segunda-feira, abril 24, 2006

Hanamatsuri III

Prendendo o gato

Assim ouvi esta história. Num certo mosteiro no Oriente, quando da sessão de zazen um gato apareceu e incomodava os praticantes. Resolveram então amarrar o gato. Toda vez que haviam de fazer zazen, amarrava-se o animal. Muito tempo se passou. Não eram mais os mesmos monges. E até o gato não era o mesmo. Mas continuaram amarrando o animal toda vez que os monges iniciavam o zazen. Tornou-se então uma tradição daquele mosteiro amarrar o gato quando havia zazen. Não se sabia nem mesmo o motivo de se amarrar o gato. Passaram a acreditar que amarrar o gato era um costume que devia ser respeitado naquela casa. Virou uma obsessão, um dogma esta maneira de se comportar. Era uma regra totalmente distanciada da verdadeira razão desta prática: o gato miava durante o zazen, apenas isso!

quinta-feira, abril 20, 2006

O som de prajna

Em diversas ocasiões, após o zazen, nas cerimônias matinais e memoriais, nas cerimônias de sábado, em nossas casas, entoamos o sutra Makka Hannya Haramita Shingyo.
Qual o propósito de entoar sutras? – alguém pode perguntar. Não seria suficiente sentar em zazen?

Tendo Nyojo, mestre de Dogen, certa vez disse:

“O corpo todo é a boca, suspensa no ar (o vazio).
Não importa de que direção o vento sopre
– norte, sul, leste, oeste –
O sino de vento sempre produzirá o som de prajna
– rin, rin, rin."

Shakiamuni afirmava: “O prajnaparamita não pode ser investigado ou analisado pelo intelecto.”

O silêncio do zazen é o som de prajna. As sílabas de Hannya Shingyo são igualmente o som de prajna.

Da mesma forma deve ser em nossa vida diária.

terça-feira, abril 18, 2006

Mente em atenção

Fazemos zazen para treinar a mente, em mantê-la em estado de atenção. Quando se fala em mente pura, também se refere à atenção. Tendo a atenção, nenhuma atitude racional se torna necessária. Não se pensa, apenas fazemos aquilo que a nossa intuição manda. Como naqueles filmes antigos de bang bang: cidade do velho oeste varrida pela ventania, levantando redemoinhos pelas ruas; de repente surge solitário um pistoleiro com o colt 45 pendendo pelo cinturão do lado direito; do outro lado da calçada um outro pistoleiro, com arma semelhante; uns vinte metros separam um do outro, vão se aproximando, de repente param; um tiro certeiro liquidará o outro, ou seja quem for mais rápido no saque. Esta imagem foi clássica nos western spagetti, da década de 60, começo de 70. Aqueles contendores nada pensavam. Nem piscavam. Um mínino pestanejar, uma hesitação qualquer, colocaria a própria vida em perigo. Para sacar rápido não dependia apenas de técnica mas de total absorção naquilo que estava ocorrendo. Mente em atenção. Durante o zazen, muitas são as vezes que deixamos a hesitação pairar em nossa mente. Neste momento, somos derrotados com tiro certeiro pelo bandido Maya. Morremos neste instante por falha nossa, derrotados pela ilusão. Aos sábados realizamos o treino de nossa atenção durante a cerimônia após o zazen. Erramos muitas vezes. Somos derrotados por nossa falta de atenção. Um único erro nesta cerimônia pode criar desarmonia e todos erram. Mais do que no duelo entre os titãs do colt 45, que apenas um morre, aquele que se atrasa em sacar a arma, na cerimônia mencionada um atraso que seja, um adiantamento que seja, quase trinta praticantes sofrem a conseqüência daquele erro e morrem. Esta é a lei do karma. Toda ação tem por conseqüência uma reação imediata ou não, nesta vida ou na outra, no presente, no passado e no futuro. Toda nossa desatenção provoca desastres, não somente contra nós próprios mas estende-se a todo o resto. Nesta semana uma notícia causou-me uma sensação de impotência e loucura não justificável. Foi o caso do pai que esqueceu-se do filho pequeno no carro, causando a sua morte. Foi por pura desatenção. Mas procurou-se justificar. Diariamente, seguindo uma rotina o pai deixava primeiro a filha maior na escola, depois a menor na creche e depois a esposa no metrô. Só então, dirigia-se ao serviço. Bastou mudar o roteiro, num trecho apenas para sua mente continuar ainda condicionada a um roteiro pré-determinado. Este é o perigo. Uma mente condicionada. Uma mente que não vê além dos limites estabelecidos para a sua atuação. Mente pequena esta. Ainda que os afazeres diários sejam muitos não se justifica o apego a uma mente automática, que se desumaniza, tal qual engrenagem que não responde a estímulos emocionais e criativos. Quando a mente é pequena, todos os desastres são justificáveis. Não a mente de um praticante do Dharma. Não este.

