terça-feira, dezembro 30, 2008

O Honrado-pelo-mundo aponta para o chão

Shoyoroku, O Livro da Serenidade

Caso 4 – O Honrado-pelo-mundo aponta para o chão

Quando o Honrado-pelo-mundo caminhava com sua assembléia, apontou para o chão com sua mão e disse:
“Este é um bom lugar para se construir um templo.”
Indra pegou um talo de relva, o espetou no chão e disse:
“O templo está pronto.”
O Honrado-pelo-mundo sorriu.

domingo, dezembro 28, 2008

Perguntas de férias II

Se o caroço do pêssego parece um cérebro,
seria o cérebro uma semente?

Onde se esconde o silêncio da raiva?

Qual o limite do mar morto,
se há tantos petroleiros à deriva?

Por que as abelhas não se associam aos
vagalumes para fazerem mel à noite?

Boas novas/velhas


Palavras que confirmam e reforçam nossa prática.
Obrigado a todos que têm se empenhado para que o verdadeiro Dharma chegue até nós.

sábado, dezembro 27, 2008

Margha

"(...) Mas também existe a idéia fundamental. A palavra sânscrita para isso é Margha, e significa caminho. É a trilha de volta a você mesmo. O mito provém da imaginação e leva de volta a ela. A sociedade ensina o que são os mitos, e em seguida o libera para que em suas meditações você possa seguir o caminho certo."

Joseph Campbell, do livro "O Poder do Mito"

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Perguntas de férias I

Quem solta no céu as
gaivotas como papagaios?

Onde vai dar esta estrada
que vai do nada ao nada?

Por que ninguém faz um abaixo assinado
contra a extinção dos vulcões?

quarta-feira, dezembro 10, 2008

POR QUE O BUDISMO ENCANTA O OCIDENTE?

O budismo faz tanto sucesso no Ocidente porque possui
características que correspondem às tendências da pósmodernidade
neoliberal. Num mundo em que muitas religiões se
sustentam em estruturas autoritárias e apresentam desvios
fundamentalistas, o budismo apresenta-se como uma nãoreligião,
uma filosofia de vida que não possui hierarquias,
estruturas nem códigos canônicos. No budismo não há a idéia
de Deus, nem de pecado. Centrado no indivíduo e baseado na
prática da yoga e da meditação, o budismo não exige
compromissos sociais de seus adeptos, nem submissão a uma
comunidade ou crença em verdades reveladas. Há, contudo,
muitos budistas engajados em lutas sociais e políticas.
Nessa cultura do elixir da eterna juventude, em que o
envelhecimento e morte são encarados, não como destinos, mas
como fatalidades, o budismo oferece a crença na reencarnação.
Acreditar que será possível viver outras vidas além dessa é
sempre consolo e esperança para quem se deixa seduzir pela
idéia da imortalidade e não se sente plenamente realizado nessa
existência.
Outro aspecto do budismo que o torna tão palatável no Ocidente
é a sua adequação a qualquer tendência religiosa. Pode-se ser
católico ou protestante e abraçar o budismo como disciplina
mental e espiritual, sem conflitos. Mesclar diferentes tradições
religiosas é uma tendência crescente para quem respira a
ideologia pós-moderna do individualismo exacerbado, segundo
a qual cada um de nós pode ser seu próprio papa ou pastor, sem
necessidade de referências objetivas.
Como método espiritual, o budismo é de grande riqueza, pois
nos ensina a lidar, sem angústia, com o sofrimento; a limpar a
mente de inquietações; a adotar atitudes éticas; a esvaziar o
coração de vaidades e ambições desmedidas; a ir ao encontro
do mais íntimo de nós mesmos, lá onde habita aquele Outro que
funda a nossa verdadeira identidade.

FREI BETTO

Monges fazem do Copan um templo zen.

Uma vez por mês, eles praticam do alto do prédio ‘zazen’, a meditação sentada.


Uma vez por mês, o edifício Copan, um dos principais cartões-postais de São Paulo, se transforma num inusitado templo budista. É toda terceira sexta-feira do mês, às 7h, quando monges zen da escola Busshinji sobem os 37 andares até o heliponto para praticar a meditação sentada – zazen, sendo “za” sentar e “zen” meditação.

Em fileira, de pernas cruzadas, colunas ereta e atenção na respiração, eles têm à frente centenas de prédios e, no horizonte, o pico do Jaraguá, na zona norte. Apesar do barulho, desligam-se do mundo exterior por uma hora, até ouvirem as oito badaladas do sino da igreja Nossa Senhora da Consolação, na vizinha Praça Roosevelt.

A meditação do alto do prédio surgiu com o cineasta Bruno Mitih, 41, budista há quatro anos. “A primeira idéia foi levar a prática do templo para a rua, e o edifício Copan se apresenta como a montanha dos budistas zen da cidade”.

O professor-monge Jisho Handa, 53, vê o Copan como representação de São Paulo; por isso a escolha. “No heliponto estamos num dos pontos mais altos do centro e a observamos num ângulo de 360°. Assim, expandimos nossas energias.”

O objetivo do grupo, diz Handa, é levar harmonia e compaixão ao maior número de pessoas possíveis. “Vivemos numa cidade cheia de desordem e injustiça. Queremos criar uma sintonia com toda a cidade e inconscientemente a cidade medita conosco, como se fosse uma onda de radio.”

A meditação no alto do Copan é aberta a interessados.

Segundo o sindico do Copan, Afonso Celso dos Prazeres, 69, a idéia foi aceita já no primeiro pedido do grupo. “Sou solidário a qualquer demonstração de ajuda a cidade”, diz. “Inclusive faço meditações em casa.”


Danilo Verpa - repórter-fotográfico.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Caminho para a maturidade



Cinco coisas que podem trazer a maturidade para a prática do Dharma:
  1. Um amigo espiritual, um bom companheiro na vida sagrada
  2. O treinamento para a moralidade e a conduta perfeitas
  3. Envolvimento em conversas adequadas. Conversas não centradas no ego e que dizem respeito à libertação do coração, à liberdade e à iluminação. São conversas sobre querer pouco, contentamento, retiro, energia, moralidade, meditação, sabedoria, liberação e sobre o conhecimento e a visão das coisas como elas realmente são
  4. A energia e o esforço para abandonar estados da mente que são cheios de luxúria, raiva e confusão, e para o desenvolvimento de estados mentais claros cheios de genorosidade de compaixão. É preciso vigor e persistência para cultivar estes estados mentais positivos
  5. Desenvolvimento da compreensão e da percepção, que por fim irão levar à sabedoria e e à percepção dos Budas
O Buda

quinta-feira, novembro 27, 2008

Onde encontrar o Dharma

Uma vez, fiz um vídeo-retrato de uma pantera negra. Depois de tirar as correntes do animal, parte da equipe saiu e a domadora avisou: "Se a pantera correr em direção a você, não se mova". Durante a filmagem, o animal ficou meia hora sem se mexer, assim como eu e os técnicos. O que foi marcante é que, de certa maneira, todos nos sentimos como a pantera: estávamos todos escutando e respirando juntos. Havia uma entidade na sala. E estávamos ouvindo não só com os ouvidos, mas da forma como uma pantera ouve: com o corpo. Uma das chaves para entender todo o meu trabalho é a natureza de um animal. Acho que foi [o escritor e dramaturgo alemão Heinrich von] Kleist (1777-1811) quem disse que um bom ator é como um urso: jamais será o primeiro a atacar. Bob Wilson, dramaturgo, para a Folha de São Paulo



