sábado, maio 19, 2007

sexta-feira, maio 18, 2007

O hábito na prática

O principal propósito do budismo é formar o hábito de praticar com constância, como um voto. Trata-se simplesmente de fazer uma viagem diária pelo universo, passo a passo. É como caminhar na neblina. Não sabemos o que é a neblina, não sabemos por onde estamos caminhando ou por quê; temos apenas de caminhar. Essa é a prática de Buda.

KATAGIRI, Dainin. Retornando ao silêncio, São Paulo, Pensamento

quinta-feira, maio 17, 2007

A Árvore Sem Raiz

...
O segundo patriarca da linhagem Rinzai japonesa, Daito Kokushi,
diz que estudar koan é estudar a si mesmo, não apenas estudar,
mas penetrar, e realmente ver.
Perceber o que é o self.
Não apenas compreender, realizar.
...
"O que é uma árvore sem raiz?"
diz Dogen Zenji.
"O Ciprestre no Jardim,
isso é que é."
...
Tradicionalmente, o ponto importante na nossa prática
é ver essa ausência de raiz,
ver essa ausência
essa existência da ausência.
Isso é que chamamos de vazio,
sunyata.
Isso é o que Dogen Zenji diz
no começo do Shobogenzo, Genjokoan,
compreensão do koan.
"Todos os darmas são sem self."
É desse modo que existem.
Em outras palavras, todos os darmas nada são além de
Sem Raiz.
Todos os darmas não possuem self.
A inexistência do self é a chave para se compreender essa
Árvore sem Raiz.
...

Taizan Maezumi Roshi - Ensinamentos da Grande Montanha.

segunda-feira, maio 07, 2007

Sorriso Singelo

Seguem algumas fotos do lançamento do livro "O Mundo de Shingya Nobuyuki - Sorriso Singelo", do qual Jisho Sensei foi tradutor. Na ocasião também foi inaugurada uma exposição de desenhos e esculturas do Artista que dá nome ao livro.




Os monges Dosho e Jisho à entrada da Fundação Japão.



O monge Zenshin, que acaba de viajar para o Japão para treinar num mosteiro.


Shokan, ao fundo.



Jisho.


Joshin, ao fundo.


Renshin e Jikan.


Seigen.



A cerimônica do chá.

domingo, maio 06, 2007

Na Lagoinha do Leste


"Que há por trás da natureza? Talvez nada, talvez tudo. Tudo, compreende..."
Paul Césanne.

quinta-feira, maio 03, 2007

Espalhando o Dharma

Antonio Vieira, no Sermão da Sexagésima, demonstra qua as palavras pouco podem quando comparadas ao exemplo concreto. Tratando da atividade do pregador, Vieira faz distinção entre o semeador (um nome) e o que semeia (uma ação). O semeador espalha a palavra de Deus por meio das palavras, o que semeia, por meio da vida e do exemplo.
Afirma ele que este último é o verdadeiro pregador, o que é capaz de fazer a lux divina penetrar os corações e transformá-los.

Essa é uma constatação que podemos associar à nossa prática do Zen. À medida que vamos avançando no treinamento, percebemos que com palavras pouco ou nada aprenderemos sobre Sabedoria e Compaixão. No entanto, não é fácil nos livrarmos do apego e da dependência a elas.

Como Jisho san bem lembrou, Mestre Dogen ensinava que não há diferença entre monges e leigos. Podemos perceber a natureza vazia de ambos e qualquer distinção neste sentido é fruto de nossas expectativas e ilusões do que seja um monje e do que seja um leigo.

Monges e leigos recitam igualmente os 4 votos do Boddhisatva, diariamente, após o zazen da noite. Reafirmar esses votos significa assumir o compromisso de espalhar o Dharma. Seja deixando que ele se manifeste, por meio do combate aos venenos da mente, seja permitindo que ele se espalhe pelos seres da mente, seja propagando-o a todas as formas.

Monges e leigos assim o fazem. Não com palavras, mas com ações. Não com um código moral que determina que isso é certo, aquilo é errado. Ou que se deve ser bonzinho e fazer o bem. Ou que se deve perdoar o mal. Todas essas concepções são fruto de uma mente iludida pelos três venenos.

Monges e leigos cultivam um coração-mente sem limites. Ambos abrem mão de toda forma para que o Dharma se manifeste. Com isso, podem agir naturalmente, espontaneamente, conduzindo gentilmente suas ações no sentido de despertar todos os seres. Isso pode ser realizado por por aquele que profere palavras amáveis, realiza gestos bondosos, manuseia o Kyossaku ou simplesmente se mantém em silêncio, permitindo que os ânimos se acalmem.

Essa atitude deve ser cultivada seja sentado, andando ou deitado. Algumas pessoas a realizam melhor como leigos, outras, como monges.

Ambos são apenas formas. O som de prajna são os 4 votos do Boddhisatva ecoando num templo vazio.

Quero ser monge...eu também

Vale muito mais ser um bom leigo do que um mal monge. Conforme Shunryu Suzuki (Mente Zen, Mente de Principiante) o treino de um monge não diferencia o de um leigo. Em outras palavras, o leigo deve praticar com igual intensidade que um monge. De fato, conheço leigos excelentes. Quando se fala em leigos, da forma entendida pela Soto Zen do Japão, trata-se de um Zaike, ou seja "aquele que treina e permanece em casa". Assim, o leigo cuida do templo e dos demais praticantes, consultando o monge quando isso for necessário. Não quer dizer que o leigo fique dispensado da prática como fazer zazen, participar das cerimônias, treinar os instrumentos, cozinhar durante o sesshin, manter a mente alerta, destruir o próprio ego, enfim tudo aquilo que é necessário de um praticante. No caso do zen, não fazemos aqui diferença de um monge e de um leigo.
Certa vez uma pessoa que tinha experimentando em uma outra tradição, me disse que somente os monges desenvolviam tarefas específicas, ficando os leigos em atitude de total obediência e passividade. Isso não deve acontecer, no zen. Nem mesmo o zen deve ser considerado melhor que outras tradições. Não é o caso. Apenas praticamos o Caminho, juntos com todos os seres vivos, inclusive as paredes, os telhados, os muros, as pedras, montanhas e rios.
Alguns destes leigos, por algum motivo, resolvem ser monges. Não sabemos se todos estão preparados para isso. A grande maioria, não. Trata-se apenas de mais uma ilusão. Em todo caso, talvez sirva de inspiração alguns pontos relevantes.
1. Como ensinou o jovem Sidharta, o futuro Buda, o primeiro passo é o da renúncia. Ser monge é saber, de antemão, que deve praticar o desapego incondicional de tudo: material e espiritual. Em japonês, a palavra para monge é Shukke, ou seja aquele que abandona o lar. De alguma forma, terá que abdicar-se um pouco dos laços familiares, apesar de hoje em dia os monges poderem constituir uma família. Neste caso, depende também do entendimento da esposa.
2. Aprender a perder. Quando estava no Mosteiro Shogoji, Japão, um rapaz da Universidade Provincial de Kyoto treinou conosco durante dez dias. Ele disse que procurava um sentido em sua vida. Após, vencido este período, ele confidenciou conosco: "Ganhei algo muito bom nestes dias de mosteiro, mas não sei o que realmente seja". O monge que ouviu a conversa ensinou-lhe "você não ganhou nada, você perdeu". Naquele momente, pensei estamos praticando o budismo para perder e isso me alegrou imensamente. Como dizia meu mestre, Miyoshi Roshi, nesta vida "não ganhamos nada, não perdemos nada; se não ganhamos, o que temos que perder".
3. Ser monge exige dedicação nesta atividade. Não se pode ser monge de sábado apenas: vestir-se como monge, agir como monge, sentar-se como monge. Mas uma vez que se sai do templo, retorna-se à vida ordinária e ao pensamento e atitudes ordinárias. Isso é um engano. No meu pensamento, o monge deve ser aquilo 24 horas por dia/noite. Não existe meio monge, 1/4 de monge ou ainda monge apenas de final de semana. Uma vez que se coloca o manto de Buda, o Kessá, este impregna-se ao corpo. Por isso, conforme o trabalho que o monge execute fora do templo, ele deverá usar a roupa negra de monge, que pode ser o samuê. Se existir um monge que no templo usa a roupagem de Buda, mas fora dele calça jeans, camisa de marca, não o considere.
4. Todo monge ou monja deve ter os cabelos raspados. Se isso não acontecer, equivale-se a um leigo. Não pode ser considerado monge alguém que ainda possui apego ou vaidade com a própria aparência. Ainda que seja dífícil para uma mulher raspar os cabelos, uma monja com cabelo é intolerável. Ou se quer ser monja ou leiga? No momento de uma ordenação de monja, o mestre pergunta se ela quer ser monja ou não. Sim, responde ela. Sim, significa que ela pode ter os cabelos raspados. Neste momento, diante de Buda, o mestre munido de uma navalha raspa-lhe a couro cabeludo. Assim deve continuar ela, como fosse o momento de ordenação: sem cabelos. Mas se o cabelo crescer, é o mesmo que retornar à vida de leiga.
5. Um monge deve fazer zazen. Um monge que não faz zazen, não consegue fazer zazen, não deseja fazer zazen, não é um monge da tradição de Dogen Zenji, que teria afirmado Shikantaza - "penas sentar-se". Um monge zen pode fazer muitas coisas, mas sentar-se em zazen é primordial. Não apenas uma vez por semana. Isto é pouco. Há leigos que fazem até três vezes por semana no templo. Se um leigo consegue fazer três vezes, por quê o monge pode fazer apenas uma vez? Se isto existir, o leigo terá que ensinar o zen para o monge. Este monge não tem autoridade para ensinar ao leigo, em hipótese alguma.
6. O monge massagista. Não somente no Brasil, como em outros países da América do Sul vi constantemente monges que se dedicavam também a esta terapia. É válido. Talvez somente a atividade de monge não seja suficiente para suprir as suas necessidades. No caso, uma outra atividade é necessária. Há monges massagistas, monges acupunturistas, monges moxabustão e outras variantes. Mas precisamos deixar claro: monge massagista é diferente de massagista que é monge. Se um massagista for um monge, pode ser concomitante professor de yoga, de ninjutsu, lojista, feirante, mecânico e policial. Acontecendo isso, monge é apenas uma das atividades desenvolvidas em seu leque de preferências. Neste caso, ser monge é como vestir uma camisa e depois de suada, trocar por uma outra e outra ainda.
8. O monge de biblioteca. Sem prática, não existe budismo. Um monge formado em biblioteca é tão pernicioso como o maior dos enganadores. Um monge de biblioteca substitui a prática pela teoria. Mas alguém poderia explicar em palavras o cheiro da jaca para alguém do Japão, da Europa ou dos Estados Unidos? Nunca as palavras e o entendimento mental serão suficientes para falar a respeito da jaca.
9. Um monge deve ser um monge e não apenas comportar-se como monge.
10. Se tudo isto estiver de acordo, receba a ordenação para ajudar a todos, que não seja eu o beneficiado, antes do benefício ser o de todos...

