Clarice Lispector
O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
segunda-feira, abril 12, 2010
terça-feira, abril 06, 2010
Leis
São três tipos de leis. Leis místicas, existencias.
1. As leis do Dharma: são as leis da natureza, do universo. Que regem as ventanias e a intensidade das brisas. A forma molecular dos cristais e dos rochedos, o carbono e o hidrogênio que constituem a nós e às estrelas do firmamento. Somos um só corpo, o corpo da humanidade, o corpo do dharma. Aqui não há sequer pensamento de "fugir", "escapar", "não aceitar", "modificar" ou "não participar" da lei, qualquer pensamento deste tipo é delusivo, imaturo e perigoso. Perigoso para o corpo da humanidade, perigoso para as outras pessoas e para si. Neste caso a palavra lei pode não ser das mais agradáveis para todos os ouvidos, mas, aqui, pode ser substituída por sabedoria.
Como poderia haver algo mais verdadeiro do que a nossa própria constituição à semelhança do universo?
2. As leis da sociedade e da família: são as leis do coletivo, dos homens e mulheres. As leis necessárias para que possa haver um corpo social em harmonia (mínima pelo menos) para a coexistência. Estas leis evidentemente são muitas vezes arbitrárias, circunstancias e conservadoras. Causadora de constantes conflitos porque são verdades para uns e não necessariamente para outros. Movem-se no ritmo dos desejos de alguns poucos e de um coletivo confuso e não esclarecido, a ser conduzido. Pode-se dizer: de um coletivo formado por pessoas que não querem e acreditam não terem tempo, nessa vida, para abandonar a delusão. E é assim, as coisas estão no seu devido lugar, pretender revolucionar a sociedade é criar novas leis destas, não resolverá. No entanto é preciso sim, que haja leis do tipo 2, precisamos conviver, somos seres sociais, um só corpo, segundo a primeira lei. Estas leis devem, em sua grande maioria serem abandonadas, o quanto antes. Mas, importante: as leis são abandonadas dentro de nós mesmos, não deveríamos querer convencer os outros arbitrariamente, não há abandornar por outro, e não há necessidade de estourar bombas e revolucionar o mundo, ou outra forma qualquer ostensiva e agressiva. Lembre-se, somos um só corpo, se eu mudo, o mundo já não é o mesmo.
Estas leis são os deveres sociais, como se já nascêssemos em dívida, isto é falso, precisa ser observado. Estes "tem que" da sociedade podem ser abandonados em benefício da própria sociedade.
3. As leis pessoais: aquelas que criamos para nós mesmos e que portanto não têm existência intrínseca. Que incorporamos sem saber (ou não), pela educação, cultura, carências, insegurança e experiências boas e más no passado. Todo eu particular (ego), centro das leis pessoais, carece ser mantido e autoafirmado, a todo momento, porque está fadado a se despedaçar no próprio movimento do dharma (a roda da lei). Esta é a maneira que desenvolvemos para viver num mundo incompreensível, misterioso e contraditório. Este tipo de lei deve e pode ser abandonada, completamente, agora mesmo. E ao fazermos isto, consequentemente surge radiante a sabedoria, nossa verdadeira natureza. Aberta ao mistério, porque participa dele, aberta à contradição, que já não há.
O ego pode criar uma grande resistência à percepção do dharma, e neste momento ele talvez esteja cheio de argumentos e justificativas para reafirmar sua existência. Mas não há porquê se preocupar, como seres manifestados precisamos dele, do ego, claro. Veja, o ego é só um nome para uma construção mental. Neste caso, o único ego que precisamos é aquele que nos ajuda a manter ele próprio vazio a todo instante, isto é, sem nenhuma experiência boa ou má cristalizada. Sem segurar o que quer que seja, sem acreditar que possui algo. Este eu, que assim vai além do ego, não precisa acreditar, não precisa crer, ele sabe, sabe porque observa este movimento de autoconstrução circunstancial constante mas não prega um prego, não enterra no solo uma viga sequer, ele apenas observa este fluxo sem paradeiro. Como os primeiros da nossa espécie, a sabedoria é nômade, ela não precisa construir casas porque ela já está em casa.
Neste tipo de lei pessoal, a ser abandonada, o pior seria querer que outros forçosamente acreditassem nelas também. Seria um pequeno terror, desejar que outros incorporem as leis que desastrosamente inventamos para nós. Seja por vias sutis ou diretas. Por outro lado, ao nos libertarmos, libertamos também o outro.
