terça-feira, outubro 31, 2006

Transmissão pela prática

Conta-nos o mestre Dogen Zenji que, quando encontrava-se em treinamento, nos momentos de zazen, com energia o abade Nyojo admoestava seus alunos: "Não durmam, acordem seus vagabundos". Esta cena experimentei também no Mosteiro Shogoji, ocasião em que o monge Myohonji rompeu a escuridão do Sodo como um trovão: "O que estão fazendo! Acordem neste instante". De fato, a luz tênue da madrugada, às 3h30, propiciava possíveis cochilos. Mas nem por isso, dormir fosse uma atitude tolerável. Toda manifestação de sono devia ser combatido radicalmente com berros de advertência e golpes de kyosaku. Não apenas uma pancada, mas três. Imediatamente os outros, que também entregavam-se àquele capricho, imediatamente corrigiam a postura.
Assim aprendi a respeito do zazen. Ouvi no entanto outros instrutores fazendo considerações mais amenas em relação ao zazen. Diziam estes que dormir no zazen também fazia parte do treinamento. "Dormir quando tinham sono, também é zazen", explicavam. Quanto a mim não tinha que concordar ou discordar. Cabia apenas ouvir e aprender. Mas se retomarmos a maneira do transmissor do Dharma para Dogen Zenji, Nyojo Zenji, é bem menos tolerante. Em se tratando do ensinamento correto, maior compaixão de Nyojo era justamente a falta de tolerância pelo praticante relapso. Segundo os relatos de Dogen Zenji, não apenas o mestre gritava com seus alunos mas batia neles com o seu tamanco. Alguns entendiam a rispidez do mestre e, diante da advertência, choravam emocionados.
Certa vez, os alunos resolveram conversar com o mestre a fim de pedir a ele que maneirasse seus modos. Foi quando Nyojo deixou as lágrimas escorrerem e confessou: "O que mais desejo é que vocês aprendam o ensinamento". E todos os meios ele usava para alcançar seu objetivo. As lágrimas de Nyojo eram um lamento pela própria incapacidade de poder transmitir a verdade da prática. E os alunos, ao invés de preocuparem-se com a verdade, estavam interessados mais na maneira como a verdade podia ser transmitida. Queriam uma prática mais amena, menos radical, mais demorada no pântano da vaidade e apegos. Mas para a Escola Soto, sempre a transmissão foi imediata.
Penso que a relação aluno/instrutor é de cumplicidade e de alta confiança. Assim, um aluno não necessita confiar num instrutor que senta a menos de dez anos. Ou de um instrutor que não se senta. Se um instutor leva a prática do dharma às últimas conseqüências, exigirá que o aluno faça o mesmo. Assim, em algum momento o instutor serve de modelo para os seus alunos. E o que mais pede um instrutor é que o aluno consiga vencer as suas dificuldades e penetre no universo da prática plena e de Iluminação. Desta forma, recentemente o Superior Saikawa me advertiu a respeito de seus discípulos e estudantes. "O que mais quer um instrutor é que os alunos alcancem a Iluminação".
Se não existir este compromisso entre o aluno e o instrutor, o aluno se torna indolente e irresponsável, enquanto o instrutor um farsante. Nenhuma prática comporta esta situação. Se em algum momento existir um aluno que dissimula praticar, talvez exista um instrutor que finge ensinar.
Em alguns textos budistas está escrito que o aluno deve ultrapassar o instrutor em sabedoria ou conhecimento da prática. Penso que um instrutor da verdade assim agiria na transmissão pela prática. Sei também que algumas linhagens costumam idolatrar seus mestres, talvez por vaidade, talvez por falta de conhecimento, por necessidade de um mestre carismático envolto numa roupagem dogmática. Nestes, não se acredita que o aluno passe adiante um dia o seu mestre. Tal qual as tradições monoteístas, ninguém está acima do Ser Absoluto. Mas no budismo não existe tal ser, com poder legítimo capaz de legislar acima dos demais. No caso, acima citado, a necessidade deste ser se explicada pela carência afetiva de explorar melhor suas próprias capacidades para a Iluminação. Não temos que criticá-los. Mas que se saiba que a idolatria é uma ilusão, uma dependência em se criar mitos capazes de nos indicar caminhos possíveis. E nenhum mestre deve se tornar mito. E nem o Buda deve ser mito.
Ainda que tenhamos que ser enérgicos com os alunos, a cumplicidade que criamos com eles (não dependência) nos torna responsáveis também pelas suas vidas. Por isso, estabelecer relações com os seres, quem quer que seja, criamos karmas conjuntos.

