segunda-feira, março 17, 2008

Trânsito zen

Em dia de trânsito recorde, monge budista dá dicas de como controlar o estresse

Em seu Uno ano 2002, ele enfrentou o trânsito de São Paulo num desaconselhável início de noite de sexta-feira. Levou buzinada e luz alta para sair da frente, assustou-se com um motoqueiro fazendo ultrapassagem em virada de esquina, enfrentou a obstinação de um caminhoneiro que não permitiu a troca de faixa e, naturalmente, viu-se encurralado num engarrafamento daqueles. Mas nem sequer se abalou.

"Se você tem que enfrentar o trânsito, que enfrente com sabedoria", diz o monge João Koun, 38. Ele é pregador da escola zen do budismo, que se concentra na meditação.

Na semana em que São Paulo bateu recorde de congestionamento -221 km na quinta-feira-, a Folha pegou carona com o monge para saber como se evita o estresse no trânsito paulistano.

Velocidade mínima
O passeio começou na Lapa (zona oeste), onde ele mora, passou pelas avenidas Doutor Arnaldo e Pacaembu e incluiu a marginal Tietê. O Uno precisou de uma hora e meia para percorrer um trajeto de 30 km -a uma velocidade média de apenas 20 km/h.

Cabeça raspada e roupa preta de monge, Koun conversou todo o tempo com a voz tranqüila. Jurou que não passou pela cabeça buzinar para o motorista que jogou o carro em sua frente com violência, sem dar a seta.

"No trânsito, olhamos só a máquina. Mas há uma pessoa ali dentro." O essencial, segundo o monge, está em algo insuspeito e bem concreto: a respiração. O motorista deve prestar atenção ao ar entrando nos pulmões e saindo. Para se concentrar na respiração, uma dica do monge é contar cada inspiração e expiração, de um a dez. O banco do carro deve ficar totalmente na vertical, para facilitar a entrada e a saída do ar.

Terminado o passeio, o monge Koun guardou seu Uno na garagem e revelou: "Se não fosse para a reportagem, eu jamais teria saído de carro a esta hora". Só sai de carro em casos excepcionais. Para chegar ao templo budista, na Liberdade (região central), vai de bicicleta. "Uma forma de não sentir raiva no trânsito é evitá-lo."

Ricardo Westin
Da reportagem local
Folha de São Paulo - 17/03/2008

domingo, março 09, 2008

Libertação dos gakis


No universo simbólico budista há a presença de dez estágios de entendimento. Tratemos, no entanto, dos “seis mundos inferiores” formados pelas vias de expiação, apego e ausência de luz nas seguintes categorias: inferno, animais, gaki, shura, homens e devas. O homem também está num estágio de apego não apenas à matéria, mas igualmente às idéias. As idéias dizem respeito ao espírito. Acima dos homens estão os devas, ainda apegados, mas possuidores de qualidades que os tornam melhores que os humanos. Entretanto, sofrem por causa da vaidade e falta de compaixão.

No entanto são os que se encontram abaixo da condição humana, os que mais sofrem. Um shura é um guerreiro incansável, extremamente apegado às suas convicções, metas e realizações. Pode ser visto como um ser humano, com diferença de se manter acorrentado às paixões de sua própria auto-realização, sem medir conseqüência de seus atos. Sofre em demasia diante das derrotas, pois visa apenas a vitória.

Abaixo deste estão os gakis. É representando como alguém de debilidade física, troncudo, meio corcunda, feio, faminto e com sede. Perambulam de um lado para outro, como fantasmas, pedindo alimento e água. Ainda que consigam alimento e água, o que os tornam barrigudos, não conseguem saciar fome e sede.

Estas categorias podem se referir ao próprio homem, em estados emocionais de queda, desde os apegos de ordem espiritual às de total dependência orgânica. No caso, o gaki somente se realiza, ainda que momentaneamente, comendo e bebendo. Claro que ele é extremamente apegado, beirando às condições sub-humanas de sobrevivência. Por isso, a salvação de um gaki estaria na mudança da sua mentalidade, mas enquanto isso não acontece precisa sanar suas necessidades imediatas. Dar de comer e beber a um gaki é um ato de compaixão, portanto totalmente isento de recompensa.


