Nunca acreditei tanto nesta questão, que volto a escrever a respeito. Nada melhor do que a expontaneidade da criança. A isto chamamos de inocência. No caso de um "caminheiro da dharma", agir envolto nesta aura da inocência o torna realmente um ser da prática verdadeira. Costuma-se dizer que somos "crianças de Buda" - Hotoke no kodomo. Assim dizia o então abade do Mosteiro Zuioji, que tive a oportunidade de freqüentar. Penso que assumir a inocência na prática é tirar a máscara das representações mais diversas do convívio social. Não é este caso, mais a inocência da criança, que ainda não passou pela experiência da vida. Do praticante do caminho, a inocência é aquela assumida de forma consciente com o corpo e a mente totalmente desarmados. Desta forma, agimos como fosse a primeira vez, sem os karmas de vida passadas, quer dizer aqueles construídos no contexto histórico. Explico: com a mente livre, totalmente desapegada. Esta mente sem amarras possibilita o praticante ver o mundo não mais pelos olhos do ego, de um self independente, mas pelos olhos de Buda. Não é mais eu que vejo, mas as coisas se fizeram aparecer até mim. Não vejo mais como os olhos egoístas, que somente olham para aquilo que convêm. Os poetas também possuem a inocência no olhar, no cheirar, no paladar. Sentem todo o mundo de maneira livre. Sem condicionamento!
Aqueles que agem com a mente armada, assumindo uma personalidade, nada sabem a respeito do mundo além da "forma" e da "não forma". Continuam prisioneiros das manifestações fenomênicas e acreditando na sua existência. Com o olhar armado nada vêm. Com os ouvidos armados nada escutam. Com a língua armada nada sentem. Com a epiderme armada nada percebem. Ao mesmo tempo que todo o corpo encontra-se coberto, nada o atinge, em contrapartida nada percebe. Mantém-se armado porque temem perder a identidade. Temem que o ego seja atingido. Estes pensam que o corpo lhe pertence, assim como os quatro sentidos. Cinco sentidos, adicionando também a mente. Mas nada lhe pertence, inclusive a mente. Encontram-se estes totalmente deludidos.
Por isso, o praticante que merece usar este nome deve resgatar de dentro de sí a inocência. Nada ele tem a temer. A inocência é um grande trunfo de qualquer praticante. Foi com a inocência que existiu o poeta-monge Saigyo,Ryokan, Ikkyu, Bashô e Santoka. Mais recentemente, Sawaki Kodo. A inocência é a própria verdade. Ao contrário, o não inocente é malicioso, interesseiro e esperto. Assim, ainda que vivamos no mundo temporal, das paixões, do pensamento racional, por algum momento devemos praticar o caminho do monge - o desapego. Somente um inocente consegue desapegar-se.
Os apegados sofrem. Sofrem sobremaneira por causa da existência fenomênica de um ego, que por não ter a inocência, ficam suscetíveis a todas as manifestações da miséria humana. Estão apegados ao próprio egoísmo: de suas opiniões, de seu sofrimento, de seus caprichos, de sua visão estreita de mundo, de seus sonhos e pesadelos, de suas vaidades, de suas neuroses.
Estar com a inocência não é negar o mundo temporal, mas também acreditar no mundo mítico. Penso que o mítico é mais real do que o mundo em que vivemos. A própria inocência pode ser um mito, bem como a existência de monges e praticantes da sabedoria e desapego. Alguns acham que fazer zazen é estar ligado ao mito.Ao invés disso, preferem outras atividades menos ascéticas. Talvez seja mito acreditar na iluminação. Podemos pensar no mito como sendo algo irreal para os não praticantes e mito como real para aqueles que praticam. Se a primeira assertiva é negativa, a segunda nos parece correta, levando-se em consideração o praticante como incorporando o espírito da inocência, que se processa na condição real de existência. A colocação anterior é pura abstração, enquando a outra é experimental. Nesse caso, a inocência é mais autêntica do que as máscaras assumidas pelos não praticantes. Uns necessitam de máscaras, outros não.
domingo, julho 30, 2006
quinta-feira, julho 27, 2006
O filho é seu...
Não me lembro do nome do monge, com quem teria acontecido a seguinte história. De qualquer forma, era chinês, isso tenho quase certeza. Assim ouvi a respeito dele. O velho monge vivia numa aldeia e tinha relações cordiais com todos. Sempre ajudou, não medindo esforços para isso. Ninguém alimentava nenhum rancor contra ele, pelo contrário.
Um casal de namorados ficou em apuros quando recebeu a notícia da vinda de um filho. Não era desejável naquele momento. O rapaz desempregado, não sabia como assumir a paternidade. Claro, amava a moça, mas um filho naquelas condições somente iria prejudicar-lhe. Quanto à moça, também comungava de mesma opinião: nada de filhos! Mas o que fazer?
- Podemos dizer que o pai é o monge - disse a moça.
- Isso mesmo - concordou sem pestanejar.
Assim dirigiram-se ao templo e encontrando-se com o monge disseram:
- O filho é seu.
- Ah! é - sem demonstrar nenhuma aflição, o monge tomou a criança nos braços.
Todos da aldeia passaram a repudiar o monge. Não se importando com isso, este cuidou da criança, alimentando-o e educando-o nos primeiros ideogramas ao ensinar-lhe o Sutra do Diamante. A criança cresceu e tornou-se o orgulho de seu protetor. Respeitava todas as formas de vida, inclusive as formigas e lesmas. Quando encontrava um passarinho morto, recolhia o seu corpo e enterrando-o, cobria com pedras. Depois recitava com sua voz infantil as preces ao Bodhisattva Avalokstevara.
Passados alguns anos, o rapaz, o verdadeiro pai da criança reatou com a moça e, como a situação era estável, resolveram reclamar o filho. Explicaram ao monge dos motivos que tinham levado-os a entregarem a criança, mas agora, estavam bem e, por isso, pediam-na de volta.
- Ah é - disse o monge e entregou o filho querido.
Na aldeia todos tinham esquecido do acontecimento. Poucos lembravam que a criança tinha sido entregue pela mãe, acusando o monge de ser o pai. Mas sabedores da verdade, não se importaram com isso. Os que desconheciam a história, ao tomar conhecimento da devolução da criança, acharam normal o filho viver com os pais. Até a raiva que sentiram do monge foi esquecido. Não havia arrependimento para os pais da criança e nem da população. Quanto ao monge, nunca viveu amargurado pela acusação injusta e nem responsabilizava os outros pelo ato insensato.
O monge continuou vivendo como sempre vivera: esmolava, fazia zazen, cantava os sutras e compunha poesia.
Ah é!
Um casal de namorados ficou em apuros quando recebeu a notícia da vinda de um filho. Não era desejável naquele momento. O rapaz desempregado, não sabia como assumir a paternidade. Claro, amava a moça, mas um filho naquelas condições somente iria prejudicar-lhe. Quanto à moça, também comungava de mesma opinião: nada de filhos! Mas o que fazer?
- Podemos dizer que o pai é o monge - disse a moça.
- Isso mesmo - concordou sem pestanejar.
Assim dirigiram-se ao templo e encontrando-se com o monge disseram:
- O filho é seu.
- Ah! é - sem demonstrar nenhuma aflição, o monge tomou a criança nos braços.
Todos da aldeia passaram a repudiar o monge. Não se importando com isso, este cuidou da criança, alimentando-o e educando-o nos primeiros ideogramas ao ensinar-lhe o Sutra do Diamante. A criança cresceu e tornou-se o orgulho de seu protetor. Respeitava todas as formas de vida, inclusive as formigas e lesmas. Quando encontrava um passarinho morto, recolhia o seu corpo e enterrando-o, cobria com pedras. Depois recitava com sua voz infantil as preces ao Bodhisattva Avalokstevara.
Passados alguns anos, o rapaz, o verdadeiro pai da criança reatou com a moça e, como a situação era estável, resolveram reclamar o filho. Explicaram ao monge dos motivos que tinham levado-os a entregarem a criança, mas agora, estavam bem e, por isso, pediam-na de volta.
- Ah é - disse o monge e entregou o filho querido.