sábado, outubro 28, 2006

quarta-feira, outubro 25, 2006

Um sonho apenas

No leito de morte, o monge Takuan Soho(1573-1645) solicitou um papel branco e pincel. Escreveu o ideograma "Sonho" e deixando cair o pincel entrou na eterna harmonia do Universo. Antes tinha alertado os seus discípulos: "Sepulte o meu corpo na montanha atrás do templo. Cubra-o com lixo e vão para as suas casas. Não leiam sutras e não realizam cerimônias póstumas. Não recebam nenhuma gratificação pela minha ausência seja de monges ou leigos. Deixem os monges usarem os seus mantos e comerem as suas rações. Por fim, levarem uma vida normal". Desta forma, no começo alguns visitarão o seu túmulo mas passado algum tempo nada mais restará dele. Assim desejou Takuan. Takuan Soho: monge zen, calígrafo, pintor, poeta, jardineiro, mestre de chá.
Alguns monges eu tive como modelo para a minha prática, destes Takuan foi o primeiro deles. Quando acabo bebendo da fonte da ilusão, da água amarga das paixões, somente Takuan me faz retornar ao estado de atenção.

Contribuição para uma mística Zen

Certo dia, no zazen da noite, não havia nenhum praticante no templo. Nem mesmo o porteiro havia aparecido. O monge fez, como de costume, os preparativos necessários. Acendeu a vela no altar de Monjusri, ofereceu incenso, tocou o sino de madeira, chamando os praticantes inexistentes a subirem, fez o toque no taiko e sentou-se.
Entre as 19 horas e as 20 horas ele poderia fazer o que bem entendesse. Não seria preciso levantar-se exatamente no horário do kinhin e soar duas vezes o sino, já que o templo estava completamente deserto. Na verdade, não seria preciso nem se levantar para o kinhin. Imerso numa serena meditação, ele poderia se dedicar a aprofundá-la a seu bel prazer durante os próximos 40 minutos. Poderia, também, coçar o nariz, ajeitar-se sobre o zafu, fazer qualquer movimento sem correr o risco de incomodar ninguém. Aliás, poderia até falar ao celular ou dar cambalhotas sobre o tatami. Poderia se sentar no lugar do mestre ou poderia tirar uma agradável soneca.
Por que nada disso aconteceu? Seria apenas devido ao senso de disciplina e respeito? Ou porque se tratava realmente de um monge responsável?
O fato é que às 19:25 ele se levantou, tocou o sino, fez o kinhin. Respeitou os intervalos adequados e todos os procedimentos como se o zendo estivesse repleto de praticantes.
E se sentou para o segundo período de zazen. Neste momento, também havia algumas opções. Fazia frio, ele sentia fome e morava longe do templo. Não seria possível acabar o zazen uns minutinhos antes? Só dependia dele.
No entanto permaneceu, como de costume, sentado até as 19:50, quando silenciosa e cuidadosamente se levantou para os procedimentos do final do zazen. Taiko e sinos foram tocados.
Ao final dos procedimentos, colocou-se de frente para o salão vazio e começou a recitar:
"Respeitosamente dirijo-me a vocês. O nascimento e a morte são assuntos importantes. Portanto, atinjam a iluminação nesta vida. Assim peço, não desperdicem tempo".
A quem ele se dirigia? Que monge maluco! Ele fazia essas coisas por senso de dever, disciplina ou hábito?
Qualquer dessas opções faria com que a prática se tornasse algo muito menor do que realmente é.
A resposta viria logo em seguida, com a recitação dos Quatro Votos do Bodhisatva.
Ainda de frente para o salão vazio, o monge recitou:
"Os seres são inumeráveis, faço o voto de salvá-los.
Os desejos são insaciáveis, faço o voto de extingui-los.
Os portais do Dharma são imensuráveis, faço o voto de atravessá-los.
O Caminho da Iluminação é infindável, faço o voto de percorrê-lo".

"Místico", segundo o dicionário, diz respeito a coisas sobrenaturais, sem bases racionais.