sábado, abril 28, 2007

O budista de livro

Nada mais inóspito do que aquele pseudo budista que se considera o tal após ler livros de budismo. Nada mais vergonhoso e falso. Da mesma forma, que não se torna mágico lendo livros de mágica, piloto de carros lendo livros de Fórmula 1, marxista lendo livros de Marx e nem humorista com a leitura das piadas de papagaio. É preciso prática em todos os exemplos citados. No budismo não é diferente.
Por isso, substituir a prática pela leitura é uma ofensa ao próprio budismo. Alguns nem ao menos sentam-se em zazen, mas como já leram algo, dizem que são entendidos no assunto. Ledo engano. Houve época em que os primeiros interessados no budismo deliciavam-se com a leitura de D.T. Suzuki em obras primorosas como "Introdução ao zen budismo", pela Cultrix. Ao lado deste, década de 60, 70, os outros autores eram o místico Thomas Merton, Allan Watts, depois Phillip Kapleau. Mas superada a leitura, enquanto uns seguiram lendo outros, outros desistiram e outros ainda partiram para a prática do zen. Por isso, não pode ser considerado um praticante aquele que limita-se às leituras dirigidas ou não, esquecendo-se em sentar-se ou ainda diminuindo a sua importância. A estes, podemos considerar um estudioso livresco do zen.
A respeito, o fundador da Soto Zen, Eihei Dogen combateu drasticamente todo intelectualismo existente no Monte Hiei em detrimento à prática. Algumas escolas, não zen, dispensam a prática e enaltecem a devoção, o ritual, os exercícios tântricos. Mas isto não se aplica ao zen. Neste, estudar o zen é dispor-se a sentar-se em zazen. Uma vez por semana, duas, três vezes se possível. Sentar-se em zazen é melhor do que ler todo o Shobogenzo e decorar todos os sutras de Lótus e os Prajnas juntos.
Os que dizem praticar o zen mas não se sentam, seria mais sincero mudar de escola. Afinal, todos são livres em dedicar-se em algum tipo de treinamento: experiência ou teoria, iluminação ou delusão, corpo ou espírito, dia ou morte... Na verdade, toda esta divisão é fruto de nossa produnfa ilusão, pois nada se encontra separado. Para se entender isso, basta sentar-se em zazen. Quem pensa demais, não tem tempo para a prática. Mas quando atuamos conforme o não pensamento, a ação começa a existir. É a ação no tempo do "aqui e agora", é a ação no espaço do "aqui e agora".

Nem melhores, nem piores

Um mito acabou se formando no ocidente a respeito do budismo, por falta de informações, ou porque um discurso edulcorado a respeito dele construiu uma imagem errada. Nas falas e livros escritos pelo Dalai Lama, a compaixão é tema presente muito mais do que a Iluminação e dos malefícios produzidos pela existência do ego. Por outro lado, ainda hoje confunde-se o Zen com a atitude alienada de grande paz interior, isento de raiva e ignorância. Este mito chegou ao ponto de colocar os praticantes do budismo na margem irreal do decurso da história. Seriam portanto, seres acima do padrão de normalidade, vivendo em outras ondas celebrais, retirado nas montanhas e fazendas alternativas. Mas tudo isso não passa de um tremendo engodo, uma grande balela.
Claro que o praticante do budismo leva em consideração valores como o da compaixão, da sabedoria, do desapego, da renúncia. Não se trata de palavras que enfeitam os discursos dos budistas televisivos e da midia impressa. Nada disso. Estamos tratando de condições reais de existência, no qual a compaixão deve ser inventada a cada instante através da experiência. Não existe uma compaixão distanciada da experiência. Se alguém disser que existe, tal colocação é falsa. O mesmo se refere à sabedoria, ao desapego e a renúncia. Assim, aquilo que se chama prática budista é justamente este comportamento de vigilância constante dos próprios ânimos, da atenção permanente. É necessário esforço para que isso realmente ocorra.
Mesmo com tal atitude, nenhum budista ou seu praticante pode ser considerado melhor do que um outro, que professa atitude e comportamentos diferentes. É pior um praticante de budismo pensar desta forma do que um outro pensar assim. Se um outro pensar assim, existe um motivo: desconhecimento. Mas se um budista pensar que ele é especial, então a prática se deteriora e aquele se torna o mais deludido dos homens.
Como parte da cultura universal, o budista é um ser normal, igual a tantos outros, com os mesmo sentimentos. Como vive na sociedade, acaba reproduzindo em seus lares e locais de treinamento o mesmo comportamento dela. Não poderia ser diferente. Nada existe de especial num praticante budista. O diferencial é que ele assume o compromisso de identificar a raiva assim que esta se manifesta e saber de sua inconsistência. O budista treina a mente nestas situações. Alguns treinam mais, outros menos. Não quer dizer, que o budista conseguiu acabar com a própria raiva, a própria ignorância, a própria ira. Não. Por saber de sua existência, ele esforça-se em diminuir a sua manifestação.
A representação do budismo é a da flor de lótus surgindo no meio de um pântano. A sociedade é este pântano, com todas as suas paixões, vícios e preconceitos, mas temos a capacidade de surgir nela como flor maravilhosa.

Nos portais da prática

O que realmente leva uma pessoa a ser um praticante do budismo? Não posso afirmar de maneira generalizada, com uma resposta definitiva, como "só o budismo salva" se nem ao mesmo conseguir definir direito no que consiste a salvação. Neste caso, se o budismo se tornar uma religião salvítica, comum a tantas outras, que depende unicamente de um agente exterior, negará os motivos de lhe deu origem. Quando o monge indiano Bodhidharma encontrava-se no interior de uma caverna, nas cercanias do Mosteiro Shaolin, teria sido importunado pelo neófito anacoreta Eka. Então, Bodhidharma dissuadiu-o a retirar-se. "Vá embora daqui" - desencorajou-o. Entretanto, Bodhidharma continuou insistindo "quero que me ensine". Mas o outro, energicamente aconselhou-o a procurar outros caminhos. Não o budismo. Diante da insistência, Bodhidharma explicou que para treinar budismo era necessário muita disposição, pois do contrário aquilo se tornaria um sofrimento a mais. E disposição tinha Eka ao ponto de, a afim de demonstrá-la, desembainhou sua adaga e decepou o braço esquerdo. Sem nada mais dizer, Eka foi aceito e se tornou no segundo patriarca chinês da linhagem zen budista.
Este modelo foi adotado pelos mosteiros zen de todo o oriente: da China, da Coréia e do Japão. Ainda é assim que acontece quando um noviço pede para adentrar os portões de um mosteiro. "O que você quer aqui?" - grita ameaçadoramente o monge que guarda o portal. Como toda resposta não é suficientemente firme, o noviço fica esperando. Muitas vezes neva e o noviço usa apenas o manto de monge, um sombrero e sandálias de palha. Se quiser desistir, pode se retirar que ninguém irá impedí-lo. Depois que o noviço convence o porteiro a sua disposição em treinar, fica enclausurado por uma semana no quarto isolado - o tangaryo. Neste interím, alguns pedem para ir embora.
Acredito que este princípio deve nortear os diversos centros de prática zen pelo mundo todo. No locam em que treino, ainda é assim. Muitos são os novatos. É quando o monge instrutor dirigindo-se a eles explica: "o budismo não serve para obter poderes sobrenaturais, não cura doenças, não torna ninguém mais rico". Em outra palavras, o budismo não serve para nada. "Mas se ainda assim, desejarem ingressar neste caminho usem a mesma cor negra do manto dos monges e iniciem-se nesta prática" - aconselha ele. Assisti certa vez, um monge dizer que aqueles que desejavam obter vantagens ao praticar o budismo que se retirassem daquela sala. Maneira bastante insólita em se tratando da cultura brasileira. Muito dura. Não obstante, a dureza é importante na medida que mostra a sinceridade da prática, que dispensa franjas e serpentinas. Os que se sentiram ofendidos, maltratados, não voltaram mais. Mas outros, justamente por terem ouvido tais palavras ficaram e desenvolveram uma prática intensiva.
Para que isto ocorra, é necessário sabiamente entender do que se trata o budismo. Não é um budismo de convencimento através de argumentos persuasivos, como acontece com as pregações. Nunca a palavra será o suficiente para dizer a verdade. Nunca a palavra poderá substituir a experiência. E nem a fé é tão importante quanto a experiência
Neste processo de negação, de início, o praticante iniciante deve ir lapidando o seu próprio ego, reconhecendo nele a raiz do sofrimento e de toda ignorância. Não importa quem seja o iniciante: advogado, engenheiro, arquiteto, filósofo, cozinheira ou quem quer que seja. Todos são iguais, sem distinção. Quer dizer, nada sabem. Com este espírito, o de nada saber, iniciam a prática. Iniciam como fosse a primeira vez, com a inocência no coração e o sorriso nos lábios. Quem se apresentar de maneira diferente, como a de ensinar ao invés de aprender, de mandar ao invés de obedecer, de falar ao invés de calar, de levantar-se ao invés de sentar-se, não serve para a prática. Se praticar, será o praticante falso. E praticantes falsos devem existir aos montes espalhados nas esferas do Dharma. Estão iludidos... E justamente estes, que deveriam ser cortados logo no início.

quinta-feira, abril 26, 2007

Seja amável consigo mesmo

"Tosan Ryokai alcançou a iluminação várias vezes. Certa vez quando estava cruzando um rio, ele se viu refletido na água e compôs um verso: Não tente descobrir quem você é. Se tentar descobrir quem você é, o que compreender, estará bem distante de você.Você só terá uma imagem de si mesmo.Na verdade, você está no rio.Pode-se dizer que aquilo é apenas uma sombra ou um reflexo de si mesmo, mas se você olhar cuidadosamente com um sentimento afetuoso aquele é você. "

Shunryu Suzuki - Nem Sempre é Assim: Praticando o Verdadeiro Espírito Zen.

terça-feira, abril 24, 2007

"Considera que a flor mais delicada, mais depressa fenece e perde o perfume: guarda-te, portanto, de querer caminhar pelo espírito de sabor, porque não serás constante; mas escolhe para ti um espírito forte, não apegado a coisa alguma, e encontrarás doçura e paz em abundância; porque a fruta mais saborosa e duradoura colhe-se em terra fria e seca."