- A dimensão psicológica prende-se aos aspectos das leis 2 e 3 e portanto deve ser abandonada. Abandonar não significa que a parte psicológica da mente, digamos assim, irá desaparecer, significa que esta não será mais dominante e será encarada apenas como mais um aspecto da existência.
1. As leis do Dharma: são as leis da natureza, do universo. Que regem as ventanias e a intensidade das brisas. A forma molecular dos cristais e dos rochedos, o carbono e o hidrogênio que constituem a nós e às estrelas do firmamento. Somos um só corpo, o corpo da humanidade, o corpo do dharma. Aqui não há sequer pensamento de "fugir", "escapar", "não aceitar", "modificar" ou "não participar" da lei, qualquer pensamento deste tipo é delusivo, imaturo e perigoso. Perigoso para o corpo da humanidade, perigoso para as outras pessoas e para si. Neste caso a palavra lei pode não ser das mais agradáveis para todos os ouvidos, mas, aqui, pode ser substituída por sabedoria.
Como poderia haver algo mais verdadeiro do que a nossa própria constituição à semelhança do universo?
2. As leis da sociedade e da família: são as leis do coletivo, dos homens e mulheres. As leis necessárias para que possa haver um corpo social em harmonia (mínima pelo menos) para a coexistência. Estas leis evidentemente são muitas vezes arbitrárias, circunstancias e conservadoras. Causadora de constantes conflitos porque são verdades para uns e não necessariamente para outros. Movem-se no ritmo dos desejos de alguns poucos e de um coletivo confuso e não esclarecido, a ser conduzido. Pode-se dizer: de um coletivo formado por pessoas que não querem e acreditam não terem tempo, nessa vida, para abandonar a delusão. E é assim, as coisas estão no seu devido lugar, pretender revolucionar a sociedade é criar novas leis destas, não resolverá. No entanto é preciso sim, que haja leis do tipo 2, precisamos conviver, somos seres sociais, um só corpo, segundo a primeira lei. Estas leis devem, em sua grande maioria serem abandonadas, o quanto antes. Mas, importante: as leis são abandonadas dentro de nós mesmos, não deveríamos querer convencer os outros arbitrariamente, não há abandornar por outro, e não há necessidade de estourar bombas e revolucionar o mundo, ou outra forma qualquer ostensiva e agressiva. Lembre-se, somos um só corpo, se eu mudo, o mundo já não é o mesmo.
Estas leis são os deveres sociais, como se já nascêssemos em dívida, isto é falso, precisa ser observado. Estes "tem que" da sociedade podem ser abandonados em benefício da própria sociedade.
3. As leis pessoais: aquelas que criamos para nós mesmos e que portanto não têm existência intrínseca. Que incorporamos sem saber (ou não), pela educação, cultura, carências, insegurança e experiências boas e más no passado. Todo eu particular (ego), centro das leis pessoais, carece ser mantido e autoafirmado, a todo momento, porque está fadado a se despedaçar no próprio movimento do dharma (a roda da lei). Esta é a maneira que desenvolvemos para viver num mundo incompreensível, misterioso e contraditório. Este tipo de lei deve e pode ser abandonada, completamente, agora mesmo. E ao fazermos isto, consequentemente surge radiante a sabedoria, nossa verdadeira natureza. Aberta ao mistério, porque participa dele, aberta à contradição, que já não há.
O ego pode criar uma grande resistência à percepção do dharma, e neste momento ele talvez esteja cheio de argumentos e justificativas para reafirmar sua existência. Mas não há porquê se preocupar, como seres manifestados precisamos dele, do ego, claro. Veja, o ego é só um nome para uma construção mental. Neste caso, o único ego que precisamos é aquele que nos ajuda a manter ele próprio vazio a todo instante, isto é, sem nenhuma experiência boa ou má cristalizada. Sem segurar o que quer que seja, sem acreditar que possui algo. Este eu, que assim vai além do ego, não precisa acreditar, não precisa crer, ele sabe, sabe porque observa este movimento de autoconstrução circunstancial constante mas não prega um prego, não enterra no solo uma viga sequer, ele apenas observa este fluxo sem paradeiro. Como os primeiros da nossa espécie, a sabedoria é nômade, ela não precisa construir casas porque ela já está em casa.