Na floresta de madeira de sândalo não cresce nenhuma outra árvore. Só os leões vivem nessa floresta profunda, densa, silenciosa. E por toda parte, nesse bosque tranqüilo, os leões brincam livremente. Todos os animais da terra e todos os pássaros do céu fogem do leão; só os leõezinhos caminham atrás do leão. Com apenas três anos de idade, eles já são capazes de rugir. E mesmo se os chacais quisessem imitar esses leões, reis do Dharma, eles não poderiam impedir que os cem mil demônios abrissem a boca livremente.Yoka Daïshi, do livro Shodoka - O Canto do Satori Imediato

quarta-feira, novembro 26, 2008

Sesshin da Iluminação 2008

Sesshin da Iluminação – Busshinji

Estão abertas as inscrições para o Sesshin da Iluminação (Rohatsu Sesshin) no Templo Busshinji, São Paulo. As atividades iniciam-se no dia 10, a partir das 9 horas. Na parte da manhã serão dadas instruções gerais e a maneira de se utilizar o oryoki, para as refeições formais. Serão entregues também o livro de orações. Após o almoço, às 13h15, haverá o ingresso do monge Shussô (líder dos alunos e demais monges) e a Cerimônia de Abertura.
As atividades diárias iniciam-se às 6horas, estendendo-se até às 19h30. No total haverá dez sessões de zazen, de 40 minutos, 10 minutos de kinnhin, e 10 para o uso do banheiro. As refeições da manhã (Tempatsu) e o almoço (Tempatsu) serão realizados na Sala de Buda, na postura de zazen. O chá da tarde, igualmente, nesta posição. O jantar (yakuseki) será feito de maneira informal, na sala de chá.
No encerramento deste sesshin da Iluminação, atendendo a tradição deste templo e, igualmente, outros centros de prática, as atividades estender-se-ão até as 3 horas, da manhã de 17. Após a finalização, haverá uma cerimônia de encerramento e de iluminação do príncipe Sidharta, que se tornara no Buda. De acordo com a transmissão, Buda sentara-se no décimo segundo mês por sete dias, sendo que na manhã do sétimo, ele alcançara a libertação. Esta experiência é realizada também pelos alunos inscritos no Sesshin da Iluminação. Nesta manhã, o monge superior (Docho) submete-se ao shosan, quando alguns praticantes colocam questões (mondo) a ele, e respondidas publicamente.
Na cerimônia, os praticantes têm a oportunidade de servirem-se de gomishuku (alimento dos cinco paladares), remetendo-se ao encontro de Sidharta com a camponesa Sujata. Diz a lenda que Sujata teria oferecido para o príncipe aquele alimento, assim pode recuperar-se do desgaste e, fortalecido, logrou obter a iluminação.
Para este sesshin, o custo é de R$ 200. Não temos no momento uma infra-estrutura para acomodar os praticantes. Por isso, para aqueles vêm de lugares distantes, um hotel nas proximidades deve ser providenciado. Quanto a isso, a recepção do Templo Busshinji poderá fazer a reserva. Informações pelo telefone 11-3208-4515. Rua São Joaquim, 285, Liberdade, São Paulo.

sexta-feira, novembro 21, 2008

No caminho do meio, a pedra é o caminho


Se todo carma é ação
está além da reação.
Cada objeto nesse mundo
é puro percurso, pura ação.

Todo objeto é caminho.
A banana, da terra ao cacho
A pedra, do pó ao pó
A montanha, em seu movimento incessante

Todo objeto vai do ponto A ao ponto B
A raiva passa
O amor vem e vai
A amizade também tem seu tempo

A atenção-plena é acessada apenas pela atenção-plena.
Toda verdade não prescinde da verdade para ser observada.
Ela abre os olhos de quem a procura profundamente
eliminando toda a ignorância do percurso.
Se há medo ou desânimo, a verdade diz que é ilusão
Se há alegria, diz que é só a metade
Se encontra a liberdade, diz: é Verdade!

Mas como saber se é liberdade, se dela não se provou?
Como buscar a liberdade sem saber a verdade?
Mas... e quem vai querer?

Renasce o sol miudinho nos meus olhos tristes
Rebenta um vulcão na boca do estômago
Me visita todo dia pela manhã o Sabiá Laranjeira.
Pergunto a ele o que é a liberdade
Ele me olha atento e deixa chegar bem pertinho
depois voa com uma pitanga no bico.

Fico não pensando nisso.

quarta-feira, novembro 19, 2008

Zazenshin (completo)

A lanceta da meditação sentada
(Dogen Zenji)

Agora, mais de 80 anos desde [os dias do] Mestre Chan Hongzhi, lendo seu “Lanceta da Meditação Sentada”, eu compus esse “Lanceta da Meditação Sentada”.

Função essencial de todos os budas,
Essência da função de todos ancestrais –
Presente sem pensar;
Completo sem interagir.
Presente sem pensar,
sua presença é inerentemente íntima;
Completo sem interagir,
Sua completude é inerentemente confirmada.
Sua presença inerentemente íntima
É sempre sem manchas ou impurezas;
Sua completude inerentemente confirmada,
É sempre sem o ereto ou o inclinado.
Intimidade sempre sem manchas ou impurezas,
sua intimidade abandona sem jogar fora;
Confirmação sempre sem ereto ou inclinado,
Sua confirmação realiza esforço sem expressar.
A água é completamente límpida até a terra;
Um peixe segue adiante como um peixe.
O céu é vasto por todo o firmamento,
Um pássaro voa exatamente como um pássaro.

Não é que a “Lanceta da Meditação Sentada” do Mestre Chan Hongzhi não tenha expressado corretamente isso, mas isso também pode ser dito dessa forma. Acima de tudo, descendentes dos budas e ancestrais devem estudar a meditação sentada como “o grande assunto”. Esse é o selo autêntico da transmissão única.

A lanceta do zazen
(Hongzhi Zhengjue) [Wanshi Shogaku]

Apresentação de Dogen Zenji:
Entre as “Lancetas da Meditação Sentada”, a única que é dos budas e ancestrais é a do Reverendo Zhengjue, o Mestre Chan Hongzhi, do Monastério Tiantong, renomado Monte Taipai, no distrito de Jingyuan, na Grande Song. esse é uma verdadeira "lanceta da meditação sentada". Essa expressa corretamente. Sozinha, radia através da superfície e do interior do reino do dharma. É [a declaração de] um buda e ancestral entre budas e ancestrais do passado e presente. Budas anteriores e budas posteriores foram lancetados por essa “Lanceta”; ancestrais do presente e do passado aparecem dessa “Lanceta”. Eis essa “Lanceta da meditação sentada” (Dogen Zenji, Zazenshin).


Lanceta da meditação sentada
Zhengjue, por designação imperial Mestre Chan Extensa Sabedoria

Função essencial de buda após buda,
Essência da função de ancestral após ancestral
Saber sem tocar coisas,
Iluminar sem encarar objetos.
Sabendo sem tocar as coisas,
Seu saber é inerentemente sutil;
Iluminando sem encarar os objetos,
Seu iluminar é inerentemente misterioso.
Seu saber inerentemente sutil,
É sempre sem qualquer pensamento discriminativo;
Seu iluminar inerentemente misterioso,
É sempre sem nem um fio de cabelo de indício.
Sempre sem pensamento discriminativo,
Seu saber é raro e insuperável;
Sempre sem nenhum fio de cabelo de indício,
Seu iluminar compreende sem agarrar.
A água é límpida até o fundo;
Um peixe indolentemente segue adiante.
O céu é vasto sem horizonte;
Um pássaro voa ao longe, bem longe.


Comentário de Dogen Zenji
A “lanceta” nessa “Lanceta da Meditação Sentada” significa “a manifestação da grande função”, “o comportamento além da imagem e do som”; é a “sutura antes que seus pais nascessem”. Significa "é melhor você não difamar os budas e ancestrais"; "você não evita destruir seu corpo e perder sua vida”; é “uma cabeça de um metro e um pescoço de cinco centímetros” [alusões a expressões clássicas do Chan para sabedoria, aqui vistas como “lancetas” médicas (nota da Tradução inglesa)].

"Função essencial de buda após buda". Os budas sempre tomam os “budas” como sua “função essencial” – essa é a “função essencial” que é concretizada aqui; isso é “meditação sentada” (Dogen Zenji, em Zazenshin).

Tradução: Koun

segunda-feira, novembro 17, 2008

Soanka

Canção da Cabana coberta de relva

(Sekito Kisen)

Construí uma cabana de relva onde não há nada valioso.
Após me alimentar, eu relaxo e tiro uma soneca.
Quando ela ficou pronta, novas ervas brotaram.
Agora nela se mora coberto por trepadeiras.
A pessoa na cabana vive aqui calmamente,
Sem se prender ao dentro, ao fora ou ao entre.
Nos lugares em que as pessoas do mundo vivem, ela não vive.
Os domínios que as pessoas do mundo amam, ela não ama.
Apesar de a cabana ser pequena, ela contém o mundo todo.
Em três metros quadrados, um velho homem ilumina formas e sua natureza.

Um bodhisattva do Grande Veículo confia sem dúvida.
As pessoas medíocres ou rasteiras não podem evitar divagar:
Essa cabana vai ou não se estragar?
Estragável ou não, o mestre original está presente,
sem se deter no sul ou norte, leste ou oeste.
Firmemente fundado na estabilidade, não pode ser superado.
Abaixo dos verdes pinheiros, uma janela luminosa –
Palácios de jade ou torres de rubi não podem ser comparados com isso.