Na aldeia todos tinham esquecido do acontecimento. Poucos lembravam que a criança tinha sido entregue pela mãe, acusando o monge de ser o pai. Mas sabedores da verdade, não se importaram com isso. Os que desconheciam a história, ao tomar conhecimento da devolução da criança, acharam normal o filho viver com os pais. Até a raiva que sentiram do monge foi esquecido. Não havia arrependimento para os pais da criança e nem da população. Quanto ao monge, nunca viveu amargurado pela acusação injusta e nem responsabilizava os outros pelo ato insensato.
O monge continuou vivendo como sempre vivera: esmolava, fazia zazen, cantava os sutras e compunha poesia.
Ah é!
terça-feira, julho 25, 2006
sexta-feira, julho 21, 2006
Hacker
Tivemos um ataque ao BLOG! Parece que um hacker, um engraçadinho, publicou comentários elogiosos em todas as mensagens já publicadas até agora. Vou tentar retirar, se não conseguir, desconsiderem tais comentários.
Gasshö,
O Administrador do Blog
Gasshö,
O Administrador do Blog
quarta-feira, julho 19, 2006
2 tercetos
Noite de inverno.
As mãos ainda quentes
Após o zazen.
Jazem as abelhas
Vítimas de algum veneno.
Manhã de inverno.
terça-feira, julho 18, 2006
Os cabelos brancos
Ainda me lembro como fosse ontem. Uma das mesárias em sua avaliação da monografia apresentada exigiu que o pesquisador tivesse avançado em suas conclusões. Então era uma manhã amena de outono, numa das salas do prédio novo da PUCSP. Por pouco mais de dois anos o colega (tínhamos o mesmo orientador), jovem talento que com menos de trinta anos submetia-se ao programa de mestrado em História versava sua pesquisa na Revolução Mexicana. Tinha por fonte primária as manifestações artísticas, principalmente a pintura. Uma idéia bastante criativa.
De repente, a mesária experiente em sua profissão deu-se conta da idade do pesquisador. Se antes, ela criticava duramente a pesquisa, por sua deficiência, ao olhar para o pesquisador deu-se conta dos acontecimentos: "Você meu jovem, não pode realizar o que propus pois deverá ter cabelos brancos para isso".
Entender algo faz parte do desenvolvimento da vida, quando conseguimos desatar alguns nós das contradições apresentadas nas situações reais. Para isso, não depende unicamente de nossa disposição, mas o mundo oferece condições para tal. Ainda que possamos disfarçar os cabelos brancos com tintura, as rugas com cremes, a celulite com meia elástica, a mente não pode ser disfarçada. Chega-se um tempo que os mais de quarenta são dispensados, os de cinqüenta são descartados e os de sessenta aposentados. Este é o modelo econômico em que vivemos e continuamos a reproduzir no decurso da história. Somos máquina e engrenagem dele. Talvez os mais jovens não entendam estas palavras. Mas não falo a eles. Dirijo-me a vocês, que atravessam esta situação. Como agir? Não seria o momento de mudar a mente decaída na ilusão para a mente da iluminação?
Neste momento, ter cabelos brancos pode ser um grande prêmio. Para o historiador significa sabedoria. Ainda me lembro do semblante calmo e os cabelos brancos em forma de tufos do historiador inglês Eric Hobsbawm, que tive a oportundiade de conhecê-lo pessoalmente numa livraria no bairro do Pacaembu em São Paulo. Era final dos anos 90, beirando o século XXI. O autor marxista que tanto contribuiu na minha formação, em leitura apaixonada para entender o advento do capitalismo nos séculos XIX e XX, estava à minha frente, isento de vaidade, com a calma das grandes inteligências. Nada precisava ser velado para ele, inclusive os cabelos brancos.
Por falar em sabedoria, os mestres do zen são conhecidos por roshi. Quer dizer honorável ancião. No oriente os que ultrapassam os sessenta anos voltam a ser crianças e, por isso, podem se comportar da maneira que bem entenderem sem a crítica dos outros. Num processo cíclico, podemos dizer que a criança vai ser o velho de amanhã, o velho foi a criança de ontem. Mas o velho pode ser uma criança ao viver a esperança desta, em sua pureza ingênua, e a liberdade de desenvolver toda a sua potencialidade criativa pois tem a sabedoria. Dito de outra forma, todos deveriam se tornar monges antes que seja tarde. Abandonem toda a vaidade. Ao invés de tingir os cabelos, cortem-nos. Serão livres definitivamente ao ponto de comungar com a sabedoria tão próxima de nós, que ainda não temos capacidade de perceber.
De repente, a mesária experiente em sua profissão deu-se conta da idade do pesquisador. Se antes, ela criticava duramente a pesquisa, por sua deficiência, ao olhar para o pesquisador deu-se conta dos acontecimentos: "Você meu jovem, não pode realizar o que propus pois deverá ter cabelos brancos para isso".
Entender algo faz parte do desenvolvimento da vida, quando conseguimos desatar alguns nós das contradições apresentadas nas situações reais. Para isso, não depende unicamente de nossa disposição, mas o mundo oferece condições para tal. Ainda que possamos disfarçar os cabelos brancos com tintura, as rugas com cremes, a celulite com meia elástica, a mente não pode ser disfarçada. Chega-se um tempo que os mais de quarenta são dispensados, os de cinqüenta são descartados e os de sessenta aposentados. Este é o modelo econômico em que vivemos e continuamos a reproduzir no decurso da história. Somos máquina e engrenagem dele. Talvez os mais jovens não entendam estas palavras. Mas não falo a eles. Dirijo-me a vocês, que atravessam esta situação. Como agir? Não seria o momento de mudar a mente decaída na ilusão para a mente da iluminação?
Neste momento, ter cabelos brancos pode ser um grande prêmio. Para o historiador significa sabedoria. Ainda me lembro do semblante calmo e os cabelos brancos em forma de tufos do historiador inglês Eric Hobsbawm, que tive a oportundiade de conhecê-lo pessoalmente numa livraria no bairro do Pacaembu em São Paulo. Era final dos anos 90, beirando o século XXI. O autor marxista que tanto contribuiu na minha formação, em leitura apaixonada para entender o advento do capitalismo nos séculos XIX e XX, estava à minha frente, isento de vaidade, com a calma das grandes inteligências. Nada precisava ser velado para ele, inclusive os cabelos brancos.
Por falar em sabedoria, os mestres do zen são conhecidos por roshi. Quer dizer honorável ancião. No oriente os que ultrapassam os sessenta anos voltam a ser crianças e, por isso, podem se comportar da maneira que bem entenderem sem a crítica dos outros. Num processo cíclico, podemos dizer que a criança vai ser o velho de amanhã, o velho foi a criança de ontem. Mas o velho pode ser uma criança ao viver a esperança desta, em sua pureza ingênua, e a liberdade de desenvolver toda a sua potencialidade criativa pois tem a sabedoria. Dito de outra forma, todos deveriam se tornar monges antes que seja tarde. Abandonem toda a vaidade. Ao invés de tingir os cabelos, cortem-nos. Serão livres definitivamente ao ponto de comungar com a sabedoria tão próxima de nós, que ainda não temos capacidade de perceber.
segunda-feira, julho 17, 2006
O grau de entendimento
Seria grande pretenção dizer que eu tenha entendido alguma coisa a respeito da prática zen. Entretanto, algo mudou em minha vida nestes dezoito anos de ordenação como monge. Nos primeiros cinco anos apenas sentia o objeto da verdade ainda coberta por uma camada de verniz. Época em que a dúvida confundia-se com as minhas crenças, quer dizer falta de crença, que apontava para o total ceticismo. Mais tarde entendi, pela primeira vez, que para a existência do cético era necessário a sua contraparte: o ego cético. Com ênfase, quem duvidava era o ego criado pelas circunstâncias apresentadas em minha vida. Uma vez que este ego foi abandonado a duras penas, não apenas por opção, mas também pelas condições que me cercavam, a mente girou num ângulo inverso. Penso que antes, a prática zen tinha sido norteada através de uma dialética em oposição ao mundo que negava. Não precisamos negar nada. Ao invés disso, poderemos dar menos importância à mente que nega ou que afirma.