Um gaki consegue alimentar-se somente pela mão alheia, pois com as próprias mãos não obtém resultado. Por causa de seu aspecto horripilante, ninguém se aproxima dele. Ao contrário, foge. Ou ainda, não se importa com o sofrimento alheio.

Justamente no mundo em que vivemos, as condições apresentadas facilitam o aparecimento de gakis. Podemos dizer de outra forma: da miséria. E a miséria é a própria contradição da existência do acúmulo da riqueza. O gaki é uma representação sobrenatural de algo muito próximo de nossas vidas.

Alimentando os gakis


Durante a realização da Cerimônia de Equinócio costuma-se montar uma mesa com fartura na entrada do templo. Ocasião em que acontece o Sejiki - doação de alimentos. Canta-se na ocasião o Portal da Ambrosia (Kanromon), em que o monge oficiante liberta e chama os gakis para o banquete, abre em seguida as suas bocas e depois deposita um pouco de alimento. Feliz, os gakis reconhecem o ato de compaixão e, em retribuição, dançam demonstrando alegria e, em seguida, retornam ao seu mundo.

Desta vez, a representação dos gakis, durante o canto do Portal da Ambrosia aconteceu na Cerimônia de Equinócio de Outono (Aki Higan), dia 9 de março, domingo, no Templo Busshinji. Oportunidade única, pois serviu de transmissão pedagógica do que realmente dizia o Portal da Ambrosia: doação de alimentos.

Costuma-se nesta ocasião, no Equinócio, ir ao encontro dos antepassados ao atravessar “a outra margem”. Os alimentos são oferendas aos nossos antepassados, mas também a todos os outros que necessitam, entre eles os marginalizados e desprezados gakis. Seres tristes, corroídos pelo sofrimento, são devidamente alimentados pela ação boa dos homens de bem.


Uma cerimônia é um ato simbólico que representa as nossas profundas intenções no plano real. O contrário disto vira apenas espetáculo. Por isso, ao participar de uma cerimônia é assumir compromissos. Em referência, ajudar a todos sem distinção.

quarta-feira, março 05, 2008

Batizado

do filho nasce o pai
tudo é testamento

(Tomás recebe as Três Jóias de Saikawa Roshi. Seu nome do Dharma é Homan: pleno do Dharma)

Pureza

"O Patriarca (um dia) endereçou-se à assembléia como segue:
Em nosso sistema de meditação, nós nem enfatizamos a mente (em contraposição à Essência da Mente) nem a pureza. Tampouco aprovamos a Não-atividade. Quanto a enfatizar a mente, devemos saber que ela é principalmente delusiva; e quando percebemos que ela é apenas um fantasma, não haverá nenhuma necessidade de enfatizá-la. Quanto a enfatizar a pureza, nossa natureza já é intrinsecamente pura; e uma vez que nos libertamos de toda ‘idéia’ delusiva, nada mais haverá além da pureza em nossa natureza, porque é a idéia delusiva que obscurece o Tathata (Aquilo que é). Se direcionarmos nossa mente para enfatizar a pureza, estaremos criando apenas outra ilusão, a ilusão da pureza. Considerando que a ilusão não tem nenhum lugar permanente, é delusivo procurar enfatizá-la. A Pureza não tem forma nem aspecto; mas algumas pessoas vão tão longe que inventam uma ‘Forma da Pureza’, e lidam com isto como um problema o qual devemos procurar uma solução. Sustentando tal opinião, estas pessoas tentam dominar a pureza, e sua Essência da Mente é assim obscurecida."

Sutra da Plataforma, Hui-Neng

Fonte: site Shunya

segunda-feira, março 03, 2008

Da perfeição da vida

Por que prender a vida em conceitos e normas?
O Belo e o Feio... O Bom e o Mau... Dor e Prazer...
Tudo, afinal, são formas
E não degraus do Ser!

(Mário Quintana)

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Carma

Não temos os "nossos carmas",
os carmas são os carmas do mundo.
E é para eles que se dirige o (ZA)ZEN que praticamos.
Cada aqui e agora descoberto é nossa oração para o mundo.