São João da Cruz - Obras Completas

sábado, abril 21, 2007

Perplexidades

a parte mais efêmera
de mim
é esta consciência de que existo

e todo o existir consiste nisto

é estranho!
e mais estranho
ainda
me é sabê-lo
e saber
que esta consciência dura menos
que um fio de cabelo

e mais estranho ainda
que sabê-lo
é que
enquanto dura me é dado
o infinito universo constelado
de quatrilhões e quatrilhões de estrelas
sendo que umas poucas delas
posso vê-las
fulgindo no presente do passado

(Ferreira Gullar)

sexta-feira, abril 20, 2007

Uma foto de casa


Desta vez, olhando para o interior do nosso sistema solar. Esta foto foi tirada pela sonda Voyager 1, a primeira sonda humana a sair do limite do sistema solar, a 6.4 bilhões de quilômetros da Terra - muito além do ex-planeta Plutão. No lado direito, um pouco abaixo do centro, suspensa num raio de luz - efeito ótico nas lentes fotográficas - está a Terra, um "pálido ponto azul".

"Pálido Ponto Azul" é o nome de um livro do astrônomo Carl Sagan, famoso pela série de TV "Cosmos".

Aqui


Imagem de infravermelho do telescópio da Nasa mostra região em que está se formando uma estrela na constelação de Monoceros, que fica a cerca de 5 mil anos-luz da Terra.

quinta-feira, abril 19, 2007

História sem importância

Quando ainda era verão e os torós de dezembro lavavam a cidade, um homem pulou o muro da casa da esquina e abrigou-se na varanda dos fundos. A modesta casa já estava fechada há meses, pois seus moradores, velhinhos, passavam uma temporada com os filhos, no interior. Terminada a chuvarada, o homem permaneceu ali. Acomodou seus trecos num saco de pano no canto, estendeu um cobertor no chão e passou a habitar aquele pedaço da casa. Usava apenas o chão, o telhado do alpendre e a água do tanque.
Dos prédios de apartamento vizinhos, os moradores observavam sua discreta figura. Dia após dia, acompanhavam seus movimentos, o entra e sai sutil, pela fresta do portão, a pouca roupa lavada no tanque e o despertar cedinho, junto com o sol. Mas no domingo, como acordam mais tarde, já encontravam o alpendre vazio. Foi com essa rotina que todos se acostumaram.
Assim se passou a virada do ano. Entre foguetes e comilanças, um ou outro ia à varanda e constatava a discreta presença no quintal escuro da casa. Também se foram janeiro e fevereiro. No aguaceiro de março, nas tardes em que o céu desabava, ele já estava recolhido e passava longas horas observando a chuva cair no mato que crescia no quintal. Nesses dias, enquanto as imagens dos congestionamentos passavam na tv e as luzes dos apartamentos se acendiam mais cedo, lá do alto dos prédios os moradores ficavam aliviados ao ver a luzinha fraca da brasa de seu cigarro: ele havia se abrigado a tempo!
Abril trouxe um azul diferente no céu e um vento fresco, às vezes frio. Talvez por isso, talvez por motivos que não se podem descobrir, numa manhã de sábado o homem acordou, foi até o fundo do quintal, apanhou uma barra de ferro e começou a forçar a janela dos fundos.
Quase imediatamente a rua ficou repleta de carros de polícia, com luzes girando, guardas armados e a vizinhança toda agitada nas calçadas. Alguém dos prédios havia dado o alarme.
O homem foi recolhido, enfiado num camburão e levado embora.
Os moradores ainda se agitaram por algum tempo na rua, contando suas versões, impressões e imaginações.
De repente aquele azul profundo de abril no céu, um ventinho frio, e todos se calaram.
Voltaram para suas casas e apartamentos mudos, a cabeça baixa, saudosos como se tivessem perdido um vizinho.

No Shodoka está escrito assim:

Uma única natureza
contém todas as naturezas;
uma única existência
contém totalmente todas as existências.
Uma única Lua
se reflete em todas as águas;
todos os reflexos
da Lua na água
provêm de uma única Lua.

O ser radical da prática

Numa recente divulgação do número de budistas existentes no Brasil, segundo levantamento de Frank Usarki, do Departamento de Ciências da Religião, PUCSP, houve um decréscimo. Não sabemos que critério ele usou para esta afirmação. No entanto, não podemos dizer que esteja totalmente incorreta. Diferente de outras tradições religiosas, como as cristãs e suas vertentes modernas, dificilmente poderia se mensurar este dado de maneira científica. Se por um lado, o fenômeno evangélico, por exemplo, poderia ser medido pela quantidade de freqüentadores de seus templos e convertidos, o mesmo não se daria no caso de budismo. Será que existe algo como conversão em budismo?
Se uma pesquisa for realizada durante a visita do Dalai Lama ao país, possivelmente muitos diriam ser budistas sem ao menos ter freqüentado algumas destas escolas. Pelo fato de ter lido um livro do Dalai Lama, de Shunryu Suzuki ou Taisen Deshimaru, entusiasmados pela deleite proporcionado, diriam sem pestanejar: "sou budista". Esta afirmação é bastante ambígua: não diz nada. Podemos pensar, neste caso, que ser budista é um dos passatempos acolhidos de maneira simpática, ao lado da comida macrobiótica, das aulas de yoga, do treino de kendô, da massagem shiatsu, do movimento pelo verde, da alienação social e política, da preguiça intelectual e tantos outros adjetivos.
Talvez existe no Brasil muito mais simpatizantes do budismo do que realmente praticantes deste Caminho. Para os que não comprometidos nesta maneira de viver, como a mesma firmeza que dizem "sou budista", podem afirmar o contrário, "não sou". Assim, há budistas de múltiplas cores: os lights, os descomprometidos, os seguidores da moda, o budista ecológico, o budista abstrato, o budista idealizado, o budista acima das paixões do mundo, o budista ecumênico (que freqüenta todas), o budista vaidoso, o individualista...
Quando uso o termo radical, refere-se a maneira pensada por Paulo Freyre. Ser radical é estar presente nas raízes. E nada é mais radical do que o Buda Shakyamuni. A radicalidade como eu concebo é a da verdade, acima de tudo. Nada tem a ver com o fundamentalismo religioso. Tem a ver com a maneira como se pratica o Caminho. Ao invés de preocupar-se com a vaidade alheia, torne a própria vaidade menor. Ao invés de falar do ego dos outros, trate de destruir o próprio ego. Fale menos e sente-se mais em zazen. Se algum rancor ainda estiver presente em minha mente, acuse menos o outro por se sentir daquela forma. Enfim, exercite-se radicalmente em destruir da mente as ervas daninhas da ignorância, do apego, da raiva. Estes são conhecidos por três venenos.
Esta radicalidade ao ser levada para o nosso cotidiano, quer dizer que devemos manter a mente atenta todo o tempo. Ainda que a mente desligue-se, por alguns instantes, o propósito é mantê-la alerta. Se a prática budista requer que a mente fique alerta, isso deve acontecer todo o instante, e não só durante a prática no templo. A realidade além dos portões do templo deve ser respeitada, afinal é nela que vivemos. Como representa o próprio budismo, ao fazer uma analogia com a flor de lótus, que nasce no pântano. Somos esta flor de lótus que mergulhada no pântano, resiste em surgir. Pois bem, o campo da prática se realiza radicalmente no cotidiano ao lado de amigos e inimigos, de simpáticos e antipáticos, de bonitos e feios, de sábios e loucos. Mas enquanto a minha mente discriminar através de uma seleção egoísta, visando tirar vantagens, colocando-nos como juízes das contradições de vida, posso dizer sem engano a minha prática não passa de uma brincadeira. Não se trata de uma prática radical.
Deixo claro também que o ser radical não se confunde com fanático. O fanático é alguém totalmente iludido, sem iniciativas, nenhum entendimento, nem dissernimento. Lembramos que Buda em sua maior radicalidade pregou a renúncia. Estamos preparados para isso? Será que podemos renunciar ao nosso orgulho, quando alguém ofende-nos moralmente? Ou será a reação uma atitude humana? Em defesa de nossa honra, podemos agredir alguém?
A radicalidade da prática é quando questões, de nossa própria vida, são novamente avaliadas não do ponto de vista da moral, da justica, dos valores humanos, mas da prática budista. Quando outras categorias sobrepõem o entendimento a partir da prática budista, então toda prática desenvolvida até então se torna nula. Para quê serviu a prática? Ou não teria sido uma prática radical? Uma prática que pudesse ir além do pensamento racional, além da dualidade, além de toda ilusão e dos conceitos? Se isso não ocorreu, tal prática não se realizou simplesmente.
Se levarmos em consideração a quantidade de praticantes radicais do budismo, possivelmente é pequena. Não vale a pena contabilizar. Para os que envergam o manto de Buda, deverá usá-lo todo o tempo, nas mais diversas circunstâncias. Se isso não vier a acontecer, a prática é pseudoprática, um faz de conta. Faz de conta que eu pratico e outros fingem me olhar que eu esteja praticando. Se forma-se um simulacro, um engano...

domingo, abril 15, 2007

"Olhar, admirar
folhas verdes, folhas nascendo
entre a luz solar."