Ainda que a mente viaje numa velocidade bem acima dos movimentos do corpo, tornando incompatível uma sintonia entre a matéria e o espírito, causando desastres, é pela mente que o entendimento num primeiro instante se realiza. Por isso, gostamos tanto de literatura. Adoramos os livros de Shunryu Suzuki, de Thich Nat Hanh, de Deshimaru e outras porções informativas que acabam por nos inspirar. Através destes entendemos o fim último da prática, sem, no entanto, ter experimentado o processo. Por isso, na tentativa de treinar o corpo da maneira como a mente recebeu as informações surge a primeira frustração: o corpo não realiza aquilo que a mente sabe. Não demora muito para o praticante desistir. Desistência esta que se justifica por causa do ego, que não suporta a humilhação de ter que repetir constatemente exercícios que demora para ser assimilado. Quem sabe, se a mente tivesse sido abandonada o corpo aprenderia com mais rapidez. Talvez por insegurança, o ego não foi abandonado.
E quando o ego não é abandonado, ainda ele conserva como depositório de frustrações, medos, recalques, caprichos e todo uma parafernálida de lixo cármico. Poderíamos dizer que a eliminação do carma ocorre na mesma proporção que o abandono do ego. Mas isso não acontece pois a ilusão engana os nossos sentidos. E sentimos tudo emanados pela ilusão.
Também agi bem intencionadamente mas preso em minha ilusão. Crente na eficácia de um treinamento rigososo, esqueci que os graus de entendimento dos praticantes eram diferentes. Alguns aprendem rápido. Outros, totalmente condicionados a agirem de forma inadequada entendem de forma errada ou ainda lenta. Lembro-me como atuava o mestre Koichi Miyoshi, de maneira diferente conforme o praticante. Ele sempre foi muito rígido comigo, medindo a minha paciência e provocando incessantemente a minha auto-estima. Nunca reclamei disso, pelo contrário. Enquanto isso, ele se desfazia em delicadezas com outros praticantes, igualmente discípulos dele. Incapaz de dirigir-lhes uma palavra indelicada, para o mestre Miyoshi havia "duas moedas e duas medidas". Com ele aprendi que não temos que ser iguais para todos, pois entre estes há diferença. Se a compaixão para os fracos é a docilidade, para os fortes é a exigência extremada. Os mestres sabem como tratar cada um de seus discípulos, de acordo com o entendimento de cada um. Agradeço por ele ter sido intransigente comigo.
Para os excessivamente apegados a um eu próprio, fechar os olhos para isso pode ser uma falsidade, mas tornarmo-nos senhores da verdade, fazendo tudo para a destruição de sua ilusão pode ser leviano. Seria melhor que o fluxo da correnteza do dharma possa carregar as folhas da ilusão, quando estas desprenderem-se do galho. E folha verde não cai. Resiste.
Ainda que a mente viaje numa velocidade bem acima dos movimentos do corpo, tornando incompatível uma sintonia entre a matéria e o espírito, causando desastres, é pela mente que o entendimento num primeiro instante se realiza. Por isso, gostamos tanto de literatura. Adoramos os livros de Shunryu Suzuki, de Thich Nat Hanh, de Deshimaru e outras porções informativas que acabam por nos inspirar. Através destes entendemos o fim último da prática, sem, no entanto, ter experimentado o processo. Por isso, na tentativa de treinar o corpo da maneira como a mente recebeu as informações surge a primeira frustração: o corpo não realiza aquilo que a mente sabe. Não demora muito para o praticante desistir. Desistência esta que se justifica por causa do ego, que não suporta a humilhação de ter que repetir constatemente exercícios que demora para ser assimilado. Quem sabe, se a mente tivesse sido abandonada o corpo aprenderia com mais rapidez. Talvez por insegurança, o ego não foi abandonado.
E quando o ego não é abandonado, ainda ele conserva como depositório de frustrações, medos, recalques, caprichos e todo uma parafernálida de lixo cármico. Poderíamos dizer que a eliminação do carma ocorre na mesma proporção que o abandono do ego. Mas isso não acontece pois a ilusão engana os nossos sentidos. E sentimos tudo emanados pela ilusão.
Também agi bem intencionadamente mas preso em minha ilusão. Crente na eficácia de um treinamento rigososo, esqueci que os graus de entendimento dos praticantes eram diferentes. Alguns aprendem rápido. Outros, totalmente condicionados a agirem de forma inadequada entendem de forma errada ou ainda lenta. Lembro-me como atuava o mestre Koichi Miyoshi, de maneira diferente conforme o praticante. Ele sempre foi muito rígido comigo, medindo a minha paciência e provocando incessantemente a minha auto-estima. Nunca reclamei disso, pelo contrário. Enquanto isso, ele se desfazia em delicadezas com outros praticantes, igualmente discípulos dele. Incapaz de dirigir-lhes uma palavra indelicada, para o mestre Miyoshi havia "duas moedas e duas medidas". Com ele aprendi que não temos que ser iguais para todos, pois entre estes há diferença. Se a compaixão para os fracos é a docilidade, para os fortes é a exigência extremada. Os mestres sabem como tratar cada um de seus discípulos, de acordo com o entendimento de cada um. Agradeço por ele ter sido intransigente comigo.
Para os excessivamente apegados a um eu próprio, fechar os olhos para isso pode ser uma falsidade, mas tornarmo-nos senhores da verdade, fazendo tudo para a destruição de sua ilusão pode ser leviano. Seria melhor que o fluxo da correnteza do dharma possa carregar as folhas da ilusão, quando estas desprenderem-se do galho. E folha verde não cai. Resiste.
sexta-feira, julho 14, 2006
A flauta
Antes mesmo do aparecimento dos grandes mestres do zen japonês, houve um em que os registros comentam laconicamente a respeito. Sabedor de que um novo entendimento de budismo tinha aparecido no Japão, o dirigente de um feudo chamou-o para uma explanação. Toda uma comitiva foi convidada para o evento. O monge surgiu cabisbaixo, sem nenhum ornamento e dirigiu-se diante de toda a platéia e retirou de sua bolsa uma pequena flauta. Apenas uma nota e se foi, sem nada mais dizer. Nunca mais se ouviu falar dele.
terça-feira, julho 04, 2006
Determinação
"Quando corvos encontram uma serpente moribunda, agem como águias. Quando me vejo como vítima, sou ferido por frívolos fracassos."
Shantideva
Shantideva
segunda-feira, julho 03, 2006
Cerimônia do Chá II
Fazendo o que Deve ser Feito Como Deveria ser Feito
Com 80 anos de idade, o mestre chinês Zhaozou era abade no templo Guanyinyuan de Zhaozou, onde por um período de 40 anos ensinou sua versão pessoal do Zen. A seguinte estória é sem dúvida ligada ao templo Guanyinyuan.
Certa vez um noviço veio até Zhaozou e perguntou, "Sou um noviço, você tem alguma instrução para mim?".
Zhaozou disse: "Já tomou o desjejum?".
O noviço respondeu, "Sim, já".
Zhaozou então disse, "Se você já terminou o desjejum, lave sua vasilha".
Em outras palavras, faça o que deve ser feito como deveria ser feito.
Este é o Budismo e é bem parecido com o que Keizan Zenji queria dizer quando disse, "Quando é hora para o chá, beba; quando é hora da refeição, coma".
A essência da cerimônia do chá é a mesma coisa. Uma vez que a lista de convidados é determinada, o anfitrião prepara tudo meticulosamente no mesmo dia em que os visitantes chegam. No dia da cerimônia do chá, checa mais uma vez para ter a certeza de que tudo está certo. Pendura o pergaminho e o arranjo floral na sala de cerimônia do chá. Varre o pavilhão de espera, rega as plantas na passagem do jardim e aguarda os convidados. Ele faz tudo o que deveria ser feito. De fato, diz-se que a cerimônia do chá consiste em fazer as coisas que deveriam ser feitas todos os dias na sua totalidade.
Reportagem publicada na revista "Caminho Zen", vol. 8, nº 1-2003, pgs. 4-8, publicada pela Sotoshu Shumucho. 2ª parte.
Com 80 anos de idade, o mestre chinês Zhaozou era abade no templo Guanyinyuan de Zhaozou, onde por um período de 40 anos ensinou sua versão pessoal do Zen. A seguinte estória é sem dúvida ligada ao templo Guanyinyuan.
Certa vez um noviço veio até Zhaozou e perguntou, "Sou um noviço, você tem alguma instrução para mim?".
Zhaozou disse: "Já tomou o desjejum?".
O noviço respondeu, "Sim, já".
Zhaozou então disse, "Se você já terminou o desjejum, lave sua vasilha".
Em outras palavras, faça o que deve ser feito como deveria ser feito.
