quinta-feira, dezembro 24, 2009

0102...2010

ESBOÇO DA PRÁTICA

Muitas estradas levam ao caminho(1), mas basicamente há apenas duas: prática e razão. Entrar pela razão significa perceber a essência através de ensinamentos e acreditar que todos seres vivos compartilham a mesma natureza verdadeira, a qual é dissimulada pela sensação e ilusão. Aqueles que saem da ilusão para a realidade, os que meditam defronte à parede(2) a ausência de dualismo, a unidade de mortalidade e sabedoria, e que permanecem impassíveis mesmo perante às escrituras estão em concordância completa e óbvia com a razão. Sem se moverem, sem esforços, eles entram, dizemos, pela razão.

Entrar pela prática refere-se as quatro práticas(3) levadas em consideração: sofrer injustiça, adaptar-se às condições, nada buscar e praticar o Dharma.

Primeiramente, sofrer injustiça. Quando aqueles que buscam o caminho encontram adversidades deveriam pensar: "por incontáveis eras eu tenho dedicado-me ao trivial em detrimento do essencial e vagueado em todo tipo de existência, raivoso sem motivo e culpado de inúmeras transgressões. Agora, embora eu não cometa erros, sou punido pelo meu passado. Nem os deuses nem os homens podem antever quando uma má ação frutificará. Aceito isso de coração aberto e sem reclamação". Dizem os sutras: "Quando você encontra adversidade não se exaspere, ela é justa". Com tal entendimento você está em harmonia com a razão. E sofrendo injustiça você entra no caminho.

Em segundo, adaptando-se às condições. Como mortais, somos regidos por condições e não por nós mesmos. Todo sofrimento e toda alegria que experimentamos depende de condições. Se devêssemos ser agraciados por algum grande prêmio, tal como fama ou fortuna, é o fruto da semente plantada por nós no passado. Quando mudam as condições, isso cessa. Por que deliciar-me com esta existência? Mas, enquanto o sucesso e o insucesso dependem de condições, a mente não cresce nem diminui. Aqueles que permanecem impassíveis perante os ventos da alegria silenciosamente seguem o Caminho.

Em terceiro, nada buscar. As pessoas estão iludidas. Estão sempre ansiando por algo –sempre, por assim dizer, buscando. Mas os sábios despertam. Eles escolhem a razão em vez dos hábitos. Eles fixam suas mentes no sublime e deixam seus corpos mudarem com as estações. Todos os fenômenos são vazios. Eles nada contêm que valha desejar. A Calamidade alterna-se com a Prosperidade(4). Habitar nos três reinos(5) é habitar numa casa em chamas. Ter um corpo é sofrer. Alguém com um corpo conhece a paz? Aqueles que compreendem isso desapegam-se de todas as coisas existentes e param de imaginar ou buscar algo. Os sutras dizem: "Buscar é sofrer. Nada buscar é encontrar a satisfação". Quando você nada busca, você está no Caminho.

Em quarto, praticar o Dharma(6). O Dharma é a afirmação de que todas as naturezas são puras. Através dessa verdade, todas aparências são vazias. Decadência e apego, sujeito e objeto não existem. Os sutras dizem: "O Dharma não inclui seres, pois o Dharma está livre da impureza do eu. "Aqueles que são sábios o suficiente para acreditar e entender esta verdade estão ligados à prática de acordo com o Dharma. E uma vez que isso é real, incluindo que nada vale a pena invejar, eles dão seus corpos, vidas e propriedades em caridade, sem lamentar e sem a vaidade do doador, do presente ou do presenteado. E, para eliminar impurezas, eles ensinam, mas sem apegarem-se à forma. Assim, através de sua própria prática, eles são capazes de ajudar pessoas e glorificar o Caminho da Iluminação. E, assim como a caridade, eles também praticam as outras virtudes. Mas enquanto praticam as seis virtudes(7) para eliminar a ilusão, eles nada praticam. Isso é conhecido por "praticar o Dharma".

Glossário e notas

1. Caminho. Quando o budismo foi para a China, a palavra tao era usada para traduzir Dharma e Bodhi. A causa parcial era que o budismo era visto como uma versão estrangeira do taoismo. Em seu "Sermão do Ciclo da Vida", Bodhidharma diz: "O Caminho é zen".

2. Parede. Depois de chegar à China, Bodhidharma passou nove anos em meditação em frente à parede de uma caverna próxima ao Templo de Shaolin. A parede de vazio de Bodhidharma liga todos os opostos, incluindo eu e o outro, mortal e sábio.

3. Quatro práticas. São uma variação das quatro nobres verdades: toda existência é marcada por sofrimento; o sofrimento tem uma causa; a causa pode terminar; e o caminho para terminá-la é o óctuplo caminho da visão correta, pensamento correto, fala correta, ação correta, modo de vida correto, devoção correta, atenção correta e zen correto.

4. Calamidade e Prosperidade. Duas deusas, responsáveis por má e boa sorte, respectivamente. Elas aparecem no capítulo doze do Sutra do Nirvana.

5. Três reinos. O equivalente psicológico budista do mundo cosmológico triplo bramânico de bhur, bhuvah e svar, ou terra, atmosfera e céu. O mundo triplo budista inclui kamadhatu, ou o reino do desejo – os infernos, os quatro continentes do mundo humano e animal, e os seis paraísos do prazer; rupadhatu, ou o reino da forma – os quatro paraísos da meditação; e arupadhatu, imateriais. Juntos, os três reinos constituem os limites da existência. No capítulo três do Sutra do Lótus os três reinos são representados como uma casa em chamas.

6. Dharma. A palavra sânscrita Dharma vem de dhri, que significa pegar, e refere-se a qualquer coisa que precisa ser "pegue" para ser real, tanto num sentido provisório como derradeiro. Portanto, a palavra pode significar coisa, ensinamento ou realidade.

7. Seis virtudes. Os paramitas, ou meios de transporte para a outra margem: generosidade (DANA), ética (SHILA), paciência (KSHANTI), esforço (VIRYA), concentração (DHYANA) e sabedoria (PRAJNA). Todos os seis devem ser praticados com desapego dos conceitos de atuante, ação e beneficiário.

Texto atribuído a Bodhidharma
Este texto foi traduzido para o português por Shinzen
Fonte: site Shunya

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Rohatsu Sesshin 2009

O Retiro da Iluminação 2009, que aconteceu entre os dias 13 e 20 de dezembro no Templo Busshinji, contou com mais de 30 participantes.




Clique na foto para ampliar.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Pontos a serem observados durante o Zazen

...

"Saindo da imobilidade, ocupe-se com suas atividades sem hesitação. Este momento é o koan. Quando a prática e a realização não guardam complexidade, então o koan é este momento presente. Este momento, que é antes que qualquer indício surja, a visão do outro lado da destruição do tempo, a atividade de todos os Budas e Patriarcas Iluminados, é apenas esta única coisa.

Você apenas deve parar e cessar. Tranqüilize-se, passe inumeráveis anos como este momento. Seja cinzas frias, uma árvore seca, um incensário num templo abandonado, um pedaço intocado de seda."

...

Keizan Zenji (1268-1325)

Veja o texto completo em Zazen Yojinki

terça-feira, dezembro 08, 2009



Altar

Nosso altar é um tamborete sob a pitangueira,
de três pernas tortas e um tampo de tronco de árvore.
Oferecemos mamão, banana e melão, entre outras frutas,
como nos templos. Seres alados vêm buscar, é certo.

De dia, com asas de plumas, à noite com asas de couro negro.
É certo, eles vêm. Uns com a luz clara do dia, outros na sombra.
Também é certo, vêm e nem pensam, não se fazem de rogados,
sua cerimônia é a atenção ao perigo, ao que não se poder ver.
Cuidam dos sons e das sombras diante do alimento.

Todos esperam o silêncio para se aproximar do altar,
os que vêm de dia deixam tudo ficar imóvel,
os da noite, abrem o profundo da escuridão aqui mesmo no quintal e se servem.
Uns cantam bem alto o mamão oferecido, outros cuidam para ficarem sós.

Todos, sem saber, agradecem, sempre, isto é certo,
agradecem ao que trouxe aquelas frutas alí para o tamborete
Agradecem sendo o que são, só isso, não se esforçam
(é verdade que um dia deixaram cair uma flor do céu)

Depois... depois vêm seres alados de seis patas, vêm outros rastejantes, vêm os que não se vê e tudo some, alí mesmo.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Zanmai Ozammai

O Rei de todos os Samadhis
(Dogen Zenji)

Sentar-se na postura de lótus é transcender o mundo inteiro; é o incomparavelmente precioso e sublime estado dos Budas e Patriarcas. Quando nos sentamos nessa postura, deixamos para trás os descrentes e os demônios e entramos nas profundezas do coração dos Budas e dos Patriarcas. É somente por meio deste Caminho que podemos atingir a transcendência absoluta e alcançar nosso destino final. É por isso que os Budas e Patriarcas se concentraram nesta prática, e em nada mais.

Saiba que o mundo do zazen é completamente diferente de qualquer outra dimensão. Quando esse princípio estiver esclarecido, você deve desenvolver o propósito de atingir a iluminação e buscar a prática verdadeira, a iluminação, e o nirvana.

Quando estiver em zazen, observe se o tempo permeia ou não o espaço vertical e horizontal e reflita sobre a natureza do zazen: ela é diferente da atividade normal? É um estado altamente vigoroso? É pensar ou não-pensar? Ação ou não-ação? O zazen é apenas a postura de lótus ou ele existe no corpo e na mente? Ou ele transcende o corpo e a mente? Devemos examinar esses diferentes pontos de vista. O objetivo é obter a postura de lótus em seu corpo e a postura de lótus em sua mente; e é preciso que você mantenha a postura de lótus quando o corpo e a mente forem abandonados.
Meu mestre Nyojo dizia: “Quando você pratica zazen o corpo e a mente são abandonados. Isso só pode ser alcançado por meio do shikantaza. Queimar incenso, prostrações, o nembutsu, penitências e leitura de sutras não são necessários”. Nos últimos 400 ou 500 anos, apenas Nyojo ensinou que podemos confrontar diretamente a mente dos Budas e Patriarcas por meio do shikantaza e nos tornarmos um com sua experiência. Pouquíssimos na China podem se comparar a ele. Não foram muitos os que identificaram o zazen com o Dharma de Buda, o Dharma de Buda com o zazen, e ninguém esclareceu a verdadeira forma do zazen como o Dharma de Buda.

