e Wajun:

Bruno - Daitetsu Seigen
Ezequiel - Dotetsu Wajun
Foto: Jarbas Viana
Foto: Daniela Coen
Foto: Jarbas Viana
Foto: Daniela Coen
Foto: Daniela Coen

quarta-feira, novembro 18, 2009

ROHATSU SESSHIN - BUSSHINJI



Acontecerá de 13 a 20 de dezembro no Templo Busshinji, São Paulo, o Sesshin da Iluminação, conhecido também por Rohatsu Sesshin. O valor da doação é de R$ 200. Tendo a frente o Superior Dosho Saikawa, abade desta instituição

As inscrições podem ser feitas no local, dia 13 de dezembro, na parte da manhã. Após o almoço daremos início ao sesshin. O encerramento ocorrerá na manhã de 20 de dezembro, em torno das 3hs.

Desta vez ainda não será possível a hospedagem no próprio templo, tendo os participantes que se hospedarem na casa de amigos ou hotel. Para saber de hotéis mais próximos ao templo, favor ligar para o templo.

Nosso endereço:
Rua São Joaquim, 285 • Bairro da Liberdade
São Paulo SP • Próximo à estação de Metrô São Joaquim
Tel.: 3208-4515 / 3208-4345 ou Fax: (0xx11) 3208-0418
A Grande Barca

        "O Iluminado parte na Grande Barca, mas não há ponto de partida. Ele parte do universo; mas na verdade, ele parte de nenhum lugar. Sua barca está equipada com todas as perfeições, e não é manejada por ninguém. Ela se apoiará em absolutamente nada e se apoiará no estado de tudo saber, que lhe servirá de não-apoio. Ademais, ninguém jamais partiu na Grande Barca; ninguém jamais partirá nela e ninguém está partindo nela agora. E por que isso? Porque nem aquele que está partindo nem o destino para o qual ele parte podem ser encontrados: por isso, quem estaria partindo e para onde?"
        O Bodhisattva Subhuti disse: "Profunda, ó Venerável, é a perfeita Sabedoria que vai além."
        E o Venerável respondeu: "Profunda como o abismo, como o espaço do universo, ó Subhuti, é a perfeita Sabedoria que vai além".
        Subhuti disse ainda: "Difícil de ser alcançada pelo Despertar é a perfeita Sabedoria que vai além, ó Venerável".
        Ao que o Venerável respondeu: "Essa é a razão, ó Subhuti, por que ninguém jamais a alcança pelo Despertar".


quarta-feira, novembro 11, 2009

Cinquentenário e Inauguração


Na foto Mestre Saikawa, sua esposa e discípulos, preparam o memorial do fundador do Templo Busshinji, Sokans e, em tamanho menor, logo atrás, dos monges, para a inauguração do novo prédio Dai Kankaku.

Confira a programação da cerimônia do cinquentenário do Templo Busshinji e inauguração do Pavilhão Dai Kankaku:

Dia 13 de novembro
10:00 - Cerimônia para Recepcionar o Shumu Socho
- Corte da Faixa de Inauguração e Descerramento da Placa
- Apresentação do novo prédio
11:00 - Cerimônia de Abertura da Imagem do Fundador
11:30 - Cerimônia dos 600 volumes do Sutra Prajna Paramita
12:30 - Banquete no Salão do Pavilhão Dai Kankaku


Dia 14 de Novembro
13:00 - Cerimônia de Abertura do Monumento
13:30 - Palestra
14:30 - Cerimônia Memorial dos Fundadores
15:30 - Cerimônia de Abertura dos Olhos das Imagens Daiguen Shuri Bosatsu e Daruma Soshi
16:30 - Cerimônia Memorial dos Antepassados(Grupo do Japão)
17:30 - Cerimônia do Manto Kuyo (Milhões de Luzes)


Dia 15 de Novembro
08:30 - Cerimônia para Recepcionar o Shumu Socho
09:00 - Cerimônia Memorial dos Monges e Professores falecidos da América do Sul
10:00 - Cerimônia Comemorativa do Cinquentenário do Templo Busshinji
- Entrega do Certificado de Honra ao Mérito de Shumucho para Convidados
11:00 - Cerimônia Memorial para todos os membros
- Entrega do Certificado de Honra ao Mérito do Busshinji para Convidados

quinta-feira, novembro 05, 2009

Nunca passei por aqui


Quando via um passarinho no caminho,
parava e esperava, só para ver seu vôo
fosse Sabiá, Bem-te-vi, Sanhaço, Rolinha, Periquito,
ou outro sem nome.