Este é o Budismo e é bem parecido com o que Keizan Zenji queria dizer quando disse, "Quando é hora para o chá, beba; quando é hora da refeição, coma".
A essência da cerimônia do chá é a mesma coisa. Uma vez que a lista de convidados é determinada, o anfitrião prepara tudo meticulosamente no mesmo dia em que os visitantes chegam. No dia da cerimônia do chá, checa mais uma vez para ter a certeza de que tudo está certo. Pendura o pergaminho e o arranjo floral na sala de cerimônia do chá. Varre o pavilhão de espera, rega as plantas na passagem do jardim e aguarda os convidados. Ele faz tudo o que deveria ser feito. De fato, diz-se que a cerimônia do chá consiste em fazer as coisas que deveriam ser feitas todos os dias na sua totalidade.
Reportagem publicada na revista "Caminho Zen", vol. 8, nº 1-2003, pgs. 4-8, publicada pela Sotoshu Shumucho. 2ª parte.
domingo, julho 02, 2006
Apenas um sorriso no rosto
Toda vez que olho diretamente para a imagem de Buda, aquela que orna o altar do Templo Busshinji, sinto uma imensa alegria. Há naquele rosto um sorriso misterioso. Seus olhos finos, orelhas grandes e nos lábios um silêncio que fala profundamente em nossa sensibilidade. De onde quiser que estejamos, ele nos sorri. É um sorriso encorajador: jamais desistam! Mais do que isso, é um sorriso de compaixão. Quebra na hora qualquer resistência, o nosso egoísmo; as carrancas se desfazem e a ignorância desaparece. Inspirado naquele sorriso, não pude deixar de revelar em meu rosto um pouco de sua magia. E passei a procurar no rosto dos outros sorriso parecido. O rosto de Buda deve haver muitos no mundo mas um deles, para mim, foi o mais significativo.
Naquela manhã, durante o kyoten, alguém de corpo esguio, de passos leves, quase desapercebido aos ouvidos, sentou-se próximo a mim. Somente após as duas sessões matutinas do zazen, percebi de quem se tratava. Ela tinha freqüentado o templo em 2001, logo percebi. Uma maneira peculiar de segurar o zafu (abraçado). Assim tinha ensinado o Superior Miyoshi. Depois mudamos, adaptando a forma da maneira correta, utilizada atualmente nos mosteiros japoneses. Bem, não era este o assunto que interessa. Retornemos àquela moça. Convidamo-a a participar do choka - cerimônia matinal. Terminada esta, ela sempre mostrando um enorme sorriso, de maneira expontânea e escancarada, pediu para orar diante de Kanzeon Bosatsu. Nada anormal aquela atitude. Muitos fazem isso, de manhã. Sempre bastante discreto, dirigi-lhe a palavra demostrando a minha felicidade de vê-la novamente no templo. Ela disse que iria ao Hospital das Clínicas. Sabia que ela vivia em Foz do Iguaçu e vinha às vezes a São Paulo. Em minha ingenuidade, pensava que ela fosse alguma aluna de medicina em estágio. Ledo engano. Depois que ela se foi, através dos amigos mais diretos em suas especulações, soube que ela tinha uma doença muito grave. Estava explicado o motivo das viagens.
Aquela moça, que não me permito revelar o nome, tinha o mesmo sorriso de Buda. Com todos os problemas do mundo, uma doença, ainda assim não tinha perdido o inocência: sorria. Depois disso não a vi mais. Tenho o seu endereço, mas não me encorajo escrever-lhe. Foi esta uma das melhores lições em minha vida e aquele encontro não foi por acaso. Toda vez que me lembro disso, não tenho motivos para reclamar.
Naquela manhã, durante o kyoten, alguém de corpo esguio, de passos leves, quase desapercebido aos ouvidos, sentou-se próximo a mim. Somente após as duas sessões matutinas do zazen, percebi de quem se tratava. Ela tinha freqüentado o templo em 2001, logo percebi. Uma maneira peculiar de segurar o zafu (abraçado). Assim tinha ensinado o Superior Miyoshi. Depois mudamos, adaptando a forma da maneira correta, utilizada atualmente nos mosteiros japoneses. Bem, não era este o assunto que interessa. Retornemos àquela moça. Convidamo-a a participar do choka - cerimônia matinal. Terminada esta, ela sempre mostrando um enorme sorriso, de maneira expontânea e escancarada, pediu para orar diante de Kanzeon Bosatsu. Nada anormal aquela atitude. Muitos fazem isso, de manhã. Sempre bastante discreto, dirigi-lhe a palavra demostrando a minha felicidade de vê-la novamente no templo. Ela disse que iria ao Hospital das Clínicas. Sabia que ela vivia em Foz do Iguaçu e vinha às vezes a São Paulo. Em minha ingenuidade, pensava que ela fosse alguma aluna de medicina em estágio. Ledo engano. Depois que ela se foi, através dos amigos mais diretos em suas especulações, soube que ela tinha uma doença muito grave. Estava explicado o motivo das viagens.
Aquela moça, que não me permito revelar o nome, tinha o mesmo sorriso de Buda. Com todos os problemas do mundo, uma doença, ainda assim não tinha perdido o inocência: sorria. Depois disso não a vi mais. Tenho o seu endereço, mas não me encorajo escrever-lhe. Foi esta uma das melhores lições em minha vida e aquele encontro não foi por acaso. Toda vez que me lembro disso, não tenho motivos para reclamar.
quinta-feira, junho 29, 2006
A miséria do eu
Algumas palavras produzidas culturalmente e, desta forma, criando raízes como ervas daninhas na mente, contribuem para o condicionamento de nossa atuação no mundo. Uma destas, diz respeito a nossa pessoa, ou seja eu. Primeiro pessoa do singular.
Eu faço
Eu sinto
Eu penso
Eu conquisto, e assim por diante.
Mas toda vez que faço, tenho que arcar com as conseqüências. Assim sendo, tudo que faço acaba repercutindo em todas as dez direções. Como uma onda vibratória, a tudo acaba afetando, de maneira positiva ou não.
Quando eu sinto, talvez raiva, talvez compaixão, da mesma maneira me coloco como ser do mundo. Existindo a raiva discrimino a minha relação com o todo. Mais do que nunca o eu sobressai-se, sendo a raiva um instrumento para esta projeção. Maior a raiva, maior é o ego. Posso dizer também, estou bravo. Estado patológico de desequilíbrio emocional, um ego ferido que necessita produzir a contraparte. Por isso, o eu bravo precisa descarregar sua sandice no outro que causou-lhe tal arrebatamento. Assim, o ego vai se inflando na medida em que as emoções apaixonadas dominam o sistema nervoso. Outrossim, a respeito da compaixão, penso que a colocação não seria do tipo "eu sinto compaixão..." Melhor posto, a compaixão deve estar isenta de um eu. Se pratica atos compassivos quando o eu não pensa, ou seja o eu é vazio.
Colocando desta forma, um eu vazio, não sente raiva e também não sofre.
O sofrimento, conhecido também por dukkha, é gerado pela existência do eu. Um eu que realmente não existe, mas apenas um fantasma nascido de nossas ilusões. Quando o eu pensa, cria projeções, que não realizadas geram sofrimento. Se o eu pretende conquistar, uma vez que vê seus planos irem água abaixo, então o eu sofre. Maior o sofrimento, maior é o eu. Por isso, para o ego aparecer em toda a plenitude precisa sofrer. Quer dizer: eu sofro, na mesma medida que eu conquisto. Sofro quando não levo vantagem alguma nas minhas relações com o mundo.
Ao se falar no eu, o instante seguinte é o pronome possessivo Meu e Minha.
Minha casa
Meu carro
Meus filhos
Minha esposa
Meu emprego
Meu dinheiro
Se minha casa pegar fogo, sofro.
Se meu carro bater, sofro.
Se meus filhos se forem, sofro.
Se meu emprego eu perder, sofro.
Se meu dinheiro faltar, sofro.
Tudo aquilo que torna o ego o centro do mundo, sendo o resto um apêndice daquele, então o sofrimento continuará existindo. O sofrimento não existe se não existir um eu fortalecido. Assim como os atos de autocomiseração tornam o eu uma enorme fonte de profundo egoísmo.
Mas destruir o eu gera controvérsia, porque ninguém quer se desfazer dele. Basta um eu ferido para todo exercício de sua anulação se frustar!