O zazen da mente não é o mesmo que o zazen do corpo, e vice-versa. Há um zazen do shikantaza que difere do zazen em que corpo e mente foram abandonados. Quando corpo e mente são abandonados, atingimos a compreensão e a experiência dos Budas e Patriarcas e devemos preservar essa mente, examinando completamente seus aspectos.

Certa vez Buda Shakyamuni instruiu uma grande assembléia de monges: “Se alguém se senta na postura de lótus, realiza o samadhi no corpo e na mente. Ele alcança grande virtude, é respeitado por todos e seu esplendor é como o do sol iluminando o mundo inteiro. Indolência e preguiça são lançadas fora e ele se torna luminoso e incansável; a mente da iluminação é radiante e brilhante. Sua forma é como a de um dragão serpenteante. Quando Mara vê a pintura de alguém na postura de lótus, enche-se de horror e medo. Quão maior será esse terror se ele vir a postura de lótus de um iluminado?”

Se apenas a pintura da postura de lótus já subjuga Mara, quão grande deve ser a ilimitada virtude da postura em si! Portanto, quando sentamos em zazen, realizamos uma alegria e uma virtude sem medidas.

Shakyamuni também disse a uma grande assembléia de monges: “É por isso que me sento na postura de lótus”. Ele então disse aos seus discípulos para se sentarem na postura de lótus. Aquele que não encontraram o Caminho buscam-no valendo-se de inumeráveis posturas – andando nas pontas dos pés, permanecendo sempre de pé, cruzando as pernas atrás do pescoço etc. –, mas eles estão submersos num oceano de enganos e sua mente nunca está em paz. Por esse motivo Shakyamuni instruiu seus discípulos para se sentarem aprumados na postura de lótus. Se nos sentamos aprumados, nossa mente se alinha, e sua dispersão e perambulação é trazida para a unidade. Se nossa mente se perde ou nosso corpo oscila, essa postura pode recolocá-los na ordem correta. Se você pretende entrar em samadhi, deve deixar que todos os seus pensamentos errantes e dispersos repousem. Pratique dessa forma e você atingirá o Rei de todos os Samadhis.
Portanto nós claramente entendemos que a postura de lótus é o Rei de todos os Samadhis. É a compreensão. Todos os outros samadhis lhe são subordinados. A postura de lótus é um corpo aprumado, uma mente resplandecente e o corpo e mente das coisas como elas são, que conduz diretamente aos Budas e Patriarcas, à prática correta e à iluminação, e à existência última de todas as coisas na natureza-de-Buda.

Podemos concretizar o Rei dos Samadhis por meio da postura de lótus neste mesmo corpo – em nossa pele, carne, ossos e tutano. Buda Shakyamuni sempre usou essa postura e a transmitiu a seus discípulos, ensinando-a tanto para homens como para deuses. Desde os sete Budas do passado, a essência do Caminho de Buda é a postura de lótus.

Enquanto Buda Shakyamuni se sentou na postura de lótus sob a árvore Bodhi, inúmeros kalpas se passaram. Porém, independentemente do tempo que se passou – 50 ou 60 kalpas, 21 dias ou apenas um breve instante –, ele fez girar a roda da Lei. O ensinamento de Shakyamuni é completo e não tem lacunas. A postura de lótus contém em si mesma todos os sutras. Um Buda encontra o outro nessa postura, e todos os seres sencientes tornam-se Budas nesse instante.

Quando o primeiro Patriarca, Bodhidharma, veio do oeste, ele passou nove anos sentado em frente a uma parede no monastério de Shositsu Hoshorinji, no Monte Su. Desde então, a essência e a semente do Dharma se espalharam por toda a China. A postura de lótus era o sangue vital do primeiro Patriarca. Antes de ele ir à China ninguém conhecia tal postura. Por toda a nossa vida devemos, portanto, nos empenhar, dia e noite, em praticar a postura de lótus e não abandonar o monastério – esse é o Rei de todos os Samadhis.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Zazengi

Regras para o zazen

Estudar o Zen é praticar o zazen. Para praticar o zazen, escolha um local calmo, nem seco, nem úmido, e use um pequeno tapete grosso. Como usamos a mesma postura sentada que Shakyamuni praticou quando se iluminou, pense no local em que você vai se sentar como o “Assento de Diamante”. Alguns monges praticam em grandes pedras, enquanto outros seguem a maneira dos sete Budas, praticando zazen sobre um pequeno tapete de folhas.

O local para a prática de zazen não deve ser muito escuro, mas moderadamente iluminado de dia e de noite. Deve estar quente no inverno e fresco no verão. Mantenha o corpo e mente em repouso – corte fora toda a atividade mental. Não pense sobre o tempo ou as circunstâncias, nem se agarre a bons ou maus pensamentos. Zazen não é auto-consciência ou auto-contemplação. Nunca tente tornar-se um Buda. Desvencilhe-se das noções de deitar ou sentar. Coma e beba moderadamente. Não perca tempo. Preste atenção à sua própria prática do zazen.

Aprenda com o exemplo do quinto Patriarca, Konin, do Monte Obai. Todas as suas ações, diariamente, eram a prática do zazen.

Quando praticar zazen, vista o kesa e use uma pequena almofada redonda. Não se sente no meio da almofada, mas sim posicione a metade dianteira sob suas nádegas. Cruze as pernas e posicione-as sobre o tapete. A almofada deve tocar a base da coluna. Essa é a postura básica que foi transmitida de Buda a Buda, de Patriarca a Patriarca.

Use a postura de lótus completo ou de meio lótus. Em lótus completo, o pé direito é colocado sobre a coxa esquerda e o pé esquerdo sobre a coxa direita. Mantenha as suas pernas horizontais a suas costas perfeitamente eretas. Na postura de meio lótus o pé esquerdo é colocado sobre a coxa direita e o pé direito é guardado sob a coxa esquerda.

Afrouxe sua roupa e aprume-se. Mão direita sobre o pé esquerdo, mão esquerda sobre o pé direito. Os polegares, alinhados, tocam-se levemente. Ambas as mãos são colocadas junto ao abdome. As pontas dos polegares devem estar alinhadas com o umbigo. Lembre-se de manter a coluna ereta o tempo todo. Não penda para a esquerda ou para a direita, para frente ou para trás. Mantenha as orelhas alinhadas com os ombros. Da mesma forma, o nariz e o umbigo devem estar no mesmo plano. Coloque a língua no céu da boca. Respire pelo nariz e mantenha os dentes e os lábios unidos. Os olhos mantêm-se abertos naturalmente. Quando iniciar, ajuste seu corpo e sua mente fazendo uma profunda respiração.

A forma de seu zazen deve ser estável como uma montanha. Pense no “não-pensar”. Como? Usando o “não-pensamento”.
Esse é o esplêndido caminho do zazen. Zazen não é um meio para a iluminação, zazen é, em si mesmo, a perfeita atitude do Buda. Zazen, em si mesmo, é a pura e natural iluminação.

Apresentado aos monges de Kippoji em novembro de 1243.

segunda-feira, novembro 30, 2009

Fukanzazengi

Regras gerais para a prática do zazen
de Dogen Zenji (1200-1253)


Quando se busca a fonte do caminho, percebe-se que ele é absoluto e tudo permeia. É desnecessário distinguir entre “prática” e “iluminação”.

O ensinamento supremo é livre, então por que estudar os meios para alcançá-lo?

O caminho é, desnecessário dizer, muito diferente da delusão.
Por quê, então, preocupar-se com os meios de eliminá-la?

O caminho está completamente presente onde você está, então para que servem a prática e a iluminação?

Contudo, se houver na origem uma minúscula distinção entre você e o caminho, o resultado será uma separação tão grande quanto a que há entre o céu e a terra. Caso um fugaz pensamento dualístico surja, você já perderá sua mente-de-Buda.

Por exemplo, algumas pessoas se orgulham do seu entendimento, e pensam que são fartamente dotadas da sabedoria de Buda. Elas pensam ter atingido o caminho, iluminado suas mentes e adquirido o poder de tocar os céus. Elas imaginam que viajam pelos campos da iluminação. Mas na verdade elas praticamente perderam o caminho perfeito, que está além da própria iluminação.

Você deve atentar para o fato de que mesmo Buda Shakyamuni teve de praticar zazen, durante seis anos. Também se narra que Bodhidharma teve de praticar zazen no templo de Shao-lin por nove anos para poder transmitir a mente-de-Buda. Se esses grandes homens sábios foram tão diligentes, como poderiam os praticantes de hoje em dia prescindir da prática do zazen? Você deve parar de perseguir palavras e erudição e aprender a se recolher e se refletir em si mesmo. Quando você faz isso, seu corpo e sua mente naturalmente são abandonados, e sua natureza-de-Buda original surge. Se você pretende compreender a sabedoria de Buda, deve começar a treinar imediatamente.

Para praticar o zazen é desejável ter um aposento silencioso. Você deve ser moderado no comer e beber e abandonar todas as atividades ilusórias. Pondo tudo de lado, não pense nem no bem nem no mal, nem no certo nem no errado. Desse modo, cessando as várias atividades mentais, abandone até mesmo a idéia de se tornar um Buddha. Isso é verdadeiro não só para o zazen, como para todas suas atividades diárias.