Apenas sentar com a cabeça coberta, todas a coisas descansam.
Assim, esse monge da montanha definitivamente não entende.
Vivendo aqui ele não mais se esforça para se libertar.
Quem orgulhosamente providenciaria assentos, tentando seduzir convidados?
Vire ao contrário a luz para que brilhe no interior, então apenas retorne.

A vasta e inconcebível fonte não pode ser fitada nem evitada.
Encontre os mestres ancestrais, familiarize-se com suas instruções,
Junte relva para construir uma cabana, e não desista.
Deixe ir centenas de anos e relaxe completamente.
Abra suas mãos e caminhe, inocente.
Milhares de palavras, miríades de interpretações.
São apenas para libertar você das obstruções.
Se você desejar conhecer a pessoa imortal da cabana,
Não se separe desse saco de pele aqui e agora.

Tradução: Koun

sexta-feira, novembro 14, 2008

Iluminação SIlenciosa

Marco do caminho da iluminação silenciosa
Hongzhi Zhengjue (1091–1157)

[A partir da tradução inglesa de Taigen Leighton e Yi Wu]


Silente e sereno, esquecendo as palavras, luminosa claridade surge em sua presença.

Quando você a reflete, torna-se vasto, quando você a incorpora, eleva-se espiritualmente.

Espiritualmente solitária e brilhante, a iluminação interior restabelece o milagre,

Orvalho ao luar, um rio de estrelas, pinheiros cobertos de neve, nuvens envolvendo os cumes.

No escuro é mais brilhante; escondida, tanto mais se manifesta.

A garça sonha na névoa chuvosa. As águas do outono fluem longe, à distância.

Kalpas sem fim são totalmente vazios, todas as coisas são completamente as mesmas.

Quando o milagre existe na serenidade, toda realização é esquecida na iluminação.

O que é esse milagre? A visão alerta através da confusão

É o caminho da iluminação silenciosa e a origem de uma sutil radiância.

A visão penetrando na sutil radiâncioa é tecer ouro num tear de jade.

O ereto e o inclinado rendem-se um ao outro; luz e escuridão são interdependentes.

Não dependendo dos sentidos e do objeto, no tempo correto eles interagem.

Tome o remédio das boas visões. Bata o tambor untado de veneno.

Quando eles interagem, matar ou dar a vida são decisões suas.

Através do portão se emerge e os galhos sustentam frutos.

Apenas o silêncio é a fala suprema, apenas a iluminação é a resposta universal.

Reagindo sem cair em realizações, falando sem envolver ouvintes.

As dez mil formas majestosamente cintilam e expõem o Dharma.

Todos objetos o atestam, todos em diálogo.

Dialogando e atestando, eles reagem apropriadamente uns aos outros.

Mas se a iluminação negligencia a serenidade, então a agressividade surge.

Atestando e dialogando, eles reagem uns aos outros apropriadamente;

Mas se a serenidade negligencia a iluminação, as trevas conduzirão ao dharma perdido.

Quando a iluminação silenciosa é realizada, o lótus floresce, o sonhador desperta,

Centenas de rios fluem para o oceano, mil cadeias de montanhas fitam o pico mais alto.

Como gansos preferem leite, como abelhas juntam néctar,

quando a iluminação silenciosa alcança seu ponto definitivo, eu ofereço meu ensinamento.

O ensinamento da iluminação silenciosa penetra das alturas até os alicerces.

O corpo sendo shunyata, os braços em mudra,

Do início ao fim as cambiantes aparências e as dez mil diferenças compartilham um padrão.

O Senhor Ho ofereceu jade [ao Imperador; Ministro] Xiangru apontou para suas imperfeições.

Encarar as mudanças tem seus princípios, a grande função é sem esforço.

O governante permanece no reino, o general vai além das fronteiras.

O ensinamento de nossa escola atinge direta e verdadeiramente o ponto.

Transmita isso a todas as direções, sem desejar ganhar algum crédito.

Zen no Chile (novo blog)


“Para aquel que en el silencio olvida las palabras, la realidad se manifiesta claramente. El que alcanza el despertar silencioso forma parte de nuestra tradición. El despertar silencioso sube hasta la mas elevada cima y desciende hasta lo más profundo”

Leia mais no blog editado pelo monge chileno Meiyo, "Mas que Palabras"

terça-feira, novembro 11, 2008

Texto de Ryohan Shingu

Entre os meus documentos, o texto em seguida foi achado.

A visão japonesa do Homem

*Apanhado da saudação proferida pelo Superior Ryohan Shingu durante o Culto Ecumênico comemorativo da formatura da turma de 1968 da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP.

A visão japonesa do homem se baseia no pensamento budista. Apresentamos aqui um de seus aspectos.

No Budismo, é costume dividir os tipos humanos em dez categorias, segundo se adiantamento e conteúdos de seu espírito. São elas expressas em linguagem simbólica, como se constituíssem dez planos diferentes de existência.

1) Infernal – a mais baixa das categorias, englobando os que se submergem totalmente em atos contrários à natureza humana, alcançando por conseqüência sofrimentos sem conta.

2) Animal – categoria onde falta todo e qualquer refreamento, etiqueta ou regra de conduta, bem como a consciência. Os indivíduos agem inteiramente levados por seus instintos, sem levar em conta circunstâncias, hora e lugar.

3) Demônios famintos – outra categoria inconsciente, em que os seres se deixam levar por seus desejos, sem conseguir satisfaze-los nunca, agindo como famintos ou sedentos desesperados.

4) Titãs – seres que às vezes conseguem praticar o bem, mas vivem em conflito ideológico e constantemente lutam, de maneira inconsciente.

5) Celeste – plano dos que, embora inconscientemente, agiram conforme a ética e por conseguinte experimentam sensação agradável de viver num paraíso pleno de delícias. Porém, como não há consciência, terminada a energia gerada por suas boas ações, precipitam-se no plano infernal.

6) Humana – categoria onde alegrias e sofrimentos coexistem em partes iguais, e pela primeira vez desperta a consciência. Busca-se o conhecimento da essência da felicidade e das causas do sofrimento; escolhe-se conscientemente o caminho a seguir, consciente e racionalmente. A escolha correta permite dar o primeiro passo na trilha da perfeição humana.

7) Discípulos que ouvem a Lei – aqui, como primeiro passo para a perfeição, o homem aprende as Quatro Nobres Verdades, que esclarecem a natureza do mundo e os métodos que levam à perfeição, segundo o Budismo.

8) Os que discernem sozinhos a Lei – Aqui o homem compreende e pratica a Lei da Originação Condicionada, objeto das contemplações de Buda. Transcende o domínio dos instintos vulgares e age conforme a Lei, sempre de uma maneira racional, sem se deixar possuir pelas paixões e emoções; consegue transcender a vida e a morte, alcançando uma perfeita tranqüilidade de espírito.

9) Bodhisattva – Desenvolve-se espontaneamente a partir do anterior. O indivíduo já está apto a atingir a décima categoria.

10) Búdica – mas faz um voto de não atingi-la enquanto não conseguir instruir todos os seres viventes. Passeia livremente pelas categorias anteriores, empenhando-se na salvação alheia e na plena realização dos ideais búdicos. Incessantemente pratica e prega as Seis Virtudes do Bodhisattva ( Seis Paramitas): Caridade, Moralidade, Paciência, Perseverança, Concentração e Sabedoria. É um praticante do Caminho de Buda e uma encarnação da Misericórdia.

No Japão considera-se que todo o Homem deve viver como um Bodhisattva, para atingir a perfeição. O ideal do Bodhisattva é lembrado nas festas dos equinócios, celebradas no início da primavera e do outono. O dia de equinócio, em que o sol transpõe a linha do Equador, nem quente nem frio, dia e noite de igual duração, ameno e agradável, é destinado a honrar a memória dos antepassados virtuosos, ao passo que os três dias anteriores e os três posteriores são consagrados aos Seis Paramitas. São duas semanas anuais dedicadas à auto-reflexão, ao auto-aprimoramento e ao aprendizado das virtudes beneficiadoras da humanidade. Visam fazer de todo o homem um Bodhisattva, um ser que marcha para a perfeição. São celebradas há 1.500 anos.

Criticam-se os japoneses como exageradamente obsequiosos; isso é fruto das diretrizes de educação no Japão moderno, que esvaziaram o ideal de Bodhisattva de seu espírito, conservando só a forma.