Matsuo Bashô - Sendas de Oku.

sexta-feira, abril 13, 2007


Este é o zendô da Sangha de Florianópolis realizando atividades para crianças. Segundo Sodô - de pé com uma bandeja nas mãos - as crianças realizaram 10 min. de zazen. Participaram de uma cerimônia onde ofereceram incenso e tocaram o mukugyo e o inkin. Assistiram uma palestra com o monge Genshô onde fizeram perguntas. Fizeram uma caminhada no parque e um almoço com oriok (foto). Segundo Sodô: "O interessante é que não tiveram nenhuma instrução antes, fizeram maravilhosamente bem. Melhor que muitos praticantes adultos."

Aquela "criança enorme" ali à direita é o Joshin, que ajudou durante a refeição. Sobre este momento Sodô disse: "Não foi necessário explicar muito, pois eles olhavam tudo com muita atenção e procuravam imitá-lo (eles o adoram...assim como nós)."

quinta-feira, abril 12, 2007

Sob árvores ou por sobre rochas elevadas

"Quando o Buda estava vivo, ele apenas discursava sobre o Darma. Ele nunca ensinou sutras, ou deu mantras especiais, ou ensinou sobre recitar o seu nome. As pessoas ouviam suas falas e então retornavam às suas casas para meditar. Elas podiam sentar em meditação sob árvores ou por sobre rochas elevadas. A coisa mais importante que caracterizava a sua prática era que simplesmente elas olhavam internamente, muito profundamente dentro, para encontrar a sua verdadeira natureza. Foi assim que os primeiros alunos do Buda realizaram seu ensinamento, preservaram-no e o passaram para nós. Foi assim que eles realizaram sua própria natureza e verdade. Foi assim que eles realizaram o caminho correto e a vida correta. Além disso, o caminho da meditação foi o caminho que o próprio Buda trilhou até alcançar a iluminação. Logo, se quiser praticar o budismo, então você nunca deveria se apegar a qualquer discurso ou palavras. Não se apegue a nenhuma técnica. Esta é a primeira conduta dentro dos ensinamentos do Buda."

Mestre Zen Seung Sahn em A Bússola do Zen. p. 285.

quarta-feira, abril 11, 2007

Crer na essência do mestre

Os sutras relatam: "Não sou perfeito, nem completo.Não é possível ser perfeito.O discípulo deve acreditar na essência do mestre, naquilo que o mestre procura."

Taisen Deschimaru

quinta-feira, abril 05, 2007

Quando tornar a vir a Primavera

Quando tornar a vir a primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer,
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

Alberto Caeiro - Fernando Pessoa.Obras Completas.

terça-feira, abril 03, 2007

Hanamatsuri em Curitiba

No último sábado, dia 31, comemorou-se em Curitiba o Hana Matsuri, a Festa das Flores, que celebra o nascimento de Buda Shakiamuni.

Conta a lenda que no momento do nascimento de Sidharta uma chuva de pétalas se derramou no Jardim de Lumbini, onde o pequeno veio à luz.

Num lindo dia de sol a Praça do Japão estava enfeitada de fitas coloridas. Nos pequenos lagos, flores de lótus confeccionadas pelos participantes da festa boiavam na água.

Ao meio dia a praça já estava cheia, com as barraquinhas de comida recebendo um grande público.

A música se espalhava pelos gramados, onde uma divertida e fantasiada juventude dançava, reproduzindo coreografias. Garotos e garotas trajando roupas de personagens de desenhos animados, lutadores de artes marciais e todo tipo de alegoria animavam a festa com suas brincadeiras.
Aqui e ali viam-se famílias inteiras passeando pela praça e aproveitando o sol no gramado.

Às 13:30 iniciou-se o cortejo, em que o elefante branco desfilou ao redor da praça, levando em seu dorso o altar com a imagem de Buda menino, decorada com inúmeras flores coloridas.

Essa tradição remonta à lenda que narra o nascimento de Buda Shakiamuni. Sua mãe, antes de seu nascimento, sonhou com um elefante branco, sinal de que o menino que estava para chegar era um ser iluminado.

Adiante, seguiam as crianças, anunciando a novidade, devidamente vestidas e enfeitadas, para alegria e deleite dos orgulhosos papais e mamães. Em seguida, monges de várias tradições do budismo lançavam ao público pétalas de papel colorido, com votos de felicidade, harmonia, paz.

Quando a procissão terminou a volta em torno da praça, os monges subiram ao altar para a cerimônia religiosa de abertura dos festejos.

Representantes de divseras tradições ali se encontravam: Soto Zen, Jodoshu Nippakuji, Nyorenji HBS, Higashi Hongaju, Konkokyo e Dordje Ling, esta última pertencente à linhagem do budismo tibetano.

Representando a Soto Zen, participaram o Monge Kendo, responsável pelo Centro Zen de Curitiba, e o Monge Koun, ligado ao Templo Busshinji, de São Paulo.
A cada ano a organização do evento faz um rodízio entre as diversas atribuições da cerimônia. Na edição deste ano, o oficiante foi o Lama Ieshe, da tradição Dordje Ling.

Após se posicionarem no altar, um a um, cada monge se dirigiu ao altar, ofereceu insenso e banhou com chá adocicado a imagem de Buda menino.
Essa tradição remonta à lenda que conta que, assim que Sidharta nasceu, dragões surgiram no céu e fizeram chover néctar sobre toda a Terra.
Neste momento, especialmente emocionante, cada monge seguiu a forma de sua tradição, reverenciando e prostrando-se diante de Buda conforme sua linhagem.
Os monges da Soto Zen, após oferecerem insenso, realizaram o sanpai, as três prostrações diante de Buda.

Em seguida recitou-se o Tiçarana – as três jóias, em páli – e entoou-se em coro o Maka Hannya Haramita Shingyo.

Após a leitura do sutra, o monge oficiante dirigiu-se ao público, que acompanhava atentamente a cerimônia, saudando-o e convidando-o a celebrar essa data tão especial.

Em seguida o preletor, o Monge Kendo, falou aos presentes, narrando o momento do nascimento de Shakiamuni e esclarecendo aos ouvintes a importância de preservarmos a vida em todas as suas formas, como uma dádiva que recebemos e que devemos respeitar profundamente.
Seguiram-se à fala dos monges breves discursos das autoridades ali presentes.
Encerrada a cerimônia, a festa prosseguiu, alegre e animada, até a noite, momento em que uma linda lua redonda e branca surgiu no céu de Curitiba.
A todo instante pessoas abordavam os monges, tirando dúvidas sobre o budismo e buscando informações sobre a prática, locais e horários.

Ao vermos todas as pessoas reunidas ali, naquele momento e local, muitas sem saber ao menos do que se tratava a festa, outras bastante envolvidas com a data que se comemorava, entendemos o real significado do “coração de Buda”, que, sem forma, a todos envolve.

Comendo, bebendo, rindo, conversando, se divertindo, dançando, rezando, todos formam o corpo vivo de Buda, aquele corpo que é capaz de espalhar compaixão e sabedoria por todas as direções.



lua sobre a praça
o nascimento de Buda
a todos ilumina













segunda-feira, abril 02, 2007

Despertar

"A confusão condiciona a atividade,
que condiciona o pensamento,
que condiciona a personalidade corporificada,
que condiciona a experiência dos sentidos,
que condiciona o contato,
que condiciona o estado de ânimo,
que condiciona o desejo,
que condiciona o apego,
que condiciona a transformação,
que condiciona o nascimento,
que condiciona o envelhecimento e a morte."

O Buda


Talvez possamos fazer o caminho inverso:

A morte e o envelhecimento liberam o nascimento,
que libera a transformação,
que libera o apego,
que libera o desejo,
(assim em diante)

domingo, abril 01, 2007

Solidão


"É delicioso o entardecer,quando o corpo inteiro é um só sentido e aspira deleite através de cada poro.Com estranha liberdade, vou e volto pela Natureza, da qual sou parte integrante."
Walden ou A Vida nos Bosques - Henry D. Thoreau.

domingo, março 25, 2007

Teu discípulo se inclina com respeito

"O canto - Teu discípulo se inclina com respeito simboliza o espírito de oração no budismo.É uma oração baseada em nossa prática e que depende da força que temos dentro de nós e,ao mesmo tempo,conta com a força do que está fora de nós.Sabemos que,se não existir a força dentro de nós,também não existe a força fora de nós.Aqui está uma estrofe deste canto:

Teu discípulo por várias existências,por muitos kalpas,
ficou preso nos obstáculos do
carma,ânsia,raiva,ignorância,confusão e erros,
e hoje, graças ao conhecimento que tem de Buda,
reconhece seus erros
e começa sinceramente outra vez."

Thich Nhât Hanh - A Energia da Oração.

sexta-feira, março 23, 2007

Vinte Estrofes Mahayana de Nagarjuna

Homenagem à Manjushrikumarabhuta!

[1] Prostro-me ao Buddha todo-poderoso,
Cuja mente é livre do apego,
Que, em sua compaixão e sabedoria,
Ensinou o inexprimível.

[2] Na verdade, não há nascimento —
Então, certamente não há cessação ou liberação;
O Buddha é como o céu
E todos os seres têm essa natureza.

[3] Nem o samsara nem o nirvana existem,
Mas tudo é um continuum complexo
Como a face intrínseca do vazio,
O objeto da consciência última.

[4] A natureza de todas as coisas
Aparece como um reflexo,
Puro e naturalmente brilhante,
Com a natureza não-dual, tal como é.

[5] A mente comum imagina um eu
Onde não há absolutamente coisa alguma,
E se concebe de estados emocionais —
Felicidade, sofrimento e equanimidade.

[6] Os seis estados do ser no samsara,
A felicidade do céu,
O sofrimento do inferno,
São todos criações falsas, imaginações da mente.

[7] Do mesmo modo, as idéias de que a ação ruim
Causa o sofrimento, a velhice, a doença e a morte,
E de que a virtude leva à felicidade,
São meras idéias, noções irreais.