Coloque uma esteira grossa e quadrada sobre o chão onde você se sentará e sobre ela uma almofada redonda. Você pode se sentar igualmente nas posições de lótus completo ou de meio-lótus. Em lótus completo, coloque seu pé direito sobre sua coxa esquerda e então seu pé esquerdo sobre sua coxa direita. Em meio-lótus, apenas coloque seu pé esquerdo sobre a coxa direita. Suas roupas devem ser confortáveis, porém asseadas. Em seguida coloque as costas de sua mão direita sobre seu pé esquerdo a as costas da mão esquerda sobre a palma da mão direita, com as pontas dos polegares tocando-se levemente. Aprume o corpo, não se inclinando nem para a esquerda nem para a direita, nem para a frente e nem para trás. Suas orelhas devem estar no mesmo plano que seus ombros e seu nariz alinhado com seu umbigo. Sua língua deve ser colocada contra o céu da boca e seus lábios e dentes devem permanecer firmemente fechados. Mantendo seus olhos constantemente abertos, respire suavemente pelas narinas. Finalmente, tendo ajustado seu corpo e sua mente dessa forma, faça uma profunda respiração, balance seu corpo para a esquerda e para a direita e então permaneça solidamente, imóvel como uma rocha. Pense no não-pensar. Como se faz isso? Pensando além do pensamento e do não-pensamento. Este é o princípio fundamental do zazen.

Zazen não é “meditação passo a passo”, mas simplesmente a tranqüila e agradável prática de um Buddha, a realização da sabedoria de Buddha. A verdade aparece, não há delusão. Se você compreende isso, você é completamente livre, como um dragão que alcançou a água ou um tigre que descansa na montanha. A lei suprema então surgirá por si mesma, e você se libertará do cansaço e da confusão mental.

Ao término do zazen, movimente o corpo vagarosamente e levante-se com tranqüilidade. Não se mova abruptamente.

Pela virtude do zazen é possível transcender a diferenciação entre “mundano” e “sagrado” e conquistar a capacidade de morrer enquanto se pratica zazen ou enquanto se está de pé. Além disso, é impossível para nossa mente discriminativa entender como os Buddhas e ancestrais expressaram a essência do Zen para seus discípulos com o dedo, uma estaca, uma agulha ou um martelo de madeira, ou como eles transmitiram a iluminação com um hossu, um punho, um bastão ou um grito. Isso não pode ser compreendido por meio de poderes sobrenaturais e tampouco com uma visão dualística da prática e da iluminação. Zazen é uma prática além dos mundos subjetivo e objetivo, além do pensamento discriminativo. Portanto, nenhuma distinção deve ser feita entre o inteligente e o estúpido. Praticar o caminho com o coração uno é, por si mesmo, iluminação. Não há diferença entre prática e iluminação ou entre zazen e vida diária.

Os Buddhas e os patriarcas, tanto neste como noutro mundo, na Índia e na China, todos eles mantiveram a mente-de-Buddha e ressaltaram o treinamento Zen. Portanto, você deve dedicar-se exclusivamente à prática do zazen, completamente absorvido por ela. Apesar de ser dito que há inúmeras maneiras de entender o Buddhismo, você deve apenas praticar o zazen. Não há necessidade de abandonar seu próprio local de prática e empreender viagens inúteis para outros países. Se o seu primeiro passo for errado, você inevitavelmente fracassará. Você já teve a boa sorte de ter nascido com um precioso corpo humano, portanto não desperdice seu tempo em vão. Agora que você sabe qual é a coisa mais importante no Buddhismo, como pode se satisfazer com o mundo transitório? Nossos corpos são como o orvalho na relva, e nossas vidas como o brilho de um relâmpago, desaparecendo em um instante.

Praticantes determinados do Zen, não sejam pegos de surpresa por um dragão real ou dediquem muito tempo apalpando apenas uma parte de um elefante. Apliquem-se no caminho que leva diretamente à sua mente original de Buddha. Respeitem aqueles que alcançaram o conhecimento perfeito e nada mais têm a fazer. Tornem-se um com a sabedoria dos Buddhas e alcancem a iluminação dos patriarcas. Se praticarem zazen por algum tempo, compreenderão tudo isso. A casa do tesouro então se abrirá por si mesma e vocês poderão usufruí-la plenamente com seus corações.

quinta-feira, novembro 26, 2009

Deixa o escuro chegar


Quando o dia cair
e as cores ficarem azuis, até sumirem,
quando a silhueta da figueira se confundir com o céu
e os pássaros em bando se recolherem

Bem no fim.
Quando já tiver feito o seu trabalho,
e os ponteiros indicarem o caminho de casa.
Justo na hora do cansaço.

(Ao chegar em casa) ou mesmo antes.
Não se entregue, não pactue
Não se deixe vagar pelas coisas como um espectro
Não faça recesso de si, não se esqueça no espelho das sombras.

Na hora cansada, as luzes do trânsito ainda são diamantes e rubis
e o cheiro sem ar das máquinas paradas são apenas isso.
A distância entre a lua e o sol nunca é mesma, veja bem
não feche a cortina que te separa de si

Não aceite contratos de puro sonho e desvario
Nem tome distância de onde se encontra.
Andando pelas calçadas ou ruas,
leve flores e água mineral.

terça-feira, novembro 24, 2009

Aviso importante!

Neste próximo retiro, Rohatsu Sesshin, que acontece em dezembro, ao contrário do que esperávamos e foi divulgado neste blog, NÃO HAVERÁ POSSIBILIDADE DE ALOJAMENTO NO TEMPLO. Como o prédio novo, o pavilhão Daikankaku, ainda não está 100% pronto, embora já tenha sido inaugurado, os engenheiros da obra resolveram por cautela não disponibilizar o prédio para uso ainda, até que seja entregue finalizado.

Sendo assim, aqueles que vierem para o retiro terão que se alojar em casa de amigos ou hotel. Para informações sobre hotéis próximo ao templo, favor entrar em contato com Templo Busshinji pelos telefones: 11 3208-4515/4345

segunda-feira, novembro 23, 2009

Tokudo - as últimas ordenações no Busshinji

Neste último dia 7 de novembro, a sangha do Busshinji esteve em festa, receberam ordenação leiga:

André - Endei
Claudemir - Gengaku
José Carlos - Ippo
Lauro - Rotsu
Vanderlei - Banrei

Foto: Daniela Coen

O oficiante do Tokudo, Mestre Saikawa Roshi


Foto: Lauro Araujo
Foto: Lauro Araujo


Recebemos também ordenação de monge, eu e Wajun:

Bruno - Daitetsu Seigen
Ezequiel - Dotetsu Wajun
Foto: Jarbas Viana
Foto: Daniela Coen
Foto: Jarbas Viana
Foto: Daniela Coen
Foto: Daniela Coen

quarta-feira, novembro 18, 2009

ROHATSU SESSHIN - BUSSHINJI



Acontecerá de 13 a 20 de dezembro no Templo Busshinji, São Paulo, o Sesshin da Iluminação, conhecido também por Rohatsu Sesshin. O valor da doação é de R$ 200. Tendo a frente o Superior Dosho Saikawa, abade desta instituição

As inscrições podem ser feitas no local, dia 13 de dezembro, na parte da manhã. Após o almoço daremos início ao sesshin. O encerramento ocorrerá na manhã de 20 de dezembro, em torno das 3hs.

Desta vez ainda não será possível a hospedagem no próprio templo, tendo os participantes que se hospedarem na casa de amigos ou hotel. Para saber de hotéis mais próximos ao templo, favor ligar para o templo.

Nosso endereço:
Rua São Joaquim, 285 • Bairro da Liberdade
São Paulo SP • Próximo à estação de Metrô São Joaquim
Tel.: 3208-4515 / 3208-4345 ou Fax: (0xx11) 3208-0418
A Grande Barca

        "O Iluminado parte na Grande Barca, mas não há ponto de partida. Ele parte do universo; mas na verdade, ele parte de nenhum lugar. Sua barca está equipada com todas as perfeições, e não é manejada por ninguém. Ela se apoiará em absolutamente nada e se apoiará no estado de tudo saber, que lhe servirá de não-apoio. Ademais, ninguém jamais partiu na Grande Barca; ninguém jamais partirá nela e ninguém está partindo nela agora. E por que isso? Porque nem aquele que está partindo nem o destino para o qual ele parte podem ser encontrados: por isso, quem estaria partindo e para onde?"
        O Bodhisattva Subhuti disse: "Profunda, ó Venerável, é a perfeita Sabedoria que vai além."
        E o Venerável respondeu: "Profunda como o abismo, como o espaço do universo, ó Subhuti, é a perfeita Sabedoria que vai além".
        Subhuti disse ainda: "Difícil de ser alcançada pelo Despertar é a perfeita Sabedoria que vai além, ó Venerável".
        Ao que o Venerável respondeu: "Essa é a razão, ó Subhuti, por que ninguém jamais a alcança pelo Despertar".


quarta-feira, novembro 11, 2009

Cinquentenário e Inauguração


Na foto Mestre Saikawa, sua esposa e discípulos, preparam o memorial do fundador do Templo Busshinji, Sokans e, em tamanho menor, logo atrás, dos monges, para a inauguração do novo prédio Dai Kankaku.