Não salvamos a nós, salvamos o mundo.
Assim entoamos os votos do BODHISATTVA ao fim do dia.

Quem disse isso, eu não sei.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

O inimigo sou eu

Recentemente num consultório médico me deparei com uma reportagem muito interessante, como a reportagem era grande, pedi a revista para a secretária que me deu sem problemas. É a história de uma jornalista que foi enviada pelo seu editor para fazer um retiro de meditação no interior do Rio. O que era uma tarefa profissional apenas, acabou transformando profundamente a vida da jornalista.

"Esta é a história de uma aventura que desafia os limites do corpo e da mente. A repórter de ÉPOCA fez um retiro de meditação, no interior do Rio de Janeiro. Foram dez dias sem falar, ler ou escrever, mais de uma centena de horas imóvel. O objetivo do curso era mudar o funcionamento da mente para eliminar o sofrimento. Dos 61 participantes, cinco desistiram em diferentes etapas do percurso. A seguir, o relato dessa longa viagem pela geografia interior"

Leia a matéria na íntegra.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008


"Se em todos os momento e em todos os lugares nós firmemente mantivermos nossos pensamentos livres de desejos imaturos, e agirmos sabiamente em todas as ocasiões, então estaremos praticando Prajna (sabedoria). Uma única noção imatura é suficiente para afastar Prajana, enquanto que um único pensamento sábio irá trazê-lo de volta novamente."

Sutra da Plataforma, Hui-Neng

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Kômyôzô Zanmai

O Samadhi do Celeiro da Grande Sabedoria

Não procure a iluminação. Não tente escutar os fenômenos ilusórios. Não odeie os pensamentos que surgirão, nem os ame, e sobretudo não os guarde. De qualquer maneira, pratique o grande fundamento, aqui e agora. Se você não guardar o pensamento, ele não voltará por si só. Se você se entregar à expiração e deixar a inspiração enchê-lo, em um vaivém harmonioso, nada mais restará do que uma almofada sob o céu vazio, o peso de uma chama.

Se você não esperar nada do que faz e negar a considerar o que quer que seja, poderá eliminar tudo apenas pela meditação sentada.

Apesar de as oitenta e quatro mil ilusões irem e virem, se você não lhes der importância e as abandonar, nesse momento, de cada uma delas, uma depois da outra e todas juntas, poderá surgir o maravilhoso mistério do celeiro da grande sabedoria.
Não há apenas a sabedoria do tempo de meditação sentada. Há também aquela que, passo a passo, ato após ato, faz você ver progressivamente que cada fenômeno pode se realizar instantaneamente, independentemente de sua inteligência e de seu pensamento. Essa é a certificação verdadeira e autêntica de que o fenômeno existe sem perturbar a manifestação da sabedoria. É o poder espiritual do não-agir pela luz que ilumina a si mesma. Por isso, mesmo que muitos buddhas compreendam a sabedoria no samsara, eles não são do samsara. E, estando livres no nirvana, também não estão lá.

Na hora do seu nascimento, a sabedoria não existia.

Na hora da sua morte, ela não desaparecerá. Do ponto de vista do estado búddhico, ela não aumenta. Do ponto de vista dos sentidos, não diminui.

Assim como, quando tem ilusões ou dúvidas, você não pode fazer a boa pergunta; do mesmo modo, quando você obtiver a iluminação, não poderá expressá-la. Momento após momento, não considerará nada com a consciência. Durante todas as vinte e quatro horas do dia, você deve ter a calma e a grande tranqüilidade dos mortos. Não pense em nada por sua iniciativa. Assim, praticando a expiração e a inspiração, sua natureza profunda e sua natureza sensitiva se tornarão, inconscientemente, o não-saber, a não compreensão.

A partir daí, tudo poderá se tornar naturalmente calmo, irradiação da sabedoria, na unidade da mente e do corpo. É por isso que, quando a chamamos, ela deve responder depressa. É uma só e a mesma sabedoria que harmoniza num todo as pessoas da iluminação e as das ilusões. Assim, mesmo que se ponha em movimento, o movimento não deve perturbá-lo. E a floresta, as flores, as hastes de relva, os animais, os seres humanos, todos os fenômenos — longos ou curtos, quadrados ou redondos — serão compreendidos automática e independentemente de sua inteligência e ação pessoal do seu pensamento.