Eu faço
Eu sinto
Eu penso
Eu conquisto, e assim por diante.
Mas toda vez que faço, tenho que arcar com as conseqüências. Assim sendo, tudo que faço acaba repercutindo em todas as dez direções. Como uma onda vibratória, a tudo acaba afetando, de maneira positiva ou não.
Quando eu sinto, talvez raiva, talvez compaixão, da mesma maneira me coloco como ser do mundo. Existindo a raiva discrimino a minha relação com o todo. Mais do que nunca o eu sobressai-se, sendo a raiva um instrumento para esta projeção. Maior a raiva, maior é o ego. Posso dizer também, estou bravo. Estado patológico de desequilíbrio emocional, um ego ferido que necessita produzir a contraparte. Por isso, o eu bravo precisa descarregar sua sandice no outro que causou-lhe tal arrebatamento. Assim, o ego vai se inflando na medida em que as emoções apaixonadas dominam o sistema nervoso. Outrossim, a respeito da compaixão, penso que a colocação não seria do tipo "eu sinto compaixão..." Melhor posto, a compaixão deve estar isenta de um eu. Se pratica atos compassivos quando o eu não pensa, ou seja o eu é vazio.
Colocando desta forma, um eu vazio, não sente raiva e também não sofre.
O sofrimento, conhecido também por dukkha, é gerado pela existência do eu. Um eu que realmente não existe, mas apenas um fantasma nascido de nossas ilusões. Quando o eu pensa, cria projeções, que não realizadas geram sofrimento. Se o eu pretende conquistar, uma vez que vê seus planos irem água abaixo, então o eu sofre. Maior o sofrimento, maior é o eu. Por isso, para o ego aparecer em toda a plenitude precisa sofrer. Quer dizer: eu sofro, na mesma medida que eu conquisto. Sofro quando não levo vantagem alguma nas minhas relações com o mundo.
Ao se falar no eu, o instante seguinte é o pronome possessivo Meu e Minha.
Minha casa
Meu carro
Meus filhos
Minha esposa
Meu emprego
Meu dinheiro
Se minha casa pegar fogo, sofro.
Se meu carro bater, sofro.
Se meus filhos se forem, sofro.
Se meu emprego eu perder, sofro.
Se meu dinheiro faltar, sofro.
Tudo aquilo que torna o ego o centro do mundo, sendo o resto um apêndice daquele, então o sofrimento continuará existindo. O sofrimento não existe se não existir um eu fortalecido. Assim como os atos de autocomiseração tornam o eu uma enorme fonte de profundo egoísmo.
Mas destruir o eu gera controvérsia, porque ninguém quer se desfazer dele. Basta um eu ferido para todo exercício de sua anulação se frustar!
quarta-feira, junho 28, 2006
Cerimônia do Chá I
Como estamos reintroduzindo a Cerimônia do Chá no Busshinji, que deverá acontecer uma vez por mês aos sábados depois do zazen, acho que será interessante publicar aqui textos sobre a cerimônia, originais da Reportagem publicada na revista "Caminho Zen", vol. 8, nº 1-2003, pgs. 4-8, publicada pela Sotoshu Shumucho
Zen o chá
Na China durante o período Tang, o mestre Chan (Zen) Zhaozou (778-897) criou um koan ou enigma sobre os Três Drinques de Chá. E desde então, a relação entre o Budismo Zen e o chá tem sido profunda. Budistas - especialmente sacerdotes Zen - tiveram papéis importantes na introdução do costume de se beber chá no Japão: Saicho (767-822), Kukai (774-835), Eisai (1141-1215) e Bennen (1202-1280). O costume de beber chá foi organizado na cerimônia do chá pelo monge Zen Ikkyu (1394-1481) e por Murata Shuko (1422-1502), um discípulo de Ikkyu, que certificou-se que havia atingido a iluminação. Murata disse que, desde que a cerimônia do chá nasceu do Budismo Zen, os seus estudantes devem se basear na etiqueta Zen. Também disse que a cerimônia do chá incorpora o Budismo e que estudar a cerimônia do chá é uma maneira de assimilar o Budismo.[Incidentalmente uma cerimônia diferente do comum chamado sencha foi introduzida no Japão no início do século 17 por um monge Zen Chinês chamado Yinyuan.].
Por isso, muito do que hoje se pensa que é a cultura japonesa, tem suas raízes espirituais no Zen e se origina do grande florescer cultural dos séculos 15 e 16.
Zen o chá
Na China durante o período Tang, o mestre Chan (Zen) Zhaozou (778-897) criou um koan ou enigma sobre os Três Drinques de Chá. E desde então, a relação entre o Budismo Zen e o chá tem sido profunda. Budistas - especialmente sacerdotes Zen - tiveram papéis importantes na introdução do costume de se beber chá no Japão: Saicho (767-822), Kukai (774-835), Eisai (1141-1215) e Bennen (1202-1280). O costume de beber chá foi organizado na cerimônia do chá pelo monge Zen Ikkyu (1394-1481) e por Murata Shuko (1422-1502), um discípulo de Ikkyu, que certificou-se que havia atingido a iluminação. Murata disse que, desde que a cerimônia do chá nasceu do Budismo Zen, os seus estudantes devem se basear na etiqueta Zen. Também disse que a cerimônia do chá incorpora o Budismo e que estudar a cerimônia do chá é uma maneira de assimilar o Budismo.[Incidentalmente uma cerimônia diferente do comum chamado sencha foi introduzida no Japão no início do século 17 por um monge Zen Chinês chamado Yinyuan.].
Por isso, muito do que hoje se pensa que é a cultura japonesa, tem suas raízes espirituais no Zen e se origina do grande florescer cultural dos séculos 15 e 16.
Vazio
Onde houver um problema, estará lá, ocupando o mesmo tempo e espaço, a solução. Portanto, não existe problema, não existe solução.
terça-feira, junho 27, 2006
Banheiro do templo x vestiário de futebol.
Há alguns anos durante um sesshin, num período de intervalo, um grupo de praticantes encontrava-se no banheiro, entre eles, eu. Automaticamente o clima tornou-se descontraído, todo mundo falando alto, fazendo brincadeiras e gerando altas gargalhadas. Era como se livres dos momentos de disciplinada interiorização precisácemos voltar ao nosso familiar estado de exacerbação. No meio daquele tumultuado ambiente, que mais parecia um vestiário de futebol, e em meio à minha própria exaltação interior, algo soou-me estranho. Algo estava fora de lugar. Senti um mal-estar e de repente passou pela minha mente uma suspeita. Imediatamente calei-me e sai do banheiro confirmando o que suspeitara: por todo o salão ecoava o alarido eufórico. Em meio ao barulho Sokan Koichi Mioshi tentava travar uma conversa com algumas pessoas. Meu olhar cruzou com o de uma monja que acompanhava a conversa do Mestre. Senti-me profundamente envergonhado. Sem que uma palavra fosse proferida, reconheci meu erro e fiz uma reverência desculpando-me à ela, que respondeu ao meu ato com outra reverência. Conscientizei-me que era preciso estar atento para que cada coisa estivesse em seu lugar, em benefício da harmonia. A atitude correta no lugar correto. Além dos momentos em que sentamos, o zazen continua nas demais dependências do templo e se estende para fora de seus muros.
Águas de minha mente
Num poema de Dogen Zenji, ele diz o seguinte:
Sem impurezas
As águas da mente
Mesmo que as ondas quebrem
Continuam a refletir.
Muitas vezes Miyoshi Roshi fazia a respeito uma alusão, dizendo que a mente contém impurezas que não podiam ser eliminadas em pouco tempo. Destas impurezas, três são as piores: apego, ignorância e raiva. Chamados também por "Três Venenos", estes eram o sedimento de toda a nossa ilusão. Para ser mais objetivo, temos que reconhecer a existência destas ervas daninhas da mente e, na medida do possível, conviver com eles. O reconhecimento se dá através do zazen. É através do zazen que conseguimos abaixar a sujidade da água de nossa mente. Não quer dizer que a mente se tornou limpa, só fazendo zazen. Não se dá desta forma. Acontece que quando fazemos zazen as nossas impurezas continuam a existir, entretanto temos a capacidade de acalmar os nossos sentidos. Se agirmos conforme os nossos ânimos, a nossa raiva, então nos tornaremos feras, atacando todos ensandecidos pela febre da paixão.