quinta-feira, abril 13, 2006

Prática

penetra as nuvens
a lua cheia de outono
assim é o Dharma

O manto de Buda

Quando me encontrava no Mosteiro Shogoji, no distrito de Kikuchi, visitou-nos o monge Hokan. Numa de suas explanações, falou sobre o manto de Buda. Justamente naquele local, conhecido também por Portal do Dragão, por causa da imensa represa existente nas cercanias. Disse que o Fênix só com o agitar de suas asas fazia secar todos os rios, deixando expostos os dragões que viviam no fundo. Desprotegidos, os dragões sofriam nas garras do Fênix que após estrangulá-los serviam-se deles de alimento. Preocupado com o extermínio dos de sua raça, o rei dos dragões pediu a Buda que impedisse que o Fênix continuasse agindo daquela forma. Então Buda ensinou: "Cubra-se com o manto da sabedoria, o kessá, e assim nenhum animal lhe causará danos". Mas a quantidade de dragões era maior do que um kessá pudesse abrigar em seu diâmetro. "Somente alguns poderão se salvar", lamentou-se o rei. Ao que o Buda encorajou-o. "Apenas um pequeno pedaço do kessá, uma linha apenas será suficiente para dar proteção a quem o usar".
Este é o poder místico do kessá, o manto de Buda, que em sua forma minimalista é o rakusu. Nada é mais poderoso que os méritos presentes nele, fonte de sabedoria, de libertação, de toda compaixão por todos os seres. Este é o manto de Buda, usado em sua prática pelos Budas da prática, que recitam "Oh Grande Manto da libertação/ Sem forma e com todos os méritos/ Visto-me dos ensinamentos do Tathagata/ A fim de salvar todos os seres vivos".

Hanamatsuri II

Seguem o elefante
Felizes por mais um ano
Manhã outonal

...

segunda-feira, abril 10, 2006

Contemplação da Lua

Todos estão convidados. Nesta quarta feira, 13 de abril, é a primeira noite de lua cheia de outono. Para comemorar este fato, após o zazen realizaremos uma sessão de contemplação da lua e a composição de haicais. O evento é uma realização do Templo Busshinji e o Grêmio Haicai Ipê. Para aqueles que quiserem adiantar, vão olhando para o céu e aproveitem para compor os seus poemas. Na ocasião, três poemas haicais serão apreciados pelos poetas convidados, que também terão seus poemas apreciados. Todos compõem e todos apreciam os poemas de todos. Vota-se no poema de sua preferência, que lógico, não pode ser de sua produção. Muitos haicaístas estarão presentes. Prestigiem este acontecimento.