O que, então, pode ser mais místico que os Quatro Votos do Bodhisatva? Nada menos racional que se comprometer a salvar todos os seres, sabendo que são inumeráveis! Ou como querer extinguir desejos que são declaradamente insaciáveis? Como atravessar portais que não têm forma ou tamanho? Ou como se dedicar a um caminho que não tem um destino?

Respondam: o monge estava ou não sozinho?

O que dizer do próprio Bodhisatva, essa curiosa figura que renuncia à própria iluminação para ajudar os outros seres a atravessar para a margem da iluminação?! Como podemos nos dedicar a uma prática que busca a iluminação sabendo de antemão que iremos renunciar a ela?!

Tudo isso é intelecto. E o intelecto caracteriza-se por ter limites, jamais poderá apreender o ilimitado, o imensurável, o infindável.

Respondam: o salão estava ou não vazio?

Naquele momento em que recitava esses versos, o coração do monge tornou-se repleto de profunda alegria, de gratidão pelos ensinamentos que ali praticava, de sincera identificação com todos os seres desse mundo, que nada mais buscam que uma vida justa e livre de sofrimento.
É nesse instante que a mística pode surgir. Sob a forma de uma reverência, ou da emoção de vislumbrar o kesá, ou de uma oferenda de incenso etc. Se soubermos preservá-la para fora dos portões do templo, então entenderemos por que quando uma pessoa está em zazen todos os seres também estão, entenderemos por que Shakyamuni declarou que o mundo todo tinha se iluminado juntamente com ele.

Para isso é preciso abandonar as formas do intelecto.

Cultivemos, portanto, incessantemente, a emocionante mística do zazen!

Intoxicantes e libertação

"Não ingerir tóxicos": o que seriam – ao pé da letra – as substâncias intoxicantes na época de Buda? Alguns tipo de plantas alucinógenas e álcool, provavelmente.
Nos dias de hoje, como devemos pensar nisso? Além dessas substâncias, é preciso refletir também sobre a adequação do consumo de tabaco (que não existia na época de Shakyamuni). Igualmente deve ser preciso também estar atento para a pornografia e a violência transformadas em produto pela indústria da comunicação. Deve-se cuidar também dos apelos ao consumo, que freqüentemente excitam os sentidos muitas vezes mais que substâncias entorpecentes. Tudo isso são coisas de nosso tempo.
Quando ingerimos um cálice de vinho no almoço de domingo com nossos familiares, estamos ingerindo susbstâncias entorpecentes? Muitos podem dizer que não – argumentando, inclusive, que a medicina tem afirmado que tal consumo seria saudável ao organismo. Porém o que dizer sobre as milhares de vidas e famílias que são destruídas pelo vício ao álcool? Ou sobre os acidentes de trânsito que são causados por corretos cidadãos que apenas ingeriram uma ou duas cervejinhas na casa da sogra? Será que esses aspectos também não estão contidos naquela taça de vinho?
Da mesma forma pode-se pensar nas imagens violentas e pornográficas veiculadas constantemente pela TV. Quanto sofrimento elas causam em quem as recebe – na medida em que aprisionam o indivíduo em seus sentidos – e quanto sofrimento elas já não causaram para serem produzidas? Ou, então, nos insistentes apelos ao consumo, que muitas vezes levam a pessoa a ficar aprisionada num ciclo de desejos e dívidas.
Uma psiquiatra relatou o seguinte: hoje em dia, são freqüentes os distúrbios compulsivos alimentares. Muitas mulheres da classe alta, que podem pagar por esse tipo de intervenção, têm optado pela cirurgia de redução de estômago, para tentar resolver esse problema. Porém um interessante fenômeno tem sido observado em seu consultório: muitas dessas mulheres, após a cirurgua, impossibilitadas fisicamente de se alimentar exageradamente, têm se tornado consumidoras compulsivas. Gastam dezenas de milhares de reais em uma tarde, sem saber o porquê.
Cada tóxico tem seu próprio vazio. Podemos apenas fugir deles, da maneira que se diz popularmente "como o diabo foge da cruz", motivados tão-somente pelo medo. Porém isso não basta. E se o medo diminuir? E se formos pegos desprevenidos? É preciso, através da prática incansável do zazen, penetrar profundamente em sua verdadeira natureza. Quando da observação implacável do zazen emerge todo o sofrimento que esses comportamentos trazem, o apego a eles se desmancha no ar e a libertação surge.
Um a um, a seu tempo, sem temor, vão sendo derrubados pelo praticante, confiante, aprumado e sereno em seu zafu.
Entreguem-se ao zazen.