[8] Como um artista amedrontado
Pelo demônio que ele mesmo pintou,
O sofredor do samsara
É assustado pela sua própria imaginação.

[9] Como um homem preso na areia movediça,
Se agitando e se debatendo,
Deste modo os seres afundam
Na confusão de seus próprios pensamentos.

[10] Confundir a fantasia com a realidade
Causa uma experiência de sofrimento;
A mente é envenenada pela perturbação
Da consciência da forma.

[11] Dissolvendo a imaginação e a fantasia
Com uma mente de sabedoria compassiva,
Permaneça na consciência perfeita
Para ajudar a todos os seres.

[12] Assim adquirindo a virtude convencional,
Livre da teoria do pensamento interpretativo,
A compreensão insuperável é obtida
Com o Buddha, o amigo do mundo.

[13] Conhecendo a relatividade de tudo,
A verdade última é vista sempre;
Descartando a idéia de começo, meio e fim,
O fluxo é visto como a vacuidade.

[14] Então, todo o samsara e o nirvana é visto como é —
Vazio e insubstancial,
Nu e imutável,
Eternamente brilhante e iluminado.

[15] Como as imaginações de um sonho,
Que se dissolvem ao despertar,
Assim a confusão do samsara
Desaparece na iluminação.

[16] Idealizando as coisas de nenhuma substância
Como se fossem eternas, substanciais e satisfatórias,
Envolvendo-as em uma névoa de desejo,
Surge a roda da existência.

[17] A natureza dos seres é não-nascida,
Mas geralmente os seres são considerados existentes;
Tanto os seres quanto suas idéias
São crenças falsas.

[18] Nada mais é do que um artifício da mente
Este nascimento em um vir-a-ser ilusório,
Em um mundo de ação boa ou ruim,
Seguidas pelo renascimento bom ou ruim.

[19] Quando a roda da mente pára de girar,
Todas as coisas vêm a um fim.
Assim, não há qualquer coisa inerentemente substancial
E todas as coisas são absolutamente puras.

[20] Este grande oceano do samsara,
Cheio de pensamentos deludidos,
Pode ser atravessado no barco Mahayana.
Quem pode alcançar o outro lado sem ele?

As Vinte Estrofes Mahayana (sânsc. Mahayanavimsaka, tib. Theg pa Chen po Nyi shu) foram compostos pelo mestre Nagarjuna. Eles foram traduzidos para o tibetano pelo pandita de Kashmir, Ananda, e pelo monge tradutor Dragjor Sherab (tib. Grags 'byor Shes rab).

quinta-feira, março 22, 2007

Aula de culinaria japonesa

Estão acontecendo no Busshinji aulas de culinária, ministradas por Saua San (primeira à esquerda), uma verdadeira mestra na Arte Culinária. Estamos tendo a honra e o prazer de aprender seus segredos na hora de preparar deliciosas refeições.


Este é o momento de degustação da terceira aula, no qual tivemos a companhia do monje Dosho e do mestre Saikawa.


O prato. Missoshiro com Tempurá.

quarta-feira, março 07, 2007

Carta do Colegiado Buddhista Brasileiro

A Revista Veja publicou,na última edição,um resumo da carta oficial,transcrita abaixo, do Colegiado Buddhista Brasileiro.Este,manifestando-se sobre uma matéria publicada pela revista em edição anterior,cujo conteúdo versava sobre budismo.

"Fé e Ciência
O budismo não tem dogmas,não preconiza um Criador ou uma divindade e não se baseia em uma fé,exceto na de que o homem,por seus próprios meios,pode despertar de suas ilusões.O budismo descarta almas,espíritos ou sementes permanentes que encarnem,sendo a crença de que o budismo seja reencarcionista mais uma transferência de axiomas de outras religiões.Para o budismo é a mente em funcionamento que cria a sensação de identidades pessoais.Em especial,para o zen-budismo,o budismo é uma religião de despertar,não uma religião de acreditar"
Monge Meihô Genshô
Diretor-geral do Colegiado Buddhista Brasileiro.

sexta-feira, março 02, 2007

A prática do carreto

Quando mudamos de casa, aquilo que costumamos chamar por "minha casa" ou "a sala" ou "o cantinho dos gatos" transforma-se em inúmeras caixas. Toda a miríade de coisas, lembranças, enfeites e utensílios vira em seu avesso, que é a caixa.
Escada acima, escada abaixo, dor nas costas, ufa!, tudo desempacotado em outros lugares, e eis novamente uma infinidade de formas.
A pergunta que surge, então, é: casa nova ou casa velha?

o templo em silêncio
nem passado nem futuro
mente sem morada

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Sesshin de Carnaval

Handa San escreveu e publicou recentemente neste blog um texto reflexivo intitulado:Lembranças de outros sesshin.
Inspirada no conteúdo e beleza de suas palavras tento expressar,com simplicidade,aquilo que vivi em outro sesshin.Este,realizado na Pousada Passarim.
A Pousada Passarim,construída numa reserva particular do patrimônio natural está localizada a 70km de Florianópolis.
Ali,o silêncio só é interrompido pelo barulho da chuva ou da água que escorre no regato,pelos sons dos pássaros e animais ou pelo vento que ouço balançar os galhos das árvores.
No dojô estão 14 participantes,2 de Curitiba,1 de Rio do Sul e os demais de Florianópolis.Orientados por Monge Genshô e em silêncio sentam-se em zazen.É dado início ao sesshin de carnaval.
Da cozinha ouço os sons dos instrumentos que ressoam do zendô.Momentaneamente divago e sinto o coração inquietar-se.
Da janela observo as árvores que balançam suavemente protegidas pelo escuro de mais um dia que nasce.A brisa fresca chega até à cozinha.A água na chaleira ferve,interrompendo minhas divagações.De repente,sei que a refeição matinal deve ser preparada.
Minhas apreensões se dissipam como névoas dispersas pelo vento.
Os ajudantes apresentam-se à cozinha e eu os oriento a cortar as frutas em formas,tamanhos,regulares e harmoniosos e misturados colorem a tigela.
Logo,os praticantes são servidos.Com energia e ânimo restabelecidos retornam à pratica do retiro em atividades de zazen,kin hin,samu,palestra do Dharma,refeições etc.
Na cozinha os praticantes alternam-se como ajudantes.Atenta,acompanho o movimento de cada um - o uso da faca,o corte das frutas e dos legumes,o preparo dos temperos,o manuseio dos recipientes,o uso da água,os restos e as cascas que são jogados no lixo,as portas que se abrem e se fecham,o serviço das refeições servido à mesa,cada movimento das mãos,dos pés,dos corpos.
Cada praticante traz para o dojô da cozinha sua experiência e sua história de vida que se expressam em cada movimento,em cada gesto.
A apreensão e compreensão de cada identidade presente nos gestos e movimentos exige atenção,paciência,flexibilidade e agilidade no pensar e agir.
O dojô da cozinha em movimento incessante e ritmo ordenado,flui e agrega quase magicamente a vida em ação:a água,o calor,os alimentos,o chá,a habilidade e a compassividade dos praticantes.
Último dia.É novamente alvorada.Do corredor contemplo o dojô principal.Atenta assisto parte da cerimônia matinal - choka.A energia do dojô me comove.
Compreendo que o lugar em que estou é o que faço dele.Preparar as refeições é na verdade,eu sinto,a mesma coisa que ouvir os ensinamentos ou sentar em zazen.
Com a mente silenciada e o coração tranquilo curvo-me em reverências a Buda e a seus ensinamentos.Duas jóias sagradas,dois faixos de luz a me conduzirem no estudo e prática do caminho.

sábado, fevereiro 24, 2007

O Caminhante

O olhar perde-se entre a imensidão do céu azul e o mar profundo.
Uma trilha indica o caminho a seguir.Uma trilha batida que se convencionou pisar.
Inadvertidamente, o caminhante segue por essa trilha.
Menos vizível, abre-se no meio da vegetação espesssa outra passagem, quase oculta e mais cativante.
Ali o caminhante encontra a si mesmo nas borboletas, nas árvores, flores, plantas, pedras, musgos, na cigarra morta no chão, nas folhas secas, nos galhos retorcidos...no silêncio e nas manifestações de vida e de morte.
Na montanha, como nos caminhos da vida cotidiana, podemos conduzir nossas vidas por trilhas batidas e repetir as mesmas coisas, os mesmos erros, os mesmos preconceitos ou deixar-nos fluir com o coração purificado pelo silêncio e ao conviver com cada manifestação da natureza, curvar-nos a sorrir e cantar.
O caminhante que assim é vive o aqui agora e celebra a imensidão do céu azul e do mar profundo a sua frente.
Mente e coração se unem em compreensão e amorosidade para apreciar a vida, reverenciá-la e vivê-la plenamente.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Vida e Morte

A mãe às lágrimas à beira do caixão chora a morte da filha.
A mãe, aos 87 anos, enterra a filha que viu nascer e acolhida por seu amor cresceu, sorriu e viveu para então adoecer, sofrer e morrer.
A mãe inundada em lágrimas despede-se da filha e deixa um pouco de si no caixão.Resta-lhe talvez um sopro de vida para lembrar o que viveu.
Imersa nesta imagem que contemplo reflito sobre a vida e a morte.
"Uma borboleta passa por diante de mim" (*) e como o poeta aprendo que a borboleta é apenas a borboleta e assim a vida é apenas vida e a morte apenas morte.
Dois seres - a mãe e a filha manifestando-se em dois movimentos - a vida e a morte, tornam-se um.

(*) Alberto Caeiro

sábado, janeiro 27, 2007

Aprender a morrer

"Deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que tu talvez te espantes, a vida toda é um aprender a morrer."

