sexta-feira, junho 29, 2007

Ajuda Social

Por iniciativa de um praticante das 2a.feiras, resolvemos arrecadar leite em pó a fim de ser doado para a Cruz Verde. Muitos colaboraram, depois de alguma insistência. Não temos costume ainda de ajudar os outros. Mas como faz parte do primeiro paramitta, dana, a generosidade, incentivamos a prática da doação. Daquilo que arrecadamos, levamos até a Cruz Verde. É uma instituição que cuida de pacientes de má formação celebral. Há crianças nos leitos, totalmente dependentes de aparelhos para receber alimento. Não falam. Nem ao menos têm força para ingerir alimento sólido. O mais velho dos pacientes tem 60 anos e vive numa cadeira de rodas. Alguns deles retornam para as suas casas à noite, outros necessitam permanecer no hospital. E este vive à custa de doações e generosidade da sociedade em geral. Se no começo pensávamos em fazer apenas esta doação, depois de visita, seria uma insensibilidade pararmos por aqui. Assim começa o nossa prática do Dharma, a vivenciar o treinamento budista da compaixão e Iluminação. Prezados leitores, se puderem ajudem alguma casa de assistência social.
Aos membros da sangha local, continuem doando leite em pó para a Cruz Verde. Se puderem roupas usadas para o Hospital do Servidor Público de São Paulo. Muitos pacientes do Servidor, pessoas de parcos recursos, alguns moradores de rua, não impedidos de receber baixa porque não dispôem mais das roupas. Por favor, ajudem-nos nesta campanha.
Também passamos a receber a doação de preservativos, que encaminharemos para as moças da rua Augusta. O problema da saúde pública também é um assunto que nos aflige.
Enquanto praticantes da verdade, não precisamos levantar nenhuma bandeira política. Façamos um pouco daquilo que aprendemos de Buda, dos patriarcas e de nossos mestres e professores.

quinta-feira, junho 28, 2007

Viver, praticar...

Manhã de domingo, seis horas e quarenta minutos.Toco a campainha da casa, sede da Sangha.Sodô sorrindo abre o portão, fechado após o último zazen da noite anterior.Entramos no dojô, fazemos reverências e arrumamos o altar com oferendas a Buda: uma vela acesa, um vaso de flor, um pote com água, um incenso que queima.Os praticantes chegam.Somos sete pessoas, duas, iniciantes.Sodô, nossa postulante a monja, recebe alegremente os praticantes.Aos iniciantes, enfatiza: "entrem, a casa é de vocês."Orienta com paciência como entrar no zendô, como caminhar, como sentar e meditar.Ouço com atenção o que diz e aprendo com suas palavras.Fechamos a porta do dojô e sentamos em zazen.
Faz silêncio lá fora.Pássaros cantam.Cantam lá fora e aqui dentro, no zendô.Somos treinados no zen a ouvir os sons sem indagar -que pássaro canta?sem julgar -é bom, é ruim, sem cogitar -que lindo!Monge Genshõ, nosso professor, nos falou sobre esse tema num sesshin.O tema do pássaro, desde então, tornou-se para mim uma ponte que me auxilia a transpor as armadilhas da mente.Como fazemos?Apenas ouvimos e acompanhamos os sons.Ao seguirmos o som do pássaro cantando, nos tornamos, ainda que por instantes, o próprio pássaro.Cantando com o pássaro somos o pássaro, e isto é tudo; nos desprendemos dos ruídos que vêm da rua.Nos livramos dos corredores apertados de nossas mentes, que insistem em indagar, cogitar, julgar e pensar.Se nos perdemos do som, se nos apartamos do pássaro, recomeçamos outra vez.Uns vivem e praticam mais intensamente, outros menos.Não importa.Nós mesmos de um dia para outro, somos diferentes.Avaliar ou comparar são preocupações que nos ocupam inutilmente.Apenas devemos sentar em zazen e nos esforçar em não perder tempo.Praticar com disciplina e regularidade, sem pretensões.Praticar com uma mente que peregrina sem pretensões no zafu e na vida.E a este ponto sempre retornar, em treinamento contínuo.Nosso único compromisso, como nos ensina Jisho san, é com a verdade.Se não praticamos com esse espírito, mentimos para nós mesmos.Que proveito haveria, se não fosse isso?nenhum, por certo.Se praticamos com espírito comprometido com a verdade, nossa prática é sincera e dela brotam naturalmente energias e forças restauradoras.Nossas vidas tornam-se mais simples.Quase sem sentir, vamos penetrando mais fundo e rasgando as camadas dos véus que encobrem as nossas mentes, nossas mãos, nossas palavras, nossos gestos.A vida começa a se revelar...