Não se apegue às roupas, nem à comida, nem à casa. Não sucumba ao desejo sensual nem ao aperfeiçoamento do amor, semelhantes às práticas animais.

É inútil interrogar os outros sobre a sabedoria, já que a sabedoria deles não pode ser de qualquer utilidade para você.
Originalmente, esse samadhi é o lugar de prática sagrado, como o oceano de todos os buddhas. Então, é o maior e mais sagrado de todos os fundamentos transmitidos diretamente pelo Buddha através da prática sagrada universal. Como é um discípulo do Buddha, você deve praticar a meditação sentada tranqüilamente sobre seu assento.

Não se sente sobre a almofada do inferno, dos pretas, dos animais ou asuras, nem mesmos dos humanos ou deuses. Apenas pratique o simplesmente sentar-se. Não desperdice o tempo. Aí está o que chamamos de autêntico espírito do dôjô, o verdadeiro samadhi do celeiro da grande sabedoria, a iluminação maravilhosa e esplêndida.


Koun Ejo
Fonte: Dharmanet

Kômyôzô Zanmai

O Samadhi do Celeiro da Grande Sabedoria

Não procure a iluminação. Não tente escutar os fenômenos ilusórios. Não odeie os pensamentos que surgirão, nem os ame, e sobretudo não os guarde. De qualquer maneira, pratique o grande fundamento, aqui e agora. Se você não guardar o pensamento, ele não voltará por si só. Se você se entregar à expiração e deixar a inspiração enchê-lo, em um vaivém harmonioso, nada mais restará do que uma almofada sob o céu vazio, o peso de uma chama.
Se você não esperar nada do que faz e negar a considerar o que quer que seja, poderá eliminar tudo apenas pela meditação sentada.

Apesar de as oitenta e quatro mil ilusões irem e virem, se você não lhes der importância e as abandonar, nesse momento, de cada uma delas, uma depois da outra e todas juntas, poderá surgir o maravilhoso mistério do celeiro da grande sabedoria.
Não há apenas a sabedoria do tempo de meditação sentada. Há também aquela que, passo a passo, ato após ato, faz você ver progressivamente que cada fenômeno pode se realizar instantaneamente, independentemente de sua inteligência e de seu pensamento. Essa é a certificação verdadeira e autêntica de que o fenômeno existe sem perturbar a manifestação da sabedoria. É o poder espiritual do não-agir pela luz que ilumina a si mesma. Por isso, mesmo que muitos buddhas compreendam a sabedoria no samsara, eles não são do samsara. E, estando livres no nirvana, também não estão lá.
Na hora do seu nascimento, a sabedoria não existia. Na hora da sua morte, ela não desaparecerá. Do ponto de vista do estado búddhico, ela não aumenta. Do ponto de vista dos sentidos, não diminui.

Assim como, quando tem ilusões ou dúvidas, você não pode fazer a boa pergunta; do mesmo modo, quando você obtiver a iluminação, não poderá expressá-la. Momento após momento, não considerará nada com a consciência. Durante todas as vinte e quatro horas do dia, você deve ter a calma e a grande tranqüilidade dos mortos. Não pense em nada por sua iniciativa. Assim, praticando a expiração e a inspiração, sua natureza profunda e sua natureza sensitiva se tornarão, inconscientemente, o não-saber, a não compreensão.

A partir daí, tudo poderá se tornar naturalmente calmo, irradiação da sabedoria, na unidade da mente e do corpo. É por isso que, quando a chamamos, ela deve responder depressa. É uma só e a mesma sabedoria que harmoniza num todo as pessoas da iluminação e as das ilusões. Assim, mesmo que se ponha em movimento, o movimento não deve perturbá-lo. E a floresta, as flores, as hastes de relva, os animais, os seres humanos, todos os fenômenos — longos ou curtos, quadrados ou redondos — serão compreendidos automática e independentemente de sua inteligência e ação pessoal do seu pensamento.
Não se apegue às roupas, nem à comida, nem à casa. Não sucumba ao desejo sensual nem ao aperfeiçoamento do amor, semelhantes às práticas animais.