(Sobre a Brevidade da Vida - Sêneca)

domingo, janeiro 21, 2007

A Vida

"...Quando olho para o passado e compreendo quanto tempo perdi em vão, quanto perdi com equívocos, com erros, na ociosidade, na inabilidade para viver, como deixei de apreciá-lo, quantas vezes pequei contra meu coração e minha alma, meu coração se põe a sangrar.A vida é uma dádiva, a vida é uma felicidade, cada minuto poderia ser uma eternidade de felicidade."
(Fiódor Dostoiévski - O Idiota)

sábado, janeiro 20, 2007

Lembranças de outros sesshin

Nunca um sesshin é igual ao outro: os participantes são diferentes, os instrutores, inclusive o mestre. Cada vez que participamos, alguma coisa aprendemos, algo acabamos abandonando. Acredito, que acima de tudo aprendemos a abandonar, sem nada ganhar, sem lucro, sem perda. No início, queremos apenas participar. Maior é o entusiasmo do que a capacidade em sentar-se. Logo surgem as dores nas pernas, nas costas e a paciência vai se esvaindo a cada sessão de zazen. Torna-se árduo o período de uma sessão, um alívio o seu término. Pessoas que costumam sentar-se uma vez por semana, talvez por suas dificuldades de adaptação, não conseguem enfrentar um sesshin de mais de dois dias. Dois dias? Muito pouco! Penso que não seja apenas uma questão de ordem física, como o surgimento de dores. É muito pior do que isso. É a mente. Por excesso de condicionamento mental, a concentração torna-se um imenso delírio. Não se trata de uma hipótese, antes uma possibilidade demonstrada pelo próprio príncipe Sidharta. Nos sete dias seguidos, dia e noite, em que ele sentou-se abaixo da árvore da sabedoria - árvore bodhi - toda forma de dores surgiu. Em forma do demônio Mara, o incômodo das dores tinha por reflexo o medo, a sensualidade, a vaidade, o orgulho, a ira, a inveja, a preguiça e outros mais.
Tomemos estas manifestações por referência. Bem, não estamos falando mais de Sidharta, mas de nós mesmos. A única diferença entre os que se submetem ao sesshin e os outros é que uns desistem pelo caminho, convencidos pelo demônio Mara a alimentar mais o medo, a sensualidade, a vaidade... Os que insistem na prática, com determinação continuam no sesshin, não são melhores que os primeiros, mas podem estudar a sí próprios diante de manifestações do tipo medo, sensualidade, vaidade... Quem sabe, os que realizam todo o sesshin têm a capacidade de verificar que o demônio Mara não passa de uma ilusão, pois não tem substância própria. Mara existe apenas na mente dos iludidos. Ainda que se saiba disso, uns sabem porque todos os caminhos do dharma levam a isso, outros porque experimentaram no corpo e na mente a inconsistência de sua existência. Ainda que a certeza possa ser um ato de fé, a certeza pode ser conclusiva quando a experimentamos na pele e ossos. Dito de outra forma, não acredite naquilo que está fora de você, e se existir algo fora, temos que eliminá-lo.
Quando chega-nos o carnaval, podemos descansar, ou participar das atividades carnais desta festa popular. Vejo que não conseguimos fugir da carne. Se todos os caminhos levam à pele suada, aos exercício frenéticos do corpo e da mente em igual intensidade, podemos também participar do carnaval. Lembro-me que numa dessas ocasiões, um jornalista veio visitar o dojo de prática, e perguntou ao monge qual era a diferença entre os carnavalescos de avenida e salões e dos que recolhiam-se em retiro em atitude inversa. "Que inverso - disse o monge - nós também participamos usando o corpo em nossa atividade". Percebi naquelas palavras que existia mais semelhanças do que diferenças.
Foi também num Sesshin de Carnaval que perguntei ao mestre se existia uma atitude mais nobre por parte dos que submetiam-se ao zazen intensivo do que aqueles que se divertiam nas festas de carnaval. "Não, nada de nobre existe na sua prática", ensinou-me ele. Disse-me que a mente de quem participava do sesshin, devia ser de atenção. No caso do carnavalesco, se a mente dele também estivesse em permanente atenção, que diferença existia com a mente em atenção de um praticante de budismo?
Assim praticamos o Caminho. O Sesshin é um ótimo momento para intensificar o nosso entendimento. Uns realizam o sesshin nas montanhas, respirando o ar puro das matas, mesclando zazen, relaxamento e ecologia. Outros internam-se além dos muros dos templos. Para alguns, o sesshin é uma realização mística. A forma de realizá-la depende da orientação de seus mestres. Pode ser um treinamento árduo ou leve. Mas acredito sobretudo que temos por referência Sidharta, o Buda, que não se importou com conforto, nem com as condições ambientais, apenas sentou-se. Disse na ocasião: "Daqui não arredarei pé, nem que fique ossos e pele, antes de atingir a Iluminação". Não seria esta a atitude mais sensata para um praticante de budismo?

Sesshin do Carnaval 2007

Comunicamos a todos os praticantes de budismo, principalmente os amigos do Templo Busshinji e também membros da Sanghakaya, que estaremos realizando o Sesshin do Carnaval, de 16 a 21 de fevereiro. Daremos, assim, início na 6a.feira de carnaval, às 14hs, encerrando na 4a.feira de cinzas. O custo para as atividades é de R$ 150,00. Aqueles que demonstrarem interesse, poderão comunicar-se diretamente por este blog, se assim desejarem.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

No caminho

"Despertar é o propósito que envolve todos os propósitos. Tudo o que fazemos é significativo se conduz ao despertar, e não tem sentido se dele nos afasta."

Stephen Batchelor

domingo, janeiro 14, 2007

Zazengi

Regras para o zazen

Estudar o Zen é praticar o zazen. Para praticar o zazen, escolha um local calmo, nem seco, nem úmido, e use um pequeno tapete grosso. Como usamos a mesma postura sentada que Shakyamuni praticou quando se iluminou, pense no local em que você vai se sentar como o “Assento de Diamante”. Alguns monges praticam em grandes pedras, enquanto outros seguem a maneira dos sete Budas, praticando zazen sobre um pequeno tapete de folhas.

O local para a prática de zazen não deve ser muito escuro, mas moderadamente iluminado de dia e de noite. Deve estar quente no inverno e fresco no verão. Mantenha o corpo e mente em repouso – corte fora toda a atividade mental. Não pense sobre o tempo ou as circunstâncias, nem se agarre a bons ou maus pensamentos. Zazen não é auto-consciência ou auto-contemplação. Nunca tente tornar-se um Buda. Desvencilhe-se das noções de deitar ou sentar. Coma e beba moderadamente. Não perca tempo. Preste atenção à sua própria prática do zazen.

Aprenda com o exemplo do quinto Patriarca, Konin, do Monte Obai. Todas as suas ações, diariamente, eram a prática do zazen.

Quando praticar zazen, vista o kesa e use uma pequena almofada redonda. Não se sente no meio da almofada, mas sim posicione a metade dianteira sob suas nádegas. Cruze as pernas e posicione-as sobre o tapete. A almofada deve tocar a base da coluna. Essa é a postura básica que foi transmitida de Buda a Buda, de Patriarca a Patriarca.

Use a postura de lótus completo ou de meio lótus. Em lótus completo, o pé direito é colocado sobre a coxa esquerda e o pé esquerdo sobre a coxa direita. Mantenha as suas pernas horizontais a suas costas perfeitamente eretas. Na postura de meio lótus o pé esquerdo é colocado sobre a coxa direita e o pé direito é guardado sob a coxa esquerda.

Afrouxe sua roupa e aprume-se. Mão direita sobre o pé esquerdo, mão esquerda sobre o pé direito. Os polegares, alinhados, tocam-se levemente. Ambas as mãos são colocadas junto ao abdome. As pontas dos polegares devem estar alinhadas com o umbigo. Lembre-se de manter a coluna ereta o tempo todo. Não penda para a esquerda ou para a direita, para frente ou para trás. Mantenha as orelhas alinhadas com os ombros. Da mesma forma, o nariz e o umbigo devem estar no mesmo plano. Coloque a língua no céu da boca. Respire pelo nariz e mantenha os dentes e os lábios unidos. Os olhos mantêm-se abertos naturalmente. Quando iniciar, ajuste seu corpo e sua mente fazendo uma profunda respiração.

A forma de seu zazen deve ser estável como uma montanha. Pense no “não-pensar”. Como? Usando o “não-pensamento”.
Esse é o esplêndido caminho do zazen. Zazen não é um meio para a iluminação, zazen é, em si mesmo, a perfeita atitude do Buda. Zazen, em si mesmo, é a pura e natural iluminação.

Apresentado aos monges de Kippoji em novembro de 1243.

sábado, janeiro 13, 2007

Zazen Yojinki

Pontos a serem observados durante o Zazen
Keizan Zenji (1268-1325)


1.

Sentar-se é o caminho para esclarecer o solo da mente e permanecer tranqüilamente em sua Natureza Original. Isso se chama “revelar sua Face Original” e “manifestar o solo verdadeiro”.

No zazen o corpo-mente é abandonado. O zazen situa-se muito além das formas do sentar ou do deitar.
Indo além de conceitos como bom ou mau, transcende-se qualquer distinção entre homens comuns e sábios, indo além da fronteira entre seres sencientes e Buda.

Pondo de lado todas as preocupações, desprenda-se de todos os apegos. Não faça absolutamente nada. Não produza nada com os seis sentidos.

O que é isso? Seu nome é desconhecido; não pode ser chamado de “corpo”, não pode ser chamado de “mente”. Ao se tentar pensar nisso, o pensamento desaparece. Ao se tentar falar sobre isso, as palavras morrem.

É como um tolo, um idiota. É alto como uma montanha, profundo como o oceano. Sem um pico ou sem as profundezas, seu brilho é impensável, ele se mostra silenciosamente. Entre o céu e a terra, apenas este corpo inteiro pode ser visto.

Isso não pode ser comparado – ele já morreu completamente. Com os olhos claros, não está em lugar nenhum. Onde haveria alguma poeira? O que poderia obstruir algo assim?

A água pura não tem frente ou verso, o espaço não tem dentro ou fora. Completamente pura, sua luminosidade brilha antes que a forma e o vazio sejam concebidos. Objetos da mente ou a mente em si mesma não têm onde existir.

Isso sempre existiu assim, mas ainda não tem nome. O grande mestre, o Terceiro Patriarca Sosan, temporariamente o denominou “mente”, e o Venerável Nagarjuna certa vez o chamou de “corpo”. Essência iluminada e forma, originando os corpos de todos os Budas, não há “mais” ou “menos” em relação a isso.