Dizia Miyoshi Roshi que a mente assemelhava-se a uma lagoa num noite tranqüila de outono. A lua imensa, redonda, refletia-se no espelho d'água. Eis que alguém atira uma pedra. A turbulência da água forma imagens distorcidas e a lua surge refletida em total irrealidade. Vista desta forma, esta lua é a mente apegada aos sentidos dos três venenos. Não se trata mais da lua verdadeira. É uma mente perturbada, que enxerga tudo conforme os caprichos da ilusão. Assim sendo, ao se sentar em zazen a mente perturbada, que se assemelha a lagoa da pedra atirada, vai retornando ao seu estado anterior, de tranqüilidade. Existindo a atenção do zazen, os três venenos também perdem força e tudo se torna mais claro.
Portanto, admitamos os três venenos e a nossa mente perturbada. Sabendo disso, podemos identificar imediatamente quando os venenos surgem em nossa mente. A raiva surge de repente, devido o meu apego e minha ignorância. Existe apego porque há raiva e ignorância. E a ignorância é conseqüência de minha raiva e apego. Não obstante, quando eles surgem não consigo eliminá-los de vez, pelo contrário, sei de sua existência e não me importo com isso. Talvez até mesmo alimento-os em minha perturbação. Se trata de um equívoco. Talvez o mais correto seja não me importar inclusive com o seu surgimento: não faça que cresça, nem que diminua. Deixe como está, como no zazen. Assim ele se desfaz em menor tempo.
Como ilustração vale citar uma experiência vivenciada, que me causou grande mal estar. Quando da defesa de dissertação em História, uma colega conseguiu obter em sua defesa a nota 10 com distinção. A minha avaliação não tinha sido tão boa assim. Durante os três anos, estive ao lado daquela colega, freqüentando os mesmos cursos, participando juntos de congressos e grupos de estudos. Na verdade, eu era um pouco mais disciplinado que ela. E, de minha parte, a criticava por isso. Mas no resultado final, ela recebia os louros da vitória. Fiquei mal. Sabia que em minha mente existia os sintomas patológicos de uma ciumeira incontrolável. Era isso mesmo. O cíume me corroía. Tinha consciência de sua existência e queria extirpá-lo de minha mente sem, no entanto, almejar sucesso. Passei quase um mês desta forma, quando aquele sintoma foi desaparecendo. Sem nenhuma culpa, assumi meu corpo da prática.
Sem impurezas
As águas da mente
Mesmo que as ondas quebrem
Continuam a refletir.
Muitas vezes Miyoshi Roshi fazia a respeito uma alusão, dizendo que a mente contém impurezas que não podiam ser eliminadas em pouco tempo. Destas impurezas, três são as piores: apego, ignorância e raiva. Chamados também por "Três Venenos", estes eram o sedimento de toda a nossa ilusão. Para ser mais objetivo, temos que reconhecer a existência destas ervas daninhas da mente e, na medida do possível, conviver com eles. O reconhecimento se dá através do zazen. É através do zazen que conseguimos abaixar a sujidade da água de nossa mente. Não quer dizer que a mente se tornou limpa, só fazendo zazen. Não se dá desta forma. Acontece que quando fazemos zazen as nossas impurezas continuam a existir, entretanto temos a capacidade de acalmar os nossos sentidos. Se agirmos conforme os nossos ânimos, a nossa raiva, então nos tornaremos feras, atacando todos ensandecidos pela febre da paixão.
Dizia Miyoshi Roshi que a mente assemelhava-se a uma lagoa num noite tranqüila de outono. A lua imensa, redonda, refletia-se no espelho d'água. Eis que alguém atira uma pedra. A turbulência da água forma imagens distorcidas e a lua surge refletida em total irrealidade. Vista desta forma, esta lua é a mente apegada aos sentidos dos três venenos. Não se trata mais da lua verdadeira. É uma mente perturbada, que enxerga tudo conforme os caprichos da ilusão. Assim sendo, ao se sentar em zazen a mente perturbada, que se assemelha a lagoa da pedra atirada, vai retornando ao seu estado anterior, de tranqüilidade. Existindo a atenção do zazen, os três venenos também perdem força e tudo se torna mais claro.
Portanto, admitamos os três venenos e a nossa mente perturbada. Sabendo disso, podemos identificar imediatamente quando os venenos surgem em nossa mente. A raiva surge de repente, devido o meu apego e minha ignorância. Existe apego porque há raiva e ignorância. E a ignorância é conseqüência de minha raiva e apego. Não obstante, quando eles surgem não consigo eliminá-los de vez, pelo contrário, sei de sua existência e não me importo com isso. Talvez até mesmo alimento-os em minha perturbação. Se trata de um equívoco. Talvez o mais correto seja não me importar inclusive com o seu surgimento: não faça que cresça, nem que diminua. Deixe como está, como no zazen. Assim ele se desfaz em menor tempo.
Como ilustração vale citar uma experiência vivenciada, que me causou grande mal estar. Quando da defesa de dissertação em História, uma colega conseguiu obter em sua defesa a nota 10 com distinção. A minha avaliação não tinha sido tão boa assim. Durante os três anos, estive ao lado daquela colega, freqüentando os mesmos cursos, participando juntos de congressos e grupos de estudos. Na verdade, eu era um pouco mais disciplinado que ela. E, de minha parte, a criticava por isso. Mas no resultado final, ela recebia os louros da vitória. Fiquei mal. Sabia que em minha mente existia os sintomas patológicos de uma ciumeira incontrolável. Era isso mesmo. O cíume me corroía. Tinha consciência de sua existência e queria extirpá-lo de minha mente sem, no entanto, almejar sucesso. Passei quase um mês desta forma, quando aquele sintoma foi desaparecendo. Sem nenhuma culpa, assumi meu corpo da prática.
segunda-feira, junho 26, 2006
A transmissão e a dificuldade da transmissão
No Morro dos Abutres Buda tinha diante uma multidão, quando, de súbito, levantou um galho com uma flor. Apenas o sorriso de Mahakasyapa iluminou-se, sem que os outros nada entendessem. Nenhuma palavra. Um gesto apenas. Nesse momento, o Honorável Mahakasyapa recebeu a transmissão do Dharma.
Quando Eihei Dogen esteve treinando em Tenzo-zan, na China Song, o mestre Nyojo corrigia seus alunos com rispidez. Não tolerava que eles adormecessem durante o zazen. Se isso acontecesse, se toda a atenção se perdesse, Nyojo não media palavras e ameaçava com todas as formas de agressões verbais e físicas. Foi quando um grupo de monges resolveu pedir que o mestre fosse mais afetuoso e tolerante com eles. Em lágrimas, Nyojo explicou a sua postura: "quero que vocês entendam e por isso, ajo desta maneira". Havia no mestre chinês uma profunda compaixão.
A relação entre o mestre e o discípulo é enérgica, sem a qual a transmissão não se realiza. Meu mestre Miyoshi foi uma incógnita em minha vida. Exigia de mim mais do que dos outros. Em outras palavras, exigia de determinados discípulos mais do que de outros. E cheguei a seguinte conclusão: a dureza para uns era compaixão, a docilidade para os outros era compaixão. Para uns, a dureza formava o caráter e criava resistência para a prática. Para outros, a docilidade significava uma profunda compaixão devido sua debilidade.
Quando da transmissão do dharma, disse-me que teria que copiar toda a linhagem com pincel em tinta carvão. Tarefa difícil, mas a executei. Passei o Ano Novo copiando sem errar a linhagem toda. E da viagem a ser realizada ao Japão, tinha arrumado um companheiro que me levaria junto ao mosteiro. Ao saber disso, desencorajou o rapaz e disse: "quero que ele vá sozinho". Nunca tinha viajado só ao Japão, muito menos sabia como usar os transportes internos. Hoje entendo a sua preocupação. Ele queria que eu criasse resistência para andar com as próprias pernas, sem necessitar muletas. Queria que nem mais dependesse dele.
Li uma vez uma colocação oportuna do Dalai Lama. Dizia ele que as pessoas não necessitavam se tornar budistas para viver em paz. Aliás, "o budismo é uma prática difícil, para poucos". O entusiasmo pelo budismo acaba quando o amor próprio suplanta o amor pelo todo.