A voz de Buda

Outro dia uma praticante do Dharma dirigiu-se a mim e pediu-se que falasse a respeito dos ensinamentos budistas. Quer dizer, sobre o Dharma. Na verdade, ela queria ouvir sobre os preceitos, a maneira correta de se viver, a compaixão etc. Lembro-me que certa vez, uma praticante que iniciava a sua prática na década de 60 inquiriu o então Superior Ryohan Shingu: "fale-me sobre o budismo". Foi quando Ryohan fez um longo comentário da maneira como uma pessoa deitava-se e obtinha um sono tranqüilo. Falou sobre o tipo de travesseiro, a altura, sua consistência. Em suma, Ryohan discorreu a respeito do Dharma. Falou sobre a qualidade de vida. Num outro exemplo, podemos ouvir Buda fazendo as suas pregações através das folhas do pinheiro. Folhas? Não, não são folhas. São espinhos verdejantes. Quando o vento bate nestas folhas, é a voz de Buda que ouvimos. Somente o praticante rigoroso é capaz de ouví-la. Os praticantes neófitos ainda não aprenderam a ouvir a voz de Buda, necessitam de discursos e mais oratórias que logo acabam esquecendo. Apreender o budismo através da verbalização oral direta é menos importante do que penetrar nas ondas do Dharma fluindo nas asas das aves de arribação. Esta ave dirige-se para o sul quando o frio chega no norte, voa em direção ao norte quando o inverno grassa no sul. Ela nunca questionou a respeito.
Acima de tudo, praticar o budismo é treinar a nossa mente: quebrar os conceitos e despertar a intuição. Vivendo com a mente alerta, somente assim, podemos perceber a pregação de Buda nos mais diversos lugares. Talvez Buda esteja no altar, em nosso banheiro, na cozinha, nas ruas e nas prisões. Ouvi dizer que o poeta Matsuo Basho teria feito as três reverências (sampai) para um mendigo. "Bem, aquele é um Buda", disse. Não se trata em se tornar excêntrico em nosso comportamento, mas alerta. Vejo por experiência no Templo Busshinji muitos que recebem a ordenação, mas poucos entenderam o significado. O mestre do Zen Center de São Francisco Shunryu Suzuki disse que todo leigo ordenado deve-se empenhar como fosse monge. Na prática não existe diferença entre monge e leigo. A prática é o Caminho. Mas me sinto feliz quando entre dez ordenados pelo menos um assume o compromisso da prática, empenhando-se com disciplina. Às vezes, eu me engano, é o menos indicado. Muitas vezes, daqueles que espero muito, da maneira como demonstram o entusiasmo, são os primeiros a amolecerem e deixarem se levar pela correnteza da ilusão. Não importa. Não podemos julgar a prática de ninguém, pois o grau de entendimento de cada um é diferente.
No texto Sushogi, de Dogen Zenji, ele diz que é difícil nascer como humano. Mais difícil é encontrar o Dharma. E que, aqueles que encontraram o Dharma, souberam a respeito da verdade e deixam de praticá-lo, o karma é pior do que aqueles que não o conheceram. Bem, Budismo não é uma brincadeira, um clube de encontro, uma torcidade futebol. Conhecer o Dharma é compromisso, devendo honrá-lo ao cumprir as obrigações a respeito.
No Templo Busshinji, todos os sábados temos atividades que os praticantes leigos são convidados a participar. Único dia que os praticantes dirigem todo o desenrolar de uma cerimônia é no sábado. Alunos antigos são os responsáveis pelos instrumentos. Não se trata de nenhuma atividade lúdica. O erro no manuseio dos instrumentos causa desarmonia. Como numa orquestra, cada um é responsável pelo seu instrumento. Quando existe o entendimento, a cerimônia é alcançada com êxito. Das atividades do sábado, alguns praticantes tomam a iniciativa pelo bom andamento. Este é um sinal de entendimento. Entretanto, outros, menos entendidos ou descompromissados, apesar de terem assumido uma destas tarefas não comparecem. Cria-se a desarmonia. Infelizmente nada entenderam. Não se esforçam por entender. Ainda não ouviram Buda falar através da harmonia produzida na cerimônia. É lamentável. Mesmo assim, estes não merecem a nossa crítica, pois também é uma prática. Quanto a isso, quem dá o formato da prática é o próprio praticante.