É inútil interrogar os outros sobre a sabedoria, já que a sabedoria deles não pode ser de qualquer utilidade para você.
Originalmente, esse samadhi é o lugar de prática sagrado, como o oceano de todos os buddhas. Então, é o maior e mais sagrado de todos os fundamentos transmitidos diretamente pelo Buddha através da prática sagrada universal. Como é um discípulo do Buddha, você deve praticar a meditação sentada tranqüilamente sobre seu assento.

Não se sente sobre a almofada do inferno, dos pretas, dos animais ou asuras, nem mesmos dos humanos ou deuses. Apenas pratique o simplesmente sentar-se. Não desperdice o tempo. Aí está o que chamamos de autêntico espírito do dôjô, o verdadeiro samadhi do celeiro da grande sabedoria, a iluminação maravilhosa e esplêndida.


Koun Ejo
Fonte: Dharmanet

domingo, janeiro 27, 2008

Cerimônia de ordenação de uma das discípulas de Taisen Deshimaru em 1975. Repare na descontração e alegria. Assista no vídeo abaixo:

Kesa



Em breve Sodô será monja. Hospedada em minha casa, concentra-se na costura de seu manto, o kesa.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Ypê

Contemplo o rio
que corre parado
e a dançarina de pedra
que evolui
Completamente
sem metas, sentado
não tenho sido, eu sou, não serei nem fui
A mente quer ser
mas querendo erra
pois só sem desejos
é que se vive o agora
Vede o pé do Ypê
apenasmente flora
revolucionariamente
apenso ao pé da serra

(Belchior)

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Sesshin de Carnaval

Acontece no Templo Busshinji, de 30 de janeiro a 04 de fevereiro, o Sesshin (retiro) do Carnaval.

A participação é aberta a todos os interessados. Todos devem vestir roupas pretas. Durante a prática do sesshin não serão permitidas saídas inesperadas ou entradas atrasadas. Não se traz telefone celular e nem usa o telefone do templo. Na hora do samu (trabalho), deve executar as tarefas com afinco. Evitar conversar durante os intervalos. Como não temos acomodações apropriadas, os participantes retornam para as suas casas à noite.

O custo para este sesshin é de R$ 200. Ou R$ 30 por dia para participação avulsa.

O Templo Busshinji fica na Rua S. Joaquim, 286, Bairro da Liberdade, São Paulo. Inscrições no local. Tels: (0xx11) 3208-4345/4515

terça-feira, janeiro 22, 2008

Postura

"Hoje, eu gostaria de falar sobre a postura zazen. Quando você se senta na posição de lótus completo, seu pé esquerdo fica sobre sua coxa direita, seu pé direito, sobre a coxa esquerda. Ao cruzarmos as pernas desse jeito, embora tenhamos uma perna esquerda e outra direita, elas se tornam uma só. A postura expressa a unidade da dualidade: nem dois, nem um. Este é o ensinamento mais importante: nem dois, nem um. Nosso corpo e mente não são dois, nem um. Se você pensa que seu corpo e mente são dois, está errado. Se pensa que são um, também está errado. Nosso corpo e mente são dois e um ao mesmo tempo. Habitualmente, pensamos que se algo não é um, é mais do que um; que se algo não é singular, é plural. Mas, na prática, nossa vida não é só plural, é também singular. Cada um de nós é duas coisas ao mesmo tempo: dependente e independente.

Depois de viver certo número de anos, morremos. É errado pensar que isto seja o fim de nossa vida. Mas, por outro lado, achar que não morremos também está errado. Morremos e não morremos. Este é o entendimento correto. Alguns podem dizer que nossa mente, ou alma, existe para sempre e que é apenas nosso corpo físico que morre. Isso não é bem assim porque ambos, corpo e mente, têm fim. Mas, também é verdade que ambos existem eternamente. Embora se diga corpo e mente, eles são de fato dois lados da mesma moeda. Este é o entendimento correto. Assim, a postura zazen simboliza essa verdade. Quando meu pé esquerdo está sobre o lado direito de meu corpo e o pé direito sobre o lado esquerdo, eu não sei qual é qual. Tanto pode ser um como outro.