quarta-feira, junho 27, 2007

Praticando a renúncia

Pensar em praticar o budismo querendo obter algo em compensação não coaduna com o Dharma. Pelo contrário, a prática em sí é um grande tesouro. Mas quando falamos em renúncia, escondemos a nossa face e preferimos mudar de assunto. Entretanto, budismo é o mesmo que renúncia. Assim agiu o príncipe Sidharta que abandonou os filhos, a esposa, o conforto do palácio, os prazeres da vida, os livros de poesia, os momentos de ócio, os exercícios de guerra e os devaneios espirituais. Abandonou... Se achamos que praticamos o budismo, o quê renunciamos neste momento? Se fazemos zazen, estamos renunciando a porção de coisas. Poderíamos ir ao cinema, aos bares, ao encontro de amigos, ao passeio no shopping center, nas livrarias e nas lojas de vestidos e lingerie. Mas fazemos zazen. Quem não está fazendo zazen neste momento, provavelmente esteja fazendo justamente a uma destas coisas. É uma questão de escolha ou prioridade. Cada um pode fazer a sua escolha, eu quero fazer zazen.
Se o zazen não for o centro de nossa atuação nesta vida curta, para quê, afinal, vivemos. Se não entendemos o sentido da vida. Fazendo zazen fazemos todo o resto como pintura, dança, teatro, ginástica, leitura e produção de textos. Como podemos andar numa carroça isento de eixo e rodas. É mesmo que alguém que faz de tudo mas não sai do lugar, porque não existe o entendimento. O entendimento chega a partir do momento que o eu percebe o próprio "eu" mas não consegue agarrá-lo. Enquanto a renúncia não fizer parte de nossa vida, continuamos iludidos e brincamos de praticar budismo, de sentar-se em zazen. Sem renúncia, não se pratica budismo. E dentre as nossas possíveis renúncias, qual é a que podemos realizar neste momento? Renunciar a acumular coisas é mais fácil do que a renúncia ao nosso orgulho, nosso egoísmo, nossa ignorância. Inclusive, vivemos apegados à própria ignorância. Neste momento, existo somente em função da existência de minha ignorância. Seria cômico se não fosse trágico. Temos medo de renunciar às coisas mais banais de nossa existência como a idéias preconcebidas, a idéias condicionadas, a representações abstratas. Tudo isso são fantasmas, sem consistência. Mas não renunciamos. Nem renunciamos à nossa cara feia de palhaço, pintado com cinismo e sarcasmo. E assim, queremos ter uma cara. Uma cara que não queremos abandonar.
Não podemos falar apenas da renúncia do Bagavat, mas a nossa própria. Ao realizá-la, abrimos caminho para a extinção do sofrimento. Alguns querem continuar sofrendo para manter o apego. Assim, um absurdo do ponto de vista da prática, mas é o que acontece. Sem fazer zazen, não se pode entender o que significam estas palavras...

Zazen andando...

A palavra kinhin significa seguir em frente.

terça-feira, junho 26, 2007

Soto em português



Talvez já conheçam, eu não conhecia esta versão do site oficial da Sotozen em português. Acesse: http://global.sotozen-net.or.jp/por/

Barba, cabelo e massagem

Na barbearia da senhora Kimura, que veio do Japão para plantar algodão em terras tupiniquins, o serviço é diferenciado, proponho que experimente. Primeiro, tudo é feito com muita calma, nada de correria para despachar o cliente o quanto antes, pelo contrário. Pagando por um corte de cabelo (R$ 20,00), o cliente ainda tem direito a uma limpeza de ouvido, massagem com máquina e massagem manual. Antes de sair, um chá. Ninguém sai do mesmo jeito que entrou, garanto! A barbearia fica alí na rua Américo de Campos, quase esquina com a rua Galvão Bueno.





sábado, junho 23, 2007

Esqueçamo-nos do despertar

O zen é um excelente método espiritual, que nos diz que é possível que despertemos agora, neste instante. Isto é muito bom de ouvir.

Esqueçamo-nos, porém, do despertar. Por mais ubíquo, transcultural, interreligioso, possível que seja este despertar, esqueçamo-nos dele, completamente. Nem sequer esquecemos: simplesmente sentemos em shikantaza sem segredos, ilimitado.

Talvez nos levantemos, e carregaremos ou não a esperança do despertar.