A verdadeira concepção japonesa do Homem é a conscientização e prática do ideal do Bodhisattva, que possibilita o progresso e a coexistência pacífica da humanidade.

Que possam os formandos, em suas profissões e esferas de ação praticar o ideal do Bodhisattva, vivendo assim para o desenvolvimento da nação e o progresso do gênero humano.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Zazen no hospital

Um dos epítetos de Buda Shakyamuni é "Rei da Medicina".
Quando recitamos os três tesouros, declaramos: tomamos refúgio no Dharma porque é um bom remédio.
Essas alusões à medicina e a remédios não dizem respeito aos males do corpo, mas às aflições e tormentos da mente. Buda e Dharma são o médico e o remédio que nos curam dos venenos mentais, nos trazem grande alívio, alegria e bem-estar para que possamos aproveitar cada momento da vida com tudo aquilo que ele tem a nos oferecer e tudo aquilo que temos a oferecer ao mundo.

Através do zazen, podemos despertar qualidades naturais de alegria, compaixão, liberdade, harmonia e respeito para com todos os seres, favorecendo, assim, o desenvolvimento de uma comunidade pacífica e feliz.

Nesse sentido, iniciam-se a partir de 10 de novembro práticas de zazen no Hospital do Servidor Público Municipal, sob responsabilidade dos monges Jisho e Koun e do praticante Shokan. A prática é aberta ao público em geral (e não apenas a funcionários, pacientes e visitantes).

O Hospital conta com uma sala de meditação, com vários zafus e zabutons, num recinto agradável e apropriado para o zazen.

Todos estão convidados a participar e a divulgar essa iniciativa.

Local:
Hospital do Servidor Público Municipal
9º andar – Sala de Meditação.
Rua Castro Alves, 60 – Aclimação
Metrô Vergueiro


Horários:

Segundas e terças-feiras
7:00, 7:45, 8:30, 9:15.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Novo prédio

Segue a todo vapor a construção do novo prédio do templo Busshinji (São Paulo). Nele haverá estacionamento coberto, salão de eventos, zendô e jardim suspenso. A previsão de término das obras é fevereiro de 2009. Apesar disso ainda falta verba para a total acabamento, como móveis, louças e decoração.



"Com este centro a escola zen budista mais importante do Japão começa um importante movimento, tornar possível formar monges e professores do Dharma, com o método tradicional da escola, sem que seja necessário morar no Japão e aprender sua língua (aprender a ler e escrever é uma tarefa de anos).

"Novos centros como este existirão na França (La Gendroniére) e nos EUA, isto marca a internacionalização formal da escola zen depois de meio século de presença no ocidente. Esperamos inaugurar o centro de SP no segundo semestre de 2009." texto complementar contribuição do blog O Pico da Montanha

Você pode fazer uma doação para a construção do novo prédio do Templo Busshinji, ligue para 11 3208-4515 ou 3208-4345 e fale com Satico Suzuki ou Mitsuyo Kamimura.

terça-feira, novembro 04, 2008

Treinamento monástico

"Nas condições ideais, ao receber a ordenação, o monge-noviço entra na fase do treinamento de “calar a boca e limpar o chão”, um período onde é permitido muito pouco contato com o público em geral (quanto menos “aparecer”, melhor) e todo o seu esforço é canalizado em sentar em zazen, praticar o samu (trabalho ou atividade diária) e observar, escutar, perceber – aprender com o corpo e o coração."

Leia mais no site da Monja Isshin.

Ouça também no final do texto a orientação dada por Saikawa Roshi ao monge Meiyô Vargas, durante sua recente (re)ordenação.

Monges em treinamento, templo Eiheiji, Fukui, Japão. Foto: Hiroji Kubota - Magnum Photos

domingo, novembro 02, 2008

Zazen no cemitério

sentado no cemitério
sem dividir vida e morte
a cerejeira dá sombra
o cipreste aponta o céu
por um só caminho
passam vivos e mortos
este monge permanece firme em seu propósito
praticando o não-saber
os visitantes comentam: este viveu muito, aquele pouco
o mestre sussurra no ouvido do aluno:
muito ou pouco, nem o céu pode medir
famílias trazem flores, baldes e vassouras
é dia de faxina nas sepulturas
os que podem pagam para alguém limpar o mármore
os que não podem esfregam eles mesmos o cimento, suando sob o sol
quando estamos sonhando, não há nada fora do sonho
quando se desperta, não há nada que já não estivesse desperto
não se guarda um pedaço de sonho, nem se retém o momento do despertar
de um lado do muro a criança corre, a mãe ralha, o pai se cala, a avó descansa
de outro lado, pedintes e inválidos sob a sombra do muro
os fantasmas transitam de um lado para o outro
um gato entra e sai sem passar pelo portão
ainda criança este monge sonhava
entender vida-e-morte
não há ninguém para entender
sobre uma lápide o gato lambe a pata

domingo, outubro 26, 2008

Refugiar-se


"Se o ser que mais amo no mundo (viesse) me perguntar que escolha ele deve fazer, e qual é o refúgio mais profundo, mais inatacável e mais doce, eu lhe diria para abrigar seu destino no refúgio da alma que se aperfeiçoa".

Maeterlinck

terça-feira, outubro 21, 2008

Sesshin da Iluminação - Busshinji

Estará acontecendo de 10 a 17 de dezembro no Templo Busshinji o Sesshin da Iluminação - Rohatsu Sesshin. Coordenado pelo Superior Dosho Saikawa e equipe de monges do templo. As inscrições podem ser feitas diretamente no Templo Busshinji a um custo de R$ 200. Não haverá pernoite no local. Aqueles que vierem de outros estados e países, devem solicitar a reserva de um hotel nas imediações, que pode ser feito pela recepção do templo.

domingo, outubro 19, 2008

Neurocientista vê seu cérebro se deteriorar

A norte-americana Jill Bolte Taylor descreve em livro sua experiência com o derrame que sofreu aos 37 anos


Jill Bolte, 49, que dá aulas de neuroanatomia


Às 7h de uma manhã de inverno, Jill Bolte Taylor acordou com uma forte dor de cabeça. A luz do sol ofuscava seus olhos. Ao ir até o banheiro, notou certa dificuldade para se equilibrar. Além disso, seu raciocínio estava confuso. Ainda assim, conseguiu tomar banho e se vestir. Só quando seu braço direito ficou paralisado, entendeu: estava tendo um derrame.
Neuroanatomista do Banco de Cérebros de Harvard, Jill passou as quatro horas seguintes observando a própria deterioração cerebral. O processo afetou linguagem, memória e movimentos -e a levou ao "nirvana". Era dia 10 de dezembro de 1996, e Jill tinha 37 anos. Neste ano, ela galgou a lista de mais vendidos nos EUA com o relato de sua recuperação -"A Cientista que Curou Seu Próprio Cérebro" (Ediouro).
O nirvana de Jill decorreu de especificidades de seu AVC (acidente vascular cerebral). Ela teve uma hemorragia no lado esquerdo do cérebro, ligado ao raciocínio lógico. Com o dano, prevaleceu o lado direito, mais abstrato e emocional. O resultado, conta, foi a suspensão da noção de tempo e a sensação de união com o universo.
Nesse ínterim, teve algumas "ondas de clareza". Numa delas, lembrou o telefone da mãe, mas não quis preocupá-la. Então ficou esperando outra "onda" que lhe permitisse lembrar o telefone do trabalho. Quando conseguiu ligar, descobriu que não sabia mais falar. Por sorte, reconheceram sua voz.
"Não senti medo", disse Jill à Folha. "Eu era uma cientista vendo meu cérebro avançar nesse processo incrível de deterioração e não previ que ficaria tão doente. E, quando chegou a hora em que eu poderia morrer, senti uma profunda paz."
A sensação era tão prazerosa que ela diz ter se questionado sobre o benefício da recuperação -o simples ato de ligar uma palavra à imagem mental certa levava horas e a deixava esgotada. O que a motivou a deixar a "divina serenidade" e encarar a reabilitação foi o desejo de ensinar aos outros como atingir a mesma tranqüilidade.
O que Jill propõe é uma forma de aquietar o lado esquerdo do cérebro para aproveitar as vantagens do lado direito.
Uma de suas estratégias consiste em focar a atenção em aspectos sensoriais (como aromas e sons) para se prender ao presente. Outra dica é orar e meditar. No livro, Jill cita um estudo que relaciona a neuroanatomia a experiências espirituais. A pesquisa avaliou praticantes de meditação e freiras e constatou que essas práticas reduziam a atividade de certas áreas do lado esquerdo.
"Nossa habilidade de experimentar a religião e a fé é baseada no cérebro. Quando os neurônios são ativados ou inibidos, experimentamos a união com algo maior", afirma Jill.