Neste tipo de lei pessoal, a ser abandonada, o pior seria querer que outros forçosamente acreditassem nelas também. Seria um pequeno terror, desejar que outros incorporem as leis que desastrosamente inventamos para nós. Seja por vias sutis ou diretas. Por outro lado, ao nos libertarmos, libertamos também o outro.
- A dimensão psicológica prende-se aos aspectos das leis 2 e 3 e portanto deve ser abandonada. Abandonar não significa que a parte psicológica da mente, digamos assim, irá desaparecer, significa que esta não será mais dominante e será encarada apenas como mais um aspecto da existência.
segunda-feira, março 29, 2010
quarta-feira, março 24, 2010
Ação Correta

Dias atrás uma amiga falava de um amigo em comum, que havia estado na Índia de férias, e lá passou um tempo num ashram (local de prática espiritual), conviveu com "Avatares Iluminados", na presença de um deles teria chorado copiosamente, apenas pela presença. Noutro momento, teve a oportunidade de conhecer o principal mestre do local, que recebia grupos de pessoas para uma entrevista direta, e nesta entrevista perguntaram, entre outras coisas, o que acontecia depois da morte. O mestre então disse que as pessoas inicialmente rememoravam toda a sua vida passada e depois escolhiam para que "plano" ou "mundo" seguir. Interessante esta visão, pois no caso é a própria pessoa que escolhe, depois de tomar consciência do conjunto de sua vida até aquele momento. Diferente das chamadas grandes religiões, onde sempre há uma entidade julgando aquele que chega no céu e decidindo por ele para que tipo de paraíso ou inferno ele deverá seguir.
O Zen não se ocupa destas questões, o que acontece depois desta vida veremos quando lá chegarmos. Se estamos presentes em nossa vida diária, se a todo instante estamos atentos, temos condições de decidir o melhor para aquele momento, ou ainda: atentos, deixamos fluir e observamos o próprio dharma se fazer, e vamos juntos, entre causas e efeitos.
Mas lembrando a resposta do grande mestre do ashram indiano, podemos fazer uma relação direta com a prática zen. No zen não fazemos distinção entre vida e morte, não da maneira comum. Se estamos vivendo, então estamos vivos, óbvio, mas do ponto de vista do nascimento, estamos morrendo, a cada instante, então também estamos mortos - vivos e mortos simultaneamente, como na física quântica. Cada instante vivido e observado é profundo e é um nascimento e uma morte em si, esta é uma visão do desapego. Bem, se estamos profundamente atentos aqui e agora, estamos percebendo que estamos morrendo, vivendo intensamente. A prática do zen escancara as portas da percepção da mente e do corpo e naturalmente o auto-conhecimento é percorrido, então convivemos a todo instante com todos os "ingredientes" da nossa vida, nossas causas e condições, as observamos e as aceitamos. Este é o tal "filme da vida", a rememoração de todo o passado, ele está aqui, em termos de desapego e sabedoria. Desta forma o zen não quer saber o que acontece depois da morte, daquela morte do caixão e do enterro, observamos a morte desde agora, a cada respiração, e decidimos pela "Ação Correta", que se completa de forma circular e dinâmica na observação do "Caminho Óctuplo". Assim o Caminho Óctuplo ganha sua dimensão:
1. Visão Correta - Sabedoria
2. Pensamento Correto - Sabedoria
3. Fala Correta - Ética
4. Ação Correta - Ética
5. Meio de Vida Correto - Ética
6. Esforço Correto - Prática contemplativa
7. Atenção Correta - Prática contemplativa
8. Prática Contemplativa (zazen) Correta - Prática contemplativa
Não há ninguém que possa decidir por nós, para qual mundo ir ou permanecer depois da morte (agora!), já estamos praticando isso, já nos movemos no caminho, passo-a-passo.
Não há ninguém que possa praticar por nós.
Não sabemos permanecer.
Esquecemos teorias.
segunda-feira, março 22, 2010
Confiança no translúcido
das formas incessantes
Para onde quer que olhem
estes olhos da face, como se não o fossem
Iluminam, para onde quer.
Obscurece apenas a pequena mente, renitente
Mas sob o sol, folhas fazem sombras na calçada
Não é o sol as formas das folhas na sombra?
Como olhos sem pensar, envolvente.