Que cara usarei agora

Certa ocasião de minha vida interessei-me a estudar Teatro No, principalmente canto e dramaturgia. Ingressei neste universo mágico no qual a organização se dá através da construção dos diálogos entre o ator principal e o coadjuvante. São inúmeras as categorias das peças como femininas, guerreiras, fantásticas, corriqueiras. Quando se representava um dos papeis, usava-se máscaras. Tinha máscaras de jovens donzelas, guerreiros, velhos e demônios. Ao colocar a máscara, havia apenas o personagem, como que o ator não tivesse mais rosto. Por isso, era bastante comum um atriz fazer o papel de um guerreiro e um ator o de um menino ou ainda o de uma donzela. O ator ou atriz teria justamente o rosto de seu personagem, sem a inteferência de uma possível personalidade daquele que o usava no momento. Bem, personalidade quer dizer máscara. Assim podemos pensar, que aquele que tem uma personalidade está usando uma máscara. Esta máscara é uma representação de um tipo construído com características peculiares a fim de nortear a nossa própria vida. Mas não se trata de nós. Num dia usamos uma infinidade de máscaras ou personalidades.
Dentro deste raciocínio, alguém diz "sou desta forma e não daquele". É o mesmo que "somente uso esta máscara", por que melhor se ajusta às minhas necessidades de auto-preservação. A máscara serve de escudo diante das ameaças enfrentadas no embate social. Por medo, continuamente uso uma máscara ou a troca conforme a situação. Um ator pode ser tudo, ouvi dizer o diretor Antunes Filho. Todas as máscaras são possíveis. Mas acreditar que a máscara é o próprio rosto gera confusões. Não se trata disso.

Meu último zazen

Antes de conhecê-lo, alguém tinha me contado a respeito. Nem ao menos lembro-me de seu nome. Tinha pedido para fazer zazen, cuja prática tinha iniciado em Recife. Como trata-se de alguém iniciante, o normal seria conduzí-lo a fazer junto aos novatos. Mas não ele. Convidei-o a fazer com os veteranos, repartindo um espaço no naitan do zendo. Por uma hora e meia ele sentou-se em zazen, intercalando com um kinnhin de dez minutos. Só depois do yaza desta noite de 4.a feira ele veio até mim e relaxando contou-me a respeito do motivo que o levara a visitar o nosso templo. Assim, contou a sua história. Vinha a São Paulo a fim de submeter-se a uma cirurgia no Hospital 9 de Julho, com grande probabilidade de não conseguir sobreviver. Como num jogo, podia ganhar ou perder. Mas isso não o abalava. Disse-me que a prática do budismo zen e a constante prática do zazen deu-lhe a tranqüilidade suficiente para enfrentar aquela situação. Ele fazia zazen todos os dias, pelo menos nos últimos dois anos. Não havia revolta alguma em suas palavras. Ao contrário. A sua vida tinha sido muito bem vivida, constituindo família e emprego estável. Ele era feliz, confidenciou-me.
Enquanto ele fazia zazen percebi que ficaram esperando a esposa, a mãe e filhos na área de espera.
Após dizer tudo aquilo, o que eu poderia dizer mais? Só refleti a respeito. Ao final, ele se despediu de mim com os olhos de profundo agradecimento. "Eu voltarei aqui para novamente fazer zazen com você, caso sobreviver. Mas se não vier, talvez possamos nos encontrar um dia no outro lado?" brincou com a própria situação. Pedi que ele registrasse o seu nome no nosso livro de comparecimento. Desconheço o seu nome, de alguém que conheci por dez minutos e me revelou o valor da vida. Claro, ele não voltou. Não liguei ao hospital para saber do acontecimento.
Tudo aquilo se passou como um flash de cinema, ou realmente foi verdade? Quem sabe, devemos praticar como fosse o último momento de nossas vidas. Se praticamos assim, podemos, inclusive perdoar as nossas desavenças. Admitir ter desavenças, em si, é sinal de falta de prática. Sem querer, acabamos magoando alguns mais sensíveis, outros menos sábios, e assim o sentimento de comiseração acaba corroendo o próprio magoado e o causador. Possamos então arrependermos de nossas atitudes de agressão, ainda que não tenha sido causado intencionalmente. Acima de tudo, que a nossa prática seja verdadeira: nada para esconder. Se esta tentativa obter sucesso, então estaremos no caminho certo.

sexta-feira, junho 22, 2007

Barbearia Kimura



Jisho, realmente lhe chamei para criar uma maior proximidade por causa da lingua, já que haviam me dito que o dono da barbearia não falava bem português, o que iria atrapalhar minha negociação e servir como álibi ao contrário, digamos assim, para ele provavelmente não me dar muita atenção. Pensei, vou levar um amigo que fala japonês e que, de quebra é monge, claro que eu sabia que isso poderia ser um apelo também, mas o mais importante era a familiaridade no idioma. Levei também as fotos que havia tirado no último Rohatsu Sesshin numa tentativa de "provar" que minhas intenções eram sérias. Foi assim que me preparei para o momento em que a "mágica" poderia acontecer, e aconteceu. Depois de aprovada a minha permanência na loja para as fotos, eu queria voltar no dia seguinte, mas Jisho insistiu no "aqui agora", muito bom! Fiquei, das nove da manhã até as onze e meia, depois voltei a tarde, com uma bandejinha de doces comprada por perto - conselho de Jisho - e fiquei das quatro e quinze até as oito da noite. No fim do dia elas começaram a pergutar se eu não ia embora, "Você não está cansado?..." Respondi: "Vocês também não estão aqui (trabalhando)?" Fui ficando, aprendi que para se conseguir boas imagens temos que ser os primeiros a chegar e os últimos a sair. O último cliente saiu e a dona do estabelecimento olhou séria para mim, "Agora acabou!", eu ainda queria fotografá-la se arrumando para ir embora, não deu, fui embora exausto e feliz, com quase 600 fotos.