Confira a programação da cerimônia do cinquentenário do Templo Busshinji e inauguração do Pavilhão Dai Kankaku:

Dia 13 de novembro
10:00 - Cerimônia para Recepcionar o Shumu Socho
- Corte da Faixa de Inauguração e Descerramento da Placa
- Apresentação do novo prédio
11:00 - Cerimônia de Abertura da Imagem do Fundador
11:30 - Cerimônia dos 600 volumes do Sutra Prajna Paramita
12:30 - Banquete no Salão do Pavilhão Dai Kankaku


Dia 14 de Novembro
13:00 - Cerimônia de Abertura do Monumento
13:30 - Palestra
14:30 - Cerimônia Memorial dos Fundadores
15:30 - Cerimônia de Abertura dos Olhos das Imagens Daiguen Shuri Bosatsu e Daruma Soshi
16:30 - Cerimônia Memorial dos Antepassados(Grupo do Japão)
17:30 - Cerimônia do Manto Kuyo (Milhões de Luzes)


Dia 15 de Novembro
08:30 - Cerimônia para Recepcionar o Shumu Socho
09:00 - Cerimônia Memorial dos Monges e Professores falecidos da América do Sul
10:00 - Cerimônia Comemorativa do Cinquentenário do Templo Busshinji
- Entrega do Certificado de Honra ao Mérito de Shumucho para Convidados
11:00 - Cerimônia Memorial para todos os membros
- Entrega do Certificado de Honra ao Mérito do Busshinji para Convidados

quinta-feira, novembro 05, 2009

Nunca passei por aqui


Quando via um passarinho no caminho,
parava e esperava, só para ver seu vôo
fosse Sabiá, Bem-te-vi, Sanhaço, Rolinha, Periquito,
ou outro sem nome.

Costumava mudar de calçada sempre que via um pela frente
ciscando sementes, catando gravetos, assim
permanecia tudo em seu lugar

Nas noites difíceis, quando já não sentia nada, nada mesmo,
tocava o chão de pedra, ou de cimento, com a barriga
e o calor do sol ainda aquecia, era assim que me acalmava.

Mas nunca desconfiei da morte, nem me era dado pensar nela
tinha fé na ponta das minhas garras, na maciez do salto,
nas orelhas exatas e naquele grande bigode espigado.

Da morte, é melhor não falar, ou pensar.
A morte, é melhor viver, experimentar por si.
Não que se queira morrer, dessa morte definitiva,
pelo contrário, e é só por isso que estou aqui,
falando de passarinhos e de raios de sol.


Foto: Seigen Mitih

quinta-feira, outubro 29, 2009



Veio até nós, num dia comum

"Antes que você pense em ouvir, o ouvido já ouviu,
antes que você pense em ver, o olho já viu,
antes que você queira cheirar, o nariz já sentiu o cheiro,
antes que você queira sentir pelo tato, a pele já sentiu,
antes que você queira sentir o sabor, a boca já o sentiu."

"No Japão diz-se 'uma idéia veio até mim', e não 'eu tive uma idéia'

"Quem decidiu nascer?
Quem decidiu nascer homem ou mulher?
Quem decidiu nascer neste ou naquele país?
Quem decidiu nascer nesta ou naquela família?"


Koan apresentado pelo Mestre Saikawa, durante uma sessão de zazen no Templo Busshinji, em São Paulo.

domingo, outubro 25, 2009




Budismo para porcos

- Os porcos têm a natureza de Buda? - perguntaria o monge.
- Mu.

Esta provavelmente seria a resposta de Joshu ao monge, atualizada para nossos dias e geografia - do famoso koan onde a pergunta original se refere a um cachorro.

Os porcos em nossa sociedade são considerados os animais mais "baixos" e sujos, servindo de metáfora para tudo o que se relaciona com sujeira e miséria humana. Depois do porco, viria apenas o verme, e algumas culturas aboliram o consumo da carne de porco, por o elegerem um animal indigno. Colocaram o porco na berlinda, e Joshu tem razão ao responder daquela forma: "Mu". "Mu" significa vazio, não-dualidade. Cientistas constataram que a fisiologia dos porcos é a mais próxima dos seres humanos, o tamanho e a disposição dos orgãos quando comparados ao corpo humano é muito semelhante, a forma que o corpo reage aos hormônios e o funcionamento do coração também é muito próximo, tanto que os porcos vêm sendo utilizados como cobaias para estudos e cogita-se até a utilização de seus órgãos para transplante em humanos. Na literatura há uma recorrência à figura do porco, em geral como analogia ao gênero humano, para crianças há muitos exemplos, o mais conhecido: "Os Três Porquinhos", e tem o Bola de Neve, de literatura mais adulta, porco que se torna ditador na "Revolução dos Bichos" de George Orwell. A proximidade fisiológica entre porcos e seres-humanos chega ao extremo de se poder dizer o seguinte, ao comer a carne suína, é como se tívessemos uma pequena amostra do que seria comer a carne humana, bem, paremos por aqui. Agora, com relação à "imundice" dos porcos, isto depende, e muito. Minha esposa fala da criação de porcos de seu avô, que era um ambiente limpo e bem cuidado, os porcos eram tão limpos quanto os cavalos e as galinhas. As criações de porcos para o abate hoje em dia podem ser mais limpas do que nossa própria casa. Vale lembrar também que os porcos foram domesticados pelos Homens, e que seus parentes selvagens, os javalis, vivem em bandos pelas florestas.

Num documentário do canal National Geografic foram apresentadas duas experiências feitas por etólogos, ambas bastante esclarecedoras. As experiências utilizaram porcos filhotes, sabe-se que os filhotes tornam-se estressados, irritadiços, briguentos e, sobretudo, inseguros e incapazes de utilizar de maneira adequada sua inteligência natural, quando são desmamados antes da hora, ou seja, com apenas duas semanas após o nascimento, como é feito nas grandes criações industriais. Na primeira experiência porcos que foram desmamados antes da hora e porcos que tiveram o tempo de convívio adequado com a mãe são submetidos à mesma situação: circular por corredores elevados, uns com proteções laterais, outros abertos. Os filhotes que mamaram o tempo correto circularam livremente por todos os corredores, os desmamados prematuramente circularam apenas pelos corredores com proteções laterais. Na segunda experiência, os filhotes foram colocados um de cada vez numa grande banheira circular, com uma pequena plataforma elevada no fundo, próximo à uma das bordas, onde o filhote poderia se apoiar e até sair da banheira. Os filhotes desmamados prematuramente ficavam afobados dentro d'água, nadando em todas as direções sem sequer se darem conta da plataforma. Os outros, que mamaram o tempo adequado, em pouco tempo descobriram a plataforma e lá se apoiaram, parando de nadar. Minutos depois os mesmos filhotes eram submetidos à mesma situação, os que desmamaram cedo demais ficam sempre afobados e continuam não se dando conta da plataforma, os outros aprenderam a existência da plataforma e para lá se encaminham diretamente todas as vezes em que a experiência é repetida. A conclusão é que o leite e afeto proporcionados pela mãe nas primeiras semanas de vida são indispensáveis para um porco saudável, capaz de viver plenamente todas as suas faculdades originais, digamos assim.

Um ser humano que se torna neurótico pelo contato com a sociedade humana tem o budismo* para abandonar a sua condição enferma. Os porcos, por nós retirados de seu estado natural, não. Um porco inseguro, se solto na floresta recuperaria sua situação original? Será que apenas o contato direto com a natureza seria o suficiente para descondicionar as células do cérebro e do corpo? Ou, pelo contrário, este contato direto com a natureza iria piorar sua própria natureza de porco estressado e inseguro? Será que existe um mestre porco no interior da floresta que dê referências do caminho correto para o porco perdido? Segundo o documentário, porcos domésticos quando fogem ou são abandonados à própria sorte na natureza se adaptam muito bem, adquirindo características físicas bem próximas de seus primos javalis, como os pelos que crescem e se tornam espessos por todo o corpo, além disso, passam a integrar os bandos selvagens.

Hoje em nossa sociedade humana há um consenso pela necessidade do "relaxar", sempre associado ao prazer. A pessoa vive mal o dia-a-dia, porque não gosta ou não se adapta à cidade onde mora, porque não resolve o convívio saudável com a família, porque não gosta do trabalho, porque não se dá bem com o chefe ou ambiente de trabalho, porque tem mais necessidades que dinheiro, e assim por diante. Já acordamos ansiosos, preocupados e inseguros, e o estresse é um estado latente. Mas não observamos que somos os responsáveis por nosso estresse, colocamos a responsabilidade na cidade, família, trabalho, etc. Acreditando no estresse criamos o estresse do mundo. Quer dizer, vivemos na dualidade, estresse-relaxamento. Buscando o "relaxar" nos dirigimos naturalmente para o estresse, porque para relaxar precisamos estar tensos, e assim num movimento circular e entrópico, a mente acredita que é assim e pronto, e c'est la vie.

Nos deixamos ficar tensos ao extremo e depois vamos para o spa, nos "matamos" e depois vamos ver tevê, fazer zazen, meditação, sexo, beber álcool, tomar tranquilizantes e drogas em geral. O que poucos refletem é o seguinte: em vez de relaxar ou buscar o prazer depois de ficar estressado para depois estressar novamente, porque não, simplesmente, nem ficar estressado antes? Repetindo a pergunta: porque nem sequer começar a ficar estressado? Já fiz esta pergunta a algumas pessoas, aleatoriamente, e percebi que esta é uma questão que sequer tem espaço, ou nem a consideram, ou acham engraçado e absurdo, poucos começam a refletir. Bem, é preciso primeiro ser capaz de se colocar a questão, acomodar na mente espaço suficiente para ela, porque sim, é possível sim. É um caminho a ser percorrido que coloca apenas duas condições: 1. Que se caminhe de forma correta na direção correta; 2. Que seja você, exatamente você, a empreender a caminhada com seus próprios meios e condições.

Os porcos, quando têm a sorte de se livrarem da domesticação humana, encontram consequentemente sua natureza original nas matas e florestas. Nós, com ajuda do budismo e dos mestres, também podemos nos tornar livres. Dependemos então apenas de nossa própria iniciativa e esforço, da honestidade consigo mesmo no caminhar (preceito do não mentir) e da intensidade com a qual mergulhamos na prática do dharma-de-buda no dia-a-dia. Quanto ao estresse, podemos abrir mão dele agora, e a cada instante. O universo não para nunca, está em constante expansão, então não há porquê relaxar, na verdade não há como, e não há porquê perder um instante sequer de concentração nessa vida. Quando estiver cansado, descanse, concentre-se em descansar apenas. A atenção-plena, ou concentração, ao contrário do que se pode pensar, não cansa nem estressa. Por fim, esta prática traz consequências profundas e se torna o próprio Nirvana. Assim:

- É possível viver sem estresse?
- Mu.