Vasto, vasto, da cor do que não acaba.
O que poderia fazer para impedir o belo de aparecer? (Deveria?)
Em todo lugar, a todo instante... (Não o faça!)
Chamaria então tudo belo, sendo: o que nem feio nem bonito
E que por encanto é assim, por natureza, e ainda antes: movendo...
Nem homem
nem mulher
nem flor
nem ramo
nem céu
nem chuva
nem cor
nem forma
Fios de água
Gotas sem cor
Fluxo de reflexos ondulantes
tudo ainda então,
movendo...
estes olhos da face, como se não o fossem
Iluminam, para onde quer.
Obscurece apenas a pequena mente, renitente
Mas sob o sol, folhas fazem sombras na calçada
Não é o sol as formas das folhas na sombra?
Como olhos sem pensar, envolvente.
Vasto, vasto, da cor do que não acaba.
O que poderia fazer para impedir o belo de aparecer? (Deveria?)
Em todo lugar, a todo instante... (Não o faça!)
Chamaria então tudo belo, sendo: o que nem feio nem bonito
E que por encanto é assim, por natureza, e ainda antes: movendo...
Nem homem
nem mulher
nem flor
nem ramo
nem céu
nem chuva
nem cor
nem forma
Fios de água
Gotas sem cor
Fluxo de reflexos ondulantes
tudo ainda então,
movendo...
terça-feira, março 16, 2010
As Cinco Lembranças
1. "Pertenço à natureza do envelhecimento; não há nenhum modo de escapar do envelhecimento."
2. “Pertenço à natureza das doenças; não há nenhum modo de escapar de sofrer alguma doença."
3. “Pertenço à natureza da morte; não há nenhum modo de escapar da morte."
4. “Tudo aquilo que me é querido e todos que amo pertencem à natureza da impermanência. Não há nenhum modo de evitar me separar deles algum dia."
5. "Minhas ações são meus únicos verdadeiros pertences. Eu não posso escapar àsconseqüências de minhas ações. Minhas ações são o solo sobre o qual eu piso."
2. “Pertenço à natureza das doenças; não há nenhum modo de escapar de sofrer alguma doença."
3. “Pertenço à natureza da morte; não há nenhum modo de escapar da morte."
4. “Tudo aquilo que me é querido e todos que amo pertencem à natureza da impermanência. Não há nenhum modo de evitar me separar deles algum dia."
5. "Minhas ações são meus únicos verdadeiros pertences. Eu não posso escapar àsconseqüências de minhas ações. Minhas ações são o solo sobre o qual eu piso."
segunda-feira, março 15, 2010
Abandona o momento exato
Não mais ouvir assim, não mais ver assim, não mais lembrar assim, não mais sentir assim... Quando alguém Observa o nascimento das formas da mente, o momento preciso disto, estará aberto à "Grande Morte".
A morte que ultrapassa a morte, que vai além da sua vida, de qualquer vida. Vida à qual se pode chamar Livre. Porquê a própria raiz do apego foi exposta e abandonada, sem demora.
A mais clara e desperta vida nasce onde morrem as formações mentais. A cada instante, sem demora. Este momento é o Shikantaza, a iluminação. É simples, a iluminação acontece quando se pratica a iluminação e, claro: não é apenas sentado (em zazen), mas também na mente comum da vida cotidiana, da mais insignificante vida. Então: não mais falar assim, não mais querer assim, não mais sorrir assim...
Esta é a expressão da confiança no Dharma dos Budas.
A morte que ultrapassa a morte, que vai além da sua vida, de qualquer vida. Vida à qual se pode chamar Livre. Porquê a própria raiz do apego foi exposta e abandonada, sem demora.
A mais clara e desperta vida nasce onde morrem as formações mentais. A cada instante, sem demora. Este momento é o Shikantaza, a iluminação. É simples, a iluminação acontece quando se pratica a iluminação e, claro: não é apenas sentado (em zazen), mas também na mente comum da vida cotidiana, da mais insignificante vida. Então: não mais falar assim, não mais querer assim, não mais sorrir assim...