A coisa mais importante na postura zazen é manter a coluna reta. Orelhas e ombros devem ficar alinhados. Relaxe os ombros e estique a parte superior da cabeça em direção ao teto. O queixo deve ficar ligeiramente recuado para dentro. Quando o queixo está erguido, você não tem firmeza na postura, com o que e provável que sua mente se ponha a vaguear. Assim, para reforçar sua postura, pressione o diafragma para baixo, em direção ao seu hara ou parte baixa do abdome. Isso o ajudará a manter o equilíbrio físico e mental. Ao tentar manter essa postura, poderá encontrar alguma dificuldade inicial em respirar de maneira natural, mas quando se acostumar a ela será capaz de respirar normal e profundamente.

Suas mãos devem formar o mudra cósmico. Se puser o dorso da mão esquerda sobre a palma da direita, as juntas dos dedos médios encostadas umas sobre as outras, as pontas dos polegares tocando-se levemente (como se estivessem segurando uma folha de papel), suas mãos formarão um belo oval. Mantenha esse mudra cósmico com todo cuidado, como que segurando algo precioso. Suas mãos devem estar junto ao corpo, de forma que os polegares fiquem à altura do umbigo. Mantenha os braços livres e relaxados, ligeiramente afastados do tronco, como se estivessem segurando um ovo em cada axila, sem quebrá-lo.

Não deve inclinar-se para os lados, nem para a frente, nem para trás. Deve ficar sentado bem reto, como se estivesse sustentando o céu sobre a cabeça. Isto não é apenas postura ou respiração. Isto expressa o ponto chave do buddhismo. E uma expressão perfeita da sua própria natureza búddhica. Se você busca a verdadeira compreensão do buddhismo, tem de praticar deste modo. Estas formas não são meios para obter um estado mental correto. Assumir a postura já é, em si, o propósito da nossa prática. Ao se colocar nessa postura, sua mente fica naturalmente em estado correto; portanto, não há necessidade de buscar um estado especial da mente. Quando você tenta obter algo, sua mente começa a divagar por outros lugares. Quando você não se ocupa em obter algo, seu corpo e sua mente permanecem juntos, presentes onde você está. Um mestre Zen diria: "Mate o Buddha". Isto é, mate o Buddha se ele existe em algum outro lugar. Mate o Buddha porque é você que deve reaver sua própria natureza búddhica.

Fazer algo é expressar nossa natureza. Não existimos por nenhuma outra razão senão a de sermos nós mesmos. Esse é o ensinamento fundamental, expresso nas formas que observamos. Por exemplo, quando nos sentamos ou ficamos em pé no zendô, seguimos certas regras. O propósito dessas regras não é fazer com que todos sejam iguais e sim permitir que cada um expresse o seu próprio eu mais livremente. Por exemplo: cada um de nós tem sua própria maneira de ficar em pé - nossa postura em pé é baseada na proporção do nosso corpo. Quando estiver em pé, seus calcanhares devem ficar separados um do outro a uma distância que corresponda à medida de seu punho: os dedões dos pés devem ficar alinhados com os mamilos. Assim como no zazen, temos que pôr alguma força no abdome. Aqui também suas mãos devem expressar o que você é. Ponha a mão esquerda contra o peito, com os dedos circundando o polegar, e a mão direita sobre ela. Colocando o polegar esquerdo apontado para baixo e os antebraços em linha paralela ao chão, você se sentirá firme como se estivesse seguro a uma grande coluna de um templo, sem possibilidade de encolher-se ou pender para os lados.

O mais importante é estar de posse do próprio corpo físico. Se você se encolhe, está se perdendo de si mesmo. Sua mente estará divagando alhures; você não estará presente em seu corpo. Não é assim que deve ser. Nós temos que existir no aqui e agora. Este é o ponto chave. Você tem que estar de posse de seu corpo e mente. Tudo deve existir no lugar certo e de maneira certa. Então não há problemas. Se o microfone que eu uso quando falo estiver colocado em outro lugar, ele não estará servindo ao seu propósito. Quando nosso corpo e mente estão em ordem, tudo o mais está no seu devido lugar, de forma certa.