Críticas
Pelo tom de auto-ajuda, o discurso atrai críticas. "Há cientistas com a cabeça fechada que estão interessados em discutir a ciência no livro, mas não há uma ciência nova lá. Só uma vivência que condensa o que já se sabe", diz Jill.
Para ela, um dos melhores "remédios" foi o sono. Nas primeiras semanas após o AVC, sua rotina consistia em dormir por seis horas, passar 20 minutos acordada, tentando alcançar algum avanço cognitivo ou físico, e dormir de novo.
Ela também destaca o estímulo que recebeu da mãe nas atividades do dia-a-dia: perguntas cujas respostas eram "sim" ou "não" foram substituídas por questões de múltipla escolha, para que a filha precisasse elaborar uma resposta. "Embora saibamos muito sobre o cérebro, acho que temos um trabalho relativamente pobre na reabilitação cerebral", afirma Jill. "Não honramos o poder curativo do sono. Nos EUA, é comum acordar os pacientes cedo, dar-lhes anfetaminas e empurrá-los para um local repleto de estímulos, com TV ou rádio ligados. Meu cérebro queria dormir justamente para não ter de processar a estimulação excessiva."
Outro erro comum, a seu ver, consiste em dizer aos pacientes que a recuperação pára após os primeiros seis meses. Jill só voltou a fazer operações matemáticas, por exemplo, cinco anos após o trauma.
Hoje, ela dá aulas de neuroanatomia na Universidade Indiana e retomou uma atividade: a de "cientista cantora". A alcunha surgiu quando Jill iniciou uma campanha em prol da doação de cérebros para pesquisa. Como o tema deixava as pessoas tensas, ela tentava descontraí-las passando a mensagem por meio de músicas.
Seu interesse sobre o cérebro tem uma origem familiar. Com um irmão portador de esquizofrenia, ela queria entender como ele pensava. Acabou entendendo mais sobre si mesma.

Amarílis Lage da reportagem local,Folha de São Paulo


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quarta-feira, outubro 08, 2008

Samsara

Praticar o Zazen, é a maneira de não permitir que os carmas da cultura do pensamento humano, manifestados também nas chamadas relações psicológicas cimentados na ficção social, se estagnem em nosso corpo-mente.
É manter apenas a Origem Criativa do Dharma.
Em todo aqui e agora.
.

Representação do Patriarca Zen, Bodhidharma.

quinta-feira, setembro 25, 2008

SENTENCIADO À MORTE

Antes de ser um monge, Zhijue era um oficial do governo, justo é sábio.Uma vez servindo o imperador como administrador provincial, sem falar nada a ninguém, usou
dinheiro publico para ajudar os pobres.Outros oficiais descobriram isto e contaram ao
imperador, que ficou muito surpreso.Ele e outros oficiais da corte ponderaram porque Zhijue havia feito tal coisa. Ainda assim era um crime grave e foi sentenciado à morte.
Na condenação, no entanto, o imperador disse aos seus ministro,Ele é um academico e sábio. Talvez tenha profundas razões para ter cometido tal crime. Se ele se lamentar e vacilar quando for decapitado, vá em frente e o mate. No entanto, se não, deve ter razões para isto e não deve ser executado.
o dia da execução chegou. Os oficiais iam decapitar Zhijue. Mas não parecia se lamentar. Ao contrário,parecia feliz e disse, "Dou minha vida terrena para todos os seres viventes. "Ouvindo isto, os oficiais ficaram surpresos e em dúvida. Ao reportarem ao Imperador, ele disse, "Como pensei, ele deve ter profundas razões."
Quando interrogado da razão de ter cometido o crime, Zhijue respondeu, "Abandonando minha posição de oficial, sacrificando minha vida e dando ajuda aos outros, fiz do ensino Budista o meu fundamento e adotei um coração de compaixão para todos os seres vivos. No próximo mundo serei um monge e me devotarei completamente ao caminho Budista."
Ao ouvir isto, o imperador ficou profundamente comovido e anulou sua sentença pedindo-lhe que se tornasse um monge e adotasse o nome Yanshou porque seu tempo de vida (shou), foi extendido (yan).
Monges hoje devem ter a atitude que Zhijue demonstrou. Não ligando para suas vidas devem ter profunda compaixão pelas pessoas. devem se determinar para usar suas vidas de acordo com os ensinos de Buda.
Aqueles que tiveram esta atitude devem mantê-la. Sem experimentar esta atitude, é impossível se iluminar para o Dharma.

Shõbõgenzõ Zuimonki (vol. 2, seção 9).
Caminho Zen ( Vol.7, N° 1. 2002)

Sempre aberta

Se a mente não está presa pelas bordas
então o zen não é japonês e é brasileiro
sem ser ao mesmo. Não importa se comemos
susshi, usamos samuê ou entoamos sutras
na lingua do Nihon.

Pergunte ao sol, e ele responderá
com um caloroso silêncio.

domingo, setembro 21, 2008

Ser cósmico


Mesmo sabendo que o sol nascerá sempre
porquê ele nunca se põe, e que à noite,
o brilho prateado da lua ainda é sua luz.
Mesmo assim posso ficar triste.
Mas apenas uma tristeza de lua nova,
uma alegria de lua nova.

quinta-feira, setembro 18, 2008

Fonte


Na prática do sesshin ficamos livres para reconhecer nossa própria força de uma maneira profundamente nova, insuspeita.

sábado, setembro 06, 2008

Sesshin Especial

Sesshin Especial de Treinamento de Monges
Superintendência da Escola Zen Soto da América do Sul

Estará acontecendo de 6 a 10 de outubro no Templo Enkoji (Itapecerica da Serra – SP) sesshin especial, dirigido principalmente a monges dos grupos representativos em toda a América do Sul. Tem como responsável pelas atividades o Superior Dosho Saikawa, Superintendente da Escola Zen Soto da América do Sul. Inúmeros missionários (Fukyoshi) estarão auxiliando durante o curso.
Tem como objetivo a atualização e aprimoramento dos monges no que se refere às atividades formais da tradição budista Zen Soto. Inclui-se nesta a realização de cerimônias (Chôka, Nichu Fugin, Banka Fugin. Rakanpai, Ryaku Fusatsu e outros), a utilização de oryoki (tigelas), a recitação formal das orações durante as refeições (em japonês), as prostrações (sanpai), o uso correto do zagu etc.
As inscrições devem ocorrer antecipadamente no Templo Busshinji, São Paulo, com o pagamento de uma taxa de R$ 200,00. Durante o acontecimento haverá instalações para a acomodação dos interessados. Deve-se levar cobertor, lençol e chinelos, além dos objetos de uso pessoal. Se o interessado não puder participar diariamente das atividades o valor pago integralmente será mantido.
A condução será fornecida pela organização, levando e trazendo os inscritos do Templo Busshinji para o Templo Enkoji e o contrário.

Fone: (011) 3208-4515 - Templo Busshinji

domingo, agosto 31, 2008

terça-feira, agosto 26, 2008

Zazen ao ar livre

Os mestres do passado meditavam sob árvores. Em cavernas, à beira de um regato, sentados em pedras ou pilhas de folhas secas. Desde Buda Shakiamuni os mestres são unânimes em ensinar: deve-se praticar aqui e agora, sem distinções ou delongas.

Hojes as grandes cidades são lugares complexos em que se vive separadamente, com raras experiências comunitárias. Com isso, a rede que une todos os seres não é percebida e muitas pessoas vivem uma vida de insatisfação.

Na prática da meditação zazen não se rejeita ou se retém nada, momento após momento, sem dar preferência a uma ou outra coisa. O que quer que surja na mente, deixamos que venha, deixamos que vá.

Ao ar livre, sentar, praticar, limpar o local e seguir. Nada para levar, nada para deixar.

“Purifique a mente junto a um regato ou sob uma árvore.
Observe a impermanência sem descanso,
isso irá encorajá-lo a buscar o Caminho.”

(Keizan Zenji, Zazen Yojinki)

Instruções e prática (durante o inverno):

Domingos, às 10:00. Em caso de chuva, não há prática.