A foto acima foi feita às seis da tarde num momento de pausa, pode-se ver ao fundo uma funcionária de um boteco vizinho que foi na barbearia fazer um lanche com as amigas. A senhora de braços cruzados é a proprietária - está no Brasil há quarenta anos - espera por um próximo cliente. O senhor que toma chá e lê jornal não foi cortar o cabelo nem a barba, apenas entrou, sentou-se no sofá, serviu-se do jornal e foi servido de chá e docinhos. Meia hora depois levantou-se, se despidiu e foi embora.

O manto de Buda

Há algum tempo que, por opção, resolvi doar todas as minhas roupas e usar somente a roupa negra(samuê) de praticante. Não tenho mais calças jeans e nem a minha jaqueta de couro me serve mais. Andando pelas ruas da Bela Vista, do caminho que faço entre a minha residência e o templo, que fica na Liberdade, algumas vezes sou interrompido. "Onde fica a sua academia" dizem confundindo-me com algum mestre das artes marciais. Mas nem sempre é assim. Muitos desconfiam de que se trata de algum monge budista. "Que tudo esteja em paz com você" disse-me o policial, que fazia a ronda nas imediações. Havia também nos olhos dele um brilho de tranqüilidade, como que a simples presença de um praticante budista fosse suficiente para trazer a paz. Neste momento, não se tratava de minha presença pessoal, mas a de Buda representada pelo manto negro e minha cabeça raspada. Numa outra vez, descendo a Brigadeiro Luís Antonio passei ao lado de uma banca de livros usados. Conferi a prateleira e vi entre eles um livro que procurava, a República de Platão. Não tinha no bolso mais do que dez reais. O dono da banca disse que o preço era quinze reais, mas me fazia por treze. "Desculpe-me", disse, "não posso levar disponho só de dez reais". Ele me mediu de cima para baixo e confirmou: "Acho que você é um monge budista, que prega a paz universal. Está bem, leve o livro por 10 reais".
Ontem mesmo, o amigo Seigen me pediu para ir com ele a uma barbearia no Bairro da Liberdade. Ele queria tirar algumas fotos do interior, mas tinha sido recebido rispidamente no dia anterior. Fui como um provável tradutor. Evidentemente, um pedido feito em japonês tem um efeito melhor do que em português. Pareceu-me que naquele universo étnico, a conversação em japonês cria mais intimidade, maior confiança. Falei então com a barbeira, que me disse que a patroa não aprovava a idéia de alguém tirar fotos do estabelecimento. Veio uma outra, que novamente usei os mesmos argumentos. Demonstrando sinceridade, disse que procurássemos uma outra sala de barbearia. Mas de alguma forma, a confiança também ganhava terreno. O Seigen vestido totalmente de negro, pois tinha feito zazen naquela manhã, e eu com minha roupa preta e sandálias havaianas no pé. Estávamos com rakusu no pescoço. Mas nada disso tinha sido intencional. Não demorou muito, chegou a patroa. Explicamos a nossa situação. Ela perguntou-nos se não era matéria paga, para alguma revista. "Não, não se trata disso", disse. Ainda desconfiada, andou de um lado para outro e arrematou: "Você é monge de que templo?" Então disse: "Sou da rua São Joaquim". Parece que isso a acalmou. "Penso que alguém acompanhado de um monge não tem nenhuma maldade". Isso queria dizer que Seigen tinha todo o salão para fotografar, inclusive as funcionárias e os fregueses. Antes ela também percebera que o Seigen tinha a cabeça raspada, além da roupa preta. "Você, qual a sua ligação com o templo", arrematou. "Faça zazen no templo", disse ele. Todo gelo tinha sido quebrado, não pela nossa simpatia ou talento. Nossas vestimentas é que transmistiam compaixão e verdade.
Numa outra situação, estávamos em Buenos Aires e na hora do almoço fomos até a uma vila em que existia restaurantes chineses. Escolhemos a casa mais cheia e sentamo-nos. Pedimos uma variedade: legumes, arroz, sopa, frutos do mar e chá jasmim. Ficamos por uma hora naquela casa. Ao final, pedimos a conta. Veio a patroa e falando um espanhol argentino com carregado sotoque disse "vocês não nos devem nada". Ficamos sem entender. Um dos monges tinha depositado sobre a mesa uma imagem do Buda, ganho minutos antes de um monge chinês. A dona apontou para a imagem e para nós mesmos e concluiu "não temos que receber de vocês". Agradecemos e com as mãos em gashô fizemos uma oração de transmissão dos méritos à dona da casa. Sei que não era por nós que ela fazia isso, mas pela compaixão de Buda.
Por isso, o manto de Buda tem o peso infinito da compaixão. Em momento algum temos de abandoná-lo pelo seu peso, pois onde o manto tiver, o Buda estará. A experiência é mística. Quanto mais se pratica mais o uso do manto é necessário.