Costumava mudar de calçada sempre que via um pela frente
ciscando sementes, catando gravetos, assim
permanecia tudo em seu lugar

Nas noites difíceis, quando já não sentia nada, nada mesmo,
tocava o chão de pedra, ou de cimento, com a barriga
e o calor do sol ainda aquecia, era assim que me acalmava.

Mas nunca desconfiei da morte, nem me era dado pensar nela
tinha fé na ponta das minhas garras, na maciez do salto,
nas orelhas exatas e naquele grande bigode espigado.

Da morte, é melhor não falar, ou pensar.
A morte, é melhor viver, experimentar por si.
Não que se queira morrer, dessa morte definitiva,
pelo contrário, e é só por isso que estou aqui,
falando de passarinhos e de raios de sol.


Foto: Seigen Mitih

quinta-feira, outubro 29, 2009



Veio até nós, num dia comum

"Antes que você pense em ouvir, o ouvido já ouviu,
antes que você pense em ver, o olho já viu,
antes que você queira cheirar, o nariz já sentiu o cheiro,
antes que você queira sentir pelo tato, a pele já sentiu,
antes que você queira sentir o sabor, a boca já o sentiu."

"No Japão diz-se 'uma idéia veio até mim', e não 'eu tive uma idéia'

"Quem decidiu nascer?
Quem decidiu nascer homem ou mulher?
Quem decidiu nascer neste ou naquele país?
Quem decidiu nascer nesta ou naquela família?"


Koan apresentado pelo Mestre Saikawa, durante uma sessão de zazen no Templo Busshinji, em São Paulo.

domingo, outubro 25, 2009




Budismo para porcos

- Os porcos têm a natureza de Buda? - perguntaria o monge.
- Mu.

Esta provavelmente seria a resposta de Joshu ao monge, atualizada para nossos dias e geografia - do famoso koan onde a pergunta original se refere a um cachorro.

Os porcos em nossa sociedade são considerados os animais mais "baixos" e sujos, servindo de metáfora para tudo o que se relaciona com sujeira e miséria humana. Depois do porco, viria apenas o verme, e algumas culturas aboliram o consumo da carne de porco, por o elegerem um animal indigno. Colocaram o porco na berlinda, e Joshu tem razão ao responder daquela forma: "Mu". "Mu" significa vazio, não-dualidade. Cientistas constataram que a fisiologia dos porcos é a mais próxima dos seres humanos, o tamanho e a disposição dos orgãos quando comparados ao corpo humano é muito semelhante, a forma que o corpo reage aos hormônios e o funcionamento do coração também é muito próximo, tanto que os porcos vêm sendo utilizados como cobaias para estudos e cogita-se até a utilização de seus órgãos para transplante em humanos. Na literatura há uma recorrência à figura do porco, em geral como analogia ao gênero humano, para crianças há muitos exemplos, o mais conhecido: "Os Três Porquinhos", e tem o Bola de Neve, de literatura mais adulta, porco que se torna ditador na "Revolução dos Bichos" de George Orwell. A proximidade fisiológica entre porcos e seres-humanos chega ao extremo de se poder dizer o seguinte, ao comer a carne suína, é como se tívessemos uma pequena amostra do que seria comer a carne humana, bem, paremos por aqui. Agora, com relação à "imundice" dos porcos, isto depende, e muito. Minha esposa fala da criação de porcos de seu avô, que era um ambiente limpo e bem cuidado, os porcos eram tão limpos quanto os cavalos e as galinhas. As criações de porcos para o abate hoje em dia podem ser mais limpas do que nossa própria casa. Vale lembrar também que os porcos foram domesticados pelos Homens, e que seus parentes selvagens, os javalis, vivem em bandos pelas florestas.

Num documentário do canal National Geografic foram apresentadas duas experiências feitas por etólogos, ambas bastante esclarecedoras. As experiências utilizaram porcos filhotes, sabe-se que os filhotes tornam-se estressados, irritadiços, briguentos e, sobretudo, inseguros e incapazes de utilizar de maneira adequada sua inteligência natural, quando são desmamados antes da hora, ou seja, com apenas duas semanas após o nascimento, como é feito nas grandes criações industriais. Na primeira experiência porcos que foram desmamados antes da hora e porcos que tiveram o tempo de convívio adequado com a mãe são submetidos à mesma situação: circular por corredores elevados, uns com proteções laterais, outros abertos. Os filhotes que mamaram o tempo correto circularam livremente por todos os corredores, os desmamados prematuramente circularam apenas pelos corredores com proteções laterais. Na segunda experiência, os filhotes foram colocados um de cada vez numa grande banheira circular, com uma pequena plataforma elevada no fundo, próximo à uma das bordas, onde o filhote poderia se apoiar e até sair da banheira. Os filhotes desmamados prematuramente ficavam afobados dentro d'água, nadando em todas as direções sem sequer se darem conta da plataforma. Os outros, que mamaram o tempo adequado, em pouco tempo descobriram a plataforma e lá se apoiaram, parando de nadar. Minutos depois os mesmos filhotes eram submetidos à mesma situação, os que desmamaram cedo demais ficam sempre afobados e continuam não se dando conta da plataforma, os outros aprenderam a existência da plataforma e para lá se encaminham diretamente todas as vezes em que a experiência é repetida. A conclusão é que o leite e afeto proporcionados pela mãe nas primeiras semanas de vida são indispensáveis para um porco saudável, capaz de viver plenamente todas as suas faculdades originais, digamos assim.