Praça Barão Pinto Lima – conhecida como Praça do Boaçava
(na praça, dirija-se ao lado oposto ao das quadras, onde há uma grande paineira)

Informações:


9911.7469 (Monge Koun)




Poesia chan

"Por muitos anos de sonhos, deixei o mundo.
Onde encontrar o elixir da imortalidade?
Num mundo confuso e decadente,
Sorrindo, deixo os sutras de lado
E repouso em retiro.
O dragão voltou para o mar,
O tigre foi para as montanhas.

"Os ventos do outono empilham
Levas de folhas caídas.
Eu as varro por mil vezes,
Mas persistem em cair...
Súbito sorrio e me sento confortado:
Que caiam e se tornem cinza por si mesmas!"

Mestre Chan Budista Nan Huai Chin

quarta-feira, agosto 13, 2008

Zafu

O zazen é simples e difícil. Não se trata de uma técnica complicada, que exige um elaborado sistema. Por isso muitos logo se desinteressam pela sua prática. Na verdade, não há atividade mais simples. Bodhidharma pôde ensiná-la sem palavras e assim ocorre até hoje. Mas é difícil. É importante que, terminado o zazen, os zafus sejam arrumados adequadamente. Devem ser colocados cuidadosamente ao lado dos outros, alinhados na estante, com as fitas brancas também alinhadas. Em casa, o mesmo deve ser feito. É muito simples deixar os zafus arrumados, mas muito difícil também. Deixá-los de qualquer jeito, bagunçados, é fácil. Mas bastante complexo.

segunda-feira, agosto 11, 2008

domingo, agosto 10, 2008

A sombra no espelho



Sou,
volkswagen, óleo de soja, amendoeira, creme nívea, coca-cola, jesus cristo, maionese, manjericão, meu cachorro da adolescência chamado rostof, minha mãe, fantástico o show da vida, micro organismos, pasta jóia, Itapemirim, sorbato de potássio, jonh lennon, plebe rude, plaza, maconha, novalgina, nossa senhora, bilhete único, buda, topogígio, aspirina, plano collor, guerra fria, kichute, kibon, cimento, vaselina, sol, fungos, meu pai, meu irmão, suco de uva, carnaval, estresse, varig, brasil, japão, beirute, flauta doce, emorróida, condicionador, sinal de trânsito, caramelos, couve-flor, ácido ascético, estômago, índios na tv, mundo virtual, física quântica, tatu bola, rios subterrâneos, carimbo no correio, minha mulher, adidas, zen, monge, ketchup, felicidade, música, bomba, fome, mendigo, ibiscus, corrupção, maldade, herói do terremoto chinês, sabedoria cósmica, xampu anti-caspa, mercedez bens, basquiat, pequena lacraia no meu tênis, corredor vazio, sesshin, mala postal, dúvidas mil, copa do mundo, a filhinha dos meus vizinhos, sabor azedo, poste de luz, mariposa amarela, o gato ordenado, poluição, rio tietê, lavoura arcaica o filme, tambor, celular, blog, sanghamargha, motoboy sangrando, hélice de helicóptero, raiva passageira, uísque, violetas no necrotério, Jorge Bush, guerra, dente-de-leão, salvador, quanta estupidez, vaidade, centauro, canequinha de chá, saudades, vinho tinto, refri, hóstia, revolução agrária, suicídio, shikan taza, coragem, lua, buraco negro, avenida paulista, ilha, sal grosso, gillette, honda, hermafroditas, hábitos, vícios, mudança, lantejoulas, vídeo, serial killer, ondas, desejos, sexo, espinafre, popai, labirintite, maha prajna, caminho óctuplo, ...

sou o caminho correto, pronto dentro de mim, à espera da minha inteligência, sou os pés da minha iniciativa, aqui, agora.

sábado, agosto 02, 2008

Flávio Jôshin,


Nossas ondas de tristeza

por tua partida tão rápida,

se dissipam ao encontrarem

as ondas de alegria de nosso

samadhi atualizado em Shikan taza.


Nossa prática espelha tua prática.

Vai sereno, segue tua carta náutica.

Atravessa as ondas que jogam a mente

pequena de um lado para o outro como numa 

tempestade em alto mar.


Felipe, amigo, segura-te firme ao leme!!!

sexta-feira, agosto 01, 2008

Shikan Taza


"Logo que Dogen chegou à montanha Tiantong (China), seu professor e companheiro de viagem, Myozen, morreu. Dogen continuou a participar do rigoroso programa de treinamento Zen, no monastério de Rujing. De acordo com o Registro da Era Baoqing, Rujing ensinava que estudar o Zen é 'abandonar corpo e mente' e que os estudantes não deveriam se comprometer com outras práticas tais como recitar o nome de Buda, entoar sutras ou manter ritos de arrependimento. Ele ensinava um método de meditação chamado Zhigan dazuo (agora melhor conhecido, na sua transliteração japonesa, por Shikan taza) - uma meditação de postura sentada de mente-única simples, em que não se tenta resolver questões ou atingir a percepção."

do livro A Lua numa Gota de Orvalho

quinta-feira, julho 24, 2008

Sangha Margha


O questionamento budista parte de um ponto que teria intrigado Sidharta, quando de sua saída do palácio, ganhando as ruas. Deparou-se ele com o sofrimento. Assim, teria surgido o Aryasatya, quer dizer, as Quatro Nobres Verdades. São elas, Duhkha, o sofrimento existe; Samudaya, o sofrimento que existe tem uma causa; Nirodha, detectado uma causa, pode-se acabar com ela, cessar; e, finalmente, Margha, o Caminho do não sofrimento. Seria este o Caminho do Dharma, o do praticante da verdade, o que corresponde a todos os alunos das inúmeras escolas e tradições do budismo.

Fotos de Michel Cunha. Sesshin de Inverno da Sangha de Florianópolis.

terça-feira, julho 22, 2008

Natureza Original

"Todo Prajna vem da Essência da Mente e não de uma fonte exterior. Não tenham a noção errada sobre isso. Isto é chamado "Auto-usufruto da Natureza Original". Uma vez que o Tathata (aquilo que é, a Essência da Mente) é conhecido, a pessoa estará livre da delusão para sempre."

Daikan Eno

quarta-feira, julho 02, 2008

1+1=1

"Quando nosso espírito se acha livre de peias - e não cogita do bem ou do mal -. é preciso não abismar-se no vazio puro e assumir a imobilidade da morte. Melhor esforçar-se para ampliar o saber e os conhecimentos a fim de alcançar a consciência do próprio espírito e compreender a fundo o ensino essencial de todos os iluminados. Deve-se cultivar um espírito de harmonia simpática com os outros e banir a idéia paralisante do ''eu" e do "tu" até chegar à completa iluminação e à plena consciência de sua verdadeira natureza - que é imutável."
Huei-Neng
Fonte: site Shunya

segunda-feira, junho 30, 2008

Sangha de Floripa

A sangha de Florianópolis reunida em mais um retiro, no último mês de maio, em Cachoeira do Bom Jesus.




"Abandonei mente e corpo. Por pensar que tenho corpo e mente, é que me sinto só; mas quando percebo que tudo é apenas uma centelha na vastidão do universo, me sinto muito forte e minha existência, plena de significado. Esta é a nossa prática."

Inspirada nos textos de Shunryu Suzuki. /\;
Michel V. Cunha.

sexta-feira, junho 27, 2008

Fazer o bem, não fazer o mal. Manter a mente pura.

Esta história me fez lembrar um dos preceitos budistas, expresso no título desta postagem. Seria possível fixar as regras do bem e do mal? Não estariam estes dois conceitos sujeitos á lei da impermanência? Como propõem os mestres, buscamos a sabedoria dentro de nós mesmos através do descondicionamento da mente, indo além do bem e do mal.

Acompanhe a seguir:

Ativistas tentam libertar indiano preso por fazer de urso animal de estimação



Associated Press
Em Nova Déli (Índia)

Era para ser um conto de fadas de um homem que tirou das florestas do leste da Índia um urso órfão e o levou para casa para criá-lo como parte de sua família, consolando a filha pequena que havia acabado de perder a mãe. Mas quando funcionários de uma entidade do governo indiano conheceram a história na imprensa indiana, na última semana, o conto de fadas dissipou-se.

Ram Singh Munda, 35, foi preso por violar leis do país, que proíbem a domesticação de animais selvagens; o urso foi enviado a um zoológico onde tem se recusado a comer e a filha, de seis anos, foi mandada de navio a um orfanato estatal.

