quinta-feira, novembro 30, 2006

Agora

Há oito dias nasceu na Santa Casa de Patrocínio Paulista a menina Marcela de Jesus. A criança nasceu sem cérebro, e a espectativa dos médicos era de que sobrevivesse apenas poucas horas, no entanto ela já vive há uma semana. Sua mãe, Cacilda Ferreira, ficou sabendo do problema da filha já no quarto mês de gestação, porém nunca cogitou interromper a gravidez – "sua vida pertence a Deus, e não a mim". Ao lado da filha 24 horas por dia, Cacilda amamenta seu bebê e a cobre de cuidados e carinhos. Ela diz que o tempo que a criança viver será o bastante para ela, e quer aproveitar cada minuto desse convívio, uma vida que ela considera um milagre.

Há um poema de Dogen que diz assim:

Como devemos viver?
Nascemos e morremos uma vez nesta vida.
Como devemos vivê-la?
Este é o ponto fundamental do ensinamento de Buda.
Viver muito é algo com o que se alegrar?
A vida não é assim.
É triste morrer após uma vida curta?
A vida não é assim.
O ponto é: como devemos viver?


Que o amor entre essa mãe e filha possa se espalhar pelas 10 direções e pelos três mundos e preencher os corações de todos os seres.



terça-feira, novembro 21, 2006

Pista para o agora verdadeiro


Na pequena praça, rodeada por eucaliptos, jaz a estátua de Mahatma Ghandi, magro, com pouca vestimenta e um cajado na mão - apenas o essencial para um caminhante. A mais ou menos 700 metros dali, dentro do museu, um artista brasileiro residente na Alemanha, apresenta sua obra conceitual dentro de um cubo onde penetramos e observamos dezenas de fotos pornográficas. Logo abaixo dos pés de Gandhi podemos ler uma frase sua "Minha mensagem é minha vida". Ao lado das fotos, uma citação de Ghoete diz: "Antes da palavra houve a ação" e logo depois um complemento do próprio artista: "O que aponta para o ato de refletir (em oposição ao reflexo condicionado)(...)". 700 metros no percurso correto, seja em qual sentido for, criam a correta interseção.

domingo, novembro 12, 2006

Cachaça aos mendigos

Ao doarmos cachaça para um mendigo, não estaríamos dizendo: "Toma, continua deludido"? Não que bebida alcoólica seja sinônimo de delusão e também aqui não quero propor uma atitude moralista do tipo "eu não bebo, ninguém bebe". Que acham? Bom, no natal todo mundo bebe, é festa, uma vez por ano...