Usualmente, sem que tenhamos consciência disso, tentamos mudar as coisas em vez de mudar a nós mesmos; tentamos arrumar as coisas que estão fora de nós. Mas é impossível ordenar as coisas se você mesmo não está em ordem. Quando você faz as coisas de forma certa, no momento oportuno, tudo o mais se organiza. Você é o chefe. Quando o chefe está dormindo, todos dormem. Quando ele faz algo bem feito, todos os demais o fazem igualmente bem e no tempo certo. Este é o segredo do buddhismo. Portanto, procure manter a postura correta, não apenas quando pratica zazen mas em todas as suas atividades. Adote a postura certa quando estiver dirigindo um carro ou quando estiver lendo. Se você lê numa posição displicente, não pode ficar lúcido por muito tempo. Experimente. Você descobrirá como é importante manter a postura correta. Este é o ensinamento verdadeiro. Ensinamentos escritos no papel não são verdadeiros ensinamentos, são alimento para o cérebro. Claro que é preciso alimentar o cérebro; porém, o mais importante é ser você mesmo praticando a forma correta de viver.

Eis por que o Buddha não pôde aceitar as religiões que existiam na sua época. Ele estudou várias religiões mas não ficou satisfeito com suas práticas. Não encontrou respostas no ascetismo ou nas filosofias. Ele não estava interessado nos aspectos metafísicos da existência, e sim em seu próprio corpo e sua própria mente no aqui e agora. E quando encontrou a si mesmo, descobriu que tudo quanto existe tem natureza búddhica. Essa foi sua iluminação. Iluminação não é uma sensação agradável ou algum estado particular da mente. O estado da mente que existe quando você se senta em postura correta é, por si só, iluminação. Se você não está satisfeito com o estado da mente que tem no zazen, significa que sua mente está divagando por aí afora.

E nosso corpo e nossa mente não devem oscilar nem vaguear. Nessa postura, não há por que falar em estado correto da mente. Você já o possui. Esta é a conclusão do buddhismo."

Do livro Mente Zen, Mente de Principiante - Shunryu Suzuki.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Ano novo

(Sutra da Perfeição da Sabedoria do Diamante que Corta as Ilusões)

Assim devemos pensar sobre este mundo efêmero:
uma estrela ao amanhecer, uma bolha na correnteza
o brilho de um relâmpago numa nuvem de verão
uma lamparina tremulante, um fantasma, um sonho.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

A importância de um sesshin

Perguntar-se sobre a importância de um sesshin, para aqueles que o fazem, fizeram ou farão, é uma das questões que soa desnecessária, até mesmo retórica. Um sesshin é importante; por que, de outra forma, as pessoas deslocariam-se de longe para passar dias e dias sentados no zafu? Eu, contudo, peguei-me fazendo esta pergunta, inspirado pela lembrança das minhas dores, dramas e desistências.

Há várias coisas das quais sentimos a diferença somente depois que elas acabam. Engana-se quem acha que, findo um evento, findas as suas repercussões. Durante um sesshin podemos sentir e vivenciar várias coisas, todos nós o sabemos. É somente, porém, quando voltamos para casa, quando voltamos para a nossa rotina, que vemos coisas novas desenrolarem-se – algo que talvez estava lá antes mesmo da viagem.

Uma das importâncias óbvias de um sesshin é o simples fato de que os praticantes reunidos ajudam a manter a prática uns dos outros. Podemos passar a admirar a coragem de Sidarta em sentar-se em zazen sozinho, sem professor, preceptor ou colegas, depois que vemos o quão fracos somos se não praticamos com outros. Não precisamos evocar forças ou energias: a simples pressão social de não abandonar uma sessão de zazen faz maravilhas – eu teria escapado muito, muito antes do terceiro dia.

Importante, também, praticar, neste caso, do lado de um roshi , e de pessoas que praticam o zazen por anos e décadas.

Importante ter a oportunidade – devido a um tempo planejado de prática intensiva – de aprofundar-se no zazen, de poder descobrir estados ainda não conhecidos, de poder ir um pouco mais longe que a prática cotidiana nos permite.