* Ou outra escola não dogmática que proponha um método prático de total liberação do ser humano de seus condicionamentos.

terça-feira, outubro 20, 2009


Nada me tem, nem sou


Sou negro, sou pastor, nasci por aí, não tenho documento, nem raça, nem casta, sou um cachorro preto. Uma orelha cortada sem ponta, por baixo uma ferida aberta. Sou pirata. A ponta de uma pata é branca. A peste me ataca, deixando o pelo ralo em duas partes do meu corpo. (O que me cura?) Sou vira-latas, vivo num buraco da terra. Estou vivo, e se você for fazer aquela trilha da montanha eu te acompanho, sou forte, sou pastor, sou um cão negro. Sou sua sombra neste caminho sob o sol, nada mais me interessa, te acompanho no caminho estreito, curvo e íngreme. Me distancio e lá na frente, perto daquela nuvem, faço um cocô amarelo, sou cão, abano o rabo e deixo pendurada a língua no canto da boca. Um espinho penetrando lento a carne, uma dor me ataca no mais fundo do ouvido, balanço a cabeça violentamente, as orelhas batem e fazem um som característico (só assim posso pensar na cura). Me jogo no chão, solto ganidos, me arrasto com a cabeça a se esconder no capim, até passar, até me deixar, até voltar. Mas agora outra vez sou o cão negro. Estou pronto, estou alerta, sou todo atenção neste caminho. Não precisa passar a mão na minha cabeça, afeto para mim é apenas a nossa presença móvel neste fio de terra e pedras. Sou sombra e assim não vejo diferença entre eu e você. Quando você pensar em me acariciar já sumi no caminho à sua volta. Sou sombra de um ou de muitos, não importa, sou pastor, reuno, reuno a matilha nessa trilha sobre as montanhas. Assim sou feliz, sou cão, cão sem dono.

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"Pelé" vive na Chapada, vila de uma só rua rodeada por uma bela serra, próximo à Ouro Preto.

domingo, outubro 18, 2009

Dia do professor, dia do aluno

57 Budas e linhagem

Bibashibutsu Daiosho
Shikibutsu Daiosho
Bishafubutsu Daiosho
Kurusonbutsu Daiosho
Kunagonmunibutsu Daiosho
Kashobutsu Daiosho
Shakamunibutsu Daiosho
Makakasho Daiosho
Ananda Daiosho
Shonawashu Daiosho
Ubakikuta Daiosho
Daitaka Daiosho
Mishaka Daiosho
Bashumitsu Daiosho
Butsudanandai Daiosho
Fudamitta Daiosho
Barishiba Daiosho
Funayasha Daiosho
Anabotei Daiosho
Kabimora Daiosho
Nagyaharajuna Daiosho
Kanadaiba Daiosho
Ragorata Daiosho
Sogyanandai Daiosho
Kayashata Daiosho
Kumorata Daiosho
Shayata Daiosho
Bashubanzu Daiosho
Manura Daiosho
Kakurokuna Daiosho
Shishibodai Daiosho
Bashashita Daiosho
Funyomita Daiosho
Hannyatara Daiosho
Bodaidaruma Daiosho
Taiso Eka Daiosho
Kanchi Sosan Daiosho
Daii Doshin Daiosho
Daiman Konin Daiosho
Daikan Eno Daiosho
Seigen Gyoshi Daiosho
Sekito Kisen Daiosho
Yakusan Igen Daiosho
Ungan Donjo Daiosho
Tozan Ryokai Daiosho
Ungo Doyo Daiosho
Doan Dohi Daiosho
Doan Kanshi Daiosho
Ryozan Enkan Daiosho
Taiyo Kyogen Daiosho
Toshi Gisei Daiosho
Fuyo Dokai Daiosho
Tanka Shijun Daiosho
Choro Seiryo Daiosho
Tendo Sokaku Daiosho
Setcho Chikan Daiosho
Tendo Nyojo Daiosho
Eihei Dogen Daiosho
Koun Ejo Daiosho
Tettsu Gikai Daiosho
Keizan Jokin Daiosho

sexta-feira, outubro 09, 2009

Livro 1 - Caso 7
Mestre Kyozan Ejaku Mestre Beiko
Koan

Mestre Beiko da cidade de Keicho pediu a um monge que fosse até o Mestre Kyozan Ejaku e fizesse a seguinte pergunta:
- Um homem que vive no momento presente precisa de iluminação ou não?

Mestre Kyozan Ejaku disse:
- Não seria verdade se dissesse que não há iluminação, mas não posso evitar de cair em uma consciência dualística.

Voltando para Mestre Beyko o monge lhe disse o que o Mestre Kyozan tinha dito. Mestre Beiko confirmou com ênfase as palavras do Mestre Kyozan.

quarta-feira, setembro 30, 2009

Shinji Shobogenzo
Livro 1 - Caso 6
Koan



Certo dia um monge perguntou para o Mestre Roiya Ekaku do distrito de Joshu:
- Fala-se que o Universo é puro e apresenta sua forma original. Como é possível para ele manifestar montanhas, rios e a terra?
Roya Ekaku respondeu:
- O universo global é puro e apresenta sua forma original. Como é possível para ele manifestar montanhas, rios e a terra!

segunda-feira, setembro 28, 2009

Sesshin cancelado

Atenção, o Sesshin da Primavera que aconteceria nos dias 16, 17, 18, 19 nov 2009 no Templo Busshinji foi CANCELADO por motivos internos do Templo.

O Sesshin da Iluminação continua de pé nos dias 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20 dez 2009.

Obrigado pela compreensão.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Ryaku Fusatsu

[*Tradicionalmente traduz-se "sange" por "arrependimento", palavra que alguns mestres comentam não ser adequada.]

II. A cura* e a extinção do mau carma

7. Os budas e os ancestrais, devido à sua ilimitada compaixão, abriram os portais do caminho para que todos os seres, humanos e celestiais, possam realizar a iluminação.
Apesar de a retribuição cármica por más ações aparecer em um dos três períodos de tempo, a cura diminui seus efeitos e elimina o mau carma, trazendo purificação.

8. Portanto, devemos nos curar, com toda sinceridade, diante de Buda. O poder do mérito que resulta de curar-se dessa forma diante de Buda nos salva e nos purifica. Esse mérito encoraja o livre crescimento da fé e do pleno esforço. Quando a fé surge, ela transforma a nós e a todos, e seus benefícios se estendem a todos os seres, animados e inanimados.

9. A essência da cura é expressa desta forma: “Apesar de termos acumulado muitos maus carmas no passado, produzindo causas e condições que obstruem nossa prática do caminho, que os budas e os ancestrais que alcançaram o Caminho de Buda sejam compassivos, nos libertando da retribuição cármica, removendo os obstáculos à prática do caminho e dividindo conosco sua compaixão, pois é por meio dela que seus méritos e ensinamentos preenchem todo o universo”. Buda e os ancestrais já foram como nós; no futuro, seremos como eles.

10. “Todo o mal cometido por mim é causado pelo apego, raiva e ignorância, que não têm origem. De todo mal cometido por meu corpo, fala e mente eu agora, sinceramente, me curo”. Se nos curarmos dessa forma, certamente receberemos a ajuda invisível dos Budas e ancestrais. Mantendo isso em mente e agindo da maneira correta, devemos nos curar sinceramente diante de Buda. O poder dessa cura cortará pelas raízes o mau carma.

[Em seguida, vêm os preceitos]

(Shushogi, de Mestre Dogen Zenji)

quinta-feira, setembro 24, 2009

Shinji Shobogenzo
Livro 1 - Caso 5
Koan

Um leigo chamado Ho-on, do distrito de Jo, perguntou ao Mestre Sekito:
- Que tipo de pessoa é independente de todas as coisas e dos fenômenos?
Mestre Sekito cobriu a boca do leigo com as suas mãos.
Neste momento o leigo percebeu a verdade clara e repentinamente.
Em outra ocasião, o leigo fez a mesma pergunta ao Mestre Baso Do-itsu.
Ho-on perguntou:
- Que tipo de pessoa é independente de todas as coisas e dos fenômenos?
Mestre Baso Do-itsu respondeu:
- Responderei depois que você beber toda a água do rio Sekito em um gole.
O leigo percebeu a verdade após ouvir essas palavras.

quarta-feira, setembro 23, 2009

Samadhi (musical)


Sivuca difundindo um "jazz" nordestino na Suécia em 1969. Repara na interação do músico com o instrumento e a música, é difícil determinar onde um começa e o outro termina.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Retiro Zen


Retiro de Primavera no Templo Zen Budista Taikanji

10 a 12 de Outubro de 2009

Passe um feriado muito especial com práticas de Zazen, Kinhin, Samu e Hatha Yoga, além de uma alimentação vegetariana saudável e balanceada, em meio à natureza na Serra da Mantiqueira, no belo Templo Zen Budista Taikanji - Pedra Bela, SP.

Programação diária:

Zazen, 6 períodos de 30 min.

2 aulas de Hatha Yoga com Dafnis C. Proença da Escola Carmen Perez

Palestra sobre Budismo

Contribuição: R$ 80,00/dia pela programação completa (vagas limitadas)

OBS: desconto de 10% para pagamentos feitos antecipadamente.

Mais informações e reservas: Monge Enjo - (11) 9555-2378 ou (11) 2473-0912 (Segundas e Terças Feiras)

quinta-feira, setembro 17, 2009

Livro 1 - Caso 4
Mestre Baso e Ryo
Koan



Mestre Ryo, o Zasu (mestre do templo) do Monte Sei no distrito de Ko, certo dia se tornou discípulo do Mestre Baso.

Mestre Baso perguntou: Você faz palestras sobre qual sutra?

Ryo Respondeu: O Sutra do Coração.

