quinta-feira, agosto 31, 2006

Religião

Aspiração ao caminho de Buda

Há religiões em que se espera por um milagre,
e outras em que se reza por poderes sobrenaturais,
há até religiões em que se implora por sucesso nos negócios.
Mas a religião de Buda é uma religião em que se busca
orientar a sociedade e servir às pessoas.
A aspiração ao caminho de Buda significa
amar todo o universo assim como os pais amam seus filhos.

***

A religião justa

Muita devoção à sua própria religião e difamação
à religião do outro resulta em ódio e discussão.
Há estupidez maior que isso?
A religião justa em todos os tempos é aquela que ilumina as pessoas
e conduz a uma maneira pacífica de viver.
Pessoas religiosas nunca devem sacar espadas umas contra as outras.

(Eihei Dogen)

segunda-feira, agosto 21, 2006

sexta-feira, agosto 18, 2006

O Portal do Ingresso

Reza a tradição que, quando o interessado a noviço desejava ingressar no Mosteiro de Shaolin, China, esperava no portal durante uma semana. Se durante o período de aceitação de candidatos a monges uns vinte chegavam, no segundo dia alguns tinham desistido, mais alguns dias se passavam e outros se avadiam, mais outros, até que depois de uma semana três ou dois, ou apenas um ainda queria ser aceito. Mas aqueles, que esperavam ficavam o tempo todo em pé, fizesse chuva ou nevasse durante o dia. À noite dormiam, para que no dia seguinte mais uma vez exercitarem a paciência.
Foi nas proximidades de Shaolin que o eremita Bodhidharma recolhido a uma caverna praticou por nove anos o zazen. Não queria receber ninguém. Sabendo o mal humor do anacoreta indiano, o jovem chinês Eka admoestou-o: "Quero ser seu discípulo". "Vá embora", retrucou o santo. "Não vou arredar pé daqui até me receber como o praticante do dharma", insistiu. Lá fora nevava. Por dias, Eka continuou à porta da caverna a fim de que Bodhidharma instruísse-o. Nada acontecia. Nenhuma palavra. Numa última tentativa, Eka sacou sua espada e decepou o braço esquerdo. Assim diz a lenda: "a neve branca tingiu-se de rubro". Reconhecendo a vontade de Eka em praticar, Bodhidharma tornou-o primeiro patriarca chinês do budismo Zen.
Ainda hoje nos templos do oriente este ritual segue, lembrando o gesto de Eka. Quando estive no Mosteiro Zuioji, antes de ingressar, após bater o kaishaku (duas madeiras) um monge dirigiu-se até mim, no frio da manhã de março, e perguntou-me.
- O que você veio fazer até aqui?
Por um momento, as palavras me fugiram.
- Vim praticar - disse convicto.
- Praticar o quê.
- Quero praticar o Caminho - arrisquei.
- De onde você vem? - confundiu-se ele.
- Chego do Brasil.
Pensou um pouco, nem imaginando onde ficasse o Brasil. Diante dele alguém tinha feições orientais e falava um pouco de japonês. Talvez isso o deixasse intrigado, mas sem relaxar as feições rudes, apontou a parede.
- Fique lá, olhando para a parede.
Assim fiquei uma hora, duas horas... Era frio e os pés me gelavam. Uma vez ou outra ouvia vozes atravessando o jardim de pedras.
Passado algum tempo, longo tempo, não sabia quanto, o mesmo monge com a voz baixa perguntou-me novamente.
- O que você veio fazer aqui.