terça-feira, outubro 24, 2006

Prática sem droga

Houve uma época em que os inconformados buscavam abrigo em alguns refúgios. Época de contestação dos Anos de Chumbo - décadas de 60 e 70. No auge da Guerra do Vietnã, um monge nativo chegou a incendiar as próprias vestes para que o conflito terminasse, com a retirada das troças americanos de toda Indochina. Tempos em que os soviéticos invadiam a Checoslováquia e em Paris os estudantes tomavam as ruas. Em meio aos protestos, o existencialismo francês antagonizava-se entre Jean Paul Sartre e Albert Camus. Se alguns lutavam nas ruas, em meio à desilusão dos tempos modernos, outros entregavam-se às drogas. Falava-se em Paz e Amor. Tinham por tríade ideológia - ou anti-ideológica - drogas, sexo e rock'n roll. Mas também os inconformados descobriam o Zen Budismo através de D.T. Suzuki, de Jack Kerouac, Allan Watts e Tomas Merton. No Brasil, o velho casarão da rua São Joaquim era onde aconteciam as sessões de zazen. Sem falar uma única palavra de português, o Superior Shingu atraía dezenas de praticantes.
Este tempo se foi, mas o Zen continuou a fazer parte da vida dos inconformados. Talvez antigos leitores de Sartre, Camus, Ponty; agora leitores de Derrida, Deleuze e Foucault.
Da tribo "drogas, sexo e rock'n roll", estes também acabaram se transformando. A partir da revolução sexual nada se tornou proibido e não desperta mais o interesse dos antigos moralistas. São outros os moralistas da atualidade. Quanto ao rock, somente ficaram as lembranças: Alice Cooper se foi, Led Zeppelin está velho, Joe Cocker não sei que fim levou. Mas me lembro que Jimmy Hendrix e Janis Joplin morreram por overdose. A droga também caiu no desprestígio.
De todas estes comportamentos, o que mais incompatibiliza-se com o Zen é justamente a ingestão de drogas. Nada justifica do ponto de vista budista a sua ingestão. Está claro num dos preceitos: "não ingerir tóxicos". Não que o budismo preze os valores morais, combatendo o uso de drogas, mas porque a sua utilização vai contra o Caminho da Iluminação. Dos estados de consciência, a Iluminação é a consciência no mais alto nível. Em se tratando das drogas, parece que acontece justamente o inverso: alimenta a Ilusão. Tal atitude que nega o estado de consciência por meios artificiais, é a fuga da "realidade". Ainda que a "realidade" seja o Samsara para os budistas - um sonho - não pode ser negado simplesmente. A respeito, quando Buda se encontrava abaixo da árvore de Bodhi e o demônio Mara o admoestou, ele apontou com a palma a terra. Com os pés firmes no chão, o praticante deve avançar. Me parece que a droga afasta o homem das condições reais de existência, que é no mundo do Samsara. Se o Samsara se apresentar como fogo, ao ingerir droga o praticante é igual a madeira. Assim, deve se tornar fogo em meio ao fogo. Se o Samsara for água, ao ingerir droga o praticante é igual a fogo. Assim, deve se tornar água em meio a água. Mas se o Samsara for terra, o praticante pode ser madeira e assim crescer e desenvolver-se até as estrelas. Quanto à droga, nenhum sucesso pode ser realmente alcançado. Aqueles que necessitam dela, não possuem caráter para caminhar a passos largos com as próprias pernas. Ao contrário disso, o homem se torna um dependente, necessitando sempre de bengalas e muletas. Da saudade dos Anos Dourados guardo na memória as partidas de xadrez, a música eletrônica de Emerson Lake and Palmer, o teatro de Sartre e as primeiras leituras de Zen. Mas da droga, não me restou nem cinzas. Intoleravelmente contra as drogas tidas leves ou pesadas, pois ambos são droga. E quem necessita delas são igualmente drogas e necessitam de cuidados especiais.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Os quatro paramitas

Qualquer praticante do dharma deve levar em consideração as quatro formas de manter-se em vigília:
1. dana - ou doação.
2. sila - conduta moral, os preceitos.
3. ksanti - paciência.
4. virya - vigor, devoção, energia.
5. dhyana - concentração.
6. prajna - sabedoria.