Mestre Baso perguntou: Como você ensina o sutra?

Ryo disse: Eu o ensino com minha mente.

Mestre Baso disse: A mente é o protagonista. A vontade é um ator encorajador, e os seis sentidos seus seguidores. Dessa forma, como você pode ensinar o Sutra?

Ryo respondeu: É impossível para a mente falar sobre o Sutra, portanto estará você dizendo que apenas o espaço vazio pode falar sobre o sutra?

Mestre Baso disse: Até o espaço pode falar dele.

Ryo estava saindo da sala balançando as mangas do manto da maneira como tinha entrado quando Mestre Baso gritou para ele: Kansu!

Ryo girou a cabeça.

Mestre Baso disse: Isto é assim desde o nascimento até a morte!

Mestre Ryo percebeu a verdade e se escondeu no Monte Sei. Depois disso ninguém soube o que aconteceu com ele.

terça-feira, setembro 15, 2009

Curso especial

A tempo, para quem vive no sul do Brasil. Veja abaixo (publicado no Blog Águas da Compaixão):

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Curso Especial: Análise e Síntese Transacional e a Prática Zen Budista


Clique na imagem para ampliar

O Budismo nos transmite ensinamentos sobre “anatman”, geralmente traduzido como “não-self” ou “não-eu”. Professores buscam atitudes de “não-ego” nos alunos. Mas o que significa isto?

O poema chinês “Sandôkai – A Identidade do Relativo e do Absoluto” (recitado regularmente no serviço matinal nos mosteiros Zen) fala da harmonia e inter-ação dos planos Relativo e Absoluto, os comparando ao “pé na frente e pé detrás ao andar”. Como aplicamos este ensinamento à vida diária?

O que é o “ego” no Budismo? O que é o “eu”? E o “ego” Freudiano, o “ego” da psicologia ocidental? Será que precisamos “matar o ego” para ter uma prática espiritual correta?

Para investigar estas questões e esclarecer más-interpretações sobre a nossa prática – sobre a harmonia do Absoluto e do Relativo, teremos o Curso Especial “Análise e Síntese Transacional e a Prática Zen Budista”, sob a orientação da psicóloga Miriam Cibreiros e a Monja Isshin Havens.

A Análise Transacional é uma teoria de psicologia e psiquiatria social desenvolvida pelo psiquiatra canadense Eric Berne, a partir da década de 1950. Nas palavras do autor, “A Análise Transacional é uma teoria da personalidade e uma psicoterapia sistemática para o crescimento e a mudança pessoal”. Está baseada em valores humanísticos, de relação igualitária e confiança no potencial das pessoas de desenvolver sua autonomia.

Este curso introdutório usa metodologia teórico-vivencial e facilita compreender a comunicação entre as pessoas e os papéis que vivemos, assumir a responsabilidade pela própria vida e estimular o contato com o próprio núcleo saudável. Aponta o valor da espiritualidade e a meditação como um caminho para a saúde.

Tópicos
Facilitados por Miriam Cibreiros:
. Resenha da Análise Transacional e Síntese Transacional
. A personalidade humana
. A comunicação humana: análise das transações
. Reconhecimento humano: a matemática do amor
. Emoções e disfarces: doenças psicossomáticas
. A estruturação do tempo: a intimidade intimida
. Jogos psicológicos: o Triângulo Dramático
. O script de vida
. A filosofia perene
. O apego e a plena atenção
. A aceitação: o círculo da saúde
. A vocação e o serviço

Orientados por Monja Isshin:
. Psicologia Budista e Psicologia Ocidental
. O ego ocidental e o “não-self” do Budismo
. Zazen

Duração: 16 horas (12 horas AT & ST, 4 horas Zen)

Data: 19 e 20 de setembro (sábado e domingo, das 8:00 às 18:00 hs)

Doação Sugerida: R$ 200
(R$ 100 – membros/cotistas das Sangas)

Local (a confirmar): Espaço Dojimnon – R. Portugal 733 – Bairro Higienópolis – Porto Alegre (como chegar)

Facilitadoras:
Miriam Cibreiros, psicóloga, mestre em Psicologia Social e da Personalidade, Membro Clínico Certificado da UNAT-Brasil (União Nacional de Analistas Transacionais) e da ALAT (Associação Latino-Americana de Análise Transacional). Formação em Síntese Transacional pela Universidade Holística Internacional de Brasília – Unipaz.

Monja Isshin, ordenada na tradição Soto Zen de Budismo e discípula do Saikawa Roshi, superior-geral da Escola Soto Zen na América do Sul, realizou o seu treinamento no mosteiro feminino de Nagoya, Japão durante 4 anos, com treinamento avançado nos Estados Unidos durante 1 ano (Zen Center de Los Angeles e Zen Mountain Monastery de Mt. Tremper, Nova Iorque). Treinou mais um ano em São Paulo como assistente da Monja Coen no Zendo Brasil antes de se mudar para Porto Alegre no final de 2006. É orientadora espiritual das Sangas Águas da Compaixão, Aikikai e Energia Harmoniosa em Porto Alegre e do Zendo Virtual na Internet.

domingo, setembro 13, 2009

Como os pássaros
deixam flores
aos pés
do caminhante



Não acredite em direções, não siga direções
Se lhe disserem vá por aqui ou por alí,
considere ir por lá ou acolá
Ou mesmo aceitando a direção
Lembre-se que o Espaço está intimamente
ligado ao Tempo, são inseparáveis,
originais desde sempre e até o fim, ainda que imutáveis

É só porque o meu norte é o seu sul
que nos encontramos, nada mais.

Pegadas na água são da melhor qualidade,
mesmo assim não convém segui-las
Direções são sempre convencionais,
de pouco servem a quem trilha o caminho do "original"
(que está além das condições)
Mas não confunda Original com original no senso mundano,
capitalista-neoliberal. Não confunda Original
com: "seu jeito de ser e de fazer"
nem confie em "o importante é ser você mesmo"
não confie no "custom", não confie na "personalização"
ou que "você tem direito" e ainda: "que você merece".
Tudo isso está longe ser Original no sentido do Zen, da Verdade
Tudo isso é consumível apenas,
toda essa "liberdade"
logo precisará ser descartada,
se está aí à venda é porquê são falsas direções.
Tenha certeza disso, e o problema não é o estar "à venda"
o carro, o cigarro, a pasta-de-dente, a conta no banco
e os livros, todos necessários
A questão é que direções são convencionais e ficam
fixas no tempo, na memória.
Também não confie na memória,
por melhor que ela seja não é bom segui-la.

A memória só é boa quando pode ser comparada
com o que acontece agora, quer dizer,
quando não pode ser,
e nos vemos sem direção.
Sim, isto é bom: Sem direção, sem aonde ir
- Não poderia ser mais livre

Vejo aquele Buda, não sigo aquele Buda
- Não poderia ser mais livre
Quem caminha a trilha do Original
sabe que toda direção nasce na hora
e no lugar onde estão seus pés.
Ainda que o corpo e a mente observem
muito atentamente na paisagem,
este ou aquele ser Desperto em movimento,
e com as mãos abertas receba seus passos.

Saiba também que a não-meditação, o Zazen
desconfunde a mente em direção... em que direção?

Experimenta

quarta-feira, setembro 09, 2009

Nirvana


"As imagens refletidas num pequeno lago soprado pelo vento são entrecortadas, fragmentárias e continuamente oscilantes. Mas se o vento parasse de soprar e a superfície ficasse imóvel - Nirvana: "além, ou fora (nir-) do vento (vana)" - poderíamos ver não imagens entrecortadas, mas o reflexo perfeito de todo o céu, das árvores em volta e, nas profundezas calmas do próprio lago, seu belo fundo arenosos e os peixes. Poderíamos então ver que todas as imagens entrecortadas, que antes percebíamos fugazmente, eram na verdade apenas fragmentos dessas formas fixas reais, agora vistas de modo nítido e estável. E poderíamos ter à nossa disposição, em consequência, tanto a possibilidade de imobilizar a superfície do lago para apreciar a forma fundamental, quanto a de deixar o vento soprar e a água encrespar-se, pelo simples prazer do jogo (lila) das transformações. Já não se tem medo quando uma vem e a outra vai: nem mesmo quando a Forma Original desaparece. Pois Aquela que é tudo permanece para sempre: transcendente - além de tudo; porém também imanente - presente em tudo."

Joseph Campbell em As Máscaras de Deus - Mitologia Oriental

quinta-feira, setembro 03, 2009

CASO 1-51
Gozu / Nansen


Certo dia um monge perguntou ao Mestre Nansen:
- Por que centenas de pássaros pegavam flores e levavam até Mestre Gozu quando ele ainda não tinha visto o Quarto Patriarca da China?
Mestre Nansen respondeu:
- Porque Mestre Gozu estava se movendo passo a passo no caminho dos budas.
O monge disse:
- Por que os pássaros não pegaram mais flores e levaram até ele após ele ter encontrado o Quarto Patriarca?
O Mestre respondeu:
- Apesar dos pássaros não terem vindo mais, Mestre Gozu se encontrava no mesmo nível de verdade que eu.

domingo, agosto 30, 2009

Imperdível



Em cartaz, último filme do cineasta dinamarquês, Enfant Terrible do cinema atual, Lars Von Trier. Um filme altamente simbólico, lida diretamente no campo do inconsciente revelando mitos como Eros e Thanatos, sexo e morte, bem e mal. Também uma Obra de Arte cinematográfica. O Filme contém cenas de sexo e violência fortes, não é aconselhável para pessoas muito sensíveis.

- Fala-se em lidar com o inconsciente e seus signos nos sonhos. Mas, não seria o inconsciente individual o mesmo que o chamado inconsciente coletivo? Como no budismo, onde não há porquê falar em carma individual. Não seria possível lidar diretamente, de forma individual, com este inconsciente (carmas)? No dia-a-dia, e de olhos bem abertos? Não é isto o que acaba acontecendo a quem pratica o Zen?