O peso do manto da prática

Quando se pratica assumimos a nossa face verdadeira, totalmente isento de maquilagem. Não há que agradar alguns, não temos reconhecimento, nem lucros e vantagens. Ainda acho que praticar o zazen uma vez por semana é pouco. Claro, devemos levar em consideração o tipo de prática de cada um, ou seja leve, média ou profunda. Também o grau de comprometimento de cada um, pouco ou grande. Nesse caso, a fé de cada um nesta prática, pequena ou grande. Inclusive, temos que pesar o tempo disponível para esta prática semanal ao lado de outras como ir à academia de musculação, aeróbica e yoga. Talvez haja cursos para se fazer,como o de inglês, espanhol e informática. Sem contar, claro, os momentos de lazer: cinema, gandaia e outros. Evidentemente, pode-se fazer tudo isso, mas também zazen um pouco mais. Quem faz uma vez por semana, poderia fazer duas. Não obstante esta tarefa é muito difícil.
Por outro lado, poderia se dizer que o praticante deve atuar fora do templo. Esta assertiva é verdadeira, mas não serve para justificar o pouco zazen realizado. Penso que a prática deve estar associada ao zazen constante. Uma prática budista que abandona o zazen, me parece, totalmente irresponsável e deludida. Enquanto o zazen for visto como um adereço da vida, de importância menor, continuarei mergulhado no lodo da ilusão, com uma mente totalmente condicionada. Sinto que vestir o manto da prática é tão difícil, ao ponto que uma vez realizado o zazen tenho que me livrar dele o mais rápido possível. O manto de Buda é pesado, e poucos conseguem vestí-lo por mais tempo. Mas desconhecem os méritos contidos naquele manto, remendado e negro. A roupa da prática no templo deveria ser a vestimenta permanente do praticante. Quem sabe, um dia ela se torna parte de sua pele e não consegue mais arrancá-la.
Não é de hoje que se diz "me falta tempo" para desenvolver esta atividade. Mas para realizar algo é necessário abdicar-se de algumas tarefas em função de outras. É impossivel fazer tudo ao mesmo tempo, com o mesmo grau de importância. Posso me tornar um especialista em Shakespeare lendo toda a sua obra teatral na sala de leitura da Biblioteca Municipal. Para que isso aconteça, vou deixar de fazer outras coisas, porque a prioridade é a leitura da obra citada. O mesmo acontece com o zazen, com toda prática budista. Mas não agimos desta forma. Nossa mente não funciona assim, porque está condicionada. Está condicionada aos apelos do mundo com seus fetiches, loucuras e seduções. Pode-se viver desta forma, mas o sofrimento continuará existindo, bem como a ilusão e a desesperança. Um ser condicionado não é livre, pelo contrário. E neste condicionamento, faz do zazen uma somatória de outros afazeres do mundo sansârico. Talvez exista um medo grande de abandonar a ilusão, ou preferem a ilusão como condição humana do que a iluminação como condição do ser da sabedoria e compaixão.
Pratiquem zazen... Ingressem nas profundezas da mente e libertem-se das amarras da ignorância de conceitos, idéias e abstrações. Pratiquem budismo com seriedade!