1. Sem doação, a prática deixa de ter validade. Podemos doar dinheiro, alimento, roupa, trabalho ou uma palavra de bondade. Quer dizer, de maneira desinteressada oferecemos aquilo que está ao nosso alcance. Tendo em vista a doação, juntamos as palmas e fazemos gashô. Certa vez o Superior Miyoshi chamou em sua direção a nova discípula e ensinou: "veja, se você abre as mãos tudo que tem dentro sai, mas também o que está fora entra". Doar, em sí, é igualmente receber. Entretanto, o praticante sério nunca tem os olhos voltados para recompensas. Não se doa para receber, apenas se doa.
2. Ao que se refere à conduta moral, trata-se dos preceitos assumidos quando da aceitação dos mesmos pelo praticante. Isso ocorre na ordenação como discípulo de Buda. O primeiro destes é "não matar nenhum ser vivo". Não apenas seres humanos mas qualquer forma de vida. Nenhuma vida é inferior e nem superior -sem discriminações. Outros preceitos estão presentes como "não roubar", "conduta sexual inapropriada", "ingestão de alucinógenos" e "não mentir". Ao invés de decorar uma lista de preceitos, seria mais inteligente que a partir de nossa prática possamos saber o que realmente deve ser evitado. Visto desta forma, a ingestão de drogas não é por ser um preceito mas um ato de sabedoria. Quer dizer, a droga afasta o praticante daquilo que ele mais procura: a Iluminação.
3. Nenhuma prática é mais dolorida do que a paciência. Sem ela, cansamo-nos rapidamente e a prática torna-se uma tortura. A paciência é justamente a nossa capacidade em insistir com o treinamento. O patriarca Bodhidharma é representado por um boneco redondo, com peso na parte inferior. Mesmo que seja derrubado, levanta-se. Um velho ditado do folclore japonês diz: derrube-o setes vezes, ele se levanta oito. Por sete vezes ele tentou penetrar na China sem sucesso, somente na oitava conseguiu.
4. Aquilo que se chama energia surge nos momentos de dificuldade ou simplesmente deixa de surgir. Alguns desistem, outros, ao contrário insistem. Os fracos não são isentos de energia, mas acreditam na incapacidade de usar a energia que têm. No processo de abandono e renúncia toda a energia se faz presente e o medo desaparece, também a insegurança e a dúvida.
5. Se não existe meditação, o budismo no sentido radical deixa de existir. Quer dizer, seguir os passos de Buda, que entregando-se à pratica do zazen logramos atingir a Iluminação. Seria falso falar em budismo sem Iluminação. Mas existem alguns que pensam desta forma e assumem a própria incapacidade. Ao invés da meditação exercitam-se em outros modelos como recitação de mantras, prostrações, oferecimento de incensos e outros. Nada disso leva à Iluminação.
6. Por fim, a sabedoria é o ponto mais alto da montanha que leva à Iluminação. Não se adquire lendo livros ou ouvindo palestras. A sabedoria é a descoberta através da própria experiência aquilo que fica além da linguagem comum: conceitual e dualística.

Obs. Todos os seis paramitas devem estar juntos, sem que um seja melhor do que o outro. Sem sabedoria não há iluminação; sem energia não há paciência; sem conduta moral não há sabedoria; sem paciência não há concentração; sem concentração não há iluminação, assim por diante. Praticantes, pratiquem os Seis Paramitas. Se agirem assim, estarão no Caminho Correto.