Um ser humano que se torna neurótico pelo contato com a sociedade humana tem o budismo* para abandonar a sua condição enferma. Os porcos, por nós retirados de seu estado natural, não. Um porco inseguro, se solto na floresta recuperaria sua situação original? Será que apenas o contato direto com a natureza seria o suficiente para descondicionar as células do cérebro e do corpo? Ou, pelo contrário, este contato direto com a natureza iria piorar sua própria natureza de porco estressado e inseguro? Será que existe um mestre porco no interior da floresta que dê referências do caminho correto para o porco perdido? Segundo o documentário, porcos domésticos quando fogem ou são abandonados à própria sorte na natureza se adaptam muito bem, adquirindo características físicas bem próximas de seus primos javalis, como os pelos que crescem e se tornam espessos por todo o corpo, além disso, passam a integrar os bandos selvagens.

Hoje em nossa sociedade humana há um consenso pela necessidade do "relaxar", sempre associado ao prazer. A pessoa vive mal o dia-a-dia, porque não gosta ou não se adapta à cidade onde mora, porque não resolve o convívio saudável com a família, porque não gosta do trabalho, porque não se dá bem com o chefe ou ambiente de trabalho, porque tem mais necessidades que dinheiro, e assim por diante. Já acordamos ansiosos, preocupados e inseguros, e o estresse é um estado latente. Mas não observamos que somos os responsáveis por nosso estresse, colocamos a responsabilidade na cidade, família, trabalho, etc. Acreditando no estresse criamos o estresse do mundo. Quer dizer, vivemos na dualidade, estresse-relaxamento. Buscando o "relaxar" nos dirigimos naturalmente para o estresse, porque para relaxar precisamos estar tensos, e assim num movimento circular e entrópico, a mente acredita que é assim e pronto, e c'est la vie.

Nos deixamos ficar tensos ao extremo e depois vamos para o spa, nos "matamos" e depois vamos ver tevê, fazer zazen, meditação, sexo, beber álcool, tomar tranquilizantes e drogas em geral. O que poucos refletem é o seguinte: em vez de relaxar ou buscar o prazer depois de ficar estressado para depois estressar novamente, porque não, simplesmente, nem ficar estressado antes? Repetindo a pergunta: porque nem sequer começar a ficar estressado? Já fiz esta pergunta a algumas pessoas, aleatoriamente, e percebi que esta é uma questão que sequer tem espaço, ou nem a consideram, ou acham engraçado e absurdo, poucos começam a refletir. Bem, é preciso primeiro ser capaz de se colocar a questão, acomodar na mente espaço suficiente para ela, porque sim, é possível sim. É um caminho a ser percorrido que coloca apenas duas condições: 1. Que se caminhe de forma correta na direção correta; 2. Que seja você, exatamente você, a empreender a caminhada com seus próprios meios e condições.

Os porcos, quando têm a sorte de se livrarem da domesticação humana, encontram consequentemente sua natureza original nas matas e florestas. Nós, com ajuda do budismo e dos mestres, também podemos nos tornar livres. Dependemos então apenas de nossa própria iniciativa e esforço, da honestidade consigo mesmo no caminhar (preceito do não mentir) e da intensidade com a qual mergulhamos na prática do dharma-de-buda no dia-a-dia. Quanto ao estresse, podemos abrir mão dele agora, e a cada instante. O universo não para nunca, está em constante expansão, então não há porquê relaxar, na verdade não há como, e não há porquê perder um instante sequer de concentração nessa vida. Quando estiver cansado, descanse, concentre-se em descansar apenas. A atenção-plena, ou concentração, ao contrário do que se pode pensar, não cansa nem estressa. Por fim, esta prática traz consequências profundas e se torna o próprio Nirvana. Assim:

- É possível viver sem estresse?
- Mu.


* Ou outra escola não dogmática que proponha um método prático de total liberação do ser humano de seus condicionamentos.