Assim percebe-se a sociedade humana hiper-simbólica e voltada para dentro, rodando em torno de si mesma, de seus próprios mitos. Assustada com a natureza, sua própria natureza.

sexta-feira, agosto 28, 2009

CASO 3-1
BODHIDHARMA / TAISO EKA


Bodhidharma, um pouco antes de sua morte reuniu seus discípulos e disse:
- Minha hora está chegando, gostaria que vocês expressassem o que aprenderam.
O discípulo Dofuku disse:
- Gostaria de expressar que não me tornei apegado às palavras, mas ao mesmo tempo não as ignoro. Eu pratico o estado de verdade.
O Mestre disse:
- Você pegou minha pele.
A monja Soji disse:
- O que compreendi se assemelha ao Mestre Ananda que olhou para o país do Buda Ashiku uma vez, mas nunca mais olhou para ele.
O Mestre disse:
- Você pegou minha carne.
Doiko disse:
- Os quatro elementos (terra, água, fogo e vento) são originalmente como se não fossem nada (isto é, vazio), e os cinco agregados (matéria, sensação, percepção, ação consciência) não têm existência real. Portanto meu ponto de vista não tem uma entidade fixa.
O Mestre disse:
- Você pegou meus ossos.
Finalmente, Mestre Taiso Eka parou em sua frente, fez uma prostração e permaneceu em seu lugar.
O Mestre disse:
- Você pegou minha medula.
Então o Mestre transmitiu o Dharma e deu os mantos ritualísticos à seus discípulos.

quarta-feira, agosto 26, 2009

Sesshin em Enkoji


Ocorrerá mais um retiro (Sesshin), do dia 5 (sexta-feira) ao dia 7 (segunda-feira) de Setembro de 2009, no templo Enkoji, em Itapecerica da Serra.

A programação envolve sessões de zazen, palestras, trabalhos manuais, refeições vegetarianas, exercícios ao ar livre e outras atividades, numa programação mais leve, voltada para as pessoas que não estão acostumadas à prática, porém envolvente e dinâmica.

Inscrições até 29 de agosto.

Mais informações pelo telefone (11) 4667-5345 ou pelo endereço: temploenkoji@gmail.com

domingo, agosto 23, 2009

O Zen e o Banho Natural




Em primeiro lugar, o que é um banho natural? O banho natural é aquele que acompanha as estações do ano e que está em total sincronia com o tempo atual, o tempo no momento em que o tomamos. Explico melhor. O banho natural é mais conhecido como banho frio, e que não é frio apenas, como veremos, ou seja, Banho Natural é quando desligamos a resistência do chuveiro, simplesmente. Esta é uma prática Zen, por vários motivos, veja só a seguir.

O Banho Natural, segundo pesquisa rápida na internet: "promove o bem-estar 'exigindo' do organismo uma formidável reação. Isso acontece porque o choque de temperatura produz endorfinas, vaso constrição, ativa o metabolismo e o funcionamento de todos os órgãos. Privilegia o cérebro (e não só como veremos) deixa o corpo mais acordado e lúcido, pronto para a ação." * A endorfina é um neuro-hormônio que, quando liberado no organismo provoca a sensação de bem-estar tendo também a qualidade sedativa, é produzido pelo próprio organismo, pela hipófise. Segundo pesquisas seus principais efeitos são: melhoria da memória, bom-humor, resistência, aumento da disposição física e mental, melhoria do sistema imunológico, bloqueio de lesões em vasos sanguíneos e tem ainda efeito anti-envelhecimento, removendo os famosos radicais livres. Isso quer dizer que podemos curar a nós mesmos através de nós mesmos, com um simples estímulo. Como no Zazen, tudo o que precisamos já está aqui, desde sempre, requer apenas uma ação decidida na direção correta. Bem, no caso, o Banho Natural é bem mais "fácil", digamos, que o Zazen, quer dizer, basta abrir a torneira do chuveiro desligado e dar um pequeno passo em sua direção, só. Um pequeno gesto que para muitos parecerá ser o resultado de quilômetros de coragem e disposição, que eles imaginam jamais possuírem.

Veja, o banho morno ou quente tem suas propriedades também, são sobretudo relaxantes, tonificantes e ajudam a eliminar toxinas do organismo mas aqui entra uma característica do Banho Natural, ou Banho Zen, que é o sincronismo com a natureza. Quando a água não passa pela resistência elétrica do chuveiro, ela é aquecida ou resfriada pelo universo, aqui representado pelo nosso singular planeta, que se manifesta em marés, ventos, correntes e outras belas e fortes entidades do tipo, que por sua vez correspondem a uma ordem muito mais ampla. Se estamos no inverno a água fica mesmo gelada, parece queimar a pele às vezes, se a temperatura ambiente está mais amena a água fica apenas fria, se estamos no auge do verão, a água do chuveiro desligado pode ficar tépida. Tudo isso sentimos e constatamos com toda a extensão do nosso corpo, nervos, poros, pelos, pele, entre outras entidades vizinhas conectadas em rede, por onde passamos e tomamos existência e, consciência. Assim, o Banho Zen é harmonizar o corpo, que não exclui a mente, com todo o universo. Se está muito frio, como agora (10ºc), a água fica geladíssima, e aí parece uma contradição, "justo agora que está tão frio tomaremos uma banho gelado?" Pois é, estamos falando de sincronia, de harmonia e de, um pouco de coragem e atitude, pois sem isso não se caminha.

Quando a água está gelada num dia gélido, saímos do banho com o corpo aquecido, quer dizer, a temperatura do corpo fica ligeiramente inferior à do ar e por instantes não sentimos frio nenhum. Se esta ação se transforma em nosso cotidiano, aos poucos o corpo vai sentindo menos frio e menos necessidade de agasalhos, vai ficando mais resistente às doenças por estar mais próximo da natureza e do mundo como ele é. Se é um dia quente de verão, a água fria refresca, fazendo o mesmo efeito no corpo.

Os Haikais, forma de poesia Zen, usam apenas temas ligados às estações do ano, de forma sintética, descritiva e simples. O Banho Natural, possui a mesma poética, digamos, a poética do momento presente, porquê ao entrar debaixo da ducha natural não sobra espaço para nenhum tipo de pensamento, é quase impossível pensar em o que quer que seja, só existe aquele momento, aquele instante. Somos UM com todo o universo que se manifesta agora no giro do planeta em torno de si e em torno de uma estrela, e tudo isso está naquele banho.

Ao tomar o Banho Zen, é preciso lembrar de alguns detalhes importantes, é preciso deixar a água fria bater em todo o corpo mas, sobretudo, em três pontos cardeais, a saber: a cabeça, o baixo ventre (o centro do corpo, porção irrigadíssima que corresponde a um Chakra e ponto pelo qual se respira durante o zazen - fica a quatro dedos abaixo do umbigo) e, finalmente, toda a extensão da coluna vertebral que, como continuação do cérebro comunica com todo o corpo, esta mesma coluna que durante o zazen mantemos erguida e equilibrada.

Diferente do banho quente que relaxa e prepara o sono, o Banho Natural Desperta, acorda, nos torna alertas, e é disso que nós budistas somos feitos, dessa matéria que desperta incessantemente, esta é a nossa religião.

* Pessoas com problemas cardíacos precisam se aconselhar com um médico.

sábado, agosto 22, 2009

CASO 2-74
ANANDA / MAHAKASYAPA



Certo dia Buda Gautama instruía o Mestre Ananda e disse:
- Daqui a pouco é hora da refeição. Você deve ir até a cidade e encher a tigela.
Mestre Ananda concordou com o Buda Gautama.
Buda Gautama disse:
- Quando estiver com a tigela você deve contar com o comportamento dos Sete Budas do passado.
Mestre Ananda perguntou:
- Qual é o comportamento dos Sete Budas do passado?
Buda Gautama gritou:
- Ananda!
Ananda respondeu:
- Sim?
Buda Gautama disse:
- Pegue a tigela imediatamente.

sexta-feira, agosto 21, 2009



"O que eu sou hoje (e a casa dos que me amarram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É eu estar sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio..."

Álvaro de Campos, ou, Fernando Pessoa

...

"Onde, agora? Quando, agora? Quem, agora?

Samuel Beckett

sexta-feira, agosto 14, 2009

CASO 2-70
ANANDA / BUDA
O Bom Cavalo

Certo dia um não budista falou para o Buda: não estou pedindo palavras, não estou pedindo por não palavras. Buda Gautama apenas continuou sentado. O não budista o elogiou dizendo: A grande benevolência e a grande compaixão do Buda Gautama abriram as nuvens da ignorância e me possibilitaram conhecer a verdade. Então se prostrou diante do Buda e saiu.

Em seguida Mestre Ananda perguntou ao Buda: Que tipo de verdade o não budista realizou quando te elogiou?

Buda Gautama disse: É como o bom cavalo que apenas ao ver a sombra do chicote já sai correndo.

Comentário ao Koan
CASO 2-69
ANANDA / MAHAKASYAPA

Mestre Ananda perguntou o que tinha sido transmitido pelo Buda Gautama que tivesse sido diferente do manto dourado do Buda. Mestre Mahakasyapa simplesmente chamou Ananda que deve ter respondido, “sim.” O chamado do Mestre Mahakasyapa e a resposta da Ananda fazem parte de uma conversa típica da vida diária dos seres humanos.

A intenção do Mestre Mahakasyapa foi de mostrar que aquilo que recebeu do Mestre Gautama foi exatamente o comportamento natural da vida do dia a dia. Para enfatizar isto mais profundamente, Mestre Mahakasyapa pediu ao Mestre Ananda que descesse a bandeira do mastro da frente do templo, talvez um trabalho que estivesse sendo esperado para ser feito.

...

Koan publicado em postagem logo abaixo.

quarta-feira, agosto 12, 2009

Zazen no hospital


Sala de meditação do Hospital do Servidor Público Municipal

Sessões de Zazen 2ªs, das 7:00 às 9:00,
e 3ªs das 7:00 às 10:00.