Destruir o ego é a principal prática do budismo. Não apenas o ego da exaltação, mas também o da comiseração. O sofrimento é gerado pelo karma, e também pela existência do ego. Este sofrimento é ilusão, podemos dizer apêgo. Apêgo a um eu que sofre. O eu existe porque sofre. Quanto maior é o sofrimento, maior é o ego. E quem sofre, envolto num círculo vicioso, necessita sofrer mais ainda para o ego aparecer com intensidade. Não teria sido por causa do sofrimento, que o jovem Sidharta resolveu abandonar o conforto para entregar-se à ascese? Mas também qual foi a resposta de Bodhidharma a Eka, que reclamava por estar com o espírito intranqüilo? "Traga o espírito aqui, que o tranqüilizarei". Pensou um pouco e Eka rebateu: "Procurei-o por toda a parte, mas não o encontrei". "Bem -disse Bodhidharma- se não a encontrou, então já está tranqüilo". Sem ninguém para o alimentar, o sofrimento diminuiu de intensidade.
A prática budista rege-se pela busca da Iluminação. Se enquanto a mente estiver amarrada numa trama de preconceitos, valores temporais e abstratos, em fantasmas de nossos medos, então a prática se torna muito mais difícil de lograr êxito. Ao contrário, a inocência de nossos atos, a simplicidade de nosso pensamento, estão muito mais próximas da Iluminação. Disse o poeta alemão Holdërlin: o homem quando sonha torna-se num deus; quando pensa torna-se num mendigo.
Quando Eihei Dogen esteve treinando em Tenzo-zan, na China Song, o mestre Nyojo corrigia seus alunos com rispidez. Não tolerava que eles adormecessem durante o zazen. Se isso acontecesse, se toda a atenção se perdesse, Nyojo não media palavras e ameaçava com todas as formas de agressões verbais e físicas. Foi quando um grupo de monges resolveu pedir que o mestre fosse mais afetuoso e tolerante com eles. Em lágrimas, Nyojo explicou a sua postura: "quero que vocês entendam e por isso, ajo desta maneira". Havia no mestre chinês uma profunda compaixão.
A relação entre o mestre e o discípulo é enérgica, sem a qual a transmissão não se realiza. Meu mestre Miyoshi foi uma incógnita em minha vida. Exigia de mim mais do que dos outros. Em outras palavras, exigia de determinados discípulos mais do que de outros. E cheguei a seguinte conclusão: a dureza para uns era compaixão, a docilidade para os outros era compaixão. Para uns, a dureza formava o caráter e criava resistência para a prática. Para outros, a docilidade significava uma profunda compaixão devido sua debilidade.
Quando da transmissão do dharma, disse-me que teria que copiar toda a linhagem com pincel em tinta carvão. Tarefa difícil, mas a executei. Passei o Ano Novo copiando sem errar a linhagem toda. E da viagem a ser realizada ao Japão, tinha arrumado um companheiro que me levaria junto ao mosteiro. Ao saber disso, desencorajou o rapaz e disse: "quero que ele vá sozinho". Nunca tinha viajado só ao Japão, muito menos sabia como usar os transportes internos. Hoje entendo a sua preocupação. Ele queria que eu criasse resistência para andar com as próprias pernas, sem necessitar muletas. Queria que nem mais dependesse dele.
Li uma vez uma colocação oportuna do Dalai Lama. Dizia ele que as pessoas não necessitavam se tornar budistas para viver em paz. Aliás, "o budismo é uma prática difícil, para poucos". O entusiasmo pelo budismo acaba quando o amor próprio suplanta o amor pelo todo.
Destruir o ego é a principal prática do budismo. Não apenas o ego da exaltação, mas também o da comiseração. O sofrimento é gerado pelo karma, e também pela existência do ego. Este sofrimento é ilusão, podemos dizer apêgo. Apêgo a um eu que sofre. O eu existe porque sofre. Quanto maior é o sofrimento, maior é o ego. E quem sofre, envolto num círculo vicioso, necessita sofrer mais ainda para o ego aparecer com intensidade. Não teria sido por causa do sofrimento, que o jovem Sidharta resolveu abandonar o conforto para entregar-se à ascese? Mas também qual foi a resposta de Bodhidharma a Eka, que reclamava por estar com o espírito intranqüilo? "Traga o espírito aqui, que o tranqüilizarei". Pensou um pouco e Eka rebateu: "Procurei-o por toda a parte, mas não o encontrei". "Bem -disse Bodhidharma- se não a encontrou, então já está tranqüilo". Sem ninguém para o alimentar, o sofrimento diminuiu de intensidade.
A prática budista rege-se pela busca da Iluminação. Se enquanto a mente estiver amarrada numa trama de preconceitos, valores temporais e abstratos, em fantasmas de nossos medos, então a prática se torna muito mais difícil de lograr êxito. Ao contrário, a inocência de nossos atos, a simplicidade de nosso pensamento, estão muito mais próximas da Iluminação. Disse o poeta alemão Holdërlin: o homem quando sonha torna-se num deus; quando pensa torna-se num mendigo.
terça-feira, junho 20, 2006
Entre errar e o redimir
Algumas categorias utilizadas no budismo são mal interpretadas, causando uma profunda confusão nas mentes dos iniciantes. Possivelmente a influência cultural vinda da tradição judica-cristã, como a noção de culpa, difícil de ser erradicada do corpo e mente, torna a prática menos eficiante. Dizemos de outra forma: errada. Não se trata de ignorância mas de um completo condicionamento da mente. Sei que os ocidentais cristãos sentem culpa. Por isso, devem se desculpar diretamente a um ente sobrenatural e abstrato, crença monoteísta de punição e salvação. Em linguagem japonesa, o perdão que se pede a deus chama-se zangue. É uma situação de extrema entrega, um ato de fé, para não ser castigado e de reconhecimento da condição submissa.
Quando estive no Japão, falei a respeito a um monge japonês. Disse que na infância, quando fazíamos a comunhão tínhamos que confessar os nossos pecados a um padre. Sem muita consciência do que estava acontecendo, ao refletir sobre os meus erros, o que me vinha era a minha relação, às vezes, pouco amigável com um gato. Ao brincar com ele, puxava o seu rabo. Assim me confessava "eu puxei o rabo do gato, pisei nas flores de minha avó, derramei água no sapato do meu irmão". Assim me arrependia dos meus pecados. Não sabia com propriedade, mas o padre com ênfase levava o meu ato de arrependimento a deus. Estava livre do pecado, pois tinha se arrependido. Na semana seguinte repetia o mesmo erro, e ia se arrepender novamente. Ao ouvir minha esquisita história, o monge não mediu palavras: "não acho que você devia pedir perdão ao padre e nem a deus; você deveria se redimir com o gato!"
Desta vez, não era mais o arrependimento submisso e temente, conhecido por zangue, mas sangue. Quer dizer, se cometi algum erro, caso houvesse reconhecimento, deveria se procurar pelo lado ofendido e não deus. Também, não houve culpa mas ação cometido intencionalmente ou não. Em budismo toda ação é karma. E todo karma repercute no universo inteiro, de maneira benéfica ou não. Não existe karma individual, senão coletivo. O fato de ser o filho de meu pai, de ter nascido no Brasil, morar em Santo Amaro se deve a karmas presentes, passados ou futuros. Estar treinando num templo zen também é um karma. Penso que devemos usar justamente o karma para viver melhor: condições propícias deste momento, ou seja o lugar, tempo e relacionamentos.
Enquanto, ao meu ver, o zangue diz respeito a um ser exterior, o sangue é exclusivamente de nossa responsabilidade. Um praticante do dharma não vive pensando em recompensas ou punições. Mas como um ser errante, admite isso, pode se inspirar a fim de desenvolver uma prática muito mais criativa e alegre. O então Superior Miyoshi dizia sempre que o budismo era para tornar o homem mais humano. O sangue, entendido como uma atitute de responsabilidade do praticante convicto, todos os erros cometidos no fluxo do karma, e se for de seu entendimento, pode ser anunciado com sinceridade. "Eu me arrependo por ter cometido tais erros e assumo a responsabilidade não cometê-los de novo", assim age.
Vamos a um exemplo concreto. Meu vizinho gosta de ouvir música sertaneja em alto volume e prejudica a minha tranqüilidade. Fui falar com ele, que me recebeu mal e sem se importar, continuou a música. Irritei-me e lancei uma pedra na vidraça dele. Refeito de minha raiva, percebi o mal cometido. Nesse caso, posso pedir perdão a deus (zangue) ou diretamente ao vizinho mas sem pagar o vidro (zangue). Posso alegar, cometi um erro mas você também estava errado. Mas um praticante do dharma, ao se arrepender, pede desculpas ao vizinho e paga o vidro quebrado (sangue). Existe uma diferença clara.