sexta-feira, abril 07, 2006

Idolatria nunca mais

Quando Buda estava para morrer, reuniu os seus discípulos que avisou a respeito do inevitável: "Não tenho muito tempo de vida". Foi quando Ananda, o dileto de Buda, não se conteve e explodiu num choro compulsivo. "Que foi Ananda?" - perguntou o mestre. "O senhor disse que irá partir, por isso choro" - balbuciou. Com serenidade no rosto mas energia nas palavras cobrou: "O que foi que te ensinei toda a minha vida. Você, Ananda, ainda não entendeu nada!". A morte é uma das quatro nobres verdades: o nascimento, a velhice, a doença e a morte. Ninguém consegue escapar deste ciclo, como a correnteza de um rio dirigindo-se para o mar. Esta é a lei do Dharma. É preciso entender o Dharma e viver conforme ele para despertar a compaixão e a sabedoria. Entretanto, muitos são como Ananda, pobres sonhadores e uma mente amarrada.
Certa ocasião li numa nota de turismo: "Convidamos você a ir meditar ao lado de um lama nos Andes, nas ruínas de Cuzco". Que valor teria isso, pensei. Será que estar na companhia de um ser ilustre, um mestre da iluminação, seria o suficiente para eu obter um pouco de sua sabedoria. Nada disso é importante. No Sutra do Diamante está escrito que uma vez na outra margem do rio temos que abandonar o barco. Uma vez que a travessia se processou, não se pode caminhar com o barco nas costas. Se numa sessão de zazen o Buda surgir, ensina os textos antigos, mate-o. Claro não temos que matar os nossos mestres, sejam os de ordenação, sejam os trainning teacher. Respeitamo-os sem idolatrá-los. Assim um verdadeiro mestre desejaria de um verdadeiro discípulo do Dharma. Sem idolatria avançamos em nosso Caminho. Toda superstição destruímos. Toda ignorância exterminamos. Todas as estátuas lançamo-as na fogueira, como fez o monge solitário da província de Niigata. Era inverno rigoroso. Sozinho em sua cabana, apenas tinha a companhia da velha imagem do Buda em profundo estado absorto de zazen. Não teve dúvidas. Retirou a imagem do altar e levou-a consigo para uma claridade. Juntou as folhas secas à imagem de Buda. Em seguida ateou fogo. "Salve-se a bunda, dane-se o buda", conclui-se a narrativa. Nada mais herético para os ortodoxos e adoradores de imagem, de mestres, de gnomos de jardim e governantes honestos. Um praticante do Caminho é um cético, que em sua desconfiança não se equivale a um buda de madeira penetrando no fogo, num buda de barro caminhando na água, enfim num buda com pés de lama. Ao ser atormentado pelo malicioso Mara, Sidharta apontou com a mão direita a terra. "A terra é o meu testemunho", disse e Mara se retirou. Acima da terra existe a ilusão, mas com os pés no chão...
Alguns que se dizem mestres, com discípulos que se comportam como se os fossem, criam um terrível karma de dependência. Estes discípulos idolatram os seus mestres, criando mais ilusão. Atitude equivocada, passível de crítica. Certa vez ouvi de uma praticante: "Eu gosto tanto de minha mestre, que não vivo mais sem ela". Senti uma enorme tristeza e frustração. Expliquei: "Isso é errado". Mas ela continou argumentando " tenho muito apego por ela". Mas não seria a prática do budismo o rompimento de toda ilusão? Não acredito que um verdadeiro mestre deseje que o seu discípulo se torne um cordeirinho dócil seguindo o seu pastor. Talvez alguns sim, mas não são tão verdadeiros assim.
Quando estava no Japão treinando no Mosteiro Shogogi questionei a respeito: "O que desejaria um mestre de seu discípulo". Antes, temos que considerar que existem muitos discípulos, mas aquele que deverá receber o selo do Dharma (HO) deverá superá-lo. Um mestre digno espera que o seu discípulo não se torne um ser dócil, sempre abaixo dele, carregando as suas malas, seu manto e andando atrás. Se isso ocorresse, não teria mais sentido praticar o budismo. Viveríamos momentos de decadência, de mestre para discípulo e cada vez mais mestres menos preparados. Seria o período do mal Dharma.

quinta-feira, abril 06, 2006

A generosidade da Mãe Natureza

O arroz e os outros vegetais têm vida
os peixes e os outros animais têm vida
e é graças às suas vidas que podemos viver.
Recebamos a comida com gratidão pelas suas preciosas vidas,
sempre dizendo: "com gratidão, recebo esta dádiva de alimento"
e "agradeço por esta maravilhosa comida".