O hospital fica na estação Vergueiro do Metrô
e a sala de meditação é no 9º andar.

A prática é aberta ao público em geral.

sexta-feira, agosto 07, 2009

CASO 2-69
ANANDA / MAHAKASYAPA
Descendo a Bandeira



O Segundo Patriarca, Mestre Ananda, perguntou ao Mestre Mahakasyapa:
- Respeitoso irmão estudante, que tipo de coisas concretas você recebeu que seja diferente do manto de ouro de Gautama Buda?
Mestre Mahakasyapa chamou-o e disse:
- Ananda. - Ananda olhou para ele.
Mestre Mahakasyapa disse:
- Por favor, desça a bandeira do mastro da frente do templo.
...

Koan

segunda-feira, agosto 03, 2009

Atenção-plena



Repara na quantidade de braços e faces. Veja os detalhes: as mãos, objetos, olhar, corpo. Assim viu o artista a compaixão (dentro da concepção budista). Como numa imagem congelada de cinema, o Avatar olha nas 10 direções e com milhares de braços ajuda a todos os seres.

Clique na imagem para ampliar

Como seria a ação de uma mente não-condicionada, ou muito menos condicionada? A que exatamente se prende (?) a atenção de um Bodhisattva? Como ele lida com os acontecimentos do dia-a-dia?

Lembre-se que isto é apenas uma representação, uma interpretação de algo que não possui forma, ou que está além da forma, mas que mesmo assim é extremamente acessível.

quinta-feira, julho 30, 2009

Agende-se

Veja as datas dos próximos Sesshins (retiro zen) no Templo Busshinji

Sesshin da Primavera
16, 17, 18, 19 nov 2009
Colaboração: R$ 150,00


Sesshin da Iluminação
13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20 dez 2009
Colaboração: R$ 200,00


Inscrições no local ou por telefone.

O retiro será coordenado pela equipe de monges do Templo Busshinji, tendo como responsável o Mestre Saikawa Roshi.

O Templo Busshinji fica na Rua São Joaquim, 285. Bairro da Liberdade, São Paulo - SP. Tels: (0xx11) 3208-4345/4515



Saikawa Roshi e discípulos no Sesshin de Inverno 2009

terça-feira, julho 28, 2009



Mundo, tão pequeno mundo...


Aquele que não é livre, enxerga um mundo restrito, acredita num mundo medíocre, utiliza uma linguagem que quer confirmar a não-liberdade e faz isso a todo tempo porquê precisa provar para si mesmo a existência deste mundo fictício que cria para si. Transforma suas relações com objetos e outras pessoas neste sistema fechado, quer convencer os outros de suas idéias, fica muito chateado se tiram seu chão e, sobretudo, fica embasbacado e sem ação quando vê um outro, livre, e sofre, sofre muito quando percebe sob seu nariz a liberdade "caótica" subjacente à própria existência.

Aquele que vive o sentimento de culpa, alimenta o sentimento de culpa como se fosse um peixe num aquário, precisa confirmar este sentimento de quando em quando para que ele não desapareça, ele pede confirmação para os outros, e inclui os outros nele, e acredita que obtém um certo alívio quando percebe que outros também têm essa mesma coisa, chegam a ficar felizes até, de uma alegria fosca e volátil feita de cumplicidade triste. Levam a vida assim, no dia de ontem.

Aquele que é negativo vê um mundo azul, azul chumbo. Tudo traz no fundo a semente do mal ou da tragédia engendrada, tudo é colocado numa moldura de horror, e todo cuidado é pouco. Seu mundo esta a beira do colapso a todo o tempo e se os outros não vêem o mesmo, então talvez todas as suas crenças, e sua vida por conseqüência, possam estar envenenadas ou com mal-agouro, encosto. Ele inclui os outros em seu mundo sombrio, não raro ele se torna a vítima.

A vítima precisa do algoz, então transforma o mundo à sua volta na causa dos seus problemas. E qualquer coisa pode ser a causa, o amigo, o inimigo, o tempo frio demais, a falta de tempo, a caixa de fósforos úmida, o pólen, qualquer coisa serve para alimentar e justificar sua existência tão sofrida. A vítima precisa de outros para existir assim tão frágil e desprotegida, vivendo em seu mundinho estreito.

Aquele que é estressado agita e enerva o que está a sua volta sempre que possível, assim seu frágil mundo ganha algum sentido e ele respira aliviado, ainda que mais estressado, mas isso não importa, importa dar sentido ao seu estado de nervos.

Aquele que é simpático traz um belo e convincente sorriso no rosto, adora sorrir para os outros, acredita levar a alegria a todo lugar. Fica preocupado porque o mundo já não sorri tanto ou porque alguém não correspondeu ao seu sorriso. Não entende porque há tanta gente mal-humorada no mundo. Muitas vezes não se importa se o mundo não corresponde sua expectativa, mas gostaria que as pessoas fossem mais felizes, como ele.

Aquele que é bom, está sempre fazendo o melhor possível, procura sempre fazer o bem para os outros, alguns, até em detrimento de si mesmo. Assim ele espera o reconhecimento de sua bondade através dos atos bons dos outros também. Fica inconsolável quando alguém corresponde sua bondade com indiferença, malícia ou maldade. Gostaria de ser reconhecido e adorado por todos por suas boas ações. Assim ele precisa de outros atores comprometidos na sua nobre causa para existir com alegria neste mundo.

O humilde abaixa a cabeça nas situações adequadas para que continue a ser humilde no momento oportuno, assim ele reconhece sua posição limitada diante das circunstâncias. Ele vê "os de cima" em cima e se vê embaixo, porque "os de baixo" estão abaixo. A humildade é a sua bandeira, sua guerra é manter as coisas separadas, os suntuosos e arrogantes confirmam sua posição no tabuleiro e assim ele, humildemente, sabe o seu lugar.

O trabalhador acorda cedinho para a labuta, todos os dias (domingo não), e sabe: "Deus ajuda quem cedo madruga." Oferece assim convicto as melhores horas do seu dia ao trabalho, não importa muito qual, desde que o dia se consuma e no final haja a féria. Desvaloriza aqueles que não acordam tão cedo ou não trabalham tanto assim. Sente-se forte contrapondo sua posição com a dos que trabalham menos e, sempre que a vida se torna um peso, lembra que é um trabalhador exemplar, que quase não tem tempo para outras coisas na vida além do trabalho, e mesmo assim não fez nada de mal, pelo contrário, e isto o alivia, ainda que não remova o tal peso. Dessa maneira o trabalhador molda o seu mundo e ocupa o seu lugar.

Esses são eu.

....

Poderia ainda descrever dez mil parágrafos como estes falando do vaidoso, do louco, do desajustado, do habilidoso, do genioso, do general, do médico, do goleiro, do amador, do caridoso, genial, humorista, idiota, servente, presidente, executivo, vendedor, lixeiro, amoroso, extrovertido, forte, fraco, compenetrado, disperso, etc, etc, etc... Cada qual com o seu mundo, cada qual defendendo seu pequeno lote cercado, sua pequena parcela, seu pequeno quinhão de vida. Que criaram para ele, que ele acredita, cria e mantém. Vivendo na água turva e viciada do aquário, com a água que há tempos retiraram do fluxo incessante de um grande rio sem começo nem fim. Vão viver assim, acreditando num início e num fim que só se enxerga nos limites do aquário. Todos têm em comum a concepção epidérmica extremamente dualista que se define delineando bordas a todo instante entre o seu e os deles, entre o si e o outro. Todos criam e sustentam uma linguagem que mantém seu mundo intacto como uma rocha ou um castelo de cartas. Essa linguagem precisa da confirmação de outros, senão desaparece, perde o sentido. Essa linguagem, que se expressa na fala, nos gestos e nas ações, precisa ver-se refletida nos outros para perpetrar. Então criam associações para se confirmarem mutuamente, aí ganham muito mais força. E fazem algo muito, muito perigoso. Que é incluir os outros em pequenos jogos de ego, ínfimos jogos de malícia e mesquinhez que servem ainda para dar força e aparente coerência aos seus pequenos mundinhos de águas seletas. E aqueles que entram nos jogos de outros, ainda acreditam estarem fazendo os seus próprios jogos e aí não se sabe mais quem começou, não se sabe onde vai terminar, "onde acaba este sofrimento". Fazem isso de boa vontade, quase sempre, fazem porque é assim que acreditam na vida, de outra forma não sabem, não sabem viver. De outra forma encarariam um vazio tremendo, um vazio pavoroso, um vazio de trincar o dentes e ouvir os urros das bestas mais medonhas, de ouvir ecos de gerações e gerações atormentadas por todos os tipos de misérias, como as suas.

Aquele que participa destes mundos, que percebe estes mundos por todos os sentidos do corpo e da mente, aquele que freqüenta estes mundos sem discriminar, sem escolher, sem pegar e sem se apegar é chamado de Bodhisattva, ou "apto ao despertar". Aquele que encara o vazio com tranqüilidade, não vê mais a si, sabe que o vazio é um fluxo incessante sem si próprio, sem princípio, sem fim. Ele não tem medo, porque o mundo dos medos é apenas mais um e, diferente do fluxo incessante que é a existência, em total sincronia com o universo, o medo tem começo e tem fim, começa e termina neste exato momento.

Contudo, mesmo os que acreditam terem fixado seja o que for, seja qual mundo for nesta existência, estes ainda fazem parte do grande fluxo sem nome e sem mundos, que a tudo e a todos banha sem discriminação, sem escolher e sem se apegar. Que banha e conduz as marés e os oceanos verde-azulados, as aves migratórias, o céu inacreditável de tantas estrelas cintilantes, os ventos, os verões e invernos, as rãs, o cheiro de pedra molhada na beira do rio e o sol, entre tantos, tantos seres iluminados.