Agora, ativistas de defesa dos animais, impressionados pelo ato de Munda, estão protestando por sua liberdade. "Condenamos fortemente a maneira como os funcionários do departamento florestal prenderam o pobre analfabeto que não sabia da legislação do governo", disse nesta terça-feira Jiban Ballav Das, chefe do grupo "Pessoas pelos Animais" da província de Orissa.

Munda, um trabalhador que pertence a uma tribo indígena que mora na floresta 200 quilômetros ao norte da capital da província, Bhubaneswar, disse que encontrou o filhote de urso no ano passado quando recolhia gravetos.

Ele levou o urso, chamado Rani ("Rainha", em português), para casa e fez dele seu animal de estimação.

Imagens de TV gravadas antes da prisão mostram o urso brincando com a filha de Munda, Dulki, enquanto tentam subir na traseira da bicicleta do indiano.

Se for condenado, Munda pode ser condenado a até três anos de prisão. "Eles me prenderam. Como minha filha sobreviverá?", disse Munda a uma subsidiária da rede americana CNN enquanto era levado para a prisão. "Não entendo porque fui punido por cuidar de um urso que havia sido abandonado na floresta e que teria morrido se eu não o tivesse trazido para casa".

O diretor do zoológico de Nandan Kanan, para onde Rani foi levado, defendeu a decisão do governo. "Munda foi preso em respeito a uma lei que tem como intenção proteger a vida selvagem", disse.

Entretanto, o ativista Jiban Das afirma que apesar de condenar a retirada de animais do meio selvagem, apóia a atitude de Munda de tentar recuperar o urso e diz que o governo está sendo muito rigoroso. "Ele nunca torturou o animal, nunca o utilizou para propósitos comerciais. Portanto, não deveria ser preso", disse Das.

No zoológico, Rani está em uma jaula isolada e está se recusando a comer. "Os ursos desenvolvem grandes laços com os seres humanos e são muito ligados a seus tratadores", disse Biswajit Mohanty, secretário da "Sociedade para a Vida Selvagem" de Orissa.

Já Das afirma que Munda ganhará um emprego assim que for solto. "Decidimos dar a ele um emprego em nosso centro de reabilitação de animais".

quarta-feira, junho 25, 2008

Sim, não há fronteiras


Mestre Saikawa prepara-se para o zazen.

"Cada vez mais a vida numa cidade grande, como São Paulo, vem enfrentando as conseqüências de seu próprio crescimento. Há falta de transportes e, por ironia, aumenta o número de veículos domésticos nas vias públicas. Não somente isso, a poluição principalmente nos dias de inverno torna o ar denso e não apropriado para a inalação. Sem contar a quantidade de pessoas que trafegam pelas ruas, muitas delas em situação crítica: desemprego, sub-emprego, aposentados, marginalizados e policiais.

Rostos anônimos que desconhecem a amizade e qualquer tentativa de aproximação pode ser vista com desconfiança. Neste caldeirão social que ferve com todos os seus conflitos, sem que possa resolver os problemas, repartimos a geografia física. São Paulo é uma grande bolha espacial e psicológica. Pela manhã a correria nos pontos de ônibus, estações de metrô e pedestres calcando o chão ainda fresco de uma noite nem sempre calma. Após horas de labuta, antes que anoiteça o processo se repete: a multidão se forma. E assim, um dia se foi. São Paulo está condicionado a produzir sempre, independente das condições emocionais de seus habitantes.

Em cada rua trafegada, as marcas dos pés acabam deixando rastros invisíveis e impregnados de sentimentos. As vozes abafadas do centro continuam ecoando no silêncio da alma. São Paulo não cessa de respirar uma única vez. No avançar da noite, outros ocupantes vão se dispersando como saídos de seus ninhos protegidos pelos murais de concreto: seres fluidos usando roupas espaciais em constante metamorfose.

Qualquer tentativa de reverter esta situação nos parece duvidosa. Entretanto, aquiescermos diante das condições apresentadas seria irônico. Levando em consideração a quantidade energia desencontrada, devido a sua diversidade de interesses, classes e padrões culturais, o que converge é justamente a ocupação territorial. Todos somos paulistas apesar das diferenças. O que se pode fazer então? Criar condições para a criação de harmonia. E podemos falar em harmonia quanto existe justamente a diferença. Se a diferença existir enquanto diferença apenas, a harmonia não poderá se fazer presente. Mas a convivência na diferença, penetrando nos meandros de sua aparente contradição faz surgir a harmonia e conseqüentemente a compaixão.





Método
Acreditando que o mundo ocorre numa rede de interdependência, na qual uma ação ou não ação acaba repercutindo em todos os cantos, a atuação proposta é a meditação vazia (zazen) realizada no alto de um edifício na cidade de São Paulo. Ficar em postura meditativa com a mente alerta é capaz de produzir a harmonia desejada. De maneira objetiva não vai resolver os problemas da grande metrópole mas subjetivamente, através da sintonia entre as mentes, uma calma poderá surgir. Na verdade, a mente de todos os habitantes desta metrópole, 12 milhões, são uma mente única. Desencadear uma reação harmoniosa só é possível quando uma parte mínima desta mente provoque um choque em rede."
Texto: Jisho


Seigen, Saikawa Roshi, Jisho e Wajun no dia 20/06.

terça-feira, junho 17, 2008

Gratidão



Esmaece a foto
do ascendente samurai.
Início de outono.
Wajun

dia de outono
floresce nos trópicos
o Dharma de Buda
Koun

Gente do Nihon
trazem frutos e raiz.
Como sou grato!
Seigen

No jardim do tempo
um canteiro semeado.
Incontáveis mãos
Wako

Na ponta da enxada
nas costas do agricultor
o grilo passeia.
Jisho

100 anos de imigração japonesa no Brasil. Domingo passado fizemos juntos, monges e praticantes leigos do Busshinji, uma pequena homenagem aos imigrantes japoneses, que atravessaram e ainda atravessam o mundo para enriquecer nossa vida com sua cultura. Permitindo assim que o Zen chegasse até nós.

Na foto acima, vê-se à direita o pai do Jisho, ainda rapaz numa plantação de algodão no interior de São Paulo.

segunda-feira, junho 09, 2008

Transmissão


A mente do grande sábio da Índia estava intimamente ligada de leste a oeste.
Entre seres humanos, há sábios e tolos, mas no caminho não há patriarcas do sul ou do norte.
A fonte sutil é clara e brilhante; os rios ramificados fluem através da escuridão.
Estar apegado às coisas é ilusão; encontrar o absoluto ainda não é a iluminação.
Um e todos, o sujeito e o objeto estão relacionados e, ao mesmo tempo, são independentes.
Estão relacionados, mas funcionam diferentemente,
apesar de cada um manter o seu próprio lugar.

A forma faz com que o caráter e a aparência sejam diferentes;
os sons distinguem o conforto e o desconforto.

A escuridão faz todas as palavras serem uma; o brilho distingue frases boas e más.
Os quatro elementos retornam à sua natureza assim como uma criança retorna à sua mãe.

(Sekito Kisen, Sandokai)

domingo, junho 08, 2008

Textos e autores

A prática fundamental do Zen é o Zazen, que literalmente significa “meditação sentada”. Dentro da linhagem Zen, podem ser distinguidas duas formas de praticar o Zazen: Shikantaza (apenas sentar) e Koan (meditação sobre um caso). Na linhagem Soto Zen pratica-se tradicionalmente o Shikantaza. Por isso, em textos e nos ensinamentos da Soto Zen, quando se fala em Zazen quer-se referir ao Zazen Shikantaza.

A prática do Zazen Shikantaza remonta à iluminação de Buda Shakyamuni, que se deu há mais de 2500 anos, na Índia. Transmitida de mestre a discípulo face a face, foi levada da Índia para a China por Bodhidharma, por volta do século V d.C. No século XIII, Dogen Zenji viaja do Japão à China, onde a aprende com seu mestre Tendo Nyojo, disseminando-a posteriormente ao retornar a seu país.

Por ser substancialmente uma experiência concreta, realizada e transmitida com o próprio corpo, e não uma doutrina teórica, são poucos os textos clássicos que abordam o Shikantaza. Entre os mestres chineses encontram-se ecos de menções a essa prática em alguns poemas, que se referem a ela como “Iluminação Silenciosa”. É Dogen Zenji que adota e estabelece a denominação Shikantaza: apenas sentar. Em seus textos Dogen e outros mestres geralmente se referem ao Shikantaza simplesmente como Zazen.