Isso é simbolizado pela lua cheia, mas essa mente é a própria iluminação. A luminosidade dessa mente brilha através do passado, resplandecendo no presente. Nagarjuna utilizou-se desse símbolo sutil para o samadhi de todos os Budas, mas esta mente não tem traços, não é dualista, e diferenças entre formas são apenas aparentes.

Apenas mente, apenas corpo. Diferenças e semelhanças fazem com que se perca o ponto exato. O corpo origina-se na mente, e, quando os corpos surgem, eles parecem ser distintos. Quando uma onda surge, seguem-se-lhe milhares de outras ondas; no momento em que uma formação mental surge, inumeráveis coisas aparecem, incessantemente, até que as 36 partes do corpo e a cadeia dos 12 elos interdependentes emerjam. Quando uma formação surge, ela se desenvolve continuamente, mas ela ainda existe somente devido ao acúmulo de uma miríade de dharmas.

A mente é como a água do oceano, o corpo como as ondas. Não há ondas sem água e não há água sem ondas; água e ondas não podem ser separadas, movimento e repouso não são diferentes. Por isso se diz: “uma pessoa vem e vai, vive e morre, como o corpo imperecível dos quatro elementos e dos cinco agregados”.

Zazen é ir direto ao Oceano do Despertar, manifestando o corpo dos Budas. A luminosidade natural da mente se revela no momento presente e a luz original surge de todos os lugares. Não há ganho ou perda no oceano e as ondas jamais voltam atrás.

2.

Os Budas surgiram neste mundo com a grande missão de ensinar às pessoas a sabedoria e o insight do Despertar e para oferecer-lhes a verdadeira entrada. Para isso, há um caminho pacífico e puro: o zazen. Esta é a completa prática da autocompreensão de todos os Budas como Budas. Este é o soberano de todos os samadhis. Penetrando neste samadhi, mesmo que por um instante, o solo da mente é esclarecido de uma vez. Você deve saber que este é o verdadeiro portal para o Caminho dos Budas.

Se você desejar esclarecer o solo da mente, abandone a confusão de seu limitado conhecimento e de suas interpretações, corte fora as noções de comum e sagrado, abandone todos os sentimentos deludidos. Quando a verdadeira mente da realidade se manifesta, as nuvens da delusão se dissipam e a lua da mente brilha luminosa.

3.

Buda disse: “Ouvir e pensar sobre isso é como fechar as portas para isso. Zazen é como ir para casa e sentar-se em paz”. Isso é verdade! Ao se ouvir e pensar sobre isso, os pontos de vista não são abandonados e a mente permanece obstruída; por isso é como se existisse uma porta fechada. Ao se sentar verdadeiramente, tudo é colocado em repouso e se pode penetrar em todos os lugares. Sentar-se assim é como voltar para casa e sentar-se em paz.

Afligir-se com as cinco obstruções é resultado da ignorância fundamental e a ignorância é resultado do não entendimento de nossa verdadeira natureza. Zazen é entender nossa verdadeira natureza. Mesmo que as cinco obstruções tenham sido eliminadas, se você não tiver eliminado a ignorância fundamental, ainda não se compreenderá como os Budas e os Patriarcas Iluminados. Para isso, a chave essencial é sentar-se e praticar o caminho.

Um velho mestre disse: “Quando a confusão cessa, a claridade surge; quando a claridade surge, a sabedoria aparece; quando a sabedoria aparece, a Realidade se mostra como ela é”.

Se você quiser fazer cessar sua confusão, deve abandonar seu envolvimento com pensamentos de “bom” ou “mau”. Não se deixe levar por assuntos desnecessários. Uma mente “desocupada” junto de um corpo “livre de atividade” é o ponto essencial a ser lembrado.

Quando as amarras da delusão desaparecem, a mente da delusão desaparece. Quando a delusão desaparece, a Realidade que sempre esteve presente se manifesta e você fica permanentemente consciente dela. Não se trata de extinção ou de atividade.

4.

Evite se deixar levar por artes e artimanhas, prescrever remédios e tirar a sorte. Guarde distância de música e de dança, de discussões e papos furados, da fama e do lucro. Compor poemas pode auxiliar no esclarecimento da mente, mas não se deixe levar por isso. O mesmo pode ser dito quanto à caligrafia e à literatura. Este é o principal pré-requisito para os praticantes do Caminho e a melhor forma de harmonizar a mente.

Não vista roupas luxuosas ou farrapos sujos. Roupas luxuosas despertam a ganância e o medo de ser roubado. Isso é um obstáculo aos praticantes do Caminho. Mesmo que alguém as ofereça a você, recusá-las é uma ótima tradição dos tempos antigos. Se acontecer de você ter roupas luxuosas, não se preocupe com elas; se forem roubadas, não procure ir atrás delas nem lamente sua perda.
Roupas velhas e sujas devem ser costuradas e limpas, caso contrário não o protegerão adequadamente e podem fazer com que você passe frio e adoeça, prejudicando sua prática. Embora não devamos nos preocupar demasiadamente com o conforto físico, roupas, alimentação e sono inadequados são conhecidos como as “três insuficiências” e farão com que sua prática seja penosa.

Não coma nada vivo, duro ou decomposto. Essas comidas impuras farão sua barriga agitar-se e causarão calor e desconforto ao corpo-mente, dificultando sua prática do zazen. Você deve comer para sustentar a vida, portanto não se inquiete quanto ao sabor. Além disso, se você se sentar após comer muito, vai se sentir mal. Independentemente de a refeição ter sido farta ou frugal, aguarde um pouco antes de se sentar.
Monges devem ser moderados ao se alimentar e tomar porções correspondentes a 2/3 do que poderiam comer. Todos os alimentos saudáveis, gergelim, inhames e coisas assim podem ser comidos.
Essencialmente, você deve harmonizar o corpo-mente.

5.

Quando estiver sentado em zazen, não se apóie numa parede, suporte ou tapume. Também não se sente em locais com vento ou em locais altos e expostos, onde você possa contrair alguma doença.

Por vezes, quando estiver sentado, você poderá sentir calor ou frio, desconforto ou tranqüilidade, opressão ou liberdade, peso ou leveza, ou mesmo algo assustador. Essas sensações surgem devido à desarmonia da mente e da respiração. Harmonize sua respiração desta forma: abra um pouco sua boca, permita que as respirações longas sejam longas e que as curtas sejam curtas, e elas se harmonizarão naturalmente. Siga-as por algum tempo até que a consciência desperte e sua respiração se torne natural. Após isso, continue respirando pelo nariz.

Você pode sentir que está afundando ou flutuando, a mente pode por vezes parecer cega ou afiada. Algumas vezes você pode ver o exterior da sala, ou o interior do corpo, ou as formas de Budas e Bodhisatvas. Algumas vezes você pode acreditar que tem sabedoria e que compreendeu plenamente os sutras e os comentários. Essas condições extraordinárias são perturbações que surgem devido à desarmonia da mente e da respiração. Quando isso acontecer, assente sua mente em seu colo. Quando a mente afundar na obscuridade, leve sua atenção para o contorno do couro cabeludo ou para a parte posterior de seus olhos. Quando a mente dispersar-se em distrações, leve sua atenção para a ponta do seu nariz ou para o tandem. Após isso, repouse sua atenção na palma esquerda. Sente-se por um período longo e não se esforce para acalmar a mente, que ela naturalmente se tornará livre de distrações.

Embora os Ensinamentos antigos sejam tradicionalmente importantes, não os escreva ou os leia ou os escute obsessivamente porque isso apenas dispersará a mente.

Em geral, tudo que exaure o corpo-mente causa doença. Não se sente onde haja fogo ou enchentes ou bandidos, nem próximo ao oceano, bares e bordéis, ou em locais onde vivam viúvas ou virgens, ou próximo a locais onde cortesãs cantem e toquem música. Não viva próximo a reis, ministros, famílias poderosas ou ricas, pessoas com muitos desejos, aqueles que perseguem fama ou aqueles que discutem desnecessariamente. Embora grandes cerimônias budistas e a construção de grandes templos sejam coisas boas, aquele que estiver comprometido com a prática do zazen não deve envolver-se com isso.

Não seja fanático pela pregação do Dharma, pois isso leva à distração e à dispersão. Não se deleite com grandes assembléias ou corra atrás de discípulos. Não procure estudar e praticar muitas coisas diferentes.

Não se sente onde for muito claro ou muito escuro, ou muito frio ou muito quente. Não se sente onde libertinos e prostitutas vivam. Vá a um monastério e permaneça lá, onde há um verdadeiro mestre. Vá para as profundezas das montanhas e dos vales. Pratique o kinhin à margem de águas puras e de montanhas verdejantes. Purifique a mente junto a um regato ou sob uma árvore. Observe a impermanência sem descanso, isso irá encorajá-lo a buscar o Caminho.

A almofada deve ser bem estofada para que você se sente confortavelmente. O local de prática deve ser sempre mantido limpo. Queime incenso e ofereça flores aos Protetores do Dharma, aos Budas e Bodhisatvas e sua prática será por eles protegida. Coloque uma estátua de Buda, de um Bodhisatva ou de um Arhat no altar e os demônios da distração não o subjugarão.

Permaneça sempre compassivo e dedique o poder ilimitado do zazen para todos os seres vivos.

Não se torne arrogante, vaidoso ou orgulhoso de seu entendimento dos Ensinamentos; este é o caminho daqueles que não trilham o Caminho e dos ignorantes. Mantenha o voto de pôr fim às aflições, o voto de obter o Despertar e apenas sente-se. Não faça absolutamente nada. Essa é a forma de praticar zazen.

Lave seus olhos e seus pés. Mantenha o corpo-mente tranqüilo e comporte-se harmoniosamente. Abandone emoções mundanas e não se prenda a sentimentos elevados sobre o Caminho. Se alguém perguntar algo, mantenha-se em silêncio por três vezes; se ele ainda assim perguntar, e a pergunta vier de seu coração, então lhe dê os Ensinamentos. Se você desejar falar por dez vezes, mantenha-se em silêncio por nove, como se o musgo crescesse em sua boca. Seja como um leque no inverno, um sino de vento pendurado no ar, indiferente à direção que sopra o vento – assim são as pessoas que seguem o Caminho.