Esta é a expressão da confiança no Dharma dos Budas.
segunda-feira, março 08, 2010
Vencer o inimigo pela gentileza
Um pequeno retrato de um companheiro de sangha, Rodrigo Pedaleiro. Um documentário preciso sobre sua prática de Kung-fu, onde se percebe que esta não está separada de sua vida. Como deveria ser com tudo o que fazemos. Nos arriscamos muito observando de fora, sem nos envolvermos com as coisas, muitas vezes com um distanciamento calculado, em participações muito condicionais. A vida quer o seu mergulho, assim ela o espera, sem separação, sem julgamento, sem comparação.
sexta-feira, março 05, 2010

Contemplação da Lua
Acontece neste mês, dia 30, às 19hs, no Templo Busshinji, o encontro de haicaístas a fim de contemplar a lua, evento anual que comemora o aparecimento da primeira lua cheia de outono. No ensejo, nos primeiros 30 minutos, os participantes apreciam a lua e compõem haicais. Depois, reúnem-se e apreciam o trabalho dos outros, e escolhem o de sua preferência. Mais tarde, pode-se saber o haicai mais votado, bem como o autor que teve o melhor desempenho.
Evento que acontece anualmente no local, com o patrocínio do Templo Busshinji e do Grêmio Haicai Ipê. Aberto a todos, pede-se trazer papel e caneta. A única condição é que se componha haicai, cujo termo de estação (Kigo) seja justamente a lua cheia de outono.
Templo Busshinji: rua São Joaquim, 285, Liberdade - próximo à Estação de metrô São Joaquim.
terça-feira, março 02, 2010
O silêncio do fundo
"Percepção" na prática do dharma de buda é estar em unidade com o que se percebe, ser um com a percepção. Pode-se usar ainda a palavra "profundamente" para dar ênfase a este tipo de ação. "Observar" também pode ser usado com o mesmo efeito. Quando se observa da "forma budista", há uma coisa só, uma completa interação, qualquer separação ou dualidade não passa de um efeito particular restrito a um ponto de vista aleatório, relativo a algo ou alguém. Então "perceber" ou "observar" é a própria expressão da unidade. Quando o Buda Shakiamuni declara: Eu, a estrela da manhã, a grande terra e todos os seres somos iluminados, ou, somos um só, ele percebe (profundamente) a iluminação, o fluxo na unidade causal entre todas coisas onde não há exceção, a verdade sem máculas, então: "Eu": o centro do universo; a "estrela da manhã": uma luz na abóbada celeste vinda de um outro espaço-tempo; a "grande terra": onde flui a nossa vida, o nosso espaço-tempo; "todos os seres": tudo o que está manifestado, tudo o que se diferencia, desde um grão de poeira a um beija-flor e uma cordilheira; pertencemos dinamicamente a um só fluir, uma só causa.
Quando falamos sobre a iluminação enquanto não a OBSERVAMOS, estamos nos iludindo no caminho, tentamos entender o desconhecido projetando nossa criatividade deludida. Ainda estamos querendo adquirir algo, adquirir conhecimento, consumir, banalizar. Se pensamos que a iluminação depois de alcançada é fixada ou não, é adquirida para sempre, ou não, estamos projetando nossa necessidade de possuir (fixar) algo num mundo onde o possuir é uma ilusão circunstancial. Somos com o universo a própria iluminação, onde perder e ganhar é exatamente a mesma coisa, onde a ânsia da dualidade é nonsense.
O Zen aponta um caminho e é preciso deixar de olhar para a seta que aponta e observar, profundamente, o próprio Zen, entregar-se à esta observação, soltar as mãos das ramagens à beira do rio e afundar como um tronco impregnado pela água no silêncio movediço do fundo. Observe o silêncio. Observe o sol e as folhas das árvores, lá do fundo, completamente envolvido. Pratique o Zazen Shikantaza sem condições, não coloque obstáculos onde não há, aprofunde-se, vá além do que pensa de si mesmo, vá até a ponta da raiz durante os sesshins, descubra onde nascem os rios, radicalize!
Quando falamos sobre a iluminação enquanto não a OBSERVAMOS, estamos nos iludindo no caminho, tentamos entender o desconhecido projetando nossa criatividade deludida. Ainda estamos querendo adquirir algo, adquirir conhecimento, consumir, banalizar. Se pensamos que a iluminação depois de alcançada é fixada ou não, é adquirida para sempre, ou não, estamos projetando nossa necessidade de possuir (fixar) algo num mundo onde o possuir é uma ilusão circunstancial. Somos com o universo a própria iluminação, onde perder e ganhar é exatamente a mesma coisa, onde a ânsia da dualidade é nonsense.