- Bem, quero vivenciar na prática o budismo.
Assim fui aceito no mosteiro. Desta vez mostrando um pouco afabilidade, entregou-me um balde com água quente. Pude retirar minhas sandálias de palha, o par de tabis, rotos após a andança até o templo. O calor da água causou-me uma sensação de agradável bem estar. Mesmo assim, tinha que passar por outras provas. Por uma semana trancaram-me numa sala, o tangaryo, onde passava o tempo todo fazendo zazen e estudando os textos. Mais dois noviços estavam no recinto. E assim pude relaxar-me, pois poderia usufruir da companhia deles. Segundo eles, o noviço anterior, um americano, tinha ficado só, sem ninguém para conversar. E nevava lá fora. Pouca roupa para cobrir o corpo, mas mesmo assim a desistência não passava em nossas cabeças.
Nada disso do acima descrito se compara com a prática do dia a dia. Somente aquilo que colocamos reforça, de maneira enfática, a vontade de treinar. Ou a total desistência. Quando fui ordenado, em 89, um colega muito mais preparado do que eu também recebeu os votos. Um pouco mais de um ano depois, ele desistiu. Por teimosia, continuei. Esta teimosia acabou se tornando em minha fé na prática árdua e objetiva no budismo. Bem, aquilo que chamo aqui de budismo é a vida. Assumindo compromissos, assumimos uma postura de vida. Não tem nada a ver em acender incenso ou cantar os sutras, mais do que isso.
Se no início o budismo nos parece encantador, estamos ainda mergulhados em nossos sonhos, pois não enfrentamos ainda os nossos medos e orgulho. Muitos são os que ingressam no Portal da Sabedoria, mas poucos continuam. Trilhar na Senda da Sabedoria é muito mais difícil do que viver na ilusão. É a ilusão do Eu, da existência independente do Eu. Enquando se oferecer um incenso para Buda, estamos apegados a uma idéia de Buda. Mas se oferecemos um incenso para Buda e outro para o demônio, destruímos a dualidade. Fiquem tranqüilos, não faço apologia do demônio. Este trata-se aqui de uma alegoria. Quer dizer, acendo o incenso para os mestres, para os amigos, para os meus pais mas também para os que considero inimigo. A compaixão surge quando quero também ajudar os meus inimigos. Na verdade, não existe inimigos, mas apenas projeção de minha mente egoísta. Com a discriminação de minha mente chamo de inimigos aqueles que me desagradam.
Mas veja bem, os "inimigos" são geralmente os melhores mestres da prática. As dificuldades são os melhores momentos da prática. Nada melhor do que as contradições. Mas quem deseja realmente enfrentar os dilemas da vida, vivendo em pela harmonia com o diferente? Poucos, creio eu! Certa vez li uma declaração do Dalai Lama: "não quero que todos se tornem budistas, pois o budismo é muito difícil de ser praticado". Praticar o Caminho requer acima de tudo um gesto de humildade: "destruam o meu ego". Entretanto, o apego ao ego é mais do que a própria vontade de praticar. Posso dizer de outra forma: praticar o budismo é desapegar-se do ego. E quanto maior é o ego, menor é a força da prática. A estes, nada mais resta do que continuar acreditando em suas crenças fantasiosas de um mundo dualista e centrada na valorização do ego.