quinta-feira, novembro 09, 2006

A religião verdadeira

Falar em uma religião verdadeira talvez possa ser interpretado da seguinte forma: se há uma verdadeira outras são falsas. Claro, sempre a minha em relação às outras. Neste caso, existe um centro irradiador de verdade em detrimento às zonas periféricas. Pode ser que a maior fraqueza das tradições monoteístas seja justamente neste ponto. Existe uma verdade. Esta verdade é única. Portanto, desconsidero todas as demais como falsas. Assim forma-se uma dialética negativa como maneira de afirmar o meu ponto de vista. Também existe nesta situação um recorte dual: o meu e o do outro. Inclusive, estendemos a dualidade no campo da relação com o sagrado: eu e a verdade.
Certa vez, acompanhando o então Superior Miyoshi à Paraíba, a fim de participar de um encontro multireligioso um estudante fez a seguinte pergunta: "Qual é a religião verdadeira?". Sem muito pensar, a resposta foi enfática: "Aquela que promova o bem estar para a maioria". Entendi esta colocação de uma maneira mais prática frente às adversidades. De que uma religião deveria atender as necessidades humanas em primeiro lugar e depois às querelas metafísicas dos dogmas. E neste mundo há idéias demais e pouca ação. Aliás, existe também uma espécie curiosa de "budistas" que se dizem como tais navegando nas ondas da internet e discutindo idéias apenas. Encontrei certa vez um amigo, que treinara zazen mas depois se afastou mas continua "praticando" ao ler os textos budistas. Muito estranho isso. Me parece aquele "entendido" na culinária mundial apenas lendo os livros de receita. Sem provar da comida, nada pode-se falar a respeito dela.
Então estudante de História, em algum momento do curso veio como rajada aquele refrão provocatico: "a religião é ópio do povo". Pensei naquele momento que realmente a religião fosse isso. Não mudei de opinião. O que mudou foi a amplitude da minha reflexão a respeito desta colocação. Há muitas religiões que oferecem ópio, não porque elas assim querem. Existem pessoas que precisam de ópio para continuar vivendo. Quer dizer, o mundo é cruel: os homens são maus, o capitalismo é injusto, a política é corrupta, a justiça é falha, a educação é insuficiente. E ao apegar-se à ideologia salvítica dos profetas milagreiros, como ópio, uma multidão de necessitados fazem fila.
E o budismo também é ópio? Pode-se tornar caso houver praticantes que necessitem desta droga. Se a prática budista consistir na idolatria, sejam das imagens, da alegoria, das cantorias, ou de seu líder. Este é o ópio. Assim, o budismo pode ser tudo aquilo que o praticante desejar que ele seja. Pode-se acreditar no poder de Buda e de seus avatares. E no poder dos mestres? Penso que o pior ópio budista seja quando o mestre se torna idolatrado. Caso isto ocorrer, na minha singela opinião, ele deve ser destruído. Todas as imagens de adoração devem ser destruídas. Quando a destruição se estender a todo ópio budista, então encerra-se o período da ilusão.
Inversamente ao ópio da religião, o budismo se presta a ser a libertação. Por isso, fazer zazen não se ganha nada. Faço tanto reverência a Buda quanto para o mendigo que mora nas ruas. Na verdade, aquele mendigo também é um Buda. Faço zazen nas salas do templo, quanto nas favelas, prostíbulos e prisões. Me parece que os que fazem zazen apenas em lugares tranqüilos como as montanhas são egoístas. Este zazen exclusivista, protótipo da pequena burguesia, é também ópio. Tudo aquilo que estimula a ilusão é ópio. É ópio também os que lêem as frases de efeito do budismo "auto-ajuda" e não fazem nada para transformar o mundo. É cínico praticar o budismo e continuar na inércia do "faço de conta que não vejo nada". Lembrando do exemplo de Sidhartha, o Caminho requer renúncia. Renúncia inclusive da ópio das religiões.
O entendimento do Dharma é como estar navegando num único barco em que todos os outros também se abrigam. Lá se abrigam os cristãos e muçulmanos, judeus e palestinos, sábios e alienados, homens e homossexuais, cachorros e gatos. Caso o barco sofrer uma avaria, todos morrem. Há a necessidade de todos colaborarem para o bem de todos, assim, quem sabe, o barco não afunda. Pensar que apenas os gatos e os homossexuais vão afundar é uma grande ignorância.
Entendo o budismo como uma religião da libertação, que ao invés de ópio, deve lidar com a iluminação. Ajudar a todos, sem discriminação é um ato de iluminação.

Tetsuya Zazen


Prática de zazen sem interrupção. De terça-feira (14 nov), a partir das 18h30, estendendo-se até às 7h30 da quarta-feira (15 nov feriado). Atravessaremos a noite e a madrugada. Estamos resgatando uma tradição da Escola Soto, que se perdeu.

Valor para participaçao:
Doação: 5 kilos de arroz ou feijão ou ainda um litro de cachaça 51.

Estão todos convidados!

domingo, novembro 05, 2006

As Quatro Nobres Verdades

Logo após atingir a iluminação, o Buda ensinou as Quatro Nobres Verdades. A primeira é a verdade do sofrimento que é o entendimento que toda experiência humana é insatisfatória, pois está ligada à noção do "self" e por ser impermanente. Nascimento, envelhecimento, doença e morte envolve sofrimento. Mesmo a felicidade é vista como sofrimento, o sofrimento da decadência, pois é impermanente e inevitavelmente conduz a um estado menos feliz. Mesmo a maior das felicidades baseada no ego é sofrimento comparada à iluminação. A segunda é a verdade sobre a origem do sofrimento. O Buda ensinou que a ignorância leva ao desejo e outras aflições. A terceira é a verdade da cessação do sofrimento, que é a iluminação, e nos é dada como uma alternativa ao sofrimento. A quarta é a verdade do caminho, que ensina o caminho óctuplo para atingir a iluminação.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Seshin no Morro III


Nossos Professores de Prática em momento "místico" - Cerimônia RYAKU FUSATSU no Mosteiro do Morro da Vargem.