O Zen aponta um caminho e é preciso deixar de olhar para a seta que aponta e observar, profundamente, o próprio Zen, entregar-se à esta observação, soltar as mãos das ramagens à beira do rio e afundar como um tronco impregnado pela água no silêncio movediço do fundo. Observe o silêncio. Observe o sol e as folhas das árvores, lá do fundo, completamente envolvido. Pratique o Zazen Shikantaza sem condições, não coloque obstáculos onde não há, aprofunde-se, vá além do que pensa de si mesmo, vá até a ponta da raiz durante os sesshins, descubra onde nascem os rios, radicalize!
terça-feira, fevereiro 23, 2010
Apego e confusão
Apego/desapego. Eis um conceito muito confuso porquê em grande parte das vezes entendido de forma superficial, observado com uma mente condicionada, fechada em si mesma. A questão é que palavras e logo conceitos são inerentes à nossa condição humana atual, porém, quem é que tem TEMPO de ir além das palavras? O budismo se utiliza também de palavras para expressar sua "pedagogia", mas palavras são vazias, são formas apenas, e nela depositamos o que queremos, e cada um deposita uma coisa diferente e acaba fixando uma forma (a "sua" forma de ver porquê acredita também numa identidade pessoal fixa), se apegando a esta forma, e aí começa todo o conflito e sofrimento.
Aprofundando-se na percepção da natureza intrínseca de todas as coisas, a verdade é muito simples, mas ela só é realmente observável direta e individualmente, ninguém pode ter um insight por outra pessoa. Esta natureza é simplesmente o fato de que tudo, absolutamente tudo neste universo está se movendo: movo meu corpo enquanto ando, dentro dele o suco gástrico se desloca e reage com diversos alimentos que se moveram até o estômago, são plantas que foram regadas, e se moveram em direção à luz, e que brotaram num solo preparado a partir de uma semente, dentro da semente há átomos semelhantes aos meus, que por sua vez estão continuamente se combinando e recombinando em novas estruturas, e dentro destes átomos os elétrons e neutros estão em constante movimento, tudo isso sobre uma placa tectônica da crosta terrestre que se move (onde estão meus pés), num planeta que gira sobre si mesmo e ao redor de uma estrela chamada sol, que está se resfriando e um dia vai morrer... Veja, nem o sol escapa do movimento, porquê nós humanos escaparíamos? Porquê nós teríamos a capacidade de fixar as coisas? Na verdade isto só acontece dentro da nossa mente deludida, e em nenhum outro lugar real deste universo, o universo não conhece "parar", não há objeto que não se mova incessantemente, então poderíamos até mesmo mudar a palavra "objeto" para "movimento", já que tudo está se transformando, se deslocando de um ponto no espaço-tempo para outro ponto no interior da eternidade.
Apego nada mais é do que pretender fixar as coisas, que é a mesma coisa de acreditar em algo fixo, isto é apego no sentido budista, nada mais. E aí estão dois erros comuníssimos: a crença e a fixação. O budismo não requer crença pois não acredita na imobilidade - isto é a tal da impermanência. Budismo são olhos que vão além dos olhos e observam plenamente, e isto acontece através da prática do zazen shikantaza.
Então eu posso ter um carro, uma casa, dinheiro, mulher, marido, filhos, um iate, um cancer, uma dor, uma tristeza. "Ter" aqui tem o sentido de "estar com" por um período determinado, apenas isso, observar isso profundamente a todo instante é desapego, estar preparado para deixar ir quando for o momento é desapego. Deixar vir, deixar ir é desapego. Observar nitidamente este fluxo é estar neste fluxo, é findar o apego, é ser livre, profundamente livre, mas, quem quer, de verdade, até a raiz do cabelo?