sexta-feira, junho 15, 2007

Amor à Vida

Outro dia conversava com uma pessoa de mais de setenta anos, que me disse: "Vou fazer setenta e cinco anos e gostaria de voltar o tempo, mas isso não é possível".Por quê tememos a morte? perguntei."Porque é tão triste morrer, tudo se acaba", ela respondeu.
Essa conversa avivou recordações deixadas por parentes e amigos que morreram.Não foram poucos.Muitos desses ao pressentirem a morte entregaram-se a toda sorte de soluções mágicas, sem nada conseguir, pois o tempo de vida já estava determinado.Mortos marcados pela dor e pelo sofrimento com ecos de desespero dentro de si.Essas vivências marcaram-me profundamente.Ainda posso senti-las muito perto de mim.
Pergunto-me como vivemos para morrer assim.O desespero não surge na última hora, ele é alimentado cotidianamente na vida, pois vivemos como se fóssemos eternos, como se pudéssemos reverter o envelhecimento e mesmo resistir à própria morte.Devotamos a vida a isso e no final da vida mortal como morremos?Morremos iludidos.Morremos como vivemos.
Dogen Zenji disse; "Esclarecer vida e morte é a questão mais importante da vida...".O silêncio e a imobilidade do zazen nos orientam sobre isso.De alguma maneira antecipam a experiência do fim da vida mortal.A prática e a persistência no zazen, no seu ritual silencioso e imóvel, na intenção que brota do coração, repetido dia após dia nos ajuda a compreender o sentido da vida, nos conduz à paz e a um progressivo caminho espiritual . Se tivermos paz teremos alegria no coração.A alegria já é por si só um sentimento que expressa agradecimento e reverência à vida.Se vivermos assim, com sinceridade e alegria, na hora de nossa morte talvez possamos expressar o que pode haver de mais puro dentro de nós - a gratidão pela vida.

sábado, junho 09, 2007

Tetsuya Zazen

Atravessando a noite serenamente, concentrados, dedicados, todos se tornam límpida expressão do outono: a lua minguante, o frio da madrugada, o aroma do udon, o chá quente entre as mãos, a camaradagem silenciosa.

Por incontáveis existências vagamos em círculos, presos às amarras da culpa, da ignorância, dos prazeres, das formas, das incertezas e angústias do corpo. Foi um longo sonho, mas agora é hora de acordar.

Libertemo-nos. Pratiquemos a não-forma. Façamos isso por nós mesmos, pelos outros, por aqueles que conhecem o Caminho, mas não o trilham, por aqueles que o desconhecem, pelos seres visíveis e invisíveis, pelos seres sutis ou grosseiros, nascidos ou por nascer. Façamos pelos inumeráveis seres da mente.

Buda sentou-se, Bodhidarma sentou-se, todos os mestres e patriarcas sentaram-se. Não devemos ser fúteis com a prática.

Keizan Zenji assin se pronuncia em Zazen Yojinki:

"A água pura não tem frente ou verso, o espaço não tem dentro ou fora. Completamente pura, sua luminosidade brilha antes que a forma e o vazio sejam concebidos. Objetos da mente ou a mente em si mesma não têm onde existir."

sexta-feira, junho 08, 2007

Tetsuya Zazen

Nesta quarta-feira última tivemos a oportunidade de realizar mais um Tetsuya Zazen. Iniciamos às 18h30 e estendemos pelo resto da noite, até às 7h30 da quinta-feira. Muito mais gente do que o planejado vieram prestigiar o acontecimento. Entre elas, duas moças. Em torno de dez interessados sentaram-se incansavelmente por 12hs. Sem os incômodos do dia como o barulho da rua e os raios solares, a noite fria aumentou a vontade de continuar sentado em zazen. E, se tratando de uma atividade coletiva, o esforço mútuo foi um ponto de grande importância para o sucesso desta realização. Todos sentam-se juntos, comungando do mesmo princípio, com um coração único. Caso um ou outro resolvesse descansar uma sessão, acabaria desistimulando os demais na continuação desta prática. Por isso, exercitamos com calor a nossa compaixão. E quando achamos que não aguentamos mais a próxima sessão, quando todos ingressam na sala, ingressamos junto. Quando um pratica, ajuda o outro também a praticar. Penso que todos podem participar sem problemas de uma noite de Tetsuya Zazen. Dizer, "não consigo", seria o mesmo que substituir uma suposição pela experiência. Posto que podemos explorar todas as nossas potencialidades mentais em nossa curta vida. Se a nossa mente continuar "amarrada" a conclusões premeditadas nunca será livre. Quando sentamo-nos em zazen praticamos acima de tudo a nossa liberdade, pois naquele ato inexiste qualquer condicionamento. Senta-se com liberdade ou então não se senta. Está fora da relação dúbia "o que ganho com isso".
Em relação a isso, para um praticante interessado a postura de vida também deve se transformar: a inocência. Sem a inocência, o praticante não vai muito longe. Praticar sem nada ganhar é revelar o verdadeiro rosto da Iluminação, o rosto original, o rosto da inocência. Isento de maquilagem, de cacoetes, o praticante deve ser a verdade. A inocência é a alegria da prática, sem ela a prática torna-se árdua. Existindo a inocência, menos haverá campo para o sofrimento. Sendo a inocência um dos elementos da prática, o ego se sentirá enfraquecido. Quanto mais fraco é o ego, nem mesmo haverá um praticante da prática. A prática, o praticante e o universo todo serão a mesma coisa, como sempre foram, mas separados num certo momento em que a ignorância da existência do ego surgiu. Acabar com esta ignorância é a própria Iluminação.

Um pouco mais...