(Eihei Dogen)
pensar
é preciso saber
não pensar

terça-feira, abril 04, 2006

A dor que sente o animal

Uma nova tribo que consome unicamente alimento vegetal surgiu em nosso mundo pós-moderno. Alguns optaram por uma questão de saúde. Outros, não apenas saúde mas também moral. Baseiam-se estes de que os animais sacrificados para a alimentação humana é um procedimento desumano. Quer dizer, estes animais sofrem uma violência em sua formação, como confinamento e alimentação forçada, sem contar os métodos cruéis para sacrificá-lo. Não é por acaso que o mundo se voltou contra a matança de baleias. As mais criativas formas de sacrifícios são mostradas pelos grupos de defesa dos animais: asfixia, choque, golpes de marreta, sangramento e outros. Claro, são realmente cruéis, capaz de sensibilizar qualquer ser humano. E, baseados neste argumento, param de consumir carne, visando diminuir a matança. Todos estes motivos são válidos. Mas, pensando de maneira crítica, não somente os animais sacrificados são passíveis de sentir dor. Talvez as plantas igualmente possam sentir algum tipo de "dor", que a sensibilidade humana não conseguiu identificar. Algumas pesquisas comprovam este fato: Cleve Bakster descobriu em 1966 que as plantas tinham sentimento após serem ligadas no galvanômetro. Dizia que as plantas tinham memória, sentiam amor, raiva, medo, ódio e alegria. Mas a comprovação científica não serve de justificativa para alterar o meu comportamento moral. De fato, se a moral existe, quer dizer a responsabilidade moral enquanto princípio norteador da vida e não uma abstração carregada de culpa, não existe diferença entre sacrificar os animais para a alimentação, da mesma forma que os vegetais. Visto a partir do entendimento compassivo do budismo, todos os seres vivos, sem distinção merecem respeito: vegetais ou animais. Em se tratando de animais, não se pode também consumir mel. Pois, para a retirada do mel uma quantidade grande de abelhas são mortas. Dizer que aceitar a morte das abelhas e não das baleias é uma falsidade. Para a natureza, as abelhas são tão valiosas quanto as baleias. Por outro lado, dizer que os animais de sangue quente sofrem mais do que os de sangue frio, do que os insetos, é contrariar a própria moral. Não está certo. Se o argumento de não se aceitar a morte dos animais, para a alimentação, for plausível, igualmente todos os outros seres vivos também devem ser poupados.
Desde que existe a história do mundo, o homem não desapareceu da face da terra pois se alimentou, inclusive dos animais. Em brutal luta contra a natureza, conseguiu sobreviver. Se os esquimós não se alimentassem com gordura animal estariam extintos. E nem se poderia falar de budismo tibetano, pois não existiria mais tibetanos, que são povos nômades criadores de gado.
Não se trata da fazer a apologia dos comedores compulsivos de carne, justificando o seu consumo. Podemos diminuir o consumo de carne, por uma questão muito mais de saúde do que moral. Imoral na verdade é a fome que grassa os países pobres da África, da América Central, do Sul, cujos povos famintos preocupam-se menos com questões metafísicas do que a própria sobrevivência. Nos parece que a justificativa de não se consumir carne não se aplica a condições específicas de nossa história. No caso, a subnutrição.

segunda-feira, abril 03, 2006

Aniversário de Buda

Pelas ruas do Bairro da Liberdade um cortejo em que vai um elefante branco puxado por crianças vestidas a maneira do Nepal anuncia a boa nova: nascimento de Buda. Nos últimos 40 anos esta festa acontece de maneira ininterrupta. Tendo por patrocinadora a Federação das Escolas Budistas do Brasil, o Hana Matsuri, ou seja a Festa das Flores, tem vez no mesmo local no primeiro sábado de abril. Conforme a lenda, o nascimento de Sidharta foi no oitavo dia do quarto mês, conforme o calendário lunar. No ocidente esta data foi adaptada para acontecer conforme o calendário solar. Dizem os antigos cronistas que Buda nasceu no Jardim Lumbini. Naquele instante uma chuva de néctar caiu sobre o nascituro, que andou oito passos e apontou com a mão direita para cima e a mão esquerda para baixo e anunciou: "entre o céu e a terra sou um ser único". Esta representação está presente na imagem que os fiéis costumam banhá-la com chá adocicado. Usando uma concha para isso, derramam sobre a cabeça da imagem por três vezes. Os populares fazem pedidos naquele momento, mas, para os praticantes do dharma, o gesto simbólico ganha outros sentidos: banhar o Buda é o mesmo que banhar a sí próprio. Assim, pode-se limpar a mente dos karmas negativos, da ignorância, dos caprichos... Como o já posto, é um ato simbólico. Comemorar o nascimento de Buda não é apenas lembrar do Buda Histórico, mais do que isso. Neste momento imensuráveis seres estão sendo concebidos, através dos ventres, dos ovos, das fecundações vegetais etc. Comemoremos então o nascimento de todos os seres vivos, de todos os gêneros, sem distinção, isentos de discriminação. E ao perceber que a vida se renova, num ciclo contínuo de reprodução, transformação, nos enche de alegria. Com esta atitude comemoremos o nascimento de Buda. Aqueles que puderem, convido-os a irem à Praça da Liberdade, dia 8, a partir das 9hs. Tomarão chá e haverá ramalhetes ao montões, para quem vier mais cedo.