Aprofundando-se na percepção da natureza intrínseca de todas as coisas, a verdade é muito simples, mas ela só é realmente observável direta e individualmente, ninguém pode ter um insight por outra pessoa. Esta natureza é simplesmente o fato de que tudo, absolutamente tudo neste universo está se movendo: movo meu corpo enquanto ando, dentro dele o suco gástrico se desloca e reage com diversos alimentos que se moveram até o estômago, são plantas que foram regadas, e se moveram em direção à luz, e que brotaram num solo preparado a partir de uma semente, dentro da semente há átomos semelhantes aos meus, que por sua vez estão continuamente se combinando e recombinando em novas estruturas, e dentro destes átomos os elétrons e neutros estão em constante movimento, tudo isso sobre uma placa tectônica da crosta terrestre que se move (onde estão meus pés), num planeta que gira sobre si mesmo e ao redor de uma estrela chamada sol, que está se resfriando e um dia vai morrer... Veja, nem o sol escapa do movimento, porquê nós humanos escaparíamos? Porquê nós teríamos a capacidade de fixar as coisas? Na verdade isto só acontece dentro da nossa mente deludida, e em nenhum outro lugar real deste universo, o universo não conhece "parar", não há objeto que não se mova incessantemente, então poderíamos até mesmo mudar a palavra "objeto" para "movimento", já que tudo está se transformando, se deslocando de um ponto no espaço-tempo para outro ponto no interior da eternidade.
Apego nada mais é do que pretender fixar as coisas, que é a mesma coisa de acreditar em algo fixo, isto é apego no sentido budista, nada mais. E aí estão dois erros comuníssimos: a crença e a fixação. O budismo não requer crença pois não acredita na imobilidade - isto é a tal da impermanência. Budismo são olhos que vão além dos olhos e observam plenamente, e isto acontece através da prática do zazen shikantaza.
Então eu posso ter um carro, uma casa, dinheiro, mulher, marido, filhos, um iate, um cancer, uma dor, uma tristeza. "Ter" aqui tem o sentido de "estar com" por um período determinado, apenas isso, observar isso profundamente a todo instante é desapego, estar preparado para deixar ir quando for o momento é desapego. Deixar vir, deixar ir é desapego. Observar nitidamente este fluxo é estar neste fluxo, é findar o apego, é ser livre, profundamente livre, mas, quem quer, de verdade, até a raiz do cabelo?
sexta-feira, fevereiro 19, 2010
Deus é nada
Documentário de Tânia Quaresma. Mostra um sesshin no mosteiro Pico de Raios em Ouro Preto com o mestre Tokuda em 1992. Há no final um teishö (palestra).
terça-feira, fevereiro 09, 2010
Sesshin
O sol nasce para todos e a ninguém cobra
Alguns pensam que querem se aproximar do fogo.
E quando pensam muito, pensam o que todos pensam
e pensando que pensam corretamente desistem
Outros se aproximam do fogo, mas só um pouco
- isto já é o suficiente, nada de avermelhar a pele
queimar então é que não, vão até onde chegam
seus óculos escuros e protetores solar, desta ou daquela marca
Outros sim, estão dispostos, se aproximam muito do fogo
e por horas o encaram, as faces vermelhas, os olhos em chamas
até chamuscam, estes ficam íntimos, nem se importam
com o calor, se expõem como são, sem proteções
mas quando chega o momento de se deixarem torrar em labaredas, são tomados pelo medo e se afastam, mantêm distância, mínima, mas mantém
Mas há os que se aproximam tanto, tanto, que seus pés
se acendem como lâmpadas e sua mente que também arde
se abre como uma flor no jardim dos budas, e tudo
fica indizivelmente claro. E desse jardim já não retornam
embora estejam aqui: sentando, comendo, varrendo e cantando.
E por último há aquele que encontra o centro do fogo
e lá permanece, e estando lá está aqui, destes só ouvi falar.
Alguns pensam que querem se aproximar do fogo.
E quando pensam muito, pensam o que todos pensam
e pensando que pensam corretamente desistem
Outros se aproximam do fogo, mas só um pouco
- isto já é o suficiente, nada de avermelhar a pele
queimar então é que não, vão até onde chegam
seus óculos escuros e protetores solar, desta ou daquela marca
Outros sim, estão dispostos, se aproximam muito do fogo
e por horas o encaram, as faces vermelhas, os olhos em chamas
até chamuscam, estes ficam íntimos, nem se importam
com o calor, se expõem como são, sem proteções
mas quando chega o momento de se deixarem torrar em labaredas, são tomados pelo medo e se afastam, mantêm distância, mínima, mas mantém
Mas há os que se aproximam tanto, tanto, que seus pés
se acendem como lâmpadas e sua mente que também arde
se abre como uma flor no jardim dos budas, e tudo
fica indizivelmente claro. E desse jardim já não retornam
embora estejam aqui: sentando, comendo, varrendo e cantando.