Prática mística ou Mística da prática

Fica por conta de cada interessado na prática do dharma, inclusive na tradição zen. Seria estranho chamar o Zen de prática mística, mas talvez alguns o encarem um pouco desta forma. Assim, acendem incenso, tocam o sino e têm uma imagem de Buda num altar. Penso que desta forma criam condições apropriadas que podem melhorar a concentração. Não que seja necessário. Fazer zazen, em qualquer lugar que seja. Certa vez fiz na Casa de Detenção de São Paulo - o famigerado Carandiru - ao lado de presos que cumpriam penas por delitos desconhecidos por mim. Mas o que se sentou ao meu lado confessou: "amanhã serei julgado por ter matado a minha esposa". Neste caso não se tratava de prática mística. Não importa, às vezes realizamos uma prática em que elementos místicos podem estar presentes, outras vezes em qualquer outro lugar. Alguns preferem as matas, na tranqüilidade das montanhas. Dizem estes últimos que querem receber a energia das plantas e respirar o ar puro.
Aprendi que quando Sidhartha vislumbrou adiante a estrela da manhã e tornou-se um com todo o universo, conclamou: "neste momento eu e todos os outros seres alcançamos a liberação". Quando nos sentamos, todos os Budas se sentam conosco. Acredito que "sentar-se" não tem por finalidade criar bem estar naquele que experimenta, mas despertar a compaixão e a sabedoria. Não se faz zazen para ficar bem. Nem para respirar ar puro, nem para receber energia. Me parece um pouco egoísta tal atitutude. Ainda que a nossa relação com o místico esteja presente, não podemos deixar que o misticismo seja tranformado em ponto principal. Se isso acontecer, agiremos como macacos tentando agarrar a lua refletida na água. É ver o dedo do mestre que aponta para a lua, sem ver a lua realmente.
Ao invés disto, a prática realizada com toda a atenção nos revela uma faceta mística do dharma. É a mística da prática que tenho procurado em toda a minha vida. A respeito, quando estive no Japão, em treinamento no Mosteiro Shogogi percebi que no processo de abandono, do esmagamento do ego, a interdependência não era apenas palavra mas condição concreta para a nossa existência. No caso, trata-se de uma maior interação com o universo, mais do que isso: não existia nem eu, nem o outro. O mestre Dogen Zenji disse apenas: corpo e mente abandonados, abandonados corpo e mente. Não é uma prática mística, mas a sua realização revela um universo místico.
Entre nós, somente os que participaram de um sesshin completo: sentando-se 8 horas por dia, mantendo o silêncio, realizando o dokusan experimentaram algo parecido. Temos que levar esta experiência para o nosso cotidiano: a atenção. No nosso dia-a-dia somos acometidos por uma quantidade enorme de informações, que não pertencem a nós. Submetemo-nos a condições impostas pelo meio em que vivemos. Usamos as roupas que os outros usam, pintamos os nossos rostos, os lábios, e falamos igualzinhos aos outros. Em suma transformamo-nos no outro, totalmente diferente do que realmente somos. Pensamos e falamos como fôssemos o outro. Freqüentamos os mesmos lugares, achando que somos originais. Acabamos nos esquecendo da nossa prática e assumimos a nossa condição de macacos. O que um faz todos os outros fazem. Ainda que seja assim, agindo como iludidos, temos que manter a chama da prática em nossas mentes. O pior é crer que a ilusão seja verdadeira e condição primordial em detrimento da própria verdade.
O que realmente importa é termos condições de ver a verdade, com olhos da iluminação através da bruma provocada pela ilusão. Ou seja, esta é a mística da prática. Com os pés firmes no chão ao invés de andar sobre as águas. Nada de sobrenatural, nada que seja mágico. No dharma nada disso tem lugar - apenas a verdade.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Sentar-se mais, um pouco mais

Ao final de uma sessão de zazen, à noite, o jikido após bater o uchi-dashi no mokuhan anuncia em alta voz: a vocês, praticantes me dirijo respeitosamente; o nascimento e a morte são assuntos importantes, portanto Iluminem-se nesta vida; assim peço, não percam tempo. De fato, quando se fala em nascimento e morte, trata-se da vida, o intervalo entre estes dois pontos "antípodas". Dogen Zenji em Shushogi diz que "a vida é como fosse um tiro de flecha", mais rápido do que pode parecer. Mas inversamente, perdemos tempo mergulhados numa mar de ilusões. Alguns ao invés de priorizar o tempo de vida que lhe resta, continuam cometendo os mesmos erros. Deixam de praticar o "caminho da iluminação" a fim de procurar medicina paliativa das ervas entorpecentes da ilusão: fórmulas mágicas e cantorias, espírito das matas, duendes e anjos. Realizam estes visitas em muitas casas, num ato de turismo religioso que nunca chega a lugar algum. Tal qual os alucinados de uma noite de verão, após a ressaca de uma madrugada em ebulição, tropeçam nas próprias pernas. Os olhos que deveriam divisar um só horizonte perdem em outros pontos, pois a nossa visão turva-se da areia quente da insolação. Perdemos tempos demais. Praticantes do Dharma, construam com os passos do caminhante a senda da iluminação: sentem-se. Buda sentou-se apenas. Se Buda é o mestre, nossa referência, podemos criticá-lo e a nós mesmos. Mas retornemos ao nosso "sentar-se". Somente os que se sentam podem "dialogar" com o Buda e ele nos ouvirá. Abandonando-nos no "sentar-se", esquecemos e de nós mesmos e a nossa mente se tornará mente de Buda. O erro maior, o maior de todos, é treinar a mente para se tornar a mente de Buda, retornando à mente da ilusão completa quando deixamos de sentar. Nesse caso, cria-se um abismo entre a prática de sentar-se e a prática no mundo das paixões. Quando existir esta separação, o que falta no praticante é dedicação em sentar-se. Sentar-se mais... E mais... Se isso não ocorrer, o zazen indisciplinado tor-se-á um adorno em nossa fantasia de carnaval. Não percam tempo, pois o tempo urge? A invés de sermos prisioneiros do tempo diacrônico em que o "agora" não existe, pois se tornou passado, possamos descobrir o agora real no tempo do Dharma. Neste o eu não existe e nem o outro!