segunda-feira, agosto 14, 2006

domingo, agosto 13, 2006

Por uma mística zen

Por muito tempo, a questão mística, de qualquer manifestação religiosa parecia-me algo restrito a determinados ascetas, afastados do convívio social, talvez isolados nas montanhas. Hoje penso que pode ser diferente. Entretanto, a percepção da entrega mística aconteceu comigo na "Garganta do Portal do Dragão". Assim era chamado o local em que ficava o Mosteiro Shogoji, na província de Kumamoto, Japão.
Quando estamos entregues nesta prática, de total desapego, num mosteiro em que não há luz elétrica, acorda-se para o zazen às 2h55, todas as manhãs, acabamos nos confundindo com a natureza. Por causa das montanhas, as nuvens ficam baixas e próximas dos nossos olhos. Não é incomum a ocorrência de tufões, que o chefe da aldeia avisa com três dias de antecedência. Antes, os monges limpam o terreno durante a maior parte do tempo, recolhendo o lixo, esvaziando as fossas dos esgotos. A respeito, todo o sistema de recolhimento de resíduos é constituído de um processo de transformação orgânica.
Sem dinheiro para gastar, sem rádio, sem televisão, sem ingerir carne e com muito trabalho, o monge vai se transformando também. Diante da natureza selvagem, o homem sente a sua fragilidade. Sente-se, no primeiro momento, imensamente pequeno. Uma imensa escadaria de pedra com cantos cortantes conduzia os visitantes até um pátio, de onde se avistava o Hondo - Sala de Buda. Ao deparar-me com o perigo, cheguei a pensar: "os japoneses, ao invés de facilitarem a vida dos homens, mantém a natureza intocável". Muitas vezes, tive que subir ou descer estas escadarias com guetas - tamancos altos, sustentados por duas bases. Certa ocasião, tive que descer as escadarias em noite de tempestade, com um guarda-chuva numa mão, na outra um farolete. Numa escada totalmente irregular, o mesmo poderia se dizer do caminho acidentando que conduzia até os nossos quartos. Cheguei a enfiar o pé um buraco e lá se foi o meu tamanco.
Com o tempo, a natureza indomável do Japão não nos parece tão hostil assim. Mais tempo se passa, e acabamos nos esquecendo da natureza. E esquecemos de nós próprios. Nada nos importa mais, totalmente abandonados. Estamos no templo de Daichi Zenji, o antigo patriarca que lá habitou. O poeta que admirava as montanhas, com quem conversava: "Vejo as montanhas/ As montanhas me vêem".
Toda esta integração com as montanhas, os tufões, as tempestades torrencias de três dias seguidos não quer dizer que estamos ilesos de nossas dificuldades. Um resto de ego ainda está presente em nossa mente. Mas ainda assim, o nosso esforço é imenso em realizar as nossas tarefas com grande esforço. Quando mais nos abandonamos, maior é a nossa força para vencer as dificuldades. Às vezes, surge algum indício de estafa, mesmo assim não nos deixamos entregar. Continuamos... Sem nos entregar, continuamos. É como uma queda no abismo, quando nos agarramos no capim para não cair, quando as mãos cansam, restam-nos os dentes; com os dentes nos agarramos. E os dentes ao não conseguir mais segurar, vem a queda. Mas sem medo da queda, abandonamo-nos mais uma vez. A mística zen é justamente o total abandono, aprofundando-nos na forma mais radical da prática. Parece que as condições do universo, novamente remanejadas, tomam um novo rumo e o praticante recupera a sua auto-confiança.
Retomemos a nossa prática na vida ordinária, dos acontecimentos temporais. Penso que podemos levar a nossa experiência no ponto mais crítico. Ao invés de tufões e tempestadades, temos pela frente um mal maior: o EGO. Assim, o Ego sofre, o Ego agride e é agredido, o Ego pensa e avalia, o Ego se acha maior, o Ego se inflama e quer elogios, enfim o Ego é uma grande droga. Mas sabedor disso, o praticante trabalha o seu Ego. Dentro do Ego do praticante existem dois eus: e Eu da prática e o Eu do iludido. Nas mais diversas situações, os dois eus devem dialogar:
- Tenho que controlar meu egoísmo - diz o eu da prática.
- Nada disso, você não tem sangue de barata - diz o eu da ilusão.
- Mas o egoísmo é um mal - continua o primeiro.
- Se você não lutar pelo seu amor próprio, você passará por bobo - contra-argumenta.
- Se cometi um erro, devo demonstar meu arrependimento - arremata este.
- Você não fez nada de mal, afinal errar é humano - justifica o da ilusão.
- Nisso você tem razão, mas posso remediar ao reconhecer o meu erro - tenta.
- Será tratado como um tolo se submeter a esta situação - aponta.
- Reconheço que fui vencido.
O vencido foi o da prática. Com todas as artimanhas, o Demônio da Ilusão, Maya, tal qual em Bodhigaya em que Siddharta venceu. Desta vez, a Ilusão derrotou completamente a prática.
A mística zen na vida cotidiana é levar às últimas conseqüências a prática. Destruir a cada minuto, a cada respiração o Ego da ilusão. O Ego, em si, a própria Ilusão. Destruir completamente todas as justificativas para a existência do orgulho, da vaidade, da ganância, da preguiça. Pior do que a existência da Ilusão é justificá-la. E isso acontece quando o Ego se acha mais importante do que qualquer prática ascética. Ao invés de ver em sí a semente do mal, o Ego vê no outro. Por isso, o Ego é dúbio, dual. O Ego é uma grande droga. Ele se disfarça de Racionalismo, de Amor próprio, de Individualidade, de Meu, de Tenho Direitos, de Eu Mereço, de Eu Quero. Alguém que acredita na existência do Ego, olha sempre para o próprio umbigo, desconhecendo que no céu uma lua brilha. Iludidos, agem como fantasmas. Loucos, crêem em suas próprias loucuras. Continuam sonhando, com medo de acordarem.

terça-feira, agosto 08, 2006

Voto

Pode-se facilmente notar que sempre transformamos aquilo com o que convivemos. Nossas casas, famílias e amizades são bons exemplos disso.
Da mesma forma, quando entoamos um sutra, por exemplo Maka Hannya Haramita Shingyo, não só ele entra em nós, mas nós também nele entramos: Buda entra no ego e o ego entra em Buda.
Igualmente ocorre com as palavras usadas no cotidiano, quando as pronunciamos. Para que nossas palavras possam ser puras e benevolentes, devemos zelar por manter a mente pura.

E, para o silêncio, também não poderia ser diferente. Quando permanecemos em silêncio, nele penetramos.
Que ele se mantenha purificado graças à nossa prática.