Seria totalmente dispensável qualquer linha que explicasse a experiência na prática do Caminho. Ao invés disto, deve-se aconselhar a prática. Não pode existir prática ausente o sentar-se em zazen, assim teria ensinado Eihei Dogen. Mas respeitemos aqueles que sentam-se apenas uma vez por semana, também os que sentam-se duas vezes ou ainda três. Melhor seria sentar-se todos os dias. Na verdade todos os dias comemos, trabalhamos e dormimos; freqüentamos a academia de ginástica por mais de uma vez por semana. Não se trata de priorizar mais uma atividade do que a outra, o zazen em detrimento às demais. Quando isto acontece, deparamos com uma situação de extremo condicionamento mental. Ainda a nossa mente acaba dando preferência às atividades mais convencionais. Por isso, fazemos pouco zazen. E fazendo pouco zazen, igualmente, a prática também acaba ficando debilitada. Vez por outra, ouvimos de algumas bocas que, apesar de não fazerem tanto zazen, estão praticando. Esta afirmativa não é totalmente falsa, mas apenas incorreta. O zazen e a prática no cotidiano são totalmente indissociáveis. Com a mente e a atitude do zazen nós vivemos no mar incerto do samsara. Isso não seria possível acontecer sem fazer regularmente o zazen. É como falar sobre o budismo com um leigo, que nunca experimentou o zazen. Claro, o budismo enquanto discurso pode ser interessante, até persuasivo, entretanto nunca poderá substituir a própria experiência.
Tenho pensado a respeito: "Por quê os praticantes não sentam-se mais". O que posso dizer é apenas "venha mais vezes fazer o zazen". Palavras totalmente inconsistentes, diante de uma quantidade enorme de outras motivações para não faze-lo: preciso trabalhar, preciso ganhar dinheiro, preciso malhar para emagrecer, enfim, não tenho tempo. É preciso, então, priorizar o tempo. Dogen disse: "não percam tempo, iluminem-se neste momento". Não obstante, continuamos em permanente estado de delusão. É como que o sonho fosse preferível à Iluminação. Como que a Iluminação fosse algo temido. Quer dizer, a prática é importante mas não de forma exagerada. Esta colocação é extremamente infeliz. Afinal, penso eu, a prática é um compromisso de quem escolheu este Caminho.
E se me considero ainda praticante, que eu possa ser mais compassivo com os outros e menos condescendente conosco mesmo. Que eu possa praticar sempre um pouco mais... Que a alegria da prática seja capaz de entender os que têm dificuldade em praticar. Que a prática de um coração totalmente vazio reverta em méritos para aqueles que não tiveram a chance de praticar, nem de se sentar em zazen. Sentamos e praticamos não pelo benefício próprio neste universo da interdependência. Sentamos enfim para diminuir o karma negativo de um mundo violento, injusto, de muita miséria, de palavras duras contrárias às ações benevolentes de nossa crença.

quarta-feira, junho 06, 2007

No Caminho das Flores

Alguns lances de escada conduzem-me a um ritual que se repete faz tempo.
Uma imagem, em sonhos recorrentes, de uma velha senhora, em pé, nessa escadaria, chamando-me.Um pedido para levar flores, assim entendo.
Flores frescas recendem no seu túmulo, quase chego a senti-las.
A este sonho, outra imagem sobrepõe-se.A mão que chama, agora acena.As roupas vestidas pela velha senhora tornam-se claras, o avental florido.
Flores frescas brilham em seu túmulo.
No final da vida, quando a morte chega, as flores ainda recendem e brilham.

Sentir o caminho

Sabe o estado de ser das pessoas que perderam algo profundamente precioso para elas, como um marido, esposa ou filho, a longevidade da vida, uma parte do corpo ou a saúde. Existem depoimentos de pessoas que ao saberem que morreriam em seis meses passaram a viver a vida mais intensamente, começaram a observar coisas que antes não prestavam atenção, passaram a dar mais atenção às pessoas que as cercavam... Ou então ao perderem um filho, por exemplo, iniciaram uma luta corajosa em prol de uma causa, quase sempre relacionada ao que perderam. Existem milhares de exemplos deste estado em que as pessoas ficam, pelo menos por algum tempo.