Não use o Dharma para proveito próprio. Não use o Caminho para fazer-se notado. Este é o ponto mais importante a ser lembrado.

6.

O zazen não se baseia em ensinamentos, prática ou realização, apesar de esses três aspectos estarem nele contidos. Avaliar a realização é algo que se baseia em alguma noção de iluminação – esta não é a essência do zazen. A prática é algo que se baseia em uma dedicação ativa – esta não é a essência do zazen. O ensinamento é algo que se baseia em libertar-se do mal e cultivar o bem – esta não é a essência do zazen.

Os ensinamentos são encontrados no Zen, mas não se trata de ensinamentos comuns. Mais do que isso, trata-se de apontar diretamente, apenas expressando o Caminho, falando com o corpo todo. Tais palavras não têm sentenças ou frases. Onde os pontos de vista terminam e os conceitos se exaurem, a única palavra penetra as dez direções, sem determinar um único fio de cabelo. Este é o verdadeiro ensinamento dos Budas e dos Patriarcas Iluminados.

Apesar de falarmos em “prática”, não é uma prática que você deva fazer. Ou seja, o corpo não faz nada, a boca não recita nada, a mente não pensa em nada, os seis sentidos são deixados em sua própria claridade e não são afetados. Assim, isso não é a prática de 16 estágios dos ouvintes, nem é a prática de entender os 12 elos da interdependência, baseada no isolamento. Nem se trata das seis perfeições contidas nas inumeráveis ações dos Bodhisatvas. É sem qualquer esforço, por isso é chamado Despertar ou Iluminação. Apenas repouse no samadhi em que todos os Budas se autocompreendem como Budas, vagando alegremente nas quatro práticas da paz e da bem-aventurança daqueles abertos para a Abertura. Esta é a profunda e inconcebível prática dos Budas e dos Patriarcas iluminados.

Apesar de falarmos em realização, essa realização não se define como “realização”. Esta é a prática do supremo samadhi, que é conhecido como não-nascido, não perturbado e que espontaneamente leva ao Despertar. É a porta para a luminosidade que se abre para a realização dos Budas, nascida a partir da prática da grande tranqüilidade. Isso vai além dos padrões de sagrado e profano, além da confusão e da sabedoria. Isso é a realização da insuperável iluminação de nossa verdadeira natureza.

O zazen não é também não se baseia em disciplina, prática ou sabedoria. Esses três aspectos estão todos contidos nele.

Disciplina é normalmente entendida como cessar ações erradas e eliminar o mal. No zazen tudo se resume a ser não-dualista. Abandone os inumeráveis conceitos e não se emaranhe em idéias como “Caminho de Buda” ou “caminho mundano”. Deixe para trás sentimentos sobre o Caminho assim como sentimentos prosaicos. Quando você deixa para trás todos os opostos, o que pode obstruí-lo? Isso é a disciplina sem forma do solo da mente.

Prática geralmente significa concentração ininterrupta. Zazen é abandonar corpo-mente, deixando para trás confusão e entendimento. Imóvel, sem atividade, não se é mais deludido, mas ainda se parece com um idiota, com um tolo. Como uma montanha, como o oceano. Sem qualquer indício de movimento ou repouso. Essa prática é não-prática porque não tem objeto de prática e por isso é chamada de grande prática.

Sabedoria geralmente é entendida como um claro discernimento. No zazen, todo conhecimento desaparece por si mesmo. Mente e discriminação são esquecidos para sempre. O olho-da-sabedoria deste corpo não discrimina, mas sim vê claramente a essência do Despertar. Desde o princípio ele é livre de confusão, corta fora os conceitos, e sua clara e aberta luminosidade penetra em todo lugar. Essa sabedoria é não-sabedoria; porque é uma sabedoria sem indícios, é chamada de grande sabedoria.

O ensinamento que os Budas pronunciaram em suas vidas são apenas essa disciplina, prática e sabedoria. Em zazen não há disciplina que não seja mantida, não há prática que não seja cultivada, não há sabedoria que não seja realizada. Sobrepujando-se aos demônios da confusão, atingindo o Caminho, fazendo girar a roda do Dharma e retornando ao sem-indícios, tudo emerge deste poder. Siddhis e atividades inconcebíveis, emanando luminosidade e proclamando os Ensinamentos – tudo isso está presente no zazen. Penetrar o Zen é zazen.


7.

Para praticar o sentar-se, busque um local calmo e ajeite uma almofada grossa. Não deixe que vento, fumaça, chuva ou orvalho penetrem no ambiente. Mantenha o local limpo, com espaço suficiente para seus joelhos. Apesar disso, nos tempos antigos, houve quem usasse um assento de diamantes ou grandes pedras como almofadas. O local onde você se senta não deve ser muito claro durante o dia nem muito escuro à noite; deve ser quente no inverno e fresco no verão. Isso é fundamental.

Desprenda-se da mente, do intelecto e da consciência, abandone a memória, o pensamento e a observação sozinhos. Não tente fabricar Buda. Não se preocupe com o quanto você acha que está indo bem ou mal; apenas entenda que o tempo é precioso, como se seu cabelo estivesse em chamas.

Buda sentou-se ereto, Bodhidarma voltado para a parede; ambos eram comprometidos de coração. Sekiso era como uma retorcida árvore morta. Nyojo alertou sobre a sonolência no sentar-se e disse: “Apenas-se-sentar é tudo do que você precisa. Você não precisa fazer oferendas de incenso, meditar no nome dos Budas, arrepender-se, estudar as escrituras ou recitar rituais”.

Quando se sentar, vista o kesa (exceto na primeira e na última partes da noite, quando a programação diária não estiver em curso). Não seja descuidado. A almofada deve ter 30 centímetros de espessura e 90 de circunferência. Não a coloque sob as nádegas, mas apenas sob metade das nádegas, até a base da espinha. É assim que os Budas e Patriarcas se sentaram. Você pode se sentar na postura de lótus completo ou meio lótus. Para sentar-se em lótus completo, coloque o pé direito sobre a coxa esquerda e o pé esquerdo sobre a coxa direita. Afrouxe sua roupa, mas a mantenha alinhada. Coloque sua mão direita sobre o calcanhar esquerdo e sua mão esquerda sobre a palma da mão direita, com os polegares unidos, próximos ao corpo, na altura do umbigo. Sente-se ereto, sem pender para a esquerda ou direita, para a frente ou para trás. Orelhas, ombros, nariz e umbigo devem estar alinhados. Coloque a língua no palato e respire pelo nariz. A boca deve permanecer fechada. Os olhos devem permanecer abertos, mas não muito abertos, nem muito fechados. Harmonizando o corpo dessa forma, respire profundamente pela boca uma ou duas vezes. Sentado firmemente, balance o torso 7 ou 8 vezes em movimentos decrescentes. Sente-se ereto e alerta.

Então pense no que é o não pensado. Como você pode pensar nisso? Esteja antes do pensamento. Esta é a essência do zazen. Despedace os obstáculos e torne-se íntimo da Consciência Desperta.

Quando quiser sair da imobilidade, coloque as mãos sobre os joelhos, balance o corpo 7 ou 8 vezes em movimentos crescentes. Respire pela boca, coloque as mãos no chão e levante-se suavemente da almofada. Caminhe lentamente, virando-se da direita para a esquerda.

Se o embotamento ou a sonolência afetarem seu sentar-se, mexa o corpo e abra mais os olhos, ou leve sua atenção para o limite do couro cabeludo ou entre suas sobrancelhas. Se ainda assim você não se refizer, esfregue os olhos ou o corpo. Se isso ainda não o acordar, levante-se e caminhe, sempre no sentido horário. Assim que tiver caminhado cerca de 100 passos, você não estará mais sonolento. A maneira de caminhar é dar meio passo a cada respiração. Caminhe sem caminhar, silenciosamente e sem se mover.

Se ainda assim você não se sentir desperto após o kinhin, lave os olhos e a testa com água fria. Ou cante os Três Preceitos Puros dos Bodhisatvas. Faça algo; apenas não pegue no sono. Você deve estar atento para o importante problema do nascimento e da morte e para a rapidez da impermanência. O que você está fazendo dormindo, quando seu olho para o Caminho ainda está nublado? Se o torpor ou a dispersão aparecerem repetidamente, você deve recitar: “Habitualmente ele é profundamente enraizado, por isso estou envolto pelo torpor. Quando esse torpor se dispersará? Que a compaixão dos Budas e Patriarcas elimine essa escuridão e pesar”.

Se a mente vagar, leve a atenção para a ponta do nariz e para o tandem e conte as inspirações e expirações. Se isso não interromper a dispersão, traga uma frase e permaneça atento a ela – por exemplo: “O que é isso que vem, portanto”? ou “Quando nenhum pensamento aparece, onde está a aflição? – Monte Meru!” ou “Qual é o significado de Bodhidarma ter vindo do Oeste? – O cipreste no jardim”. Ditos assim, dos quais você não pode extrair nenhum sabor, são adequados.

Se a dispersão permanecer, sente-se e observe aquele ponto em que a respiração termina e os olhos fecham-se para sempre e onde a criança ainda não foi concebida, onde nenhum único conceito pode ser formulado. Quando o sentimento de um duplo vazio – do eu e das coisas – aparecer, a dispersão certamente esmorecerá.

8.

Saindo da imobilidade, ocupe-se com suas atividades sem hesitação. Este momento é o koan. Quando a prática e a realização não guardam complexidade, então o koan é este momento presente. Este momento, que é antes que qualquer indício surja, a visão do outro lado da destruição do tempo, a atividade de todos os Budas e Patriarcas Iluminados, é apenas esta única coisa.

Você apenas deve parar e cessar. Tranqüilize-se, passe inumeráveis anos como este momento. Seja cinzas frias, uma árvore seca, um incensário num templo abandonado, um pedaço intocado de seda.

Este é meu sincero desejo.