E por último há aquele que encontra o centro do fogo
e lá permanece, e estando lá está aqui, destes só ouvi falar.
terça-feira, fevereiro 02, 2010
quinta-feira, janeiro 28, 2010
Sangye Gyatso
Nosso amigo e colega de prática do Bushinji, Hokkio, agora se chama Sangye Gyatso. Está vivendo na Índia e recentemente foi ordenado monge pela escola tibetana, seu mosteiro é o www.mindrolling.org Que ele encontre o portal sem portal neste novo caminho que escolheu!






terça-feira, janeiro 26, 2010
Onde vivem os monstros

Trata-se de um filme delicado, belo, contado do ponto de vista de onde reina a imaginação, a ingenuidade luminosa, onde a criança é rainha. A fotografia é especial, a câmera se move na altura dos olhos do menino protagonista, nada é óbvio nem inverossímil, embora absurdo, absurdo? O que seria uma "família" de monstros tentando viver juntos, sofrendo pelos conflitos e então devorando crianças - sua única esperança e frustração?
A não perder, nos cinemas.
Dojo Kzazen (Brasília)
Horários de prática no Dojo Kzazen
Queridos praticantes, como previsto iniciamos as atividades do ano de 2010 em 25 de janeiro com nova programação semanal.
-zazen matinal de 2ª a 6ª feira às 6:30h,
-na 4ª feira zazen, kinhin, zazen às 19:00h,
-aos sábados haverá zazen às 18:30h.
O calendário completo das atividades de 2010 em breve será postado no blog - cazazen.blogspot.com
"Mushin, o não-espírito, o espírito sem dualidade, e mushotoku, o espírito do não-lucro, são muito importantes. Se quiseres ver tua natureza de buda, é importante encontrares a ocasião, o ensejo, a oportunidade. O caminho é hishiryo, não consciente, sem objetivos, concentrado na postura e na respiração. Assim, automaticamente, naturalmente, inconscientemente, a consciência se desvanece." Taisen Deshimaru
Enviado pela monja Magda Gyoku En
Queridos praticantes, como previsto iniciamos as atividades do ano de 2010 em 25 de janeiro com nova programação semanal.
-zazen matinal de 2ª a 6ª feira às 6:30h,
-na 4ª feira zazen, kinhin, zazen às 19:00h,
-aos sábados haverá zazen às 18:30h.
O calendário completo das atividades de 2010 em breve será postado no blog - cazazen.blogspot.com
"Mushin, o não-espírito, o espírito sem dualidade, e mushotoku, o espírito do não-lucro, são muito importantes. Se quiseres ver tua natureza de buda, é importante encontrares a ocasião, o ensejo, a oportunidade. O caminho é hishiryo, não consciente, sem objetivos, concentrado na postura e na respiração. Assim, automaticamente, naturalmente, inconscientemente, a consciência se desvanece." Taisen Deshimaru
Enviado pela monja Magda Gyoku En
Cantiga
Comigo me desavim,
No extremo som do perigo;
Não posso aturar comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia
Antes que esta assi crecesse;
Agora já fugiria
De mim se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo
Se trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
Sá de Miranda
Poeta Português
(1421 - 1558)
No extremo som do perigo;
Não posso aturar comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia
Antes que esta assi crecesse;
Agora já fugiria
De mim se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo
Se trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
Sá de Miranda
Poeta Português
(1421 - 1558)
quarta-feira, janeiro 13, 2010

Retiro da Gratidão, acontece de 11 a 15 de fevereiro no Templo Busshinji, São Paulo. As atividades iniciam-se às 6hs, encerrando-se diariamente às 19h30. Não haverá hospedagem nas instalações do templo. As sessões de zazen são de 40 minutos, com 10 de kinhin e 10 de descanso. As refeições da manhã e do almoço acontecem no zendô, sentados em postura de zazen. Igualmente em caso das cerimônias Choka, Nichu Fugin e Banka.
Tem a direção do Superior Dosho Saikawa, responsável também em realizar Teisho, Kussen e Dokusan. O custo-doação para este sesshin é de R$ 150,00.
Templo Busshinji - Rua São Joaquim, 285, Liberdade, São Paulo. Próximo à Estação São Joaquim, do metrô. Fone: (011) 3208-4515.
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