No Busshinji, certa vez estava acompanhado de um monge que viu sobre a estante um quadro com vidro quebrado. Foi quando perguntou irritado: "quem foi o responsável pelo prejuízo". Neste momento uma monja aproximou-se com as mãos em gasho e confessou submissa "fui eu". Ela pensava que uma simples confissão a redimia do erro. Mas o quadro continuava quebrado. No caso, houve zangue e não sangue. Simples palavras "fui eu" não era suficiente para livrá-la do karma, pois o quadro continuava quebrado. Nem mesmo a confissão era necessária, mas a disposição dela em consertar o quadro danificado. Em suma, não houve um arrependimento verdadeiro, apenas palavras vazias, distanciadas da prática.
Uma outra situação em que podemos praticar a verdade. Aos sábados os alunos leigos do Zen têm a oportunidade de realizar tarefas como nos mosteiros. São responsáveis pela harmonia produzida na cerimônia em que se canta o Sutra do Coração e da Grande Sabedoria. A palavra chave é responsabilidade. Por harmonia entendo a realização de tarefas coletivas, mantida a atenção, em que todos se esforçam ao esmagar o próprio egoísmo, estando em sintonia com a compaixão e sabedoria do Buda. Nesta ocasião não se deve errar nos toques do sinos do densho e nem dos sinos do sogei. Em hipótese alguma pode-se derrubar os sutras. De todos os erros, o maior é deixar cair os sutras. Cuidado entregadores de sutras, vocês são os responsáveis. Caindo um livro, o entregador deve se submeter ao Sanja. Fazer sangue. Dizer que o outro deixou cair, e não ele, não o isenta da ação negativa. Tarefa executada pelos que receberam a ordenação, pois ostentam o rakusu, o manto de buda, assumem a ação cometida. Um leigo não ordenado não entrega livros.
Antes de tudo, realizar Sanja, fazer sangue, não é condição de submissão, pelo contrário. Mas mesmo assim, se não puderam reconhecer o erro, eu próprio farei Sanja não no lugar dele, e nem por ele, mas por mim mesmo. Errei por não me fazer entender. Errei por ter falhado na tarefa confiada pelo Superior Saikawa. Errei por ter falhado com o meu mestre o então Superior Miyoshi em tornar a sanga um grupo melhor na prática do dharma.
Se a minha disposição não chegar a tanto, fingirei ser monge e fingirei que tudo está certo, quando na verdade tudo está errado. A prática do budismo não é um passatempo, um remédio paliativo para dirimir minhas febres. Os que assim pensarem, devem procurar outros caminhos e não o budismo.
Quando estive no Japão, falei a respeito a um monge japonês. Disse que na infância, quando fazíamos a comunhão tínhamos que confessar os nossos pecados a um padre. Sem muita consciência do que estava acontecendo, ao refletir sobre os meus erros, o que me vinha era a minha relação, às vezes, pouco amigável com um gato. Ao brincar com ele, puxava o seu rabo. Assim me confessava "eu puxei o rabo do gato, pisei nas flores de minha avó, derramei água no sapato do meu irmão". Assim me arrependia dos meus pecados. Não sabia com propriedade, mas o padre com ênfase levava o meu ato de arrependimento a deus. Estava livre do pecado, pois tinha se arrependido. Na semana seguinte repetia o mesmo erro, e ia se arrepender novamente. Ao ouvir minha esquisita história, o monge não mediu palavras: "não acho que você devia pedir perdão ao padre e nem a deus; você deveria se redimir com o gato!"
Desta vez, não era mais o arrependimento submisso e temente, conhecido por zangue, mas sangue. Quer dizer, se cometi algum erro, caso houvesse reconhecimento, deveria se procurar pelo lado ofendido e não deus. Também, não houve culpa mas ação cometido intencionalmente ou não. Em budismo toda ação é karma. E todo karma repercute no universo inteiro, de maneira benéfica ou não. Não existe karma individual, senão coletivo. O fato de ser o filho de meu pai, de ter nascido no Brasil, morar em Santo Amaro se deve a karmas presentes, passados ou futuros. Estar treinando num templo zen também é um karma. Penso que devemos usar justamente o karma para viver melhor: condições propícias deste momento, ou seja o lugar, tempo e relacionamentos.
Enquanto, ao meu ver, o zangue diz respeito a um ser exterior, o sangue é exclusivamente de nossa responsabilidade. Um praticante do dharma não vive pensando em recompensas ou punições. Mas como um ser errante, admite isso, pode se inspirar a fim de desenvolver uma prática muito mais criativa e alegre. O então Superior Miyoshi dizia sempre que o budismo era para tornar o homem mais humano. O sangue, entendido como uma atitute de responsabilidade do praticante convicto, todos os erros cometidos no fluxo do karma, e se for de seu entendimento, pode ser anunciado com sinceridade. "Eu me arrependo por ter cometido tais erros e assumo a responsabilidade não cometê-los de novo", assim age.
Vamos a um exemplo concreto. Meu vizinho gosta de ouvir música sertaneja em alto volume e prejudica a minha tranqüilidade. Fui falar com ele, que me recebeu mal e sem se importar, continuou a música. Irritei-me e lancei uma pedra na vidraça dele. Refeito de minha raiva, percebi o mal cometido. Nesse caso, posso pedir perdão a deus (zangue) ou diretamente ao vizinho mas sem pagar o vidro (zangue). Posso alegar, cometi um erro mas você também estava errado. Mas um praticante do dharma, ao se arrepender, pede desculpas ao vizinho e paga o vidro quebrado (sangue). Existe uma diferença clara.
No Busshinji, certa vez estava acompanhado de um monge que viu sobre a estante um quadro com vidro quebrado. Foi quando perguntou irritado: "quem foi o responsável pelo prejuízo". Neste momento uma monja aproximou-se com as mãos em gasho e confessou submissa "fui eu". Ela pensava que uma simples confissão a redimia do erro. Mas o quadro continuava quebrado. No caso, houve zangue e não sangue. Simples palavras "fui eu" não era suficiente para livrá-la do karma, pois o quadro continuava quebrado. Nem mesmo a confissão era necessária, mas a disposição dela em consertar o quadro danificado. Em suma, não houve um arrependimento verdadeiro, apenas palavras vazias, distanciadas da prática.
Uma outra situação em que podemos praticar a verdade. Aos sábados os alunos leigos do Zen têm a oportunidade de realizar tarefas como nos mosteiros. São responsáveis pela harmonia produzida na cerimônia em que se canta o Sutra do Coração e da Grande Sabedoria. A palavra chave é responsabilidade. Por harmonia entendo a realização de tarefas coletivas, mantida a atenção, em que todos se esforçam ao esmagar o próprio egoísmo, estando em sintonia com a compaixão e sabedoria do Buda. Nesta ocasião não se deve errar nos toques do sinos do densho e nem dos sinos do sogei. Em hipótese alguma pode-se derrubar os sutras. De todos os erros, o maior é deixar cair os sutras. Cuidado entregadores de sutras, vocês são os responsáveis. Caindo um livro, o entregador deve se submeter ao Sanja. Fazer sangue. Dizer que o outro deixou cair, e não ele, não o isenta da ação negativa. Tarefa executada pelos que receberam a ordenação, pois ostentam o rakusu, o manto de buda, assumem a ação cometida. Um leigo não ordenado não entrega livros.
Antes de tudo, realizar Sanja, fazer sangue, não é condição de submissão, pelo contrário. Mas mesmo assim, se não puderam reconhecer o erro, eu próprio farei Sanja não no lugar dele, e nem por ele, mas por mim mesmo. Errei por não me fazer entender. Errei por ter falhado na tarefa confiada pelo Superior Saikawa. Errei por ter falhado com o meu mestre o então Superior Miyoshi em tornar a sanga um grupo melhor na prática do dharma.
Se a minha disposição não chegar a tanto, fingirei ser monge e fingirei que tudo está certo, quando na verdade tudo está errado. A prática do budismo não é um passatempo, um remédio paliativo para dirimir minhas febres. Os que assim pensarem, devem procurar outros caminhos e não o budismo.
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