Acredito que ao ingressarmos no caminho do despertar, buscamos e passamos a viver um sentimento radical semelhante, com a diferença que aqui nos propomos a perder algo que nos parece/é muito caro, de propósito, conscientemente, de outro modo, não estamos no caminho. E precisa ser assim, radical, com essa consciência da perda, como diz Jisho, à flor da pele a cada instante.

terça-feira, junho 05, 2007

O monge de olhos de taturana

Um corredor escuro e úmido conduzia a uma entrada à esquerda do velho casarão em ruínas. Na entrada uma escadaria unia a sala de baixo com a de cima. Do lado direito desta, um tambor com marcas de bolor. Se continuássemos adiante, iríamos para a área do gaitan (área externa) para em seguida entrar na sala do zendô. Naquela sala retangular, todas as paredes tinham sido ocupadas pelo tan (plataforma) nos quais se sentava durante o zazen. Ao lado da imagem esculpida em cinzel do Bodhisattva Manjusli (Monju Bosatsu) encontrava-se sentado um monge vestido com um manto cor de barro. Mais tarde fiquei sabendo de que se tratava do abade Shingu Sôkan. Era a primeira vez que me sentava em zazen. Não encontrei dificuldades na postura de meia lótus. Em torno de vinte praticantes ocupavam cada parece vazia disponível. Até então, devido a semi penumbra não tinha reparado na presença daquele monge que, ao contrário dos demais, sentava-se olhando em direção às costas dos praticantes. Desconheço o motivo, mas aquele monge começou a falar em japonês, logo traduzido por um monge de feições ocidentais, colocado ao lado esquerdo deste. Aquele assunto era totalmente estranho e nada inteligível para mim. Teria sido esta vez também o do primeiro teisho. O que mais me impressinou não foi o teor daquela comunicação, mas a tranqüilidade transmitida por ele.
Desta primeira experiência orgânica com o Zen, ficou a certeza que retornaria ainda àquela casa. Voltei outras vezes, nos anos seguintes. Nunca mais o vi. Quem encontrei nestas outras vezes foi um monge velho, magro, de rosto sugado, olhos profundos e negros e enormes sobrancelhas que mais lembravam duas taturanas. Chamavam-no de Tiba, ou simplesmente Tiba-san. Nos recebia com um leve sorriso no canto da boca e voz marcadamente pausada em seu português mal falado. Nos recebia nas noites de sábado com um "boa noite", desejando-nos boas vindas. Perguntava se era a primeira vez. Caso fosse a primeira vez, levava-nos até o zendo e explicava a maneira de se sentar, de andar, de juntar os punhos em sasshu. Os praticantes mais antigos ficavam sentados numa sala de espera. Pouco se falava, quase nada. E quando o monge Tiba ingressava na sala de espera, o silêncio era total. Um silêncio reconfortante, de confiança, para dar início ao zazen propriamente dito. Da primeira batida no han todos em silêncio dirigiam-se ao zendo e sentavam-se. Quase imperceptível eram os passos do monge Tiba, percorrendo a sala com o kyosaku nas mãos. Vez ou outra um "pahhhh".
Terminado o zazen, em silêncio todos deixavam seus postos e retornavam à sala de espera. O monge Tiba era o último a entrar. Seus olhos perscrutavam os praticantes, que se sentiam inibidos diante da grandeza daquele homem pequeno. Como ninguém se manifestava, ele dizia: "alguma pergunta?" Ninguém arriscava pergunta alguma. Eram raras as perguntas, se estas realmente existiam. Numa ocasião alguém se colocou e fez uma com tantos conceitos e adjetivos, que a resposta foi mais sintomática: um sorriso apenas. "Mais uma pergunta", encorajou Tiba. Nada. "Não existe pergunta, zazen acabou. Boa noite", encerrou o monge.
Neste tempo dirigia-me ao templo apenas para fazer zazen. O zazen em sí era o suficiente. A postura, em si, era o suficiente. Queria sentir o silêncio por algum momento, naquela casa simples e excessivamente pobre. De todas as experiências tidas - poucas - esta era a mais radical de todas. Cuja radicalidade se encontrava em ficar parado, olhando para as paredes brancas, sem nada ganhar, sem nada perder. Aquilo era ser radical. E aquelas sobrancelhas de taturana ficaram na memória, a referência de monge mergulhado no silêncio da noite. O monge Tiba era o próprio zazen, o próprio corpo de Bodhidharma, a própria mente de Buda. Tinha que conhecer mais a respeito deste universo... Como? Abandonando-se!

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longo marulhar
lua no mar tranqüilo
mar no mar no mar

segunda-feira, junho 04, 2007

A medida das coisas

um dia na maternidade
outro no cemitério
entre um lugar e outro
um sonho fugaz

Zazen da lua minguante



Companheiros de Sangha,

Nesta próxima quarta-feira (dia 6) vamos praticar o Tetsuia Zazen, o zazen da lua minguante onde começaremos as "não-atividades" às 18:30 de quarta e vamos até às 6:30 da quinta (dia 7 feriado).

Levem uma contribuição para os nossos lanches dessas 12 horas.

Eu e Naun vamos fazer a ceia (servida às 3:00), um udon, que aprendemos com a Sawa San. No momento rodaremos o chapéu para as despesas.

IMPORTANTE: Levem também uma doação em forma de alimento, pode ser leite em pó.

No meio do caminho

No meio do caminho

Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

sexta-feira, junho 01, 2007