sábado, outubro 07, 2006

sexta-feira, outubro 06, 2006

A mente atenta

Muito se fala a respeito da mente atenta, entretanto poucos conseguem mantê-la neste estado. Quando realizamos a prática do zazen, treinamos a mente alerta. Naquele momento não dormimos, não cochilamos, não pensamos, nada fazemos. Mas se isso vier a acontecer, ao deparmos nossa hesitação, voltamos novamente à antiga postura. Por algum momento, quem sabe, o sono nos rouba a atenção. O mesmo acontece com o fluxo de pensamento. Se ao contrário, alimentarmos o nosso sono, o nosso pensamento, o zazen deixa de existir. Quer dizer, a atenção foi substituída pelo devaneio. Então, a mente deixa de estar atenta. Enganam-se aqueles que procuram relaxar-se nos instantes de zazen, como fosse uma "fuga" de seus problemas corriqueiros.
Para que a mente esteja atenta é necessário treiná-la. Trocando em miúdos, fazer zazen. Claro, para todos existe um rítmo e uma necessidade. Para alguns, uma vez por semana é o suficiente. Ainda que seja uma vez apenas, deve-se respeitar a disciplina e aparecer no dojo para fazer zazen. Sem disciplina a nossa mente também acostuma-se à indisciplina e o zazen feito esparçamente não tem validade. Alguns fazem zazen de maneira esparça: quanto sentem vontade. Bem, não é uma maneira muito saudável de praticar o zazen. Nesse caso, parece-me que o zazen torna-se apenas um paliativo, algo parecido como um adereço para a nossa fantasia de carnaval. Ao contrário, para o praticante dedicado, o zazen é alimento e o ar que respira. Sem alimento morremos, assim sem zazen mergulhamos fundo em nossas ilusões. Um zazen esporádico torna-se uma brincadeira, tal qual ocupamos o nosso tempo livre para um relaxamento.
Quando digo, cada um é responsável pela quantidade de zazen a fazer, a intensidade com que é feito, a qualidade do zazen realizado, demonstra o perfil de praticante. Cada um se esforça conforme não apenas suas necessidades mas também limitações. Problemas de natureza orgânica talvez impeça uma presença mais dinâmica no dojo. Alguns dizem que enfrentam problemas de tempo: trabalham muito. Por ser livre, o zazen pode ser realizado de acordo com liberdade de escolha de cada um. Em nossa vida, fazemos opções. Nesse caso, o zazen também pode ser visto desta maneira. Depende logicamente de nossas prioridades. Ainda não chegamos no grau de desapego, o suficiente para o ingresso total no Caminho da Iluminação.! Não está errado, apenas não chegou o tempo!
Assim posto, o zazen realizado de maneira "light" também tem conseqüências "light". Por isso, a prática na vida diária é necessário muito mais atenção. Mas a mente se nega a ficar atenta. Ao invés disto, continua insistindo em apegar-se à idéias, conceitos, preconceitos, raiva e ignorância. Continua como sempre fazendo avaliações e comparações de ganho e perda, de premiação e prejuizo, de custo e benefício. Se este comportamento perdurar, o zazen se torna algo separado de nossa vida, criando um campo amplo de dualidades. Durante a prática no templo envergam o manto negro do treinamento, assim que terminam retomam novamente a roupa comum das atividades ilusórias. Quero dizer, não se trata tanto da roupa mas da troca da atitude mental.
Que não seja assim. Carreguemos em nossa mente o manto negro da prática do Dharma ao enfrentarmos as intempéries das oscilações do temperamento do demônio Mara. Aquele que mora em nossa mente e se chama Ego. E quando o Ego se inflama, a ilusão se reforça. Seria necessário que Buda empunhando o kyosaku nos golpeasse cada instante que o Ego aparecesse como nuvens intempestivas da ilusão. Mas tanto a ilusão como Buda moram em nossa mente.
Manter a mente alerta é reconhecer a fluidez do Ego, a sua insustentabilidade.
Basta alguém falar mal de mim para receber o troco. Cuidado, cuidado se isso acontecer.
A prática do Caminho da Iluminação é para poucos. Não dos escolhidos, mas dos que treinam arduamente. Dito de outra maneira: mente alerta. Não acreditem naqueles que treinam mas se irritam por pouco, xingam, são insolentes e egoístas, enchem-se de orgulho, ficam magoados e autocomiserando sua dor.
Enfim, pratiquemos com força e alegria.