Dogen Zenji (1200-1253)

Dogen Zenji é o fundador da linhagem Soto Zen no Japão.
Em 1225 empreende viagem à China, onde, sob orientação de seu mestre Tendo Nyojo, aprende o Shikantaza (nome que Dogen atribui à prática da “Iluminação Silenciosa”, que seu mestre ensinava) e logra alcançar a iluminação.
Ao retornar ao Japão, compõe Fukanzazengi e outros textos em que apresenta instruções e aspectos do Shikantaza.

Fukanzazengi
Zazengi
Zanmai-Ozammai
Zazenshin

Koun Ejo (1198-1280)

Koun Ejo foi discípulo de Dogen Zenji. Em Komyozo Zanmai, apresenta orientações e advertências sobre o Zazen Shikantaza.

Komyozo Zanmai

Keizan Zenji (1268-1325)

Keizan Zenji também é considerado, ao lado de Dogen Zenji, fundador da linhagem Soto Zen no Japão. Em seus textos sobre o Zazen Shikantaza, Keizan reforça as instruções de Dogen e acrescenta outras orientações.

Zazen-Yojinki
Sankon zazen setsu

Hongzhi Zhengjue (1091–1157)

Hongzhi Zhengjue foi um importante mestre chinês que ensinou no mosteiro do Monte Tiantong, onde anos mais tarde Dogen Zenji encontraria seu mestre. Hongzhi é responsável pela formalização em texto da prática da “Iluminação Silenciosa”, que Dogen posteriormente denominaria Shikantaza.

Iluminação silenciosa
Cultivando o campo vazio


Sekito Kisen (700 - 790)

Sekito Kisen foi discípulo do sexto patriarca na China. Em Soanka, Sekito apresenta importantes observações e instruções sobre o Zazen Shikantaza.

Soanka

Soto Zen Shu

A Soto Zen Shu representa a linhagem Soto Zen oriunda de Dogen Zenji. Presente em inúmeros países atualmente, tem sua sede no Japão, onde se encontram os dois templos-sede: Eiheiji e Sojiji. Em suas publicações, assim como em seu website, são apresentadas orientações sobre como praticar Zazen.

Guia com imagens

quarta-feira, junho 04, 2008

Após derrame, neurocientista alcança "o nirvana"

A neurocientista Jill Bolte Taylor trabalhava no centro de pesquisa cerebral da Universidade Harvard quando chegou ao nirvana. Mas o fez tendo um derrame. Em 10 de dezembro de 1996, Taylor, que então tinha 37 anos, acordou em seu apartamento perto de Boston com uma dor penetrante por trás do olho. Um vaso sangüíneo havia estourado em seu cérebro. Em poucos minutos, o lobo cerebral esquerdo - a fonte do ego, da análise, do juízo e do contexto - começou a falhar. Estranhamente, a sensação era ótima.

» Após derrame, idoso reaprende a falar cantando
» Estudo: chochilos diários indicam risco de derrame
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» Fórum: opine sobre a experiência de Jill

O ruído incessante que costumava ocupar seus pensamentos desapareceu. As preocupações cotidianas de sua vida - sobre seu irmão esquizofrênico e seu emprego desgastante - romperam as amarras e se foram. E suas percepções também mudaram. Ela começou a perceber os átomos e moléculas de seu corpo e como eles se combinavam com o espaço que a cercava; o mundo todo e as criaturas que ele contém eram todos parte do mesmo, e magnífico, campo de energia reluzente.

"Minha percepção das fronteiras físicas deixou de estar limitada ao contato de minha pele com o ar", escreveu Taylor em My Stroke of Insight, seu livro de memórias, que acaba de ser publicado. Depois de experimentar dor intensa, ela afirma, seu corpo se desconectou de sua mente. "Eu me sentia como um gênio libertado da garrafa", afirma no livro. "A energia do meu espírito parecia fluir como uma grande baleia percorrendo um mar de euforia silenciosa".

Enquanto seu espírito ascendia, seu corpo lutava pela sobrevivência. Ela tinha um coágulo do tamanho de uma bola de golfe no interior da cabeça, e sem o uso do hemisfério esquerdo do cérebro, ela perdeu funções analíticas como a capacidade de falar, de compreender números ou letras e, inicialmente, até a de reconhecer sua mãe.

Um amigo a levou ao hospital, onde passou por uma cirurgia, seguida por oito anos de recuperação. O desejo de contar aos outros sobre o nirvana, conta Taylor, a motivou fortemente a reintroduzir seu espírito no corpo e se curar.

A história de Taylor não é comum entre os pacientes de derrames. As lesões no lobo esquerdo do cérebro em geral não conduzem a uma prazerosa iluminação; as pessoas muitas vezes afundam em um estado de irritabilidade constante, e perdem o controle de suas emoções. Taylor também foi ajudada pelo fato de que o hemisfério esquerdo de seu cérebro não foi destruído, e isso provavelmente explica porque ela conseguiu se recuperar plenamente.

Hoje ela se diz uma nova pessoa, capaz de "penetrar a consciência de meu hemisfério direito" sempre que assim deseja, e de ser "uma com a totalidade da existência". E ela diz que isso nada tem a ver com a fé, e sim com a ciência. Taylor oferece profunda compreensão pessoal a algo que havia estudado por muito tempo: a grande diferença entre as personalidades das duas metades do cérebro.

O hemisfério esquerdo em geral nos fornece contexto, ego, tempo, lógica. O hemisfério direito nos oferece criatividade e empatia. Para a maioria das pessoas de fala inglesa, o hemisfério esquerdo, que processa a linguagem, é dominante. A percepção de Taylor é que isso não tem necessariamente de ser verdade.

A mensagem dela, a de que as pessoas podem escolher viver uma vida mais pacífica e espiritual deixando de lado a porção esquerda do cérebro, atrai muita gente.

Em fevereiro, ela palestrou na conferência TED, sobre tecnologia, meio ambiente e design, um fórum anual para a apresentação de idéias científicas inovadoras. O resultado foi eletrizante. Depois que sua palestra de 18 minutos foi postada no site da TED, ela se tornou uma espécie de celebridade instantaneamente.

Mais de dois milhões de pessoas assistiram ao vídeo, e mais de 20 mil ao dia continuam a fazê-lo. Ela também concedeu uma entrevista veiculada no site de Oprah Winfrey e foi escolhida como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2008, pela revista Time.

Também recebe mais de 100 e-mails de fãs ao dia. Alguns deles são cientistas especializados no estudo do cérebro, fascinados com o fato de que uma colega tenha sofrido um derrame e agora tenha podido retornar e traduzir essa experiência nos termos que eles estão acostumados a empregar. Outros são vítimas de derrames ou profissionais de saúde que trabalham nessa área, interessados em contar suas histórias e em agradecê-la pela franqueza.

Mas muitos dos que a procuram têm interesse em fenômenos espirituais, especialmente budistas e praticantes de meditação, para os quais a experiência pela qual ela passou confirma sua crença de que existe um estado de alegria ao qual se pode chegar.

Taylor decidiu estudar o cérebro - e obteve um doutorado em ciências com especialização em neuroanatomia -, porque seu irmão enfrentava uma doença mental e sofria ilusões de que estava em contato direto com Jesus. E de seu antigo laboratório de pesquisa em Harvard, ela continua a falar em defesa das pessoas mentalmente doentes.

Mas reduziu sua carga imensa de trabalho. Ela vive em beco arborizado a alguns minutos de distância da Universidade de Indiana, onde fez seu curso de graduação e onde hoje leciona na Escola de Medicina.

O vestíbulo da casa está pintado de uma cor púrpura intensa. Ela recebe os visitantes com abraços calorosos e, quando fala, seus olhos de um azul pálido não se desviam dos olhos de seus interlocutores. Solteira, ela vive com seu cachorro e dois gatos, e não hesita em definir sua mãe, 82 anos, como sua melhor amiga.

Taylor diz que escreveu suas memórias porque acredita que haja muito de aproveitável em sua experiência, no que tange à recuperação de pacientes de trauma cerebral.

Quanto a questões mais sérias, como a paz mundial, ela diz que não sabe como atingi-la, mas acredita que o hemisfério direito do cérebro possa ajudar - ao menos foi o que disse na conferência TED. "Creio que quanto mais tempo usarmos os circuitos de paz de nosso hemisfério direito, mais paz projetaremos no mundo, e mais pacífico será o planeta". Quase parece ciência.

Tradução: Paulo Migliacci ME