Tudo isto, enfim, importante. Valioso.

Mas há outra coisa importante que desejo deixar para falar aqui: importante é fazer um sesshin, com todas as suas importâncias – e desimportâncias – para ter esta experiência e voltar para as nossas vidas.

Como dizia antes, há coisas das quais o peso delas cai depois: seja fazer sentido depois, seja cair a ficha depois, seja simplesmente revestir-se de outras vivências, depois. Para ser sincero, não tinha muita certeza de porque eu fazia o tal sesshin – ah, por causa do rakussu, uma península de orgulho (o lado bom do orgulho, nos faz fazer coisas que não faríamos com pretensa humildade), para não decepcionar a mim mesmo e aos outros, por uma sede de saber, por um desejo inominável, para pura e simplesmente praticar. Ah, miríades de razões. Mas não tinha certeza e, acima de tudo, nos momentos mais desesperados, para a pergunta "por que você não vai embora?", eu só sabia dizer, depois de um certo tempo: "eu não sei". Prometia a mim mesmo que iria até o final do dia e então, somente de noite, iria ver se ia embora ou não. Cada dia acabava em si mesmo: cada dia um novo dia, nova prática. Cada novo momento. Apesar das várias coisas, apesar das dores e delícias, apesar do rakussu para terminar, apesar dos transeuntes noturnos de São Paulo, apesar do delicioso nabo amarelo, íamos somente indo, fazendo zazen na hora do zazen. Apesar dos diversos pensamentos e distrações.

É agora que, então, olhando para lá, para a semana passada, me pergunto: como foi possível? E não é que aconteceu? Aconteceu. Ao mesmo tempo que pode parecer um sonho, ter um toque de irreal, tem a realidade das coisas não-sonhadas.

O valioso de um sesshin é ter a experiência da prática viva, presente, como um marco. Esta prática constante, este breve período em que nos permitimos e permitimos aos outros que praticassem com mais afinco, ecoará dias e semanas e meses depois, nos lembrando da nossa prática. Mesmo que sentemos muito pouco, mesmo que esqueçamos temporariamente do zazen, mesmo que o ritmo de nossas vidas exija outras prioridades, a experiência está "lá", podemos (tentar) voltar a qualquer momento e nos servir dela.

Qual experiência?

Dogen usava uma expressão interessante para referir-se à prática: prática-esclarecimento, ou prática-iluminação. A prática é iluminação, iluminação é prática; uma não difere da outra. Dizer, porém, que elas são "uma mesma coisa", só que "duas faces de uma mesma moeda" é perder a experiência com palavras: mesmo dizer do Um é perdê-lo irremediavelmente como Um. As palavras vêm, necessariamente, depois, e têm o seu gosto peculiar, muitas vezes saboroso; mas a prática, porém, está além das palavras, não no sentido que as negue.

Zazen é negar nada e afirmar nada. Se tivesse eu feito um esforço para "livrar-me" de todos os impedimentos, de todas as distrações, de todos os "venenos" durante o sesshin, isto não seria zazen: isto seria eu fazendo esforço para livrar-me de impedimentos, distrações e "venenos". Na maior parte do tempo, era isto que fazia: lutando com a dor ou tentando agüenta-la, pensando em desistir e depois arrependendo-me de pensar em desistir. Mas, embora isto não seja o zazen, isto é zazen: eis a nossa vida, eis a nossa prática. Nada de especial, de excepcional, no sentido de que antes mesmo que pudéssemos falar enquanto praticamos ela está lá. É simples, não é? Todos nós o sabemos. Simples mesmo em sua tremenda dificuldade.

"Nadem quanto queiram, os peixes não encontram um fim no mar; voem quanto queiram, os pássaros não encontram um fim no céu." Dogen Zenji, Shobogenzo Genjokoan.

Afinal, quando falamos de prática, sobre quem estamos falando?

Agora mesmo eu falo de importante e não-importante, de valioso, de prática e iluminação e vida, como se fossem coisas ou separadas ou excepcionais. É uma maneira de falar, uma maneira de passar algo – que eu espero que agrade a uns e sirva a todos.