Conflito

Alguém sabe dizer qual o significado do conflito? Alguém sabe dizer porquê, ou para que serve entrar em conflito consigo mesmo e logo com o mundo, ou, com o mundo e logo consigo mesmo? O que é que se ganha? O que é que se prova e a quem? Tão enraizado está o conflito que não nos fazemos mais esta pergunta. Alguém sabe? Para que serve?

quinta-feira, outubro 05, 2006

Fantasmas

A prática do dharma nos ensina a lidar com nossos fantasmas, isto é certo. E, olha bem, palavras, olhares, gestos e lembranças de outras pessoas, de amigos e até de parentes próximos, se estagnados em nosso coração, têm uma grande tendência a virarem fantasmas. Podemos então olhar para os nossos fantasmas como fantasmas apenas, coisas sem consistência por si só. Aprendemos a não cultivá-los, até porquê, segundo um amigo, eles crescem, crescem muito, ficam obesos e cheiram mal, muito mal. Seria uma ilusão achar que iríamos fazê-los irem embora apenas detectando-os e os expulsando a força, aos gritos. Não, é disso que eles gostam, quanto mais os expulsamos, mais eles voltam, quanto mais deles desdenhamos, mais eles crescem, e o mesmo serve para nossos inimigos. Sendo assim, apenas deixemos que vão, podemos nos desapegar destes nossos bichos de estimação, é possível, somos nós que, ativamente os liberaremos de nós mesmos, porquê o coração livre, este, já o possuímos de nascença, faz parte da "genética" do dharma.

terça-feira, outubro 03, 2006

Karaniya Metta Sutta – Amor Bondade

Quem é hábil no que é benéfico, desejando alcançar

aquele estado de paz, age assim:

capaz, correto, honrado,

com a linguagem nobre, gentil e sem arrogância,

Satisfeito e fácil de sustentar,

com poucos encargos, frugal no seu modo de vida,

os sentidos acalmados, sábio,

moderado, sem cobiçar ganhos.

Não faz nada, mesmo que trivial,

que seja condenado pelos sábios.

Pense: felizes, seguros,

que todos os seres tenham os corações plenos de bem-aventurança.

Todos os seres vivos que existem,

fracos ou fortes, sem exceção,

compridos, grandes,

médios, curtos,

sutis, grosseiros,

Visíveis e invisíveis,

próximos e distantes,

nascidos e por nascer:

que todos os seres tenham os corações plenos de bem-aventurança.

Que ninguém engane

ou despreze outrem, em nenhum lugar,

ou devido à raiva ou inimizade

deseje que alguém sofra.

Tal qual uma mãe, colocando em risco a própria vida,

ama e protege o seu filho, o seu único filho,

da mesma forma, abraçando todos os seres,

cultive um coração sem limites.

Com amor bondade para todo o universo,

cultive um coração sem limites:

Acima, abaixo e em toda a volta,

desobstruído, livre da raiva e da inimizade.

Quer seja parado, andando,

sentado, ou deitado,

sempre que estiver desperto,

cultive essa atenção plena:

a isto se denomina uma morada divina

no aqui e agora.

Sem estar aprisionado pelas idéias,

virtuoso e com a visão consumada,

tendo subjugado o desejo pelo prazer sensual,